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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">regea</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista gestão em análise</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Gest. Anál.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">1984-7297</issn>
			<issn pub-type="epub">2359-618X</issn>
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				<publisher-name>Unichristus</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.12662/2359-618xregea.v14i3.p166-179.2025</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>ENSAIO</subject>
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			<title-group>
				<article-title>LÓGICA INSTRUMENTAL E GESTÃO: ENTRE A EFICIÊNCIA E A
					DESUMANIZAÇÃO</article-title>
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					<trans-title>INSTRUMENTAL LOGIC AND MANAGEMENT: BETWEEN EFFICIENCY AND
						DEHUMANIZATION</trans-title>
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						<surname>Alves</surname>
						<given-names>Elizeu Barroso</given-names>
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				<institution content-type="orgname">Universidade Positivo</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Centro Universitário Internacional
					UNINTER</institution>
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					<city>Curitiba</city>
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				<country country="BR">BR</country>
				<email>elizeu.balves@hotmail.com</email>
				<institution content-type="original">Doutor e Mestre em Administração pelo Programa
					de Pós-Graduação em Administração da Universidade Positivo (PPGA-UP). professor
					e é coordenador de cursos na modalidade EAD na Escola Superior de Gestão,
					Comunicação e Negócios (ESGCN) do Centro Universitário Internacional UNINTER.
					Curitiba - PR - BR.E-mail:</institution>
			</aff>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>05</day>
				<month>12</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<volume>14</volume>
			<issue>03</issue>
			<fpage>166</fpage>
			<lpage>179</lpage>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>A ascensão do paradigma do <italic>management</italic> reflete a busca por
					eficiência econômica, mas também levanta críticas por desumanizar as relações de
					trabalho e causar impactos éticos e ambientais. A teoria crítica nos EORs
					questiona essa lógica, explorando como a racionalização excessiva pode
					desumanizar os trabalhadores. A comparação metafórica entre as práticas do
					Holocausto e o <italic>management</italic>, embora delicada, oferece
						<italic>insights</italic> sobre as culturas organizacionais contemporâneas e
					os riscos de priorizar apenas resultados econômicos em detrimento do bem-estar
					humano e ético. Esse ensaio propõe uma reflexão sobre as práticas
					organizacionais sob uma lente crítica, destacando os perigos de uma abordagem
					exclusivamente instrumental e defendendo uma visão mais sensível às dimensões
					éticas e humanas das organizações.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>The rise of the management paradigm reflects the search for economic efficiency
					but also raises criticism for dehumanizing work relationships and causing
					ethical and environmental impacts. Critical theory in EORs questions this logic,
					exploring how excessive rationalization can dehumanize workers. The comparison
					between Holocaust practices and management, although delicate, offers insights
					into contemporary organizational cultures and the risks of prioritizing only
					economic results to the detriment of human and ethical well-being. This essay
					proposes a reflection on organizational practices from a critical lens,
					highlighting the dangers of an exclusively instrumental approach and defending a
					more sensitive view of the ethical and human dimensions of organizations.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>estudos organizacionais</kwd>
				<kwd>gerencialismo</kwd>
				<kwd>holocausto como metáfora.</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>organizational studies</kwd>
				<kwd>management</kwd>
				<kwd>holocaust as metaphor.</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
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	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1 INTRODUÇÃO</title>
			<p>A apreciação dos Estudos Organizacionais (EORs) das últimas décadas no contexto
				brasileiro revela cenário de particular relevância. Contudo, é de igual importância
				observar o persistente predomínio da abordagem de cunho funcionalista no âmbito da
				sociologia, caracterizada por sua natureza destituída de perspectiva histórica
					(<xref ref-type="bibr" rid="B4">Alves, 2022</xref>).</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B27">Koselleck (1992)</xref> argumenta que é crucial
				adotar uma abordagem sócio-histórica ao lidar com conceitos, evitando o uso ingênuo
				ou superficial de terminologias que poderiam resultar em distorções futuras devido a
				anacronismos. Esse cuidado é particularmente relevante nas ciências sociais e nos
				estudos organizacionais, em que uma semântica <italic>a priori</italic> pode
				comprometer a interpretação precisa de conceitos científicos (<xref ref-type="bibr"
					rid="B56">Vizeu; Matitz, 2018</xref>).</p>
			<p>Apesar dos significativos avanços que emergiram em forma de novas perspectivas no
