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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">regea</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista gestão em análise</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Gest. Anál.</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="ppub">1984-7297</issn>
			<issn pub-type="epub">2359-618X</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Unichristus</publisher-name>
			</publisher>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.12662/2359-618xregea.v15i1.6127.pe6127.2026</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>ARTIGOS</subject>
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			<title-group>
				<article-title>EMPREENDEDORISMO RESSIGNIFICADO POR DESASTRES NATURAIS E PAPEL DA RESILIÊNCIA ORGANIZACIONAL: UM ESTUDO DE PEQUENAS EMPRESAS EM SANTA TEREZA, RIO GRANDE DO SUL</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>ENTREPRENEURSHIP RESHAPED BY NATURAL DISASTERS AND THE ROLE OF ORGANIZATIONAL RESILIENCE: A STUDY OF SMALL BUSINESSES IN SANTA TEREZA, RIO GRANDE DO SUL</trans-title>
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						<surname>D'Arisbo</surname>
						<given-names>Anelise</given-names>
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						<surname>Grzybovski</surname>
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						<surname>Endrizzi</surname>
						<given-names>Tamires Almeida</given-names>
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				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Caxias do Sul</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul</institution>
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					<city>Bento Gonçalves</city>
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				<country country="BR">BR</country>
				<email>anelise.darisbo@bento.ifrs.edu.br</email>
				<institution content-type="original">Doutora em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestra em Administração pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Professora de Administração do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS). Bento Gonçalves, RS, BR</institution>
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				<institution content-type="orgname">Universidad Museo Social Argentino</institution>
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					<city>Passo Fundo</city>
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				<email>denizegrzy@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Doutora em Administração (UFLA - 2007). Mestre em Dirección y Organización de Empresas (Universidad Museo Social Argentino/UMSA 2000). Pesquisadora Independente. Passo Fundo, RS, BR</institution>
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				<institution content-type="orgname">Universidade Norte do Paraná</institution>
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				<country country="BR">BR</country>
				<email>tammi.endrizzi@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Graduada em Logística pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (2025). Especialização em andamento em Contabilidade Pública. Universidade Norte do Paraná. Técnica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS). Bento Gonçalves, RS, BR</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic"><day>22</day><month>06</month><year>2026</year></pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2026</year>
			</pub-date>
			<volume>15</volume>
			<issue>01</issue>
			<elocation-id>e6127</elocation-id>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>27</day>
					<month>10</month>
					<year>2025</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
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					<month>04</month>
					<year>2026</year>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>A resiliência organizacional de pequenas empresas em face do aumento de desastres naturais permanece subexplorada na literatura. Este artigo analisa como empreendedores de pequenas empresas de Santa Tereza, RS, ressignificaram o empreendedorismo após os eventos hidrológicos extremos de 2023 e 2024 e quais foram os efeitos dos desastres naturais na sua forma de empreender. A pesquisa, de natureza exploratório-descritiva, utilizou o método de estudo de casos múltiplos com entrevistas narrativas, observação e pesquisa documental. Os dados foram processados por meio da análise de narrativas e análise de conteúdo. Os resultados revelam que a ressignificação é um processo dialético iniciado na esfera individual, mediado pelo suporte comunitário e consolidado pela resiliência organizacional. A principal contribuição teórica reside em posicionar a resiliência organizacional como um constructo da ação empreendedora vinculado à recombinação de recursos (bricolagem) em ambientes de extrema adversidade.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>The organizational resilience of small businesses faced with increasing natural disasters remains underexplored in the literature. This article analyzes how entrepreneurs of small businesses in Santa Tereza, RS, reframed entrepreneurship following the extreme hydrological events of 2023 and 2024 and what effects natural disasters had on their approach to entrepreneurship. The exploratory-descriptive study employed a multiple-case study method involving narrative interviews, observation, and documentary research. Data were processed through narrative analysis and content analysis. The results reveal that reframing is a dialectical process initiated at the individual level, mediated by community support, and consolidated by organizational resilience. The main theoretical contribution lies in positioning organizational resilience as a construct of entrepreneurial action linked to the recombination of resources (bricolage) in environments of extreme adversity.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>ressignificação do empreendedorismo</kwd>
				<kwd>resiliência empreendedora</kwd>
				<kwd>mudanças climáticas</kwd>
				<kwd>gestão de crises</kwd>
				<kwd>estratégias de enfrentamento.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>reframing of entrepreneurship</kwd>
				<kwd>entrepreneurial resilience</kwd>
				<kwd>climate change</kwd>
				<kwd>crisis management</kwd>
				<kwd>coping strategies.</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1 INTRODUÇÃO</title>
			<p>Desastres naturais e antropogênicos têm provocado impactos expressivos nas atividades socioeconômicas, afetando o planejamento empresarial e frequentemente excedendo a capacidade de resposta das populações locais (<xref ref-type="bibr" rid="B19">IFRC, 2024</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Cunha; Leiras; Goncalves, 2024</xref>). No cenário de mudanças climáticas, a promoção da resiliência e a adoção de estratégias de enfrentamento tornaram-se centrais, especialmente para empreendedores de pequenas empresas (EPEs), as quais enfrentam desafios severos devido à escassez de recursos e danos à infraestrutura física (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Puntub; Greiving; Birkmann, 2025</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B8">Correia; Pereira, 2023</xref>). Para esses agentes, os desastres atuam como fatores determinantes que exigem resiliência empreendedora para a sobrevivência do negócio (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Kromidha; Bachtiar, 2024</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B14">Greco, 2020</xref>).</p>
			<p>Embora a literatura reconheça a resiliência em múltiplos níveis, sua aplicação no contexto de pequenas empresas em face dos desastres naturais ainda é um tema subexplorado (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Fang <italic>et al</italic>., 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Leonelli; Campagnolo; Gianecchini, 2024</xref>). A ressignificação do empreendedorismo emerge, portanto, como uma estratégia de enfrentamento essencial, configurando-se como uma reordenação subjetiva e positiva do caos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Casaqui, 2021</xref>). Esse processo não se limita à recuperação material, mas implica reinterpretar e redirecionar os significados atribuídos à crise, permitindo que o empreendedor integre novos sentidos à sua prática eidentidade organizacional (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Spink, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">Casaqui, 2021</xref>). Assim, a resiliência, em confluência com a adaptação e a reinvenção, torna-se o motor da construção de novos cenários pós-crise (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Casaqui, 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B8">Correia; Pereira, 2023</xref>).</p>
			<p>O cenário desta pesquisa é o município de Santa Tereza (RS), localizado em uma região propensa a eventos climáticos extremos e que foi devastado por enchentes sucessivas entre setembro de 2023 e maio de 2024 (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Santa Tereza, 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B34">Rio Grande do Sul, 2023</xref>). A magnitude desses eventos gerou o que se denominou &quot;cenário de guerra&quot;, destruindo a infraestrutura local e forçando uma ruptura traumática no cotidiano dos empreendedores (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Rio Grande do Sul, 2024a</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20">IPH, 2024</xref>). Esse contexto de adversidade extrema fornece a base para investigar como a realidade força a reinvenção da ação empreendedora.</p>
			<p>Diante da vulnerabilidade das pequenas empresas e da necessidade de reorganizar a atividade produtiva, questiona-se: como EPEs ressignificam o empreendedorismo e sua forma de empreender após vivenciarem algum desastre natural? O objetivo geral deste estudo é compreender esse processo de ressignificação em Santa Tereza, analisando como a articulação entre trajetórias pessoais, o suporte comunitário e a resiliência organizacional permitem a reconstrução e a busca por novos propósitos em ambientes adversos.</p>
			<p>A justificativa do estudo reside na relevância da ressignificação como mecanismo de enfrentamento do trauma decorrente de desastres naturais, configurando-se como uma reordenação subjetiva e positiva do caos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Casaqui, 2021</xref>). A reinvenção emerge como resposta imperativa diante da adversidade, especialmente entre EPEs expostos a enchentes e a inundações. A análise da ressignificação do empreendedorismo nesses contextos contribui para o aprofundamento teórico da ação empreendedora e sua função estratégica no desenvolvimento econômico e sustentável. O estudo também contribui para o debate sobre o constructo resiliência organizacional no nível sistêmico relacionado às práticas de sustentabilidade, oferecendo elementos para propor políticas de apoio governamental aos EPEs.</p>
			<p>Os resultados deste estudo estão estruturados em quatro seções além desta introdução: os fundamentos teóricos sobre o tema proposto (seção 2); a metodologia utilizada (seção 3); a análise e discussão dos resultados (seção 4), seguidas das considerações finais.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS</title>
			<sec>
				<title>2.1 EMPREENDEDORISMO</title>
				<p>O empreendedorismo é conceituado como o processo de criação e desenvolvimento de novos negócios por indivíduos, envolvendo dimensões interdependentes: o agente empreendedor, o empreendimento e o contexto socioterritorial (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien, 2010</xref>). Estruturado em cinco vertentes analíticas: atributos de personalidade, contexto social, redes e imersão, agente otimizador e agente inovador constitui um campo teórico multifacetado sobre o perfil e a atuação do empreendedor (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Vale, 2014</xref>). Segundo o <italic>Global Entrepreneurship Monitor</italic> (GEM), empreendedorismo compreende iniciativas autônomas, criação de empresas ou expansão de negócios existentes, motivadas por oportunidade ou necessidade; o processo empreendedor refere-se às etapas eàs atividades envolvidas na criação e no desenvolvimento de novos negócios ou ideias inovadoras, como estabeleceu Joseph Schumpeter. Esse processo inclui identificar oportunidades, planejar, reunir recursos, lançar e gerenciar o empreendimento (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Greco, 2020</xref>).</p>
				<p>Autores como Howard Aldrich, Scott Shane e Robert Baron têm contribuído para o entendimento do empreendedorismo como um campo de estudos. <xref ref-type="bibr" rid="B13">Ferraz e Ferraz (2022)</xref> estudaram o espírito empreendedor, o qual traduz anseios e contradições de indivíduos diante da condição de incerteza e competição características desse modo de produção: viver com mais conforto e ser reconhecido como alguém que cultiva valores. <xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien (2010</xref>, p. 109) estudou os empreendedores como “seres paradoxais”, cada um com sua história na organização que criou.</p>
				<p>O exposto demonstra que o campo do empreendedorismo foi além das concepções clássicas presentes na teoria dos traços (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Hilsdorf, 2015</xref>). O empreendedor exerce função econômica, atua como um disruptor do equilíbrio do mercado, um oportunista que detecta a assimetria de informações e explora o desequilíbrio, o que dificulta aos formuladores de políticas determinarem, com algum grau de confiança, como apoiá-los e estimular a formação de pequenas empresas fortes (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Poole, 2018</xref>).</p>
				<p>Nesse sentido, o empreendedorismo, enquanto um campo do saber, contribui para a estruturação do processo empreendedor, mas é necessário um “otimismo realista” dos empreendedores (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Fang <italic>et al</italic>., 2020</xref>) para gerenciamento da resiliência organizacional.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2.2 PROCESSOS DE RESSIGNIFICAÇÃO E RESILIÊNCIA NO EMPREENDEDORISMO EM CENÁRIOS DE CRISE</title>
				<p>O conceito de resiliência, originado na ecologia, é amplamente estudado em diversas áreas do conhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Buschbacher, 2014</xref>) e incorporado às metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (<xref ref-type="bibr" rid="B38">United Nations, 2015</xref>). A resiliência aborda múltiplas dimensões:</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>a) econômica, preservando avanços diante de incertezas e crises globais; </p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>b) social, promovendo igualdade de gênero e combate à pobreza e; </p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>c) ambiental, mitigando impactos climáticos e desastres por meio de práticas sustentáveis.</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B4">Buschbacher (2014)</xref> discute a resiliência em sistemas socioecológicos, integrando dimensões socioeconômicas e biofísicas, e ressalta a relevância de abordagens integradas em face das incertezas e da dinâmica das mudanças, evidenciando a interdependência entre sociedade e natureza. Essa perspectiva marca a transição da visão de sistemas estáveis para sistemas dinâmicos, complexos e imprevisíveis, nos quais incerteza e não linearidade são elementos centrais (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Castillo-Villanueva; Velázquez-Torres, 2015</xref>). À luz do ciclo adaptativo de Holling (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Holling; Gunderson, 2002</xref>), a resiliência é definida como a capacidade de um sistema manter funções essenciais por meio de perturbações, reorganizando-se mediante destruição criativa. Trata-se de um constructo complexo e multifacetado, fundamental para o desenvolvimento sustentável por meio da adaptação, geração de oportunidades e reinvenção do empreendedorismo em cenários de instabilidade (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Correia; Pereira, 2023</xref>).</p>
				<p>No contexto organizacional, <xref ref-type="bibr" rid="B40">Vasconcelos <italic>et al.</italic> (2017)</xref> conceituam a resiliência como a capacidade da organização de responder a eventos disruptivos por meio de adaptações positivas, atingindo um novo nível de complexidade. É caracterizado pela superação das condições de ruptura e pela implementação bem-sucedida de mudanças. Contudo, <xref ref-type="bibr" rid="B21">Irigaray, Paiva e Goldschmidt (2017)</xref> descrevem a resiliência como uma “capacidade relativa e circunstancial”, enfatizando sua natureza processual e sua análise tanto em nível individual quanto sistêmico.</p>
				<p>O conceito de resiliência organizacional é apresentado por <xref ref-type="bibr" rid="B11">Duchek, Raetze e Scheuch (2020)</xref> como a capacidade de antecipar ameaças potenciais, reagir de forma eficaz a eventos inesperados e incorporar os aprendizados provenientes dessas situações, e está relacionado à discussão mais ampla sobre a influência dos fatores contextuais na dinâmica da atividade empreendedora. Para <xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien (2010)</xref>, elementos externos ao empreendimento influenciam tanto quanto as competências individuais e coletivas da equipe, ressaltando que a resiliência organizacional não pode ser isolada do contexto em que a empresa está inserida.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vasconcelos e Irigaray (2018)</xref> posicionam a resiliência como essencial para superação de crises e reinvenção empresarial diante de desafios econômicos ou tecnológicos. <xref ref-type="bibr" rid="B24">Kromidha e Bachtiar (2024)</xref> destacam o aprendizado contínuo como base para desenvolver prontidão, resposta e oportunidade em múltiplos níveis (pessoal/comunitário/sistêmico). Assim, a resiliência se apresenta como elemento integrador dos aspectos internos e externos da gestão; entre estes, os eventos adversos impulsionadores de crises conforme destacado por Nassif, Rossetto e Inácio Júnior (<xref ref-type="bibr" rid="B28">2020</xref>).</p>
				<p>Para delimitar claramente a atuação desses constructos no contexto da gestão, o <xref ref-type="table" rid="t1">quadro 1</xref> sintetiza as principais distinções entre a resiliência focada no agente e a focada na estrutura organizacional.</p>
				<table-wrap id="t1">
					<label>Quadro 1</label>
					<caption>
						<title>Síntese conceitual da resiliência empreendedora e organizacional</title>
					</caption>
					<table>
						<thead>
							<tr>
								<th align="left">Atributo </th>
								<th align="center">Resiliência Empreendedora </th>
								<th align="center">Resiliência Organizacional </th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">Foco de análise </td>
								<td align="center">O indivíduo (agente empreendedor) </td>
								<td align="center">A organização (empresa e sua estrutura) </td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left">Base de sustentação </td>
								<td align="center">Atributos neuropsicológicos e estratégicos individuais: flexibilidade cognitiva, instinto decisório e propensão ao risco </td>
								<td align="center">Capacidade de antecipar ameaças, reagir eficazmente a eventos inesperados e incorporar aprendizados </td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left">Mecanismo de ação </td>
								<td align="center">Capacidade de agir sob incertezas e tomar decisões rápidas em cenários de escassez. </td>
								<td align="center">Implementação de mudanças bem-sucedidas e alcance em níveis de complexidade após rupturas. </td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left">Influência do contexto </td>
								<td align="center">O empreendedor é visto como um “ser paradoxal” moldado por sua história pessoal e socialização. </td>
								<td align="center">A capacidade é relativa e circunstancial, não podendo ser isolada do contexto externo e sistêmico. </td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
					<table-wrap-foot>
						<attrib>Fonte: as autoras (2026).</attrib>
					</table-wrap-foot>
				</table-wrap>
				<p>A interação entre fatores de sucesso e dificuldades no percurso empreendedor configura trajetórias exclusivas para cada iniciativa, com a crise destacando-se como evento singular e transformador (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Arruda, 2022</xref>). A <bold>ressignificação</bold> emerge como uma estratégia de enfrentamento pouco explorada no domínio do empreendedorismo, que implica reinterpretar e redirecionar significados atribuídos a situações de crise, contribuindo para que empreendedores integrem novos sentidos ao seu contexto organizacional, ampliando as possibilidades de adaptação e reinvenção (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Casaqui, 2021</xref>) do tempo vivido. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B37">Spink (2010)</xref>, o tempo vivido corresponde ao processo de ressignificação de conteúdos históricos pela socialização, vinculando-se à memória individual e às narrativas pessoais que moldam identidades.</p>
				<p>No contexto organizacional, a ressignificação do imaginário gerencial alinha percepções de gestores e agentes de disseminação do conhecimento à realidade prática da gestão (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Paes de Paula, 2016</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B5">Casaqui (2021)</xref> destaca que a cultura da inspiração reestrutura cenários de crise com enfoque positivo e individualista, sendo a reinvenção uma capacidade essencial para enfrentar situações de caos. Nesse contexto, a ressignificação é compreendida como processo essencial para consolidar a percepção de que a ação empreendedora desempenha um papel estratégico para o desenvolvimento econômico e sustentável. Observa <xref ref-type="bibr" rid="B30">Poole (2018)</xref> que a eficácia desse processo depende da capacidade dos formuladores de políticas públicas de implementar iniciativas que apoiem de forma efetiva os empreendedores. Para <xref ref-type="bibr" rid="B29">Paes de Paula (2016)</xref>, o diálogo emerge como uma ferramenta crítica para a ressignificação da gestão ao possibilitar um deslocamento de significados: ideias tradicionalmente centradas em otimização, produtividade, competitividade e resultados são substituídas por conceitos mais alinhados às práticas da gestão, como comunicação, criatividade, colaboração e desenvolvimento humano.</p>
				<p>A análise da hegemonia do capitalismo globalizante indica que seus efeitos se manifestam de maneira semelhante em diferentes regiões do globo, sendo tais experiências apropriadas e ressignificadas localmente, em conformidade com as especificidades contextuais, como descrito por <xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien (2010)</xref>, mas também de acordo com a disponibilidade de recursos em situações de crise para a prática da bricolagem (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Lima, 2022</xref>). Em contexto de crise, a diversidade de conhecimentos prévios, associada à orientação externa, coesão interna das comunidades e práticas da bricolagem, constitui um componente da resiliência diante de desastres. Esse conjunto de fatores influencia o modo como empreendedores assimilam e utilizam informações e recursos para promover sua recuperação (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Cheong; Assenova, 2021</xref>).</p>
				<p>Por fim, a criação de sentido emerge como uma estratégia para a incorporação do propósito organizacional. Trata-se de um processo de construção da realidade, fundamentado na interação social, no caráter retrospectivo e na ressignificação dos eventos vivenciados pela organização. Tal dinâmica reforça a importância da adaptação e da interpretação coletiva como elementos-chave na definição de caminhos sustentáveis e estratégicos.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>3 METODOLOGIA</title>
			<p>A presente pesquisa exploratória-descritiva foi desenvolvida, usando a estratégia estudo de casos múltiplos (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Yin, 2015</xref>). O espaço da pesquisa foi Santa Tereza, pequeno município da Serra Gaúcha, parte de importante núcleo de imigração italiana do Brasil, impactado pelas enchentes ocorridas em setembro de 2023 e maio de 2024.</p>
			<p>Os sujeitos informantes foram quatro EPEs (<xref ref-type="table" rid="t2">quadro 2</xref>), cujas empresas sofreram impactos pelos “desastres naturais”. Os EPEs foram selecionados intencionalmente, com base em dados levantados na etapa exploratória, com base nos seguintes critérios de inclusão: localização geográfica (município de Santa Tereza), porte empresarial (pequeno) e exposição direta aos desastres naturais de 2023 e 2024.</p>
			<table-wrap id="t2">
				<label>Quadro 2</label>
				<caption>
					<title>Relação de empresas participantes da pesquisa</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left">Empreendimento </th>
							<th align="center">Tipo de Empreendimento </th>
							<th align="center">Data da entrevista </th>
							<th align="center">Duração da entrevista </th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Empresa 1 </td>
							<td align="center" valign="top">Loja </td>
							<td align="center" valign="top">17/08/2024 </td>
							<td align="center" valign="top">17 min </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Empresa 2 </td>
							<td align="center" valign="top">Agropecuária </td>
							<td align="center" valign="top">17/08/2024 </td>
							<td align="center" valign="top">15 min </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Empresa 3 </td>
							<td align="center" valign="top">Barbearia </td>
							<td align="center" valign="top">03/09/2024 </td>
							<td align="center" valign="top">20 min </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Empresa 4 </td>
							<td align="center" valign="top">Restaurante </td>
							<td align="center" valign="top">17/08/2024 </td>
							<td align="center" valign="top">13 min </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top"><bold>Total</bold></td>
							<td align="center" valign="top"/>
							<td align="center" valign="top"/>
							<td align="center" valign="top"><bold>65 min</bold></td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: elaborado pelas autoras (2024).</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>Os dados foram coletados em duas fases. Na <bold>primeira fase</bold>, iniciada em março de 2024, com observações e conversas informais com pessoas da comunidade atingidas pelos desastres, sete pequenas empresas foram visitadas, e os EPEs foram instigados a narrar sobre os impactos sofridos. Na sequência, foram expostos os objetivos da pesquisa e explicados os conceitos de resiliência e ressignificação de atividades empreendedoras, que inspiraram e direcionaram a pesquisa. Após esclarecimentos, os empreendedores foram convidados a participar da pesquisa. Contudo, em maio de 2024, ocorreu outro desastre natural (inundação), evento acrescentado à pesquisa pelos impactos provocados no município. A etapa se encerrou em junho do mesmo ano, com os dados coletados e registrados em caderno de campo.</p>
			<p>A <bold>segunda fase</bold> teve início no final do mês de junho e estendeu-se até setembro de 2024, marcada pela compreensão preliminar dos acontecimentos principais (desastres naturais) por parte dos pesquisadores e pela realização das entrevistas com os informantes. Os dados foram coletados usando entrevista narrativa histórica, seguindo as regras de <xref ref-type="bibr" rid="B22">Jovchelovitch e Bauer (2017)</xref> e proposta sistemática de <xref ref-type="bibr" rid="B36">Schütze (2014)</xref>, que cria narrativas, uma forma de entrevista não estruturada, de profundidade, com a mínima influência do entrevistador.</p>
			<p>Os respondentes foram os proprietários e gestores das empresas de modo a preencher lacunas dos eventos levantados na primeira fase do processo de coleta de dados. Os informantes foram provocados a fazer uma narrativa autossustentável a partir do tópico inicial (“Como foi sua história empreendedora? “Como os eventos climáticos interferiram nessa história?”), sobre suas histórias e as estratégias adotadas para enfrentamento dos impactos no empreendimento causados pelos desastres naturais. Com consentimento, as narrativas foram gravadas e transcritas usando Tactiq®, ferramenta de transcrição baseada em inteligência artificial.</p>
			<p>Os cuidados éticos na pesquisa envolvendo seres humanos foram rigorosamente observados durante a condução das entrevistas, de curta duração (17 minutos, em média), o que se justifica pelo fato de que indivíduos que passaram por traumas, como os desastres naturais ocorridos, podem não estar em uma condição emocional adequada para longos relatos, como indicou <xref ref-type="bibr" rid="B22">Jovchelovitch e Bauer (2017)</xref>. Como procedimentos para diminuir essa possibilidade, buscou-se uma abordagem humanizada, oferecendo acesso no momento e período desejados pelo entrevistado. Ainda, optou-se pela realização da entrevista por parte de uma residente da cidade, para que os entrevistados se sentissem à vontade e recebessem apoio.</p>
			<p>Os dados das narrativas foram submetidos à triangulação de fontes, seguindo as orientações de <xref ref-type="bibr" rid="B42">Yin (2015)</xref> e usando anotações de observações e conversas informais, relatórios governamentais, dados de instituições de pesquisa e notícias publicadas em jornais. O uso de documentos, arquivos e histórias de forma reflexiva para a escrita da história e, indiretamente, para a compreensão contextual do tempo observado é considerado válido, com o propósito de questionar a própria narrativa (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Barros; Carneiro; Wanderley, 2019</xref>). Para tanto, foi realizada uma pesquisa documental usando fontes secundárias, como registros históricos, relatórios governamentais e notícias relacionadas aos desastres naturais ocorridos no lugar. O objetivo foi coletar informações que contribuíssem para a compreensão do fenômeno “desastre climático” e “enchentes” na perspectiva dos diferentes informantes (meteorologistas, geólogos, gestores públicos, outros), como recomendam <xref ref-type="bibr" rid="B26">Lima Junior <italic>et al.</italic> (2021)</xref>.</p>
			<p>No <xref ref-type="table" rid="t3">quadro 3</xref>, estão descritas as informações obtidas na pesquisa documental em fontes secundárias consideradas de domínio público e disponíveis em relatórios governamentais, páginas eletrônicas dos governos municipal, estadual e federal, bases de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE), do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS) e em jornal de circulação estadual.</p>
			<table-wrap id="t3">
				<label>Quadro 3</label>
				<caption>
					<title>Fontes de dados secundários</title>
				</caption>
				<table>
					<thead>
						<tr>
							<th align="left">FONTE </th>
							<th align="center">CONTEÚDO ACESSADO </th>
							<th align="center">DATA DE ACESSO </th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">
								<xref ref-type="bibr" rid="B17">IBGE (2021)</xref>. <italic>Cadastro Central de Empresas:</italic> Santa Tereza. </td>
							<td align="center">Informações econômicas e cadastrais das empresas de Santa Tereza, para entender a estrutura econômica e o desenvolvimento empresarial antes do desastre climático. </td>
							<td align="center">29/04/2024 </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">
								<xref ref-type="bibr" rid="B18">IBGE (2025)</xref>. População: Santa Tereza. </td>
							<td align="center">Dados populacionais (número de habitantes, densidade demográfica) </td>
							<td align="center">29/04/2024 </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" rowspan="3">Entrevistas, relatórios de governo e reportagens divulgadas nas páginas eletrônicas institucionais </td>
							<td align="center" valign="top">Dados sobre o impacto das enchentes de setembro de 2023 no RS, como mortes, feridos e desabrigados, e os fundamentos da declaração de calamidade pública nos municípios. </td>
							<td align="center">24/04/2024 </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Descrição do cenário possível no alerta do governador do estado em 2024, ilustrando com dados do desastre de 2023 e argumentos usados para incentivar a população a se preparar. </td>
							<td align="center">25/04/2024 </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">Plano de reconstrução RS pós-enchentes, ações emergenciais, reconstrução e prevenção de desastres futuros, com foco em assistência à população afetada e recuperação de infraestrutura </td>
							<td align="center">25/04/2024 </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">IPH/UFRGS. <italic>Grupo de Pesquisa em Desastres Naturais.</italic></td>
							<td align="center" valign="top">Avaliação preliminar da tragédia no Vale do Taquari com base nos trabalhos locais por 20 dias. Nota técnica descrevendo a tragédia em curso. </td>
							<td align="center">24/07/2024 </td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Prefeitura Municipal de Santa Tereza (<xref ref-type="bibr" rid="B35">2021</xref>). </td>
							<td align="center" valign="top">Histórico do lugar. Localização e características geográficas. Características da arquitetura dos casarios. </td>
							<td align="center">27/07/2024 </td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: elaborado pelas autoras (2024).</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>A análise das entrevistas narrativas seguiu a abordagem de <xref ref-type="bibr" rid="B36">Schütze (2014)</xref>, conforme sistematizada por <xref ref-type="bibr" rid="B22">Jovchelovitch e Bauer (2017)</xref>, contemplando as etapas de transcrição, distinção entre material indexado (eventos) e não indexado (sentidos), categorização das trajetórias e comparação entre casos. As transcrições, realizadas com apoio do Tactiq® para preservar a escuta ativa diante de relatos sensíveis, foram submetidas à triagem e à organização em planilhas Excel. As categorias analíticas, como “ressignificação pelo diálogo” e “bricolagem em crise”, emergiram da identificação de padrões de capacidade adaptativa, interpretados mediante relação dialética entre trajetórias individuais e suportes coletivos. Para as observações, documentos governamentais e notícias jornalísticas, empregou-se a análise de conteúdo segundo <xref ref-type="bibr" rid="B2">Bardin (2010)</xref>. Em conjunto, esses procedimentos permitiram converter narrativas subjetivas em dados sistematizados sobre processos de resiliência organizacional em contextos adversos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS</title>
			<sec>
				<title>4.1 CONTEXTO LOCAL</title>
				<p>Santa Tereza é um pequeno município localizado na região da Serra Gaúcha, no estado do RS, com 1.505 habitantes, densidade demográfica de 20,43 hab/km<sup>2</sup> e estimativa populacional de estabilidade para 2025 (<xref ref-type="bibr" rid="B18">IBGE, 2025</xref>), ocupando o 14º lugar na região geográfica imediata e 497º lugar no estado do RS (<xref ref-type="bibr" rid="B18">IBGE, 2025</xref>). O Cadastro Central de Empresas do <xref ref-type="bibr" rid="B17">IBGE (2021)</xref> indicava a existência de 67 empresas em 2021, sendo a proporção de 0,04 do número de empresas por habitante considerada baixa para áreas urbanas. Isso confere relevância a cada empreendimento para o desenvolvimento socioeconômico do município.</p>
				<p>Sua colonização começou em 1885, por imigrantes italianos e poloneses que se instalaram às margens do Rio Taquari, na Linha José Júlio. O nome Santa Tereza expressa gratidão e amor do engenheiro-chefe da colonização pela sua esposa Tereza. Hoje, o município emancipado de Bento Gonçalves, em 1993, encontra-se em um dos mais importantes núcleos de imigração italiana do Brasil, com elementos da cultura visíveis na arquitetura local, frequentemente comparada à das aldeias do norte da Itália (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Santa Tereza, 2021</xref>). O desenvolvimento do lugar se deu por meio do transporte feito por balsas pelo Rio Taquari, então a única ligação com Porto Alegre, a capital do estado.</p>
				<p>A proximidade aos rios Taquari, Barra Mansa e Vinte e Dois, as montanhas que a cercam, os prédios históricos e o clima ameno de outono, inverno e primavera fazem de Santa Tereza uma cidade especial (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Santa Tereza, 2021</xref>). Devido a essa localização, torna-se uma região propensa a eventos climáticos extremos. As inundações ocorrem frequentemente no município e já fazem parte da vida e da rotina dos empreendedores e da população; contudo, as enchentes que aconteceram em setembro de 2023 e maio de 2024 foram devastadoras.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.2 DESCRIÇÃO DO INCIDENTE CRÍTICO</title>
				<p>As chuvas intensas no RS em setembro de 2023 caracterizam eventos climáticos extremos, resultando em mortes e destruição generalizada. Essas enchentes motivaram a decretação de estado de calamidade pública ou emergência em diversos municípios (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Rio Grande do Sul, 2023</xref>). Em novembro do mesmo ano, foram registradas chuvas severas acompanhadas de vendavais, enxurradas, inundações, soterramentos e uma microexplosão, causando danos humanos, materiais, ambientais, econômicos e sociais variados conforme o município afetado (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Rio Grande do Sul, 2023</xref>). No mesmo período, Santa Tereza sofreu três eventos de alto volume pluviométrico, incluindo uma enchente em 4 de setembro que destruiu, aproximadamente, 50 residências e resultou em prejuízos estimados em R$ 60 milhões (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Rio Grande do Sul, 2023</xref>). A magnitude dos impactos reflete a intensidade e a frequência dos eventos associados à dinâmica meteorológica adversa da região.</p>
				<p>No início de maio de 2024, em decorrência do acúmulo de chuvas intensas registradas, o município foi novamente impactado por eventos climáticos extremos, resultando em alagamentos e deslizamentos em diversas áreas. Em resposta, o governador do estado reforçou a urgência de evacuação de moradores em zonas de risco, a fim de mitigar perdas humanas (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Rio Grande do Sul, 2024a</xref>). Devido a essa nova catástrofe, o presidente do Brasil e sua comitiva vieram acompanhar a situação das cidades atingidas. Em reunião, o governador do estado do RS explicou que era “cenário de guerra”, o qual exigia medidas correspondentes à situação, sendo um “plano de reconstrução” envolvendo “assistência, restabelecimento e reconstrução” (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Rio Grande do Sul, 2024a</xref>) e outro relacionado à prevenção e à resiliência climática.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.3 AS NARRATIVAS</title>
				<sec>
					<title>4.3.1 Caso “Empresa 1 - Loja”</title>
					<p>Segundo o relato da gestora da Empresa 1, a fundação da loja ocorreu há três décadas, impulsionada pelo sonho da mãe, anteriormente empregada no setor privado, que desejava poupar as filhas das adversidades enfrentadas por ela e seu cônjuge. Conforme a entrevistada narrou, Santa Tereza é uma comunidade de pequeno porte, com escassas oportunidades de emprego. A trajetória empreendedora teve início há trinta anos com a mãe desempenhando suas funções profissionais, enquanto as filhas se encarregavam das atividades da loja. Com o transcurso do tempo, uma das irmãs, por ocasião do matrimônio, mudou-se, deixando a atual proprietária com a responsabilidade de gerir o empreendimento e assegurar o sustento familiar.</p>
					<p>A situação da Empresa 1 permaneceu estável até a ocorrência da enchente de setembro de 2023, que teve um efeito devastador, afetando tanto a loja quanto a residência da proprietária: “Veio essa enchente que arrasou a cidade”. A loja estava em processo de recuperação quando, em novembro, uma nova enchente ocorreu, obrigando nova retirada de todos os itens da loja. Após um período de “batalha”, organização e retorno às atividades, mais uma enchente se deu em maio de 2024, este com um impacto ainda mais significativo para a recuperação.</p>
					<p>No retorno de suas atividades, a situação não era mais a mesma, destacou a proprietária. A partir desses eventos, tornou-se necessário adotar um modelo de trabalho diferenciado. Para os que permaneceram na cidade, a maior dificuldade relatada foi o acesso comprometido à comunidade, visto que, no caso da loja, não havia opções de fornecedores, e as entregas não eram realizadas. Por outro lado, a entrevistada diz que as pessoas começaram a adotar uma postura de apoio ao comércio local, visando auxiliar os empreendedores e contribuir para a retomada da economia municipal.</p>
					<p>Além disso, a incerteza sobre novas enchentes dificultou o planejamento em longo prazo. “Hoje, seguir com o negócio após a enchente não é fácil. É cheio de perguntas, dificuldades, tristezas, alegrias... É uma batalha diária”. Apesar de todas as adversidades, a proprietária se adaptou, implementou novas estratégias para manter o negócio, expressando desejo de permanecer na cidade, com um profundo vínculo emocional com o local e a comunidade.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.3.2 Caso “Empresa 2 - Agropecuária”</title>
					<p>A Empresa 2 (agropecuária) foi fundada em 2012 pelo proprietário, após aposentadoria como servidor público municipal. Inicialmente, estabelecida em parceria com um veterinário, a dissolução da sociedade levou à inclusão da filha como sócia, mantendo o negócio como empreendimento familiar. O crescimento foi gradual até as enchentes de 2023, que impuseram desafios significativos. Após a reconstrução regional, a filha inaugurou uma nova unidade em Bento Gonçalves, enquanto o proprietário permaneceu na sede de Santa Tereza, configurando uma gestão familiar com duas unidades independentes, porém interligadas.</p>
					<p>O proprietário relata que as enchentes de setembro de 2023 devastaram as residências ao redor e a própria agropecuária. A de novembro de 2023 causou danos adicionais e, em maio de 2024, os danos foram mais severos, afetando não apenas o negócio, mas também a infraestrutura da cidade, o que prejudicou ainda mais o processo de recuperação. Nesse momento, foi necessário fazer adaptações, como operar a empresa por meio da residência do proprietário e desenvolver estratégias de reconstrução, uma vez que não há um plano de operacionalização sistemática de riscos climáticos, espaciais e sistêmicos entrelaçados nas operações de infraestrutura local, como sugerido por <xref ref-type="bibr" rid="B31">Puntub, Greiving e Birkmann (2025)</xref>.</p>
					<p>O empreendedor destacou que foi preciso buscar formas de reerguer o negócio. Mesmo com as adversidades como a perda total dos móveis e dificuldades em manter estoques devido ao medo de novas enchentes, a boa vontade é enfatizada pelo proprietário: “Vamos fazer o seguinte: vamos limpar a casa”. A destruição da infraestrutura da região, como pontes e estradas, desanimou a comunidade, dificultando ainda mais a recuperação. O entrevistado complementou: “O ‘pessoal’ do interior desanimou”.</p>
					<p>O proprietário mencionou que a empresa 2 recebeu algum apoio, como um pequeno empréstimo para tentar se reerguer. A abertura da filial em outra cidade surgiu devido à dificuldade de recuperação e às condições adversas, mas, ainda assim, o entrevistado expressou o desejo de continuar operando em Santa Tereza.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.3.3 Caso “Empresa 3 - Barbearia”</title>
					<p>No caso da Empresa 3 (barbearia), a trajetória empreendedora teve início em um evento marcante durante uma viagem no final de 2018. O proprietário identificou vocação latente em uma interação familiar, ao realizar a barba do primo, e recebeu incentivo familiar para investir na área. Essa experiência inicial marcou o começo do desenvolvimento técnico, por meio de curso formal e da prática experimental no ambiente doméstico.</p>
					<p>Em dezembro de 2019, a inauguração da barbearia coincidiu com os desafios externos significativos. A pandemia da covid-19 impactou o empreendimento, seguida por desastres naturais recorrentes. A enchente de 2022 iniciou uma série de danos materiais acumulativos, agravada por eventos subsequentes em 2023 (setembro, novembro) e 2024 (maio), resultando em prejuízos estruturais e operacionais contínuos e em realocação frequente.</p>
					<p>Entre os principais desafios narrados, destacam-se as perdas materiais, como equipamentos danificados e a dificuldade em estabelecer um local fixo para o funcionamento da barbearia, dadas as incertezas causadas pelos desastres recorrentes. O proprietário relata esforços contínuos para reformar e adaptar os espaços disponíveis, como lavagem, pintura e adequações estruturais, configurando um exemplo de resiliência em face das adversidades.</p>
					<p>Nessa narrativa, o entrevistado ressalta que considerou a possibilidade de migrar e iniciar um novo empreendimento em outra localidade. Contudo, após reflexões suscitadas por diálogos realizados, optou por permanecer e enfrentar os desafios no contexto atual.</p>
					<disp-quote>
						<p>Quando deu essa última enchente de maio, eu ia sair; vontade de ir para fora. Surgiu a ideia de abrir uma barbearia em Bento [Gonçalves] ou de trabalhar em alguma barbearia. Fui atrás de aluguéis (...) até que parei e pensei direito. Falei com um barbeiro de Bento [Gonçalves]. Ele me falou: - Fica aí e tal… pra ti crescer. Tu tem muito cliente ali. Aqui é só eu que atendo. Talvez, se eu saísse daqui, nenhum cliente ia me acompanhar para onde eu fosse. Então eu decidi ficar e estou aí e para mim está bom. Talvez se eu estivesse ido embora, [...] iria me arrepender, mas tenho bastante clientela e tá bom por enquanto (entrevistado).</p>
					</disp-quote>
					<p>A decisão do empreendedor por permanecer na localidade, mesmo diante das adversidades, constitui um ponto crítico em sua trajetória. O relato evidencia, de forma reflexiva, a reconfiguração da experiência empreendedora pós-enchentes, contrastando o contexto inicial, pautado pela qualificação e estruturação do negócio, com o cenário atual, marcado por desafios crescentes e maior complexidade operacional.</p>
					<p>Ao expor suas percepções, o entrevistado afirma: “Não tive medo antes da enchente. Só precisei fazer o curso, me especializar e achar um lugar. E eu achei! Agora não! Agora é diferente. Agora tu precisas pensar, [...] ter coragem, [...] achar um lugar, e o lugar não tem aqui na cidade...”. Tal declaração ilustra a necessidade de resiliência e adaptação mediante as condições adversas, destacando a dimensão emocional e prática envolvida no processo de reconstrução de sua atividade empreendedora. O uso da linguagem experiencial pelo entrevistado contribui para a compreensão do impacto contextual nos processos decisórios e no enfrentamento das crises.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.3.4 Caso “Empresa 4 - Restaurante”</title>
					<p>No caso da Empresa 4, a proprietária relata que a origem de sua atividade empreendedora está vinculada à sugestão de um amigo, que já possuía experiência na produção de doces, tortas e pizzas em âmbito doméstico. Motivada por essa influência, iniciou o negócio durante o auge da pandemia de covid-19, enfrentando desafios inerentes ao período. A reformulação de um espaço físico para o restaurante foi realizada em conjunto com seu sócio, e, inicialmente, o empreendimento operava no formato “pega e leva”, com foco na venda de frango recheado e pizzas. No entanto, após um período de funcionamento, o sócio decidiu-se desvincular do negócio, levando a proprietária a assumir, integralmente, o empreendimento.</p>
					<p>Os desafios narrados pela entrevistada incluem os impactos causados pelas enchentes de setembro e novembro de 2023, que, embora não tenham atingido diretamente o espaço físico do restaurante, resultaram na destruição do turismo local, um dos principais motores econômicos da região. A proprietária descreve a magnitude do impacto em sua fala: “setembro de 2023 veio a primeira enchente... destruiu praticamente toda a cidade”. A situação agravou-se em maio de 2024, a enchente ainda mais devastadora comprometeu a infraestrutura da cidade, restringindo o acesso dos clientes ao restaurante e exacerbando os desafios enfrentados.</p>
					<p>Apesar das adversidades, a proprietária demonstrou resiliência ao buscar formas de adaptação e manutenção do negócio, participando da campanha “turismo solidário” e organizando eventos, como a Expo Santa em março. A narrativa também expõe desafios associados à perda da infraestrutura de turismo e incertezas geradas nos turistas devido ao medo de novas enchentes. Por meio de ações cooperativas entre restaurante e pousada local, a proprietária conseguiu atrair clientes e fomentar o turismo da reconstrução. Reflexiva, ela sintetiza os desafios enfrentados no contexto pós-enchente: “Tu tens que estar todo dia buscando novos clientes”. Evidencia-se a complexidade da resiliência empreendedora em face das dificuldades impostas pelos desastres naturais e seus impactos no ambiente socioturístico.</p>
					<p>Com base nas trajetórias relatadas, é possível identificar categorias analíticas que representam a ressignificação do empreendedorismo das entrevistadas. As histórias das empresas destacam a <bold>diversidade</bold> tanto nas origens e motivações dos empreendedores quanto nas estratégias adotadas para enfrentar os desafios decorrentes de desastres. No caso da Empresa 1 (loja), cuja origem está no contexto familiar, observa-se uma ressonância com o conceito de empreendedorismo proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien (2010)</xref>, que o define como um processo complexo que integra as motivações individuais do empreendedor, as características da empresa e as condições contextuais. A trajetória da Empresa 2 (agropecuária), iniciada após a aposentadoria do proprietário, reflete a ideia de que o empreendedorismo é um fenômeno que pode emergir em qualquer fase da vida, evidenciando a flexibilidade desse comportamento.</p>
					<p>Os casos Empresa 3 (barbearia), inspirada por uma experiência pessoal durante uma viagem, e Empresa 4 (restaurante), iniciada por sugestão de um amigo, ilustram como as motivações para empreender surgem de fontes variadas. Esses exemplos reforçam a disseminação do comportamento empreendedor em diferentes contextos, corroborando as análises de <xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien (2010)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B24">Kromidha e Bachtiar (2024)</xref> sobre a natureza multifacetada e adaptativa do empreendedorismo perante as adversidades. Essas narrativas mostram a diversidade das experiências empreendedoras e também o papel central da ressignificação em processos de adaptação e superação.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.4 DISCUSSÃO</title>
				<p>Os desastres naturais provocam perdas substanciais nas estruturas produtivas e operacionais dos empreendimentos, evidenciando vulnerabilidade das pequenas empresas em face das situações de crise e da ausência de mecanismos robustos de resiliência organizacional (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Nassif, Rossetto e Inácio Júnior, 2020</xref>). As enchentes ocorridas em 2023 e 2024 prejudicaram os negócios e destruíram a infraestrutura em Santa Tereza. Essa situação destaca a importância de políticas públicas e o apoio externo na reconstrução (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Greco, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Cheong; Assenova, 2021</xref>). É preciso um processo colaborativo que busca transformar vulnerabilidades em estratégias sustentáveis e adaptativas, o qual <xref ref-type="bibr" rid="B31">Puntub, Greiving e Birkmann (2025)</xref> denominam resiliência climática.</p>
				<p>Em Santa Tereza, alguns fatores específicos levaram empreendedores à construção da resiliência organizacional. A capacidade de adaptação dos empreendedores entrevistados reflete o conceito de resiliência organizacional discutido por <xref ref-type="bibr" rid="B11">Duchek, Raetze e Scheuch (2020)</xref> e na capacidade de inovar discutido por <xref ref-type="bibr" rid="B8">Correia e Pereira (2023)</xref>. A resposta imediata variou conforme o setor: enquanto o proprietário da Empresa 2 (agropecuária) demonstrou resiliência ao adaptar sua própria residência para servir de base operacional temporária após a destruição da sede, proprietário da Empresa 3 (barbearia) manifestou a mesma capacidade por meio da mobilidade, mudando repetidamente o local de atendimento para se adequar aos espaços que restaram disponíveis após cada enchente.</p>
				<p>A resiliência organizacional também aparece na &quot;bricolagem&quot;, ou seja, no uso dos recursos disponíveis para resolver problemas imediatos. O proprietário da Empresa 1 (Loja), perante a falta de fornecedores e entregas devido ao bloqueio de estradas, focou na &quot;batalha diária&quot; de reorganização física e no apoio direto dos moradores locais para manter o fluxo mínimo de vendas.</p>
				<p>Os empreendedores também foram levados à ressignificação, um processo de &quot;reordenar o caos&quot; e dar novo sentido à prática empreendedora. No caso da barbearia (Empresa 3), a ressignificação é ilustrada pela mudança de mentalidade do empreendedor. Antes das enchentes, seu foco era técnico (especialização e lugar fixo); após os desastres, o sentido de &quot;ser barbeiro&quot; passou a ser sobre coragem e fidelidade à clientela. O barbeiro-empreendedor optou por não migrar para outra cidade ao perceber que seu valor não estava apenas no serviço, mas no vínculo social com a comunidade. No caso do restaurante (Empresa 4), a ressignificação aparece ao transformar o desastre em uma oportunidade de colaboração. Ao participar do &quot;turismo solidário&quot; e organizar eventos como a Expo Santa, a proprietária ressignificou seu negócio: de um restaurante de &quot;pega e leva&quot; para um agente ativo da reconstrução econômica e turística da cidade.</p>
				<p>O apoio comunitário foi essencial para a recuperação das empresas, destacando a importância do capital social e das redes de suporte em tempos de crise (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Cheong; Assenova, 2021</xref>). As doações de equipamentos, empréstimos e campanhas de turismo solidário foram fundamentais para o processo de recuperação das pequenas empresas, o qual se iniciou pela adaptação, seguido pela reinvenção, como descrevem <xref ref-type="bibr" rid="B8">Correia e Pereira (2023)</xref>. Todos buscaram formas de reinvenção para manter seus negócios, operando e ressignificando práticas, diversificando operações ou criando campanhas para atrair clientes.</p>
				<p>A resiliência foi a característica comum em todos os casos na superação de crises (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Duchek; Raetze; Scheuch, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B40">Vasconcelos <italic>et al.,</italic> 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B41">Vasconcelos; Irigaray, 2018</xref>). Isso se exacerba nos desafios enfrentados pelas empresas, como a perda de infraestrutura e a incerteza sobre novas enchentes. A Loja e a Agropecuária enfrentaram dificuldades significativas devido à destruição da infraestrutura que prescindiu do Estado e de cidades vizinhas para reconstrução, enquanto a barbearia e o restaurante tiveram a perda de equipamentos e a incerteza do turismo.</p>
				<p>Ainda nas histórias se ratifica o que foi encontrado por <xref ref-type="bibr" rid="B7">Cheong e Assenova (2021)</xref>, de que a orientação externa e a coesão interna da comunidade são determinantes da resiliência climática. No caso das pequenas empresas em Santa Tereza, resiliência, adaptação e reinvenção ressignificaram os empreendimentos, manifestos de forma peculiar na trajetória empreendedora. Entretanto, essas foram possíveis com diálogo e suporte das partes interessadas.</p>
				<p>Parte dos resultados também pode ser interpretada mediante os achados de <xref ref-type="bibr" rid="B25">Leonelli, Campagnolo e Gianecchini (2024)</xref>, de que a resiliência individual dos empreendedores e a resiliência organizacional afetam a resposta das pequenas empresas. A ressignificação empreendedora surge na necessidade de organizar o caos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Casaqui, 2021</xref>), redefinindo trajetórias, desenhando estratégias de enfrentamento como foco no problema (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Fang <italic>et al.,</italic> 2020</xref>) para mitigar os efeitos dos desastres (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Dongmo; Djoumessi, 2025</xref>). Assim, contempla a construção de imagem positiva aos formuladores de políticas públicas (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Poole, 2018</xref>) e consolida a importância do empreendedorismo para o desenvolvimento. Mesmo que o marco da ressignificação seja o desastre, que altera a trajetória do empreendedor restabelecida pela socialização (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Spink, 2010</xref>), o “meio” (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien, 2010</xref>) e a resiliência (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Puntub; Greiving; Birkmann, 2025</xref>) são determinantes da resiliência empreendedora e da ressignificação da gestão, como sugere <xref ref-type="bibr" rid="B29">Paes de Paula (2016)</xref>.</p>
				<p>Um achado crítico deste estudo é que as ações de adaptação não são puramente técnicas, mas profundamente alicerçadas em fatores culturais e contextuais locais (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Julien, 2010</xref>). O forte vínculo emocional com Santa Tereza e a identidade comunitária, moldada pela herança histórica da imigração e laços de vizinhança, atuaram como o principal motor para a permanência dos negócios, contrapondo-se à lógica puramente econômica de migração para centros mais seguros. Essa &quot;fidelidade ao território&quot; constitui uma manifestação da resiliência social (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Paes de Paula, 2016</xref>), um processo coletivo de suporte mútuo que precede e sustenta a resiliência no nível organizacional.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.5 PARALELOS</title>
				<p>A resiliência, ainda que originada de decisões individuais do gestor, revela paralelos que identificam sua natureza social. Trata-se de um processo coletivo, envolvendo trocas, suporte mútuo e construção conjunta de sentido, fortalecendo o vínculo emocional com a comunidade (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Paes de Paula, 2016</xref>). Isso foi observado na pesquisa com gestores de uma mesma comunidade afetada por eventos climáticos adversos.</p>
				<p>As respostas das empresas revelam dois eixos centrais de contraste. De um lado, a diversificação geográfica da Empresa 2, que buscou garantir sua sustentabilidade ao abrir uma filial em Bento Gonçalves, contrapõe-se à persistência local das Empresas 1 (loja) e 3 (barbearia), que apostaram no vínculo afetivo e no capital social de Santa Tereza como base para sua reinvenção. De outro, observa-se a diferença entre uma ação individual, como no caso do barbeiro (Empresa 3) que redefiniu seu caminho por meio da reflexão pessoal e das trocas com colegas, e o apoio comunitário mobilizado pelo restaurante (Empresa 4), cuja retomada dependeu de parcerias com pousadas e de campanhas coletivas voltadas a atrair o chamado “turista da reconstrução”. Essas dinâmicas evidenciam como estratégias distintas, ora ancoradas na autonomia, ora na cooperação, moldaram trajetórias de resiliência após a crise.</p>
				<p>Os EPSs demonstraram determinação diante de adversidades, evidenciando resiliência por meio da adaptação e reinvenção perante os desafios (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Correia; Pereira, 2023</xref>), essencial para superar crises (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Duchek; Raetze; Scheuch, 2020</xref>). Ainda, os EPSs expressaram forte vínculo emocional com Santa Tereza, motivando-os a permanecer e adaptar-se às condições impostas pelos desastres naturais. <xref ref-type="bibr" rid="B29">Paes de Paula (2016)</xref> destaca que a criação de sentido é fundamental para incorporar propósitos, evidenciando o papel do vínculo emocional na ressignificação do empreendedorismo.</p>
				<p>Embora relacionada ao diálogo comunitário (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Paes de Paula, 2016</xref>), a ressignificação é construída individualmente, com gestores integrando elementos e experiências da crise à identidade profissional.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.6 PRINCIPAIS ACHADOS DA PESQUISA</title>
				<p>A análise das narrativas dos EPEs de Santa Tereza destacou a conexão emocional dos empreendedores com a comunidade local. Os empreendedores, cada um com sua história e desafios únicos, enfrentaram os impactos devastadores das enchentes de maneiras distintas, mas compartilharam algumas experiências comuns. Também, a solidariedade e o apoio comunitário emergiram como fatores cruciais na recuperação das empresas, destacando a importância das redes de suporte local.</p>
				<p>Percebe-se que, apesar das perdas significativas e dos obstáculos contínuos, os EPEs mostraram determinação para recomeçar e reinventar-se continuamente, buscaram apoio da comunidade e adotaram novas estratégias para manter seus negócios operando. A solidariedade e o apoio da comunidade foram cruciais para a recuperação, demonstrando a importância das redes de suporte locais em tempos de crise. Trata-se de um processo de ressignificação (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Spink, 2010</xref>), que ocorre por meio de um processo dialético, envolvendo diálogo e busca por significados, fundamentado na história singular/individual de cada EPEs, promovendo sentido e continuidade às suas trajetórias.</p>
				<p>A análise das histórias empreendedoras e dos impactos dos eventos climáticos adversos em Santa Tereza gera reflexões teóricas e práticas, ampliando o conhecimento acadêmico sobre os desastres naturais e seus efeitos no empreendedorismo local. Além disso, fornece bases para apoiar os EPEs afetados, como o programa “MEI RS Calamidades” (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Rio Grande do Sul, 2024b</xref>), parte da política pública estadual para auxiliar os EPEs atingidos pelas enchentes de 2024 no RS.</p>
				<p>Medidas práticas, como capacitação em resiliência, oficinas de gestão de crises, incentivos fiscais para a reconstrução, fortalecimento das redes comunitárias, plataformas colaborativas, fomento à inovação, investimentos em infraestrutura resiliente e planejamento urbano focado na mitigação de riscos, mostraram-se cruciais para apoiar áreas afetadas, promovendo recuperação imediata e capacidade de adaptação de longo prazo.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>5 CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>Este estudo demonstrou que desastres naturais não apenas destroem infraestruturas físicas, mas atuam como catalisadores de uma reconstrução profunda nas trajetórias dos EPEs. Em Santa Tereza, RS, a recorrência das enchentes forçou a transição de uma gestão focada na estabilidade para um modelo de sobrevivência pautado pela ressignificação do fazer empreendedor.</p>
			<p>A pesquisa contribui para a literatura de empreendedorismo ao posicionar a resiliência organizacional não apenas como uma capacidade estática, mas como um resultado dinâmico da ação empreendedora em ambientes de adversidade extrema. O estudo amplia o arcabouço teórico ao evidenciar que a ressignificação ocorre por meio de um processo dialético em três níveis:</p>
			<list list-type="simple">
				<list-item>
					<p>a) individual, pela reordenação subjetiva do caos e a conexão emocional com o território; </p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>b) coletivo, a mediação pelo suporte comunitário e o diálogo com pares, que validam a permanência do negócio; </p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>c) organizacional, pela consolidação da capacidade de adaptação por meio da bricolagem e da recombinação de recursos escassos. </p>
				</list-item>
			</list>
			<p>Dessa forma, a teoria da resiliência é enriquecida pela perspectiva da ressignificação, sugerindo que a recuperação econômica local depende da capacidade do empreendedor de atribuir novos sentidos ao trauma e à identidade profissional.</p>
			<p>Do ponto de vista gerencial e governamental, os achados oferecem subsídios para o fortalecimento dos ecossistemas de negócios mediante as mudanças climáticas. As principais recomendações incluem:</p>
			<list list-type="simple">
				<list-item>
					<p>a) capacitação e gestão, por meio do desenvolvimento de oficinas focadas em gestão de crises e resiliência, indo além da formação técnica tradicional; </p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>b) políticas públicas estruturantes, considerando que a eficácia de programas como o &quot;MEI RS Calamidades&quot; deve ser complementada por investimentos em infraestrutura resiliente e planejamento urbano, reduzindo a incerteza que desestimula o investimento privado; </p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>c) plataformas colaborativas, por meio de fomento às redes comunitárias e ao &quot;turismo solidário&quot;, que se provaram essenciais para a manutenção do fluxo econômico quando os motores tradicionais do mercado são destruídos.</p>
				</list-item>
			</list>
			<p>Reconhece-se que a natureza singular e subjetiva das narrativas de quatro empreendedores impede a generalização estatística dos resultados. Ademais, as dificuldades emocionais dos entrevistados em reviver experiências traumáticas podem ter limitado a profundidade de certos relatos. Para estudos futuros, recomenda-se investigar o impacto em longo prazo das políticas públicas de reconstrução e realizar estudos comparativos em diferentes contextos culturais, visando validar se a &quot;fidelidade ao território&quot; observada em Santa Tereza é um padrão em outras comunidades resilientes.</p>
			<p>Em suma, o estudo reafirma o papel do empreendedor como agente central na retomada social e econômica, evidenciando que a sustentabilidade de comunidades vulneráveis depende de uma visão integrada entre a força individual e o suporte sistêmico.</p>
			<p>Não obstante as contribuições teóricas e práticas deste estudo, é necessário reconhecer suas limitações metodológicas. A utilização de uma amostra restrita a quatro empreendedores em um recorte geográfico específico (Santa Tereza, RS) limita a generalização estatística dos resultados para outros contextos ou setores econômicos. Além disso, a coleta de dados ocorreu em um período de instabilidade emocional e operacional, o que pode ter influenciado a profundidade de certos relatos devido ao trauma recente. Estratégias logísticas, como o acesso dificultado pela destruição da infraestrutura física, também condicionaram o tempo de imersão no campo.</p>
			<p>Para pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos comparativos entre diferentes regiões afetadas por desastres hidrológicos no Rio Grande do Sul, a fim de verificar se os padrões de ressignificação e resiliência se mantêm em comunidades com diferentes heranças culturais. Sugere-se, ainda, investigar o impacto de outros tipos de desastres (secas prolongadas, desastres antropogênicos) na gestão de pequenas empresas. Estudos longitudinais seriam valiosos para analisar se a ressignificação observada se converte em mudanças estruturais na gestão de riscos em longo prazo ou se as empresas retornam a modelos de vulnerabilidade anteriores após o período de reconstrução. Por fim, incentiva-se a análise aprofundada da eficácia de políticas públicas específicas, como o programa “MEI RS Calamidades”, na sustentabilidade dos negócios ressignificado.</p>
		</sec>
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			<title>REFERÊNCIAS</title>
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					<article-title>Revigorer: ressignificando o conceito de brechó: um caso de empreendedorismo e estratégia de expansão de mercado</article-title>
					<source>Revista Repensar</source>
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					<source>Análise de conteúdo</source>
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