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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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                <journal-title>Revista gestão em análise</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Gest. Anál.</abbrev-journal-title>
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            <issn pub-type="ppub">1984-7297</issn>
            <issn pub-type="epub">2359-618X</issn>
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                <publisher-name>Unichristus</publisher-name>
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            <article-id pub-id-type="doi"
                >10.12662/2359-618xregea.v15i1.6155.pe6400.2026</article-id>
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                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>ARTIGOS</subject>
                </subj-group>
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            <title-group>
                <article-title>MINERAÇÃO NA SERRA DO CURRAL: TERRITÓRIOS E DISPUTAS ORGANIZACIONAIS
                    PELA ÓTICA DA ECOLOGIA POLÍTICA</article-title>
                <trans-title-group xml:lang="en">
                    <trans-title>MINING IN SERRA DO CURRAL: TERRITORIAL CONFLICTS AND ORGANIZATIONAL
                        DISPUTES FROM A POLITICAL ECOLOGY PERSPECTIVE</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
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                <contrib contrib-type="author">
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                        <surname>Gomes</surname>
                        <given-names>Vitor Carvalho</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
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                        <surname>Dias</surname>
                        <given-names>Ana Beatriz Cabral Gomes Cardoso Lana</given-names>
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                        <surname>Alcântara</surname>
                        <given-names>Valderí de Castro</given-names>
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                <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Minas Gerais
                    (UFMG)</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Instituto Federal do Paraná (IFPR)</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Fundação Educacional da Região dos
                    Lagos</institution>
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                <email>adm.vitorcg@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Doutorando em Administração pela Universidade
                    Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Sustentabilidade pelo Instituto
                    Federal do Paraná (IFPR) - Campus Umuarama (2024). Graduado em Administração
                    pela Fundação Educacional da Região dos Lagos (2008). Belo Horizonte, MG, BR.
                    E-mail: adm.vitorcg@gmail.com</institution>
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                <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Minas
                    Gerais</institution>
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                    <city>Belo Horizonte</city>
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                <email>anabeatrizlana123@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Doutoranda em Administração pela Universidade
                    Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, BR. E-mail:
                    anabeatrizlana123@gmail.com</institution>
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                <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Minas Gerais
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                <email>valderidecastroalcantara@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Mestre (2015) e Doutor (2018) em Administração
                    pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de
                    Lavras (PPGA-UFLA). Professor do Departamento de Ciências Administrativas (CAD)
                    da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Belo Horizonte, MG, BR. E-mail:
                    valderidecastroalcantara@gmail.com</institution>
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            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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                <month>09</month>
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                <season>Jan-Dec</season>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution NonCommercial, que permite uso,
                        distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que sem
                        fins comerciais e que o trabalho original seja corretamente
                        citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <p>Este artigo analisa como os conflitos socioambientais na Serra do Curral
                    evidenciam disputas territoriais e institucionais entre diferentes projetos de
                    desenvolvimento, à luz da Ecologia Política e dos Estudos Organizacionais.
                    Trata-se de pesquisa qualitativa baseada em análise documental de matérias
                    jornalísticas publicadas entre março de 2018 e abril de 2025, por meio de
                    análise temática. O <italic>corpus</italic> foi composto por 65 matérias
                    selecionadas por meio de um conjunto inicial de 112 documentos, sendo excluídos
                    aqueles sem relação direta com o conflito na Serra do Curral, com informações
                    redundantes ou sem identificação de atores institucionais. Os resultados indicam
                    que a mineração transforma a materialidade do território e reconfigura relações
                    sociais e enquadramentos institucionais, enquanto as resistências mobilizam
                    memória, saberes locais e instrumentos jurídicos como estratégias de disputa.
                    Conclui-se que os conflitos evidenciam que decisões organizacionais produzem
                    impactos socioecológicos, exigindo a incorporação da justiça socioambiental,
                    governança inclusiva e pluralidade epistemológica às análises do campo.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <p>This article analyzes how socio-environmental conflicts in Serra do Curral reveal
                    territorial and institutional disputes among competing development projects,
                    drawing on Political Ecology and Organizational Studies. The study adopts a
                    qualitative approach based on documentary analysis of newspaper articles
                    published between March 2018 and April 2025, using thematic analysis. The corpus
                    comprised 65 articles selected from an initial set of 112 documents; materials
                    with no direct relation to the conflict in Serra do Curral, redundant
                    information, or no identification of institutional actors were excluded. The
                    findings indicate that mining transforms the materiality of the territory and
                    reconfigures social relations and institutional arrangements, while resistance
                    movements mobilize memory, local knowledge, and legal instruments as strategies
                    of contestation. We conclude that these conflicts demonstrate that
                    organizational decisions produce socioecological impacts, requiring the
                    incorporation of socio-environmental justice, inclusive governance, and
                    epistemological plurality into analyses in the field.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>conflitos ambientais</kwd>
                <kwd>territorialização</kwd>
                <kwd>extrativismo</kwd>
                <kwd>justiça ambiental</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>environmental conflicts</kwd>
                <kwd>territorialization</kwd>
                <kwd>extractivism</kwd>
                <kwd>environmental justice</kwd>
            </kwd-group>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>1 INTRODUÇÃO</title>
            <p>Nas últimas décadas, os Estudos Organizacionais vêm ampliando suas fronteiras ao
                incorporar conflitos socioambientais como dimensões centrais das dinâmicas
                institucionais. Esses conflitos não são “anomalias” de um sistema equilibrado, mas
                expressões estruturais de antagonismos latentes: de um lado, a lógica empresarial,
                centrada na acumulação de capital e na flexibilização de padrões de segurança; de
                outro, ontologias territoriais que consideram a natureza parte indissociável da vida
                e da identidade coletiva.</p>
            <p>Para isso, a Ecologia Política oferece um referencial crítico essencial, articulando
                dimensões ecológicas, econômicas e políticas em perspectiva relacional e situada.
                Como indicam <xref ref-type="bibr" rid="B18">Escobar (2008)</xref> e <xref
                    ref-type="bibr" rid="B33">Martínez-Alier (2007)</xref>, impactos ambientais não
                são neutros nem distribuídos igualmente, mas refletem disputas históricas e
                diferentes projetos de mundo. Essa abordagem desloca o foco da Administração de
                “recursos naturais” para conflitos ontológicos sobre formas de habitar, significar e
                defender o território.</p>
            <p>Compreender esses conflitos como expressão de dinâmicas organizacionais requer
                ampliar categorias analíticas tradicionais, considerando escalas e temporalidades
                que revelem as inter-relações entre organização, sociedade e natureza. Não se trata
                apenas de analisar estruturas formais ou decisões estratégicas isoladas, mas de
                reconhecer que práticas organizativas estão imersas em processos históricos,
                ecológicos e políticos que ultrapassam fronteiras institucionais. Evidencia-se,
                assim, que escolhas organizacionais produzem efeitos cumulativos e, muitas vezes,
                irreversíveis sobre territórios e comunidades.</p>
            <p>O conceito de Antropoceno (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Crutzen; Stoermer,
                    2000</xref>) reforça essa perspectiva ao explicitar os impactos sistêmicos da
                ação humana sobre o planeta e a centralidade das organizações na intensificação das
                crises socioambientais contemporâneas. Se a atividade humana se tornou força
                geológica, é porque estruturas produtivas, cadeias globais de valor e decisões
                corporativas participam ativamente da reconfiguração dos ciclos naturais. Nesse
                sentido, práticas organizativas não apenas utilizam recursos, mas moldam
                ecossistemas (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Leite; Fantinel, 2024</xref>; <xref
                    ref-type="bibr" rid="B41">Ribeta; Fantinel, 2024</xref>; <xref ref-type="bibr"
                    rid="B9">Cabacine; Fantinel, 2025</xref>). Elas integram escolhas políticas e
                sociais que definem quem se beneficia do desenvolvimento e quem suporta seus custos,
                configurando disputas sobre o presente e sobre os futuros possíveis.</p>
            <p>No Brasil, particularmente em Minas Gerais, esse cenário se traduz em conflitos
                ambientais frequentes por terra, água e território (<xref ref-type="bibr" rid="B49"
                    >Zhouri, 2019</xref>). A Serra do Curral, na região metropolitana de Belo
                Horizonte, exemplifica essa tensão: tombada pelo IPHAN desde a década de 1960, a
                serra simboliza a identidade local, mas é alvo de exploração mineral por mineradoras
                como Ferrobel, MBR e Vale S.A. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Custódio; Ribeiro,
                    2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B12">Carneiro <italic>et al</italic>.,
                    2023</xref>).</p>
            <p>Apesar de instrumentos formais de preservação e mobilizações sociais recorrentes, as
                pressões econômicas e os interesses corporativos continuam tensionando os limites da
                proteção ambiental, revelando a persistência de conflitos que extrapolam a dicotomia
                entre desenvolvimento e conservação e se inscrevem em disputas mais amplas sobre
                territorialização, poder e justiça socioambiental. Diante disso, o problema de
                pesquisa deste artigo é sobre como os conflitos socioambientais em torno da Serra do
                Curral revelam disputas territoriais e institucionais entre diferentes projetos de
                desenvolvimento. A partir disso, o objetivo do artigo é analisar como os conflitos
                socioambientais na Serra do Curral evidenciam disputas entre diferentes projetos de
                desenvolvimento, formas de territorialização e concepções de natureza, à luz da
                Ecologia Política e dos Estudos Organizacionais.</p>
            <p>Metodologicamente, adotou-se uma abordagem qualitativa baseada na análise documental
                de matérias jornalísticas publicadas entre março de 2018 e abril de 2025. As
                reportagens foram analisadas como artefatos discursivos que não apenas informam os
                acontecimentos, mas também produzem enquadramentos, legitimidades e sentidos sobre o
                território, os atores e as organizações envolvidas. Os resultados evidenciam que a
                mineração transforma a materialidade do território e reconfigura relações sociais,
                sentidos de pertencimento e dinâmicas institucionais. Paralelamente, movimentos de
                resistência reorganizam práticas coletivas, mobilizam memórias e saberes locais,
                pois articulam instrumentos jurídicos e culturais como estratégias de disputa. As
                organizações e instituições operam em redes complexas de poder, em que decisões
                formais produzem impactos socioecológicos, tornando indispensável incorporar justiça
                socioambiental, governança inclusiva e pluralidade epistemológica às análises
                organizacionais.</p>
            <p>Este artigo está organizado da seguinte forma: na próxima seção, apresenta-se o
                referencial teórico; na quarta, detalham-se os procedimentos metodológicos e os
                critérios de seleção do <italic>corpus</italic>; na quinta, discutem-se os
                resultados à luz da Ecologia Política e dos Estudos Organizacionais; e, por fim,
                sistematizam-se as conclusões e contribuições.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>2 OS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS NO ANTROPOCENO</title>
            <p>O Antropoceno, termo proposto por Paul Crutzen e Eugene Stoermer, designa uma época
                em que a ação humana se tornou força geológica capaz de alterar o planeta (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B14">Crutzen; Stoermer, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr"
                    rid="B45">Steffen; Crutzen; McNeill, 2007</xref>). Embora amplamente debatido
                nas ciências naturais, sua inserção nos Estudos Organizacionais é recente, ganhando
                força a partir de 2018: “Temos não apenas que nos engajar rápido com os debates
                científicos sobre o Antropoceno, mas agir rápido, se quisermos que os Estudos
                Organizacionais sejam parte da solução (e não apenas uma das fontes) da crise
                ambiental” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Figueiredo; Marquesan, 2020</xref>, p.
                307).</p>
            <p>As organizações capitalistas constituem agentes centrais da degradação ambiental,
                estruturando práticas de produção e consumo em escala global que intensificam a
                “Grande Aceleração” (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Steffen; Crutzen; McNeill,
                    2007</xref>), subordinando a natureza à lógica da acumulação e legitimando
                discursos de sustentabilidade como respostas neutras que reproduzem as mesmas
                racionalidades econômicas (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Fantinel; Marquesan,
                    2022</xref>). Os impactos não são uniformes: o Sul Global arca
                desproporcionalmente com as consequências socioambientais, apesar de menor
                responsabilidade histórica (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Nogueira; Coelho;
                    Aguiar, 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Júlio; Cabacine,
                    2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">Fantinel; Marquesan,
                2022</xref>).</p>
            <p>Os Estudos Organizacionais devem, assim, repensar bases epistemológicas e
                ontológicas, desafiando visões antropocêntricas que reduzem a natureza a recurso
                instrumental (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Marquesan; Figueiredo, 2018</xref>;
                    <xref ref-type="bibr" rid="B9">Cabacine; Fantinel, 2025</xref>). Nesse sentido,
                abordagens ecológicas, ecocêntricas e multiespécies reconhecem a agência de seres
                não humanos e a inseparabilidade ontológica entre realidade humana e mundo,
                promovendo práticas organizacionais mais éticas, inclusivas e transformadoras (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B19">Fantinel; Marquesan, 2022</xref>; <xref
                    ref-type="bibr" rid="B9">Cabacine; Fantinel, 2025</xref>).</p>
            <p>Diante de contradições estruturais, desigualdades históricas e limites de
                epistemologias centradas no Norte Global, torna-se indispensável reorientar os
                Estudos Organizacionais para reconhecer conflitos socioambientais como disputas
                políticas, ontológicas e territoriais. Nesse sentido, a Ecologia Política,
                perspectiva adotada neste artigo, desloca o foco do meio ambiente como recurso
                gerencial para um campo de disputa entre projetos de mundo, propondo alternativas
                baseadas em justiça ambiental, pluralismo e protagonismo dos territórios. A próxima
                seção investiga como essa lente crítica pode contribuir para práticas
                organizacionais mais responsivas e enraizadas na diversidade de formas de vida e
                saber.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 ECOLOGIA POLÍTICA COMO LENTE DOS CONFLITOS AMBIENTAIS</title>
            <p>Aprofundar a compreensão dos Estudos Organizacionais exige além de analisar as
                perspectivas tradicionais de gestão e eficiência, incorporar complexas interações
                entre natureza, sociedade e poder. Nesse contexto, a Ecologia Política surge como
                campo crítico, oferecendo lentes analíticas para compreender as raízes dos conflitos
                socioambientais e as dinâmicas de poder subjacentes (<xref ref-type="bibr" rid="B44"
                    >Souza, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24">Iamamoto; Lamas; Empinotti,
                    2020</xref>).</p>
            <p>Um pilar central da Ecologia Política é sua crítica aos fundamentos da ciência e da
                economia tradicionais, questionando lógicas expansionistas desvinculadas de
                princípios ecológicos e sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Boeira,
                2002</xref>). Ao desnaturalizar a associação entre eficiência e lucro, ela permite
                repensar o papel das organizações na reprodução de desigualdades socioambientais
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Lopes; Miranda, 2023</xref>). Além disso,
                valoriza saberes produzidos por camponeses, ribeirinhos, indígenas e outros atores
                sociais, reconhecendo-os como narrativas organizadoras do mundo (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B44">Souza, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11"
                    >Candiotto, 2021</xref>). Essa perspectiva amplia a análise das formas
                contemporâneas de dominação e resistência, considerando as organizações como agentes
                ativos nos processos de territorialização e desterritorialização, especialmente em
                contextos de mineralização da vida (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Leff,
                    2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B40">Porto-Gonçalves, 2006</xref>; <xref
                    ref-type="bibr" rid="B50">Zhouri; Laschefski, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr"
                    rid="B1">Acselrad, 2004</xref>).</p>
            <p>Ao integrar dimensões ecológicas, sociais e políticas, a Ecologia Política indica a
                necessidade de processos decisórios mais inclusivos e éticos, que superam a lógica
                do lucro, incorporando justiça socioambiental e preservação dos bens comuns. Assim,
                as organizações são desafiadas a se posicionarem como atores éticos, comprometidos
                com modos de produção e gestão que respeitem a diversidade de mundos e a pluralidade
                de saberes. Com isso, a Ecologia Política oferece lentes críticas essenciais para
                compreender os conflitos socioambientais e o papel das organizações na reprodução
                e/ou na contestação de desigualdades territoriais.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="methods">
            <title>4 METODOLOGIA</title>
            <p>Nesta investigação, foi adotada uma abordagem qualitativa, baseada em pesquisa
                documental de reportagens jornalísticas sobre o conflito socioambiental da Serra do
                Curral. A opção pela pesquisa documental na internet ocorreu devido à capacidade dos
                discursos midiáticos de condensar e reproduzir narrativas, posicionamentos e
                disputas em torno de questões ambientais.</p>
            <p>O <italic>corpus</italic> empírico (<xref ref-type="table" rid="T1">quadro 1</xref>)
                foi composto exclusivamente por matérias publicadas entre março de 2018 e abril de
                2025, período delimitado por marcar a intensificação dos conflitos institucionais e
                da mobilização social em torno da mineração na Serra do Curral. A busca foi
                realizada de forma sistemática em mecanismos de busca digitais e em acervos
                eletrônicos de veículos de imprensa, utilizando combinações de palavras-chave como
                “Serra do Curral”, “mineração”, “licenciamento”, “tombamento”, “TAC”, “MPF” e
                “desmatamento”.</p>
            <table-wrap id="T1">
                <label>Quadro 1</label>
                <caption>
                    <title><italic>Corpus</italic> selecionado da pesquisa</title>
                </caption>
                <table>
                    <thead>
                        <tr>
                            <th valign="top" align="center">Data</th>
                            <th valign="top" align="center">Citação</th>
                            <th valign="top" align="center">Título da matéria</th>
                        </tr>
                    </thead>
                    <tbody>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">06/03/2018</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B38">Paranaíba,
                                    2018</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Governo ignora laudo contrário à
                                mineradora que ameaça a Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">21/03/2018</td>
                            <td valign="top" align="left">Copam, 2018</td>
                            <td valign="top" align="left">Deliberação Normativa Copam n° 220, de 21
                                de março de 2018</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">16/08/2018</td>
                            <td valign="top" align="left">Vale, 2018</td>
                            <td valign="top" align="left">Empabra desliga 90% dos funcionários após
                                ter atividade suspensa na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">16/10/2020</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B34">Manuelzão,
                                    2020</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça suspende atividades da Fleurs
                                Global, que minerava ilegalmente Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">21/11/2021</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B43">Sena,
                                    2021</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Após 12 anos, mina de Águas Claras ainda
                                tem futuro incerto</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">14/12/2021</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B25">Guaicuy,
                                    2021</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Salve a Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">23/02/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">TAC, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Termo de Ajustamento de Condutas - TAC -
                                SEMAD/SUPRAM CENTRAL-DRCP</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">25/03/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B31">Manuelzão,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Carta aberta dos Conselheiros Estaduais do
                                Patrimônio Cultural à população de Minas Gerais</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">28/04/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B17">Dias,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Atos e protestos contra mineradora na
                                Serra do Curral crescem em BH</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">29/04/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B35">Muratori,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Ultimato: manifestantes ocupam a Praça da
                                Estação contra mineração na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">01/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B36"
                                    >Nascimento, 2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Grupo faz trilha em protesto contra
                                mineração na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">03/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Leão, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Quem quer salvar a Serra do Curral? Minas
                                se une para que a mineração ‘tire o pé’ da área</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">05/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B22">Godinho,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Discussão e protesto marcam audiência
                                sobre mineração na Serra do Curral (MG)</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">06/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B22">Godinho,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Artistas e intelectuais publicam manifesto
                                em defesa da Serra do Curral (MG)</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">08/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B48">Werneck,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Serra do Curral: a história do símbolo de
                                BH</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">23/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Maciel, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Zema coloca prima de chefe de mineradora
                                em órgão que decide mineração na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">25/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Pimentel, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Prefeitura de BH interdita mina da Gute
                                Sicht que estaria explorando parte da Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">29/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B15">Cruz,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">‘Enlameados’ protestam contra autorização
                                de mineração na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">31/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B48">Werneck,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Serra do Curral: PBH comprova ação de
                                mineradora antes do termo estadual</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">31/05/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Araújo; Araújo, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça dá 72h para que Gute Sicht e
                                estado de MG se manifestem sobre mineração na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">08/06/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Peixoto, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Serra do Curral: deputados de MG iniciam
                                trâmite que pode gerar tombamento</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">12/06/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B39">Parreiras,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Mineração na Serra do Curral: as suspeitas
                                que rondam a Gute Sicht</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">14/06/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">MG, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Reconhece a Serra do Curral como bem de
                                relevante interesse cultural do estado de Minas Gerais.</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">20/06/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B48">Werneck,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Serra do Curral: governo declara que
                                mineração é 'utilidade pública'</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">20/06/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Balanço Geral, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Manifestação organizada pela Associação
                                Comunitária do Taquaril e Região Leste</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">26/07/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Costa, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Protesto contra a mineração na Serra do
                                Curral acontece nesta quarta (27) em BH</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">27/07/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Rezende, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Ambientalistas fazem nova manifestação em
                                defesa da Serra do Curral na porta do TJMG, em BH</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">05/08/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Sou Ecológico, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Serra do Curral: movimento faz novo
                                protesto em frente ao tribunal</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">29/09/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Luz, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Estado determina suspensão das operações
                                minerárias da Gute Sicht na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">19/10/2022</td>
                            <td valign="top" align="left">Fiúza; Borges; Pena, 2022</td>
                            <td valign="top" align="left">MP pede, pela 2<sup>a</sup> vez, que
                                Justiça impeça licenciamento de mineradora na Serra do Curral, em
                                BH</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">31/10/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B31">Manuelzão,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Resgatamos: Gute Sicht tem operação na
                                Serra do Curral suspensa após múltiplas irregularidades</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">23/11/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B51">Zuba;
                                    Santos, 2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">PF indicia mineradoras e diretor da ANM
                                por irregularidades na Serra do Curral, em Minas Gerais</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">24/11/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B51">Zuba,
                                    2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Laudos técnicos feitos pela PF comprovam
                                crimes e práticas ilegais na extração de minério de ferro na Serra
                                do Curral, em MG</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">30/11/2022</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B51">Zuba;
                                    Mansur, 2022</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">AGU emitiu parecer contra validade de TAC
                                para liberação de mineração na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">12/01/2023</td>
                            <td valign="top" align="left">Fiúza, 2023</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça autoriza volta de mineradora e
                                multa em R$ 10 mil servidor que cancelou permissão da atividade na
                                Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">21/03/2023</td>
                            <td valign="top" align="left">Borges, 2023</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça volta a suspender atividade da
                                mineradora Fleurs Global na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">28/04/2023</td>
                            <td valign="top" align="left">Chiodi, 2023</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça suspende operações de mineradora
                                na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">10/07/2023</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B3">ALMG,
                                    2023</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Ministra dos Povos Indígenas e
                                parlamentares se mobilizam por Parque Nacional da Serra do
                                Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">14/11/2023</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B30">Lopes,
                                    2023</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Órgão fiscalizador autoriza empresa a
                                retirar minério estocado na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">14/11/2023</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B42">Salgado;
                                    Carvalho, 2024</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Governo de Minas e União autorizam
                                mineradora a voltar a operar na Serra do Curral após suspensão por
                                irregularidades</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">27/02/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Mansur; Alvim, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Vence documento que autorizava operação de
                                mineradora em área próxima à Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">18/03/2024</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B5">Andrade,
                                    2024</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Ministério Público pede à Justiça
                                suspensão de atividades de mineradora próximo à Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">20/03/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Carvalho; Salgado; Penna, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça suspende atividades de mineradora
                                que atua próximo à Serra do Curral e determina bloqueio de R$ 30
                                mi</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">05/04/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Carvalho; Salgado, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça libera retomada de processo de
                                licenciamento de mineradora que atua na Serra do Curral; atividades
                                estão suspensas</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">15/05/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Ribeiro, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">BH interdita mineradora por atividade
                                irregular na Serra do Curral e aplica multa</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">15/05/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Agência Minas, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Governo de Minas realiza três
                                fiscalizações nos últimos seis meses na mina Curumi, na Serra do
                                Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">29/05/2024</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B4">ALMG,
                                    2024</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Comissão vai verificar irregularidades na
                                mineração da Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">03/06/2024</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B4">ALMG,
                                    2024</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Deputadas contestam atuação de mineradora
                                na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">13/06/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Rezende, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça autoriza, em liminar, retorno das
                                operações de mineradora na Serra do Curral, em BH</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">20/06/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Manuelzão, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça suspende novamente retirada de
                                minério da Empabra na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">29/07/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça Federal, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Justiça Federal libera retirada de
                                material poluente da Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">02/08/2024</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B42">Salgado,
                                    2024</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Governo de MG concede licença para
                                mineradora operar na região da Serra do Curral por seis anos</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">20/08/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">BHAZ, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Serra do Curral: Justiça determina
                                imediata suspensão de atividade de mineradora</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">10/09/2024</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B4">ALMG,
                                    2024</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Mineração na Serra do Curral pauta
                                audiência</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">12/09/2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Mansur; Alvim, 2024</td>
                            <td valign="top" align="left">Empabra se compromete a encerrar
                                atividades na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">31/03/2025</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B10">Camilo,
                                    2025</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Mineradora da Serra do Curral tinha
                                esquema com servidores que fiscalizavam área</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">01/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left">G1, 2025</td>
                            <td valign="top" align="left">MPF aciona Justiça para impedir
                                desmatamento na Serra do Curral sem autorização do Ibama</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">01/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left">Milagres, 2025</td>
                            <td valign="top" align="left">Gerente da ANM em Minas é exonerado após
                                operação da PF que combateu esquema entre funcionários públicos e
                                mineradora</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">03/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B6">Augusto,
                                    2025</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Álvaro Damião se compromete a preservar
                                Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">03/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B39">Parreiras,
                                    2025</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">A teia que liga a caverna destruída em
                                Ouro Preto à Serra do Curral, em BH</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">03/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left">Salabert, 2025</td>
                            <td valign="top" align="left">Quem pagará pelos crimes contra a Serra do
                                Curral?</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">11/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left">Salgado; Zuba, 2025</td>
                            <td valign="top" align="left">Investigação aponta como Empabra forjava
                                recuperação ambiental para minerar na Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">11/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B39">Parreiras,
                                    2025</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Mais danos: por que mineração suspensa
                                virou nova ameaça à Serra do Curral</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">14/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B39">Parreiras,
                                    2025</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Mineração abandonada na Serra do Curral
                                será autuada</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">22/04/2025</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B10">Camilo,
                                    2025</xref></td>
                            <td valign="top" align="left">Mineradora ‘aniquilou’ córrego e pode ter
                                atingido lençol freático na Serra Curral, diz PF</td>
                        </tr>
                    </tbody>
                </table>
                <table-wrap-foot>
                    <attrib>Fonte: elaboração própria (2026).</attrib>
                </table-wrap-foot>
            </table-wrap>
            <p>A seleção das matérias seguiu três critérios centrais:</p>
            <list list-type="alpha-lower">
                <list-item>
                    <p>relevância direta para o conflito na Serra do Curral;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>presença de diferentes atores envolvidos na controvérsia (empresas
                        mineradoras, órgãos ambientais, Poder Judiciário, Ministério Público,
                        parlamentares, especialistas e movimentos sociais) e;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>potencial analítico para evidenciar disputas narrativas, enquadramentos
                        institucionais e controvérsias técnicas relacionadas aos modelos de
                        desenvolvimento e às formas de territorialização.</p>
                </list-item>
            </list>
            <p>A consistência do <italic>corpus</italic> foi reforçada por meio da comparação entre
                diferentes veículos sobre os acontecimentos, permitindo identificar convergências,
                divergências e padrões discursivos ao longo do período analisado.</p>
            <p>Ao todo, foram identificados 112 documentos na etapa de busca. Desse total, 47 foram
                excluídos por não atenderem aos critérios definidos; 21 por não tratarem diretamente
                do conflito na Serra do Curral (abordavam questões minerárias em outras regiões de
                Minas Gerais ou do Brasil), 15 por apresentarem conteúdo redundante em relação a
                outros documentos já incluídos no <italic>corpus</italic>, e 11 por não
                identificarem, com clareza, os atores institucionais envolvidos, o que inviabilizava
                a análise temática proposta.</p>
            <p>O <italic>corpus</italic> final foi composto por 65 documentos (<xref
                    ref-type="table" rid="T1">quadro 1</xref>). Quanto ao processo interpretativo,
                divergências analíticas entre os autores emergiram sobretudo na codificação de
                matérias que tratavam, simultaneamente, de aspectos jurídicos e de mobilização
                social, tornando ambígua sua alocação entre as categorias “Instituições, valores e
                interesses em colisão” e “Poder, resistência e organização sociopolítica”. Nesses
                casos, adotou-se o critério de ênfase discursiva predominante no documento, quando o
                enquadramento central recaía sobre instrumentos normativos e decisões
                institucionais, o documento foi alocado na primeira categoria; quando o foco
                narrativo recaía sobre práticas coletivas e estratégias de contestação, foi alocado
                na segunda. As divergências foram resolvidas por consenso após rodadas de releitura
                e discussão entre os autores.</p>
            <p>A composição do <italic>corpus</italic> buscou refletir múltiplas perspectivas
                discursivas, o que abrangeu jornais de grande circulação, mídias alternativas,
                portais independentes, documentos oficiais e comunicados de universidades e órgãos
                públicos. Essa diversidade permitiu obter uma visão plural do conflito, revelando
                como distintos campos (político, acadêmico, comunitário e midiático) constroem e
                disputam sentidos sobre a Serra do Curral.</p>
            <p>Foi adotada a análise temática conforme <xref ref-type="bibr" rid="B8">Braun e Clarke
                    (2006)</xref>, compreendida como um método sistemático de identificação,
                organização e interpretação de padrões de sentido (temas) em dados textuais. A
                codificação foi realizada orientada pelas recorrências discursivas identificadas nas
                reportagens, mas articulada ao referencial teórico da Ecologia Política e dos
                Estudos Organizacionais. Assim, as categorias analíticas (<xref ref-type="table"
                    rid="T2">quadro 2</xref>) não foram previamente definidas, mas construídas
                mediante convergência entre padrões empíricos recorrentes e conceitos teóricos
                consolidados na literatura (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Braun; Clarke,
                    2006</xref>).</p>
            <table-wrap id="T2">
                <label>Quadro 2</label>
                <caption>
                    <title>Categorias e temas</title>
                </caption>
                <table>
                    <thead>
                        <tr>
                            <th valign="top" align="center">Categoria</th>
                            <th valign="top" align="center">Temas</th>
                            <th valign="top" align="center">Descrição</th>
                            <th valign="top" align="center">Fundamentação</th>
                        </tr>
                    </thead>
                    <tbody>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Territorialização e
                                desterritorialização</td>
                            <td valign="top" align="left">Vocabulário e metáforas espaciais
                                (“ocupação”, “degradação”, “proteção”); descrições geográficas
                                detalhadas.</td>
                            <td valign="top" align="left">Relação entre disputas narrativas e
                                processos históricos de ocupação; apropriação econômica
                                    <italic>versus</italic> proteção socioambiental; conflitos
                                fundiários.</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B40"
                                    >Porto-Gonçalves (2006)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B50"
                                    >Zhouri e Laschefski (2010)</xref>; <xref ref-type="bibr"
                                    rid="B2">Acselrad (2010)</xref>.</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Injustiça ambiental e desigualdades
                                socioespaciais</td>
                            <td valign="top" align="left">Termos que indicam vulnerabilidade
                                (“impactos”, “comunidades afetadas”); intensidade e modalização;
                                recursos visuais e estatísticas.</td>
                            <td valign="top" align="left">Inserção das desigualdades no contexto
                                estrutural de injustiça ambiental; distribuição desigual de riscos e
                                benefícios; marginalização de comunidades.</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B28">Leff
                                    (2001)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B1">Acselrad
                                    (2004)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Martínez-Alier
                                    (2007)</xref>.</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Instituições, valores e interesses em
                                colisão</td>
                            <td valign="top" align="left">Expressões de conflito (“choque de
                                interesses”, “decisão polêmica”); uso de voz ativa/passiva para
                                responsabilizar ou omitir agentes.</td>
                            <td valign="top" align="left">Disputa por modelos de desenvolvimento e
                                tensões entre crescimento econômico, preservação ambiental e valores
                                culturais.</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B49">Zhouri
                                    (2019)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B47">Svampa
                                    (2019)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Marquesan e
                                    Figueiredo (2018)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B34"
                                    >Matarazzo e Sales (2020)</xref>.</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Poder, resistência e organização
                                sociopolítica</td>
                            <td valign="top" align="left">Verbos de autoridade e ação coletiva;
                                marcadores de legitimidade e criminalização nas disputas pela
                                reconfiguração do território.</td>
                            <td valign="top" align="left">Estratégias de resistência à mineração,
                                evidenciando como movimentos, artistas, instituições e coletivos
                                locais contestam e reconfiguram o território por meio de ações
                                simbólicas, jurídicas, culturais e comunitárias.</td>
                            <td valign="top" align="left"><xref ref-type="bibr" rid="B18">Escobar
                                    (2008)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B29">Leite e Fantinel
                                    (2024)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">Fantinel e
                                    Marquesan (2022)</xref>.</td>
                        </tr>
                    </tbody>
                </table>
                <table-wrap-foot>
                    <attrib>Fonte: elaboração própria (2026).</attrib>
                </table-wrap-foot>
            </table-wrap>
            <p>Aplicando essa abordagem, compreende-se como os conflitos socioambientais da Serra do
                Curral são narrados e disputados. Por meio da leitura exploratória e sistemática do
                    <italic>corpus</italic>, identificaram-se padrões de enquadramento, recorrências
                terminológicas e estratégias discursivas que convergiram nas quatro categorias
                apresentadas. Essas categorias permitiram analisar o conflito não apenas como evento
                isolado, mas também como processo organizacional e político que articula
                territorialização, poder, desigualdade e resistência no espaço público.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>5 CONTEXTUALIZAÇÃO: TERRITÓRIO, MEMÓRIA E CONFLITO</title>
            <p>Ao analisar os conflitos na Serra do Curral, buscou-se resgatar seu processo
                histórico como território de disputas materiais, simbólicas e políticas (<xref
                    ref-type="fig" rid="F1">figura 1</xref>). Mais do que um evento geográfico, a
                Serra é reconhecida como um marco identitário de Belo Horizonte desde sua fundação,
                integrando o imaginário urbano e a memória coletiva da cidade.</p>
            <fig id="F1">
                <label>Figura 1</label>
                <caption>
                    <title>Linha do tempo com os principais eventos sobre a Serra do Curral</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="1984-7297-regea-15-01-e6400-gf01.tif"/>
                <attrib>Fonte: elaboração própria (2026).</attrib>
            </fig>
            <p>Ao longo do século XX, a Serra do Curral passou por sucessivas intervenções que a
                afastaram de seu papel de marco paisagístico e espaço de vida, transformando-a em
                área estratégica para a expansão urbana e a exploração mineral. O tombamento pelo
                IPHAN, na década de 1960, reconheceu seu valor cultural e ambiental, mas não conteve
                o avanço das atividades minerárias, que se intensificaram nas décadas seguintes.</p>
            <p>A partir dos anos 2000, a Serra do Curral entrou em um novo ciclo de conflitos,
                revelando as tensões entre projetos de preservação e interesses econômicos. A
                expansão do extrativismo em Minas Gerais tornou mais evidente a insustentabilidade
                do modelo minerário, e a Serra passou a simbolizar a encruzilhada entre a
                continuidade desse paradigma e a emergência de novas perspectivas de justiça
                socioambiental.</p>
            <p>Em 2018, a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara Municipal de
                Belo Horizonte revelou indícios de mineração irregular na Serra do Curral,
                impulsionando denúncias, mobilizações e questionamentos de diversos setores da
                sociedade. Nos anos seguintes, especialmente em 2022, o caso da empresa Gute Sicht
                tornou-se emblemático: sua tentativa de operar na área desencadeou ampla reação
                social, com manifestações, ações judiciais, protestos e participação ativa de
                artistas, intelectuais e comunidades locais. Nesse mesmo período, o poder público
                estadual, embora tenha reconhecido a Serra como bem de relevante interesse cultural,
                declarou a mineração atividade de utilidade pública, evidenciando as contradições
                que marcam sua própria atuação.</p>
            <p>Entre 2023 e 2024, o conflito em torno da Serra do Curral se intensificou. A atuação
                de mineradoras como Fleurs Global e Empabra, marcada por denúncias de fraudes em
                licenciamento, omissão de informações e conivência de órgãos fiscalizadores,
                consolidou a Serra como um dos principais símbolos da crise institucional e
                ambiental em Minas Gerais. Laudos da Polícia Federal confirmaram crimes ambientais e
                revelaram esquemas de corrupção, envolvendo servidores públicos, enquanto o
                Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal ampliaram a
                judicialização do caso por meio de ações civis públicas. Nesse mesmo período, a Vale
                cedeu parte da área da Mina de Águas Claras, em regime de comodato, para a expansão
                do Parque da Serra do Curral, gesto interpretado por muitos como uma estratégia de
                recomposição simbólica diante do desgaste reputacional da empresa.</p>
            <p>A cada novo episódio, a Serra do Curral reafirma-se como um território de conflito
                ontológico: de um lado, corporações e agentes estatais que concebem a natureza como
                recurso explorável e ativo econômico; de outro, coletivos, moradores e instituições
                que a reconhecem como bem comum, espaço de vida e de memória. Essa tensão reflete o
                embate entre ontologias econômicas e territoriais (<xref ref-type="bibr" rid="B18"
                    >Escobar, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B29">Leite; Fantinel,
                    2024</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Cabacine; Fantinel, 2025</xref>),
                evidenciando o que a Ecologia Política denomina de disputa entre projetos de mundo
                inconciliáveis (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Martínez-Alier, 2007</xref>). Nesse
                sentido, a Serra torna-se expressão concreta das contradições do Antropoceno (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B14">Crutzen; Stoermer, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr"
                    rid="B20">Figueiredo; Marquesan, 2020</xref>) e das assimetrias que marcam a
                relação entre organização, sociedade e natureza.</p>
            <p>Diante desse breve panorama histórico, a seguir, são apresentadas as categorias
                analíticas (<xref ref-type="table" rid="T2">quadro 2</xref>) construídas a partir da
                análise temática das reportagens.</p>
            <sec>
                <title>5.1 TERRITORIALIZAÇÃO E DESTERRITORIALIZAÇÃO</title>
                <p>A Serra do Curral constitui um exemplo expressivo de como territórios urbanos e
                    ambientais se tornam arenas de disputa organizacional, nas quais corporações
                    mineradoras, órgãos públicos, movimentos sociais e comunidades locais competem
                    por significar e projetar o futuro de um espaço. Nesse cenário, os discursos e
                    as práticas em torno da Serra do Curral evidenciam processos de
                    territorialização e desterritorialização: de um lado, esforços de preservação
                    que reafirmam a serra como bem comum e elemento da memória coletiva; de outro,
                    pressões pela exploração mineral, amparadas por uma racionalidade instrumental
                    que associa progresso à acumulação de capital. O conflito, portanto, explicita
                    disputas ontológicas sobre o que significa viver, organizar e produzir em
                    relação ao território (<xref ref-type="bibr" rid="B49">Zhouri, 2019</xref>;
                        <xref ref-type="bibr" rid="B18">Escobar, 2008</xref>).</p>
                <p>O contraste aparece de forma contundente no trecho de uma reportagem (<xref
                        ref-type="fig" rid="F2">figura 2</xref>).</p>
                <fig id="F2">
                    <label>Figura 2</label>
                    <caption>
                        <title>Reportagem sobre Protesto na Serra do Curral</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1984-7297-regea-15-01-e6400-gf02.tif"/>
                    <attrib>Fonte: R7 Minas Gerais (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Nascimento,
                            2022</xref>).</attrib>
                </fig>
                <p>Tal dimensão evidencia a escala da devastação prevista e a lógica de
                    desterritorialização que converte um patrimônio natural em mercadoria, colocando
                    em risco ecossistemas frágeis e bens coletivos. Conforme argumentam <xref
                        ref-type="bibr" rid="B19">Fantinel e Marquesan (2022)</xref>,
                    empreendimentos como a mineração e o agronegócio frequentemente se articulam com
                    o apoio do Estado, reproduzindo uma racionalidade extrativista voltada ao
                    abastecimento do Norte Global e à externalização dos danos sobre o Sul. Nessa
                    mesma linha, <xref ref-type="bibr" rid="B47">Svampa (2019)</xref> define o
                    extrativismo como um modelo de acumulação baseado na apropriação intensiva dos
                    bens naturais, sustentado por alianças entre corporações e governos. A Serra do
                    Curral insere-se, assim, nesse circuito de colonialidade ambiental, em que os
                    lucros são privatizados, enquanto os custos sociais e ecológicos recaem sobre as
                    comunidades locais.</p>
                <p>A retórica empresarial e estatal insiste em enquadrar a mineração como atividade
                    de “utilidade pública”, necessária para geração de empregos e dinamização
                    econômica (<xref ref-type="bibr" rid="B48">Werneck, 2022</xref>). Tal narrativa
                    é vista nos Estudos Organizacionais como uma estratégia discursiva para
                    legitimar práticas de exploração, mascarando os interesses privados e as
                    dimensões políticas, sociais e éticas por trás de decisões apresentadas como
                    puramente técnicas ou econômicas. Na prática, como alerta a Ecologia Política,
                    trata-se de um discurso típico do neoextrativismo periférico (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B23">Gudynas, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B46">Svampa, 2012</xref>), no qual os projetos minerários são
                    apresentados como inevitáveis e modernizadores, ainda que concentrem lucros nas
                    corporações e distribuam riscos e danos para comunidades vulneráveis.</p>
                <p>A materialidade dos conflitos revela a fragilidade da retórica que sustenta o
                    avanço da mineração em território brasileiro. Relatórios da Polícia Federal e do
                    Ministério Público expuseram práticas de mineradoras que operaram por anos sem
                    um licenciamento válido. Simulando ações de “recuperação ambiental” para
                    encobrir sua exploração ilegal, essas empresas não apenas comprometeram a
                    qualidade das águas, mas também causaram a destruição de nascentes e a possível
                    contaminação do lençol freático (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Camilo,
                        2025</xref>). Este <italic>modus operandi</italic> evidencia uma abdicação
                    explícita do Estado em sua função regulatória, favorecendo empreendimentos
                    corporativos sob a justificativa de modernização e eficiência econômica (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B49">Zhouri, 2019</xref>).</p>
                <p>Contudo, no território surgiram as resistências sociais que territorializam a
                    Serra do Curral sob novas bases ontológicas, conforme reportagem do Instituto
                    Guaicuy na <xref ref-type="fig" rid="F3">figura 3</xref>.</p>
                <fig id="F3">
                    <label>Figura 3</label>
                    <caption>
                        <title>Reportagem Instituto Guaicuy</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1984-7297-regea-15-01-e6400-gf03.tif"/>
                    <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B25">Instituto Guaicuy
                        (2021)</xref>.</attrib>
                </fig>
                <p>Essa perspectiva desloca a lógica economicista e apresenta a Serra como espaço de
                    memória e identidade local. Ela não se limita à retórica: reconfigura práticas
                    organizacionais por meio de protestos, ações judiciais, intervenções artísticas
                    e articulações comunitárias que desafiam enquadramentos oficiais e corporativos.
                    Ao criticar o papel do Estado e das corporações, evidenciam-se fragilidades
                    institucionais e lança-se um apelo à ação, já que estão em jogo não apenas
                    recursos naturais, mas a dignidade e a identidade da população local,
                    evidenciando as marcas profundas deixadas pela mineração, como no caso da Mina
                    de Águas Claras.</p>
                <disp-quote>
                    <p>Passados 12 anos do fechamento da mina de Águas Claras, na Serra do Curral,
                        que divide os municípios de Belo Horizonte e Nova Lima, a destinação futura
                        da área de 2.066 hectares ainda é uma incógnita. Na época do fechamento,
                        iniciado em 2001, a mineradora Vale chegou a anunciar a implantação no local
                        de um empreendimento imobiliário de alto luxo (<xref ref-type="bibr"
                            rid="B43">Sena, 2021</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>O vazio deixado pela mineração evidencia seu caráter predatório: ecossistemas e
                    comunidades são desestruturados, enquanto o uso futuro permanece incerto,
                    revelando falta de compromisso em longo prazo. Segundo <xref ref-type="bibr"
                        rid="B1">Acselrad (2004)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B47">Svampa
                        (2019)</xref>, essa lógica implica colonização dos territórios e
                    redistribuição desigual dos danos ambientais, o que deixa um legado de
                    degradação e incertezas que desafia as comunidades a reconstruírem suas
                    vidas.</p>
                <p>A disputa pela Serra do Curral é simultaneamente material e simbólica,
                    manifestando-se tanto na destruição ambiental, nos riscos à saúde e nas ameaças
                    aos modos de vida, quanto na disputa por significados que definem o futuro do
                    território: desenvolvimento ou preservação, jazida ou bem comum, recurso ou
                    patrimônio. Essa dupla dimensão é atestada empiricamente pelas fontes
                    analisadas: de um lado, laudos da Polícia Federal e relatórios do Ministério
                    Público (<xref ref-type="bibr" rid="B51">Zuba; Mansur, 2022</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B10">Camilo, 2025</xref>) documentam destruição de
                    nascentes e contaminação do lençol freático; de outro, manifestos culturais e
                    reportagens de mobilização (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Godinho,
                    2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B31">Manuelzão, 2022</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B17">Dias, 2022</xref>) registram a construção coletiva
                    de narrativas de pertencimento e resistência. A articulação entre essas
                    evidências sustenta a interpretação de que os processos de territorialização e
                    desterritorialização na Serra do Curral não são apenas técnicos ou econômicos,
                    mas profundamente políticos e ontológicos.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>5.2 INJUSTIÇA AMBIENTAL E DESIGUALDADES SOCIOESPACIAIS</title>
                <p>A Serra do Curral é um espaço de tensões complexas, em que os conflitos vão além
                    da disputa por recursos naturais, envolvendo a defesa da dignidade e dos
                    direitos das comunidades locais. A mineração atua como prática extrativista e
                    campo de contradições, transformando a exploração em narrativa de progresso
                    frequentemente à custa da saúde, da vida e da cultura comunitária (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B47">Svampa, 2019</xref>). A lógica extrativista
                    promove o tratamento das comunidades como obstáculos ao lucro, enquanto os
                    impactos ambientais e sociais permanecem invisibilizados. O gesto simbólico de
                    ativistas que distribuíram jarros de água contaminada exemplifica essa tensão:
                    “Os ativistas levavam jarros com água suja de lama e ofereciam às pessoas. O ato
                    teve o objetivo de denunciar que a mineração na região poderá impactar também no
                    abastecimento de água” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Cruz, 2022</xref>).</p>
                <p>A poluição atmosférica, causada por poeira e detonações, reforça os custos
                    invisíveis da mineração e expõe negligência social em face da saúde pública
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dias, 2022</xref>). A Ecologia Política
                    evidencia que essas disputas se dão nos planos material, político e simbólico,
                    envolvendo controle territorial e representação do espaço (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B50">Zhouri; Laschefski, 2010</xref>). A resistência das comunidades
                    afirma identidades culturais e modos de vida historicamente ligados ao
                    território, transformando a Serra em espaço de memória. Propostas de criação de
                    um Parque Nacional, abrangendo sete municípios e 27 mil hectares, articuladas à
                    participação comunitária, deslocam o debate da conservação paisagística para a
                    defesa de direitos territoriais (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ALMG,
                        2023</xref>). Makota Cássia Kidoialê, do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango,
                    sintetiza essa perspectiva:</p>
                <disp-quote>
                    <p>É preciso pensar num modelo de parque diferente, que nos contemple. Nós, que
                        fazemos parte da Serra e dependemos da Serra para existir. Será aberto 24
                        horas? Terá espaço para nossos rituais? A gestão será sensível quanto às
                        nossas questões? A pressão que temos vivido é absurda. Nossa luta tem sido
                        incansável, estamos vivendo em condições precárias. Qual o compromisso desse
                        Estado de que não seremos mais impedidos de viver e não seremos excluídos?
                            (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ALMG, 2023</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Sua fala evidencia a crítica ao modelo de preservação hegemônico que invisibiliza
                    as vozes históricas do território. Quando dissociada das práticas culturais e
                    sociais, a preservação ambiental torna-se ferramenta de exclusão e
                    marginalização de comunidades dependentes da terra. A retórica institucional, ao
                    justificar a suspensão de Termos de Ajustamento de Conduta em nome da “segurança
                    jurídica”, evidencia a conivência entre poder público e interesses corporativos
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B48">Werneck, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B51">Zuba; Mansur, 2022</xref>), enquanto os instrumentos legais
                    funcionam mais como premiação à violação ambiental do que como proteção.</p>
                <p>Como lembra <xref ref-type="bibr" rid="B27">Latour (2017)</xref>, no Antropoceno,
                    decisões humanas impactam não apenas economia e política, mas o próprio futuro
                    planetário, mostrando que sociedade e natureza estão inseparavelmente ligadas. A
                    luta pela justiça ambiental na Serra do Curral, portanto, defende a vida, os
                    direitos humanos, a biodiversidade e a cultura, exigindo reflexão crítica sobre
                    desenvolvimento e governança ambiental.</p>
                <p>As evidências documentais revelam que os grupos mais afetados pelos impactos da
                    mineração na Serra do Curral incluem comunidades periféricas da região leste de
                    Belo Horizonte, como o bairro Taquaril, povos e comunidades de terreiros, a
                    exemplo do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ALMG,
                        2023</xref>), e populações que dependem do abastecimento hídrico proveniente
                    das nascentes da Serra (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Cruz, 2022</xref>).</p>
                <p>Os danos específicos registrados incluem poluição do ar por poeira e detonações
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Dias, 2022</xref>), risco de contaminação
                    do lençol freático (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Camilo, 2025</xref>),
                    destruição de córregos e comprometimento de áreas de uso ritual e cultural. A
                    distribuição desigual desses riscos, que recaem predominantemente sobre
                    populações negras, periféricas e tradicionais, enquanto os benefícios econômicos
                    da extração mineral são apropriados por corporações privadas, configura um
                    padrão estrutural de injustiça ambiental (<xref ref-type="bibr" rid="B33"
                        >Martínez-Alier, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B1">Acselrad,
                        2004</xref>).</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>5.3 INSTITUIÇÕES, VALORES E INTERESSES EM COLISÃO</title>
                <p>A Serra do Curral vai além de um acidente geográfico: é um campo de forças no
                    qual se confrontam ontologias, regimes de verdade e projetos de sociedade. Nesse
                    espaço, o desenvolvimento é disputado como gramática econômica, imaginação
                    política e experiência vivida. Na perspectiva da Ecologia Política, a simples
                    reorganização de instrumentos técnico-normativos é insuficiente. Torna-se
                    necessário reconhecer saberes, valores culturais e formas de relação com o
                    território que colocam a vida em sua plenitude no centro das decisões coletivas,
                    recolocando a questão ambiental como uma disputa civilizatória (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B28">Leff, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2"
                        >Acselrad, 2010</xref>).</p>
                <p>A análise aproxima-se da crítica de <xref ref-type="bibr" rid="B19">Fantinel e
                        Marquesan (2022)</xref>, que destacam a relevância de saberes plurais e não
                    hegemônicos, frequentemente marginalizados nos circuitos dominantes de produção
                    de conhecimento. Defender esses saberes constitui, portanto, uma questão
                    simultaneamente epistemológica e política, pois reintegrar valores culturais,
                    identidades territoriais e práticas historicamente marginalizadas pode oferecer
                    alternativas concretas para enfrentar a crise socioambiental contemporânea.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B32">Marquesan e Figueiredo (2018)</xref> mostram como
                    práticas capitalistas foram ressignificadas, mantendo legitimidade por meio de
                    conceitos ambíguos como sustentabilidade e economia verde. Essa despolitização,
                    baseada em soluções técnicas do liberalismo econômico (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B49">Zhouri, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B34">Matarazzo;
                        Sales, 2020</xref>), mascara o papel do Estado como ator imerso em redes de
                    poder que favorecem interesses corporativos. A mineração, enquadrada como
                    utilidade pública e interesse nacional (<xref ref-type="bibr" rid="B48">Werneck,
                        2022</xref>), antecipa soluções como crescimento e empregos e posterga a
                    questão essencial: quem paga a conta ecológica, social e territorial?</p>
                <p>É nesse cenário que emerge a engrenagem institucional marcada por contradições
                    estruturais. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) relativiza
                    denúncias de seus próprios órgãos, classificando-as como “isoladas” e relegando
                    os impactos potenciais da mineração ao rito futuro do licenciamento.</p>
                <disp-quote>
                    <p>A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) classifica o documento como
                        “isolado” e desqualifica as denúncias apresentadas no trabalho de um de seus
                        próprios órgãos. A pasta sustenta que possíveis impactos ambientais da
                        mineração no local serão previstos no processo em trâmite de licenciamento
                        ambiental e, se houver danos, a empresa terá obrigação de repará-los (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B38">Paranaíba, 2018</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>A passagem revela uma estratégia discursiva que desloca a responsabilidade: em
                    vez de precaução, opta-se pela reparação; em vez de prevenção, admite-se o risco
                    como premissa operacional. Licenças são concedidas primeiro e prometem mitigar
                    danos depois. Denúncias internas são desqualificadas como “isoladas”,
                    silenciando vozes técnicas contrárias e transferindo os riscos à sociedade,
                    enquanto legitima a continuidade da atividade extrativa.</p>
                <p>O uso expansivo dos Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) substitui o
                    licenciamento ambiental adequado. Instrumentos originalmente corretivos passam a
                    autorizar a operação minerária sem participação pública efetiva ou contraditório
                    qualificado, reconfigurando a própria fronteira da legalidade e permitindo que
                    atividades contestadas avancem sob o manto de acordos administrativos (<xref
                        ref-type="fig" rid="F4">figura 4</xref>).</p>
                <fig id="F4">
                    <label>Figura 4</label>
                    <caption>
                        <title>Reportagem do Estado de Minas</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1984-7297-regea-15-01-e6400-gf04.tif"/>
                    <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B39">Parreiras (2022)</xref>.</attrib>
                </fig>
                <p>O caso do TAC firmado entre a Mineração Gute Sicht e a Semad ilustra essa
                    dinâmica. A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) questionou formalmente o
                    instrumento, enfatizando que áreas tombadas não poderiam ser objeto de
                    intervenção sem as devidas licenças. O próprio texto do TAC explicita tal
                    exigência, mas de forma paradoxal.</p>
                <disp-quote>
                    <p>Vários itens estabelecidos no TAC assinado entre a Mineração Gute Sicht e a
                        Semad vêm sendo questionados pela PBH e alguns podem até ser interpretados
                        como não sendo cumpridos pelas partes. Já no segundo parágrafo da primeira
                        cláusula, o TAC é claro ao determinar que “não antecipa ou afasta a
                        necessidade de obtenção de certidões, alvarás, licenças e autorizações de
                        qualquer natureza, exigidos pela legislação federal, estadual ou municipal,
                        marcadamente licença ambiental, autorização para intervenção ambiental e
                        outorga de direito de uso de recursos hídricos, que, porventura, façam-se
                        exigíveis”. A PBH alega não ter autorizado qualquer intervenção na sua área
                        tombada da Serra do Curral (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Parreiras,
                            2022</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Ainda que o TAC reconheça formalmente a necessidade de licenças e autorizações,
                    na prática, permite a continuidade da atividade minerária sem que essas
                    condições sejam previamente atendidas. Cria-se, assim, uma ambiguidade: o que é
                    declarado como exigência torna-se, ao mesmo tempo, dispensável pela prática
                    institucional. A narrativa oficial sustenta a legalidade, mas o efeito material
                    é a manutenção da ilegalidade sob forma legalizada.</p>
                <p>Esse mecanismo repete-se em outros casos. A ANM e a Feam autorizaram a Empabra a
                    extrair e comercializar minério sob a condição de apresentação de um PRAD e de
                    um Plano de Fechamento de Mina (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Salgado;
                        Carvalho, 2024</xref>). No entanto, denúncias apontam que tais licenças
                    estariam sendo usadas como pretexto para a continuidade da extração (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B4">ALMG, 2024</xref>). A Polícia Federal também
                    destacou a insuficiência das medidas mitigadoras nos TACs com Gute Sicht e
                    Fleurs Global, revelando a perversão do instrumento, que passa a regular a
                    permanência do dano em vez de interrompê-lo (<xref ref-type="bibr" rid="B51"
                        >Zuba, 2022</xref>).</p>
                <p>Esse padrão não é episódico, mas sistêmico. Ele compõe o que a literatura crítica
                    nomeia captura institucional: quando estruturas estatais, seus procedimentos e
                    até suas nomeações passam a operar sob a lógica do setor regulado. A
                    desconsideração de laudos técnicos, como os do IEF, o cancelamento de autos de
                    infração e a postergação de processos de tombamento não são anomalias, mas
                    mecanismos reiterados de uma governança que reordena prioridades e redistribui
                    riscos (<xref ref-type="bibr" rid="B50">Zhouri; Laschefski, 2010</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B2">Acselrad, 2010</xref>). Esse processo se manifesta
                    por estratégias de legitimação (discurso de autoridade técnico-jurídica),
                    modalização (minimização das incertezas) e apagamento (silenciamento de vozes
                    locais e técnicas dissidentes). Assim, constrói-se uma narrativa que se pretende
                    neutra e racional, mas que, de fato, esvazia o político do conflito e desloca o
                    interesse público para a margem.</p>
                <p>Esse arranjo é emblemático do modo como a governança ambiental mineira vem sendo
                    tensionada. O próprio documento do Projeto Manuelzão é incisivo:</p>
                <disp-quote>
                    <p>A contradição entre atos administrativos adotados com motivação técnica em
                        contraposição a outros tomados posteriormente em benefício da mineradora –
                        com evidente motivação política -, demonstra inequívoco afastamento da
                        conduta de membros do governo de Romeu Zema dos princípios da primazia do
                        interesse público, da razoabilidade, da isonomia e da boa-fé (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B31">Manuelzão, 2022</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>A citação evidencia a captura institucional que favorece o setor minerário,
                    deslocando o princípio de precaução e normalizando danos ambientais como etapa
                    do desenvolvimento. Licenciamento e TACs, em vez de instrumentos de controle
                    democrático, funcionam como tecnologias jurídicas de continuidade extrativista.
                    Contudo, quando a institucionalidade falha, resistências surgem pelas bordas:
                    associações, coletivos, pesquisadores, Ministério Público, movimentos sociais e
                    comunidades mobilizam afetos, memórias e pertencimentos para defender o comum. O
                    pleito de tombamento estadual da Serra do Curral vai além da proteção
                    paisagística, restaurando a Serra como espaço de vida, de água, de clima e de
                    cultura.</p>
                <p>Os achados desta categoria estão diretamente ancorados em fontes documentais que
                    registram a sequência de decisões contraditórias analisadas, a desconsideração
                    de laudos técnicos do IEF (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Paranaíba,
                        2018</xref>), a concessão e o posterior questionamento do TAC com a Gute
                    Sicht (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Parreiras, 2022</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B51">Zuba; Mansur, 2022</xref>), a indiciação de
                    servidores públicos pela Polícia Federal (<xref ref-type="bibr" rid="B51">Zuba;
                        Santos, 2022</xref>) e a autorização de licença de operação mesmo após
                    múltiplas irregularidades comprovadas (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Salgado,
                        2024</xref>). Esse conjunto de evidências sustenta a interpretação de que a
                    colisão entre instituições, valores e interesses na Serra do Curral não é
                    episódica, mas constitutiva da governança ambiental mineira no período
                    analisado.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>5.4 PODER, RESISTÊNCIA E ORGANIZAÇÃO SOCIOPOLÍTICA</title>
                <p>Os conflitos em torno da Serra do Curral ultrapassam a questão da extração
                    mineral: trata-se de disputas simbólicas, políticas e epistemológicas sobre quem
                    tem o direito de decidir o futuro de um território. As manifestações nas ruas,
                    conforme a <xref ref-type="fig" rid="F5">figura 5</xref>, demonstram como a
                    resistência se expressa em enunciados curtos e diretos: “Fora Zema”, “Fora
                    Tamisa”, “A Serra é nossa”, que condensam indignação e denúncia (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B15">Cruz, 2022</xref>). Esses enunciados funcionam
                    como contradiscursos que desnudam a dimensão política do licenciamento ambiental
                    e revelam a assimetria de poder que sustenta o extrativismo.</p>
                <fig id="F5">
                    <label>Figura 5</label>
                    <caption>
                        <title>Manifestações contra a mineração na Serra do Curral</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1984-7297-regea-15-01-e6400-gf05.tif"/>
                    <attrib>Fonte: jornal Estado de Minas (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Cruz,
                            2022</xref>).</attrib>
                </fig>
                <p>A resistência emerge em múltiplas escalas. No campo comunitário, caminhadas,
                    vigílias e mutirões ecológicos produzem pertencimento e afirmam o território
                    como espaço de vida e memória, uma racionalidade oposta à lógica tecnocrática da
                    gestão de risco (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Acselrad, 2004</xref>). No campo
                    cultural, o movimento “Tira o Pé da Minha Serra” e a carta aberta assinada por
                    artistas e intelectuais, como Krenak, Conceição Evaristo e Chico Buarque,
                    transformam a Serra em símbolo de dignidade coletiva e horizonte de futuro
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Godinho, 2022</xref>). Aqui, arte e cultura
                    operam como formas de resistência estética e política, ampliando o alcance e a
                    legitimidade.</p>
                <p>No plano institucional, o Ministério Público, Conselhos de Patrimônio e setores
                    do Legislativo atuam como contrapoderes internos, denunciando a captura
                    corporativa do Estado e a falsa neutralidade das audiências públicas (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B31">Manuelzão, 2022</xref>). Essas ações revelam que o
                    estado mineiro é campo de disputa e não bloco monolítico, ainda que a governança
                    ambiental siga orientada à legitimação da destruição. Nos Estudos
                    Organizacionais, essa resistência expressa o esforço de reimaginar o que é
                    “organização” quando o que está em jogo são territórios vivos. Propostas
                    ontológicas relacionais e multiespécies (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Júlio;
                        Cabacine, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B29">Leite; Fantinel,
                        2024</xref>) ajudam a compreender práticas de ativistas, como ilustrado na
                        <xref ref-type="fig" rid="F5">figura 5</xref>, que, por meio de cartazes,
                    jarros de barro e performances, demonstram modos de organização insurgente que
                    encenam a Serra como corpo coletivo, e não como ativo econômico.</p>
                <p>As evidências documentais que fundamentam esta categoria abrangem desde
                    reportagens sobre manifestações de rua (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Cruz,
                        2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Dias, 2022</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B35">Muratori, 2022</xref>) e manifestos culturais
                    assinados por artistas e intelectuais (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Godinho,
                        2022</xref>) até registros de ações judiciais movidas pelo Ministério
                    Público Federal (<xref ref-type="bibr" rid="B21">MPF [...], 2025</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B5">Andrade, 2024</xref>) e mobilizações parlamentares
                    pela criação do Parque Nacional da Serra do Curral (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B3">ALMG, 2023</xref>). A pluralidade de atores e estratégias
                    evidenciada nessas fontes, desde performances de rua com jarros de lama até
                    liminares judiciais e comprometimentos públicos de gestores (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B6">Augusto, 2025</xref>), demonstra que a resistência
                    ao extrativismo na Serra não é homogênea, mas multiescalar e politicamente
                    heterogênea, o que reforça sua centralidade analítica para os Estudos
                    Organizacionais críticos.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>5.5 SÍNTESE DOS RESULTADOS E IMPLICAÇÕES</title>
                <p>No <xref ref-type="table" rid="T3">quadro 3</xref>, são sintetizadas as dimensões
                    centrais do conflito na Serra do Curral e suas implicações para os Estudos
                    Organizacionais. Cada categoria evidencia como atores diversos (comunidades,
                    movimentos sociais, corporações mineradoras e órgãos públicos) articulam
                    interesses, valores e saberes em disputa pelo território. A mineração aparece
                    não apenas como questão econômica ou técnica, mas como arena de poder simbólico,
                    desigualdades socioespaciais e mobilização cultural. A resistência se manifesta
                    materialmente e por meio de práticas discursivas, artísticas, jurídicas e
                    científicas, reconfigurando lógicas organizacionais e desafiando narrativas
                    hegemônicas. Para os Estudos Organizacionais, isso exige repensar a organização
                    como fenômeno situado, político e relacional, em que território, conhecimento e
                    mobilização social são centrais à análise.</p>
                <table-wrap id="T3">
                    <label>Quadro 3</label>
                    <caption>
                        <title>Síntese de resultados e implicações para os Estudos
                            Organizacionais</title>
                    </caption>
                    <table>
                        <thead>
                            <tr>
                                <th valign="top" align="center">Categoria</th>
                                <th valign="top" align="center">Resultados</th>
                                <th valign="top" align="center">Implicações</th>
                            </tr>
                        </thead>
                        <tbody>
                            <tr>
                                <td valign="top" align="left">Territorialização e
                                    desterritorialização</td>
                                <td valign="top" align="left">A Serra do Curral é simultaneamente
                                    patrimônio cultural, recurso econômico e território de vida. A
                                    mineração impõe lógica mercantil que transforma bens comuns em
                                    mercadorias, enquanto outros atores buscam reposicionar o
                                    território.</td>
                                <td valign="top" align="left">Revela que organizações não são
                                    sistemas neutros; elas produzem e transformam territórios e
                                    relações sociais. Estudos Organizacionais devem considerar
                                    territórios como componentes ativos de organizações, incluindo
                                    dimensões simbólicas, materiais e políticas.</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td valign="top" align="left">Injustiça ambiental e desigualdades
                                    socioespaciais</td>
                                <td valign="top" align="left">Mineração gera impactos
                                    socioambientais graves: poluição do ar e da água, riscos à
                                    saúde, marginalização de comunidades locais e invisibilização de
                                    saberes tradicionais. Movimentos sociais e comunitários criam
                                    ações de denúncia e propostas de conservação.</td>
                                <td valign="top" align="left">A análise organizacional deve
                                    incorporar a justiça ambiental e a equidade socioespacial como
                                    variáveis críticas para compreender decisões organizacionais e
                                    estruturas de poder. Conflitos territoriais e desigualdades
                                    tornam-se fatores a serem considerados nas estruturas de
                                    governança.</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td valign="top" align="left">Instituições, valores e interesses em
                                    colisão</td>
                                <td valign="top" align="left">Órgãos públicos e empresas mobilizam
                                    retórica de progresso e instrumentos legais (TACs,
                                    licenciamento) para legitimar a exploração mineral. Captura
                                    institucional e ambiguidade regulatória perpetuam danos.</td>
                                <td valign="top" align="left">Destaca a necessidade de considerar
                                    organizações e instituições como arenas de disputa de poder, em
                                    que normas, regulamentos e valores podem ser mobilizados para
                                    favorecer interesses específicos.</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td valign="top" align="left">Poder, resistência e organização
                                    sociopolítica</td>
                                <td valign="top" align="left">Comunidades, artistas, acadêmicos e
                                    órgãos públicos articularam uma resistência multiescalar em
                                    defesa da Serra, mobilizando práticas que desafiaram narrativas
                                    hegemônicas. Ações como o movimento “Tira o Pé da Minha Serra” e
                                    intervenções artísticas ampliaram a visibilidade.</td>
                                <td valign="top" align="left">O poder simbólico, a cultura e o
                                    capital social tornam-se centrais para compreender processos de
                                    legitimação e disputa. Organizações podem ser analisadas como
                                    redes simbólicas e sociotécnicas nas quais práticas insurgentes
                                    produzem novos sentidos e modos plurais de organização.</td>
                            </tr>
                        </tbody>
                    </table>
                    <table-wrap-foot>
                        <attrib>Fonte: elaboração própria (2026).</attrib>
                    </table-wrap-foot>
                </table-wrap>
                <p>O quadro evidencia que compreender organizações em contextos de conflito exige
                    atenção à interseção entre poder, território e mobilização social, revelando
                    como decisões organizacionais se entrelaçam com epistemologias locais e saberes
                    plurais. O estudo da Serra do Curral mostra que as organizações podem atuar
                    tanto como agentes de opressão quanto como catalisadoras de transformação
                    social, cultural e ambiental, dependendo das relações que estabelecem com os
                    diferentes atores e das narrativas que legitimam. Nesse sentido, compreender a
                    dinâmica organizacional em territórios em disputa implica reconhecer que os
                    processos decisórios, os fluxos de informação e as práticas cotidianas estão
                    profundamente enraizados nas interações entre atores humanos e não humanos, bem
                    como nas condições históricas, culturais e ecológicas do espaço.</p>
                <p>Portanto, o <xref ref-type="table" rid="T3">quadro 3</xref> não apenas organiza
                    as categorias do conflito, mas também nos convida a repensar o papel das
                    organizações em contextos complexos, enfatizando que territórios, saberes e
                    mobilizações sociais são elementos constitutivos da organização e da própria
                    produção de justiça socioambiental. Essa perspectiva amplia a análise
                    organizacional, ao conectar práticas, poder e território.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>6 CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
            <p>Observa-se, neste estudo, que a mineração transforma territórios, relações sociais e
                ecossistemas, instaurando processos de territorialização e desterritorialização que
                revelam a complexidade da atuação das organizações. Ao mesmo tempo, percebe-se que a
                resistência social, cultural, institucional e acadêmica reconfigura essas dinâmicas,
                evidenciando que os territórios não são passivos e que comunidades, movimentos e
                pesquisadores podem atuar como agentes ativos de justiça socioambiental.</p>
            <p>Verifica-se que a Serra se constitui como um campo de disputa em múltiplos níveis:
                material, envolvendo impactos ambientais e riscos à saúde; simbólico, relacionado à
                memória, à identidade e ao direito ao território; e discursivo, marcado pelo
                confronto entre narrativas de progresso e utilidade pública e epistemologias
                contra-hegemônicas, incluindo valores culturais urbanos. Nessas disputas,
                constata-se que poder, conhecimento e normas se entrelaçam, produzindo
                desigualdades, mas também abrindo oportunidades de insurgência e transformação. O
                capital cultural mobilizado por artistas e intelectuais, a atuação crítica de órgãos
                públicos e acadêmicos e a resistência comunitária demonstram que o conflito
                mobilizou diferentes atores, perspectivas e ontologias. Observa-se que organizações,
                movimentos sociais, órgãos estatais e instituições culturais atuam na construção, na
                contestação e na redefinição de territórios e práticas sociais.</p>
            <p>Instrumentos jurídicos, como TACs e licenciamento ambiental, podem operar tanto como
                mecanismos de controle quanto como ferramentas de captura institucional e manutenção
                da hegemonia extrativista. Por outro lado, identifica-se que ações de resistência
                institucional, performativa e cultural demonstram que a produção de conhecimento,
                memória e pertencimento constitui uma prática organizacional insurgente, capaz de
                desafiar narrativas oficiais e reconfigurar possibilidades de futuro.</p>
            <p>Em 2025, novas denúncias evidenciaram irregularidades das empresas envolvidas no
                conflito. O Ministério Público Federal acionou a Justiça para impedir desmatamentos
                em áreas protegidas sem autorização do Ibama. Esses desdobramentos e as prisões
                posteriores reforçam que a disputa pelo território continua, mesmo após a conclusão
                deste estudo. A partir de nossa análise, conclui-se que o conceito de organização
                deve contemplar dimensões éticas, sociais e ecológicas das decisões, reconhecendo
                que instituições operam em redes complexas que afetam vidas humanas e não humanas.
                Ao integrar perspectivas da Ecologia Política, evidencia-se que empresas e
                organizações precisam considerar não apenas eficiência e desempenho, mas também
                justiça socioambiental e governança inclusiva.</p>
            <p>Reconhecem-se, no entanto, algumas limitações da pesquisa: ela se baseia
                principalmente em fontes documentais, relatórios, manifestos e cobertura
                jornalística, o que pode restringir nossa compreensão da experiência cotidiana das
                comunidades e dos grupos envolvidos. Além disso, muitas disputas ainda estão em
                andamento, e novos desdobramentos podem alterar a dinâmica de resistência,
                regulamentação e governança. Pesquisas futuras poderiam aprofundar observação
                participante, entrevistas e análise de redes de atores, capturando novas nuances das
                estratégias organizacionais, culturais e institucionais em tempo real.</p>
            <p>O futuro das organizações e dos territórios depende da nossa capacidade de reconhecer
                a interdependência entre sociedade e natureza, problematizar narrativas hegemônicas
                e construir alternativas que respeitem limites ecológicos, pluralidade de saberes e
                direitos territoriais. O estudo da Serra do Curral, portanto, não se limita à
                análise de conflitos: é uma chamada à reflexão crítica e à ação transformadora no
                campo dos Estudos Organizacionais.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
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                            >https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2022/11/24/laudos-tecnicos-feitos-pela-pf-comprovam-crimes-e-praticas-ilegais-na-extracao-de-minerio-de-ferro-na-serra-do-curral-em-mg.ghtml</ext-link>.
                        Acesso em: 30 jul. 2026</comment>
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                    Gerais, 30 nov. 2022. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
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                        >https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2022/11/30/agu-emitiu-parecer-contra-uso-de-tac-para-liberacao-de-mineracao-na-serra-do-curral.ghtml</ext-link>.
                    Acesso em: 30 jul. 2026.</mixed-citation>
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                        Acesso em: 30 jul. 2026</comment>
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