				interior desse campo, é evidente que a abordagem funcionalista a-histórica ainda
				ostenta um papel hegemônico enraizado na base epistemológica dos EORs (<xref
					ref-type="bibr" rid="B52">Vizeu, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B48"
					>Stefani; Vizeu, 2014</xref>).</p>
			<p>É preciso notar que o funcionalismo, em sua abordagem às organizações, tem
				tradicionalmente enfocado a compreensão de estruturas, processos e interações, de
				maneira estática, em detrimento de análise enriquecida por elementos históricos e
				contextuais (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Alves, 2022</xref>). Nesse sentido, os
				EORs têm enfrentado o desafio de superar essa tendência, buscando adotar visão mais
				abrangente e sensível à historicidade das organizações (<xref ref-type="bibr"
					rid="B56">Vizeu; Matitz, 2018</xref>).</p>
			<p>Quando se olha para a história, nos tempos modernos, tem-se que o Holocausto terminou
				em 1945, ano em que as forças aliadas da Segunda Guerra Mundial derrotaram a
				Alemanha nazista. O Holocausto representa um dos capítulos mais sombrios da história
				humana, caracterizado pelo genocídio sistemático que resultou na morte de milhões de
				judeus e outros grupos perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial (<xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Arendt, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B40"
					>Rabinovitch, 2003</xref>).</p>
			<p>De outro lado, pode-se considerar que a ciência da Administração, em um olhar
				moderno, pragmático e após as duas grandes revoluções industriais, originou-se no
				início do Século XX. Nesse período, alguns engenheiros passaram a olhar o fenômeno
				das fábricas e, mesmo com abordagens diferentes, tinham o objetivo de melhorar a
				eficiência e a eficácia das organizações industriais da época (<xref ref-type="bibr"
					rid="B52">Vizeu, 2010</xref>).</p>
			<p>Frederick Taylor e Henri Fayol, pioneiros no desenvolvimento dos primeiros estudos
				sobre gestão, ambos contribuíram, de maneiras distintas, para a formação dos
				princípios e das teorias da administração, sendo muito estudados na disciplina de
				Teoria Geral da Administração nas mais diversas escolas de gestão do Brasil.</p>
			<p>Destarte, tem-se que a forma hegemônica de se pensar e fazer gestão ocorre em
				conformidade com a lógica do <italic>management</italic>, sobre a qual <xref
					ref-type="bibr" rid="B21">Gaulejac (2007</xref>, p. 36) afirma que “a gestão
				gerencialista é uma ideologia que traduz as atividades humanas em indicadores de
				desempenho e esses desempenhos em custo ou benefícios”. Essa ideia vai ao encontro
				do argumento de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Chanlat (1999)</xref>, quando este
				afirma que o managerialismo é “diretamente o produto de uma sociedade de gestores
				que busca racionalizar todas as esferas da vida social” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B13">Chanlat, 1999</xref>, p. 17).</p>
			<p>Nesse sentido, pode-se apontar que o <italic>management</italic> opera com dinâmica
				que estabelece a lógica econômica e a ética utilitarista como principais diretrizes
				de conduta gerencial. Isso ocorre por meio de estratégias corporativas, de modo que
				as ações nesse contexto se subordinam a essa lógica instrumental de natureza
				econômica (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Chanlat, 1999</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B4">Alves, 2022</xref>).</p>
			<p>A ascensão do paradigma do <italic>management</italic> reflete a busca por eficiência
				econômica, mas também levanta críticas por desumanizar as relações de trabalho e
				causar impactos éticos e ambientais. A teoria crítica nos EORs questiona essa
				lógica, explorando como a racionalização excessiva pode desumanizar os trabalhadores
					(<xref ref-type="bibr" rid="B54">Vizeu, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B19">Freitas Junior; Medeiros, 2018</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B4"
					>Alves; 2022</xref>), tendo em vista que se baseia na aplicação de métodos
				científicos para gerenciar processos e pessoas, visando à maximização dos
				resultados. No entanto, a adoção inquestionável dessa abordagem pode ocultar
				problemas fundamentais (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Vizeu, 2018</xref>).</p>
			<p>Nos EORs, em uma visada da teoria crítica nos estudos organizacionais brasileiros
					(<xref ref-type="bibr" rid="B28">Lara; Vizeu, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B2">Alcadipani; Tureta, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B43">Rosa;
					Alcadipani, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Mclean; Alcadipani,
					2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Faria, 2009</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Grey; Fournier, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B53">Vizeu, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B34">Misoczky;
					Amantino-de-Andrade, 2005</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B37">Paula
						<italic>et al</italic>., 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B45"
					>Santos, 1999</xref>), a comparação entre as práticas do Holocausto e o
					<italic>management</italic> pode proporcionar <italic>insights</italic>
				interessantes sobre as práticas e as culturas organizacionais contemporâneas, em
				conformidade com uma lógica de cálculo utilitário de consequências oriunda da
				organização social focada na maximização do lucro (<xref ref-type="bibr" rid="B25"
					>Horkheimer, 2002</xref>).</p>
			<p>No entanto, tem-se consciência de que essa analogia pode ser deveras complexa e que
				exige uma abordagem cuidadosa para evitar minimizar a gravidade do Holocausto,
				fenômeno único na história da humanidade (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Gonçalves,
					2013</xref>).</p>
			<p>Pode-se conjecturar, conforme vários estudos, que as organizações que operam pela
				lógica do <italic>management</italic> possuem um lado sombrio, no qual “erros,
				acidentes e crimes são, frequentemente, protagonizados por organizações na busca de
				seus objetivos, resultando em prejuízos a consumidores, trabalhadores, meio ambiente
				e comunidades” (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Medeiros, 2013</xref>, p. 419).</p>
			<p>Nesse sentido, entre todas as possibilidades de enfoque na lógica de teoria crítica
				organizacional, optou-se por ter como objeto central de análise a perspectiva de
					<bold>racionalização da gestão</bold> e <bold>desumanização dos
					trabalhadores</bold>, visto que a tendência à racionalização excessiva imposta
				pela lógica instrumental pode levar à desumanização dos trabalhadores, ou seja, a
				busca desenfreada por eficiência e produtividade pode ignorar necessidades e
				interesses humanos (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Alcadipani; Medeiros,
				2014</xref>), o que pode resultar em alienação, insatisfação, bem como no
				desenvolvimento de doenças, como a Síndrome de <italic>Burnout</italic>.</p>
			<p>Nesse sentido, este ensaio propõe análise das práticas do Holocausto, associadas a
				uma forma extrema e perversa do <italic>management,</italic> como metáfora nas
				pesquisas de Estudos Organizacionais. Para isso, exploram-se alguns pontos de
				interseções entre os eventos históricos do Holocausto e as dinâmicas das
				organizações contemporâneas.</p>
			<p>Tem-se consciência de que comparar o Holocausto com o <italic>management</italic>
				envolve temas extremamente sérios e trágicos. Porém, a intenção é destacar práticas
				do <italic>management</italic> que contribuem para que pessoas adoeçam e, em muitos
				casos, percam suas vidas, como no caso dos crimes corporativos (<xref
					ref-type="bibr" rid="B3">Alves, 2023</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 LÓGICA DO <italic>MANAGEMENT</italic> E SUAS IMPLICAÇÕES</title>
			<p>A lógica do <italic>management</italic> é a lógica instrumental do cálculo utilitário
				de consequência. Theodor Adorno e Max Horkheimer argumentaram que, tal lógica busca
				apenas meios eficientes e negligencia os fins humanos mais amplos. Essa visão é
				relevante para sua lógica, que, muitas vezes, simplifica a realidade organizacional
				em prol da eficiência, negligenciando aspectos cruciais, como a subjetividade dos
				trabalhadores e as dinâmicas interpessoais (<xref ref-type="bibr" rid="B25"
					>Horkheimer, 2002</xref>).</p>
			<p>A coerência sob a lógica da racionalidade instrumental fundamenta-se na ideia de
				eficiência, produtividade e controle. Destaca a hierarquia organizacional, o
				planejamento estratégico e a busca por resultados mensuráveis. Conforme essa lógica,
				as organizações são percebidas como máquinas, cujas partes podem ser otimizadas para
				alcançar um objetivo final (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Vizeu, 2018</xref>).</p>
			<p>Na lógica instrumental, as empresas operam sob faceta sombria, na qual a busca por
				objetivos frequentemente resulta em &quot;erros, acidentes e crimes&quot;, causando
				prejuízos consideráveis para consumidores, trabalhadores, meio ambiente e
				comunidades em geral (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Medeiros, 2013</xref>).</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B16">Dejours (2007)</xref>, por exemplo, esclarece que a
				banalização do mal ocorre quando muitos se convertem em zelosos colaboradores de um
				sistema que opera por meio da organização deliberada e aceita da mentira e da
				injustiça. A gestão, então, se torna instrumento para normalizar ações maléficas,
				transformando-as em ações destinadas ao progresso financeiro. Essa banalização
				distorce o senso moral e a distinção entre certo e errado, embora sem eliminá-los
				completamente.</p>
			<p>Fundamentadas em discurso ideológico substancial, as corporações adotam perspectiva
				embasada na racionalidade instrumental, a qual encontra suas raízes no paradigma
				burocrático característico da sociedade de mercado (<xref ref-type="bibr" rid="B57"
					>Weber, 1978</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B52">Vizeu, 2010</xref>, <xref
					ref-type="bibr" rid="B53">2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B41">Ramos,
					1989</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24">Hocayen-da-Silva; Vizeu; Seifert,
					2016</xref>). Nesse contexto, as empresas aderem a uma abordagem hegemônica no
				que tange à concepção e à implementação de suas estratégias de gestão.</p>
			<p>No entanto, essa adoção inquestionável da lógica burocrática e da racionalidade
				instrumental não está isenta de críticas. <xref ref-type="bibr" rid="B41">Ramos
					(1989)</xref> lançou luz sobre o aspecto desumanizador dessa abordagem.
				Argumentou que a obsessão pela racionalidade e pela eficiência pode marginalizar a
				dimensão humana das organizações, enfraquecendo a criatividade e a flexibilidade
				necessárias para enfrentar os desafios em constante evolução.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B57">Weber (1978)</xref> ressalta a burocracia como
				modelo organizacional racional e eficaz, central para a administração moderna. Essa
				mentalidade foi internalizada pelas corporações como paradigma de operacionalização
				efetiva. Os estudos de <xref ref-type="bibr" rid="B52">Vizeu (2010</xref>, <xref
					ref-type="bibr" rid="B53">2015</xref>) expandem essa perspectiva, destacando
				como a racionalidade instrumental permeia o pensamento e as ações no ambiente
				corporativo contemporâneo. A incessante busca por eficiência, previsibilidade e
				controle direciona as tomadas de decisões gerenciais, influenciando as estruturas
				organizacionais e os procedimentos operacionais.</p>
			<p>Concomitantemente, Hocayen-da-Silva, Vizeu e Seifert (<xref ref-type="bibr" rid="B46"
					>2015</xref>) salientam que o modelo hegemônico de gestão, ancorado na
				racionalidade instrumental, pode perpetuar desigualdades e marginalizar vozes
				divergentes. A padronização de práticas e a valorização exacerbada da eficiência
				podem suprimir a diversidade de perspectivas e restringir a inovação, reforçando
				estruturas preexistentes de poder.</p>
			<p>Essa perspectiva tem sido amplamente adotada nas empresas e instituições, moldando
				suas estruturas e operações, e, conforme apontado por <xref ref-type="bibr" rid="B6"
					>Alvesson (2016)</xref>, essa homogeneização pode resultar na perda de
				identidade das organizações, bem como na diminuição da motivação dos funcionários,
				que podem se sentir desvalorizados e despersonalizados.</p>
			<p>A ideia moderna de gestão se consolida como uma das instituições mais representativas
				desse período da história, centrada na racionalidade instrumental que emergiu
				particularmente com o desenvolvimento do capitalismo industrial (<xref
					ref-type="bibr" rid="B54">Vizeu, 2018</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B52"
					>2010</xref>). Criou-se um modelo de empresa que também serve de meio de
				desnaturação da condição humana nas relações sociais, pois condiciona o sentido de
				comunidade à perspectiva da vantagem econômica, sendo todas as dimensões humanas
				suplantadas pela esfera econômica (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Dejours,
					2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B1">Alcadipani; Medeiros, 2014</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B54">Vizeu, 2018</xref>, <xref ref-type="bibr"
					rid="B52">2010</xref>).</p>
			<p>Uma das principais críticas à lógica do <italic>management</italic> é sua tendência a
				reduzir a complexidade das organizações a modelos simplificados. Como apontado por
					<xref ref-type="bibr" rid="B35">Morgan (2006)</xref>, essa abordagem ignora a
				natureza multifacetada das relações humanas e da dinâmica organizacional. Ao focar
				apenas em resultados tangíveis, pode negligenciar aspectos intangíveis, como a
				criatividade, a inovação e a satisfação dos funcionários.</p>
			<p>Nesse sentido, embora a busca pela eficiência seja um dos pilares da lógica do
					<italic>management</italic>, essa obsessão por eficiência pode ter implicações
				negativas. A pressão constante pelo cumprimento de metas e prazos pode gerar
				ambiente de trabalho estressante, levando a problemas de saúde mental entre os
				colaboradores (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Pfeffer, 2018</xref>). Além disso, a
				ênfase excessiva na eficiência pode desencorajar a experimentação e a tomada de
				riscos, elementos cruciais para a inovação.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3 DESUMANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES: A SÍNDROME DE <italic>BURNOUT</italic></title>
			<p>A desumanização dos trabalhadores é conceito crítico que se refere à forma como os
				sistemas de gestão e as práticas de trabalho podem reduzir a humanidade e a
				dignidade dos indivíduos, transformando-os em meros componentes de processo de
				produção. Esse fenômeno está associado a ambientes de trabalho que enfatizam a
				eficiência, a padronização e a maximização dos lucros, em detrimento das
				necessidades, das aspirações e do bem-estar dos trabalhadores (<xref ref-type="bibr"
					rid="B3">Alves, 2023</xref>).</p>
			<p>Quando os trabalhadores são tratados como meros recursos a serem explorados para
				maximizar a produção e os lucros, isso pode levar a longas jornadas de trabalho,
				pressão excessiva e falta de consideração pelo bem-estar físico e mental (<xref
					ref-type="bibr" rid="B1">Alcadipani; Medeiros, 2014</xref>).</p>
			<p>A desumanização pode-se manifestar de várias maneiras, incluindo a alienação do
				trabalho, a imposição de tarefas repetitivas e monótonas, a exploração dos
				trabalhadores, a falta de autonomia, o foco excessivo nos resultados financeiros e a
				criação de relações impessoais entre gestores e trabalhadores (<xref ref-type="bibr"
					rid="B50">Tônus, 2012</xref>). Essas práticas podem levar a sentimentos de
				desconexão, insatisfação e, até mesmo, a problemas de saúde mental entre os
				trabalhadores (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Paranhos; Neves; Silva,
				2008</xref>).</p>
			<p>A desumanização dos trabalhadores tem consequências negativas tanto para os
				indivíduos quanto para a sociedade como um todo. Pode resultar em insatisfação,
				esgotamento, falta de motivação e, até mesmo, em problemas de saúde mental. Além
				disso, pode contribuir para a desigualdade social e para a formação de ambiente de
				trabalho tóxico (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Paranhos; Neves; Silva,
				2008</xref>). Além do mais, a padronização de tarefas e a imposição de ritmos de
				trabalho rígidos podem levar à monotonia e à exaustão, restringindo a expressão da
				criatividade individual (<xref ref-type="bibr" rid="B50">Tônus, 2012</xref>).</p>
			<p>Um efeito dessa desumanização é o aumento da <bold>Síndrome de
						<italic>Burnout</italic></bold>, que, em janeiro de 2022, foi incluída na
				Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS).
					<xref ref-type="bibr" rid="B14">Coutinho (2022)</xref> relata que, de 2019 a
				2022, no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), houve aumento de 44% no
				número de concessões de benefício por incapacidade temporária para pessoas com
				diagnóstico dessa síndrome.</p>
			<p>Cabe destacar que, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), o
				aumento de jornadas extenuantes, a imposição de metas abusivas, a falta de
				reconhecimento e a autonomia no ambiente de trabalho são algumas das causas
				potenciais para tantos afastamentos relacionados à saúde mental (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">ANAMT, 2019</xref>).</p>
			<p>O termo ‘<italic>Burnout</italic>’ é descrito, de acordo com expressão em inglês,
				como algo que deixou de operar devido a uma completa falta de energia. De maneira
				figurativa, refere-se a algo ou alguém que atingiu seu limite, resultando em notável
				declínio em seu desempenho tanto físico quanto mental (<xref ref-type="bibr"
					rid="B51">Trigo; Teng; Hallak, 2007</xref>).</p>
			<p>A manifestação da síndrome ocorre por meio de quatro principais tipos de sintomas,
				segundo <xref ref-type="bibr" rid="B42">Ribeiro, Martins e Ribeiro (2022)</xref>:
				físicos, psíquicos, comportamentais e defensivos:</p>
			<list list-type="simple">
				<list-item>
					<p>a) os <bold>sintomas físicos</bold> são evidenciados quando o trabalhador
						apresenta fadiga constante, distúrbios do sono, falta de apetite e dores
						musculares; </p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>b) os <bold>sintomas psíquicos</bold> são revelados por falta de atenção,
						problemas de memória, ansiedade e frustração; </p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>c) os <bold>sintomas comportamentais</bold> são identificados quando a pessoa
						se apresenta negligente no labor, com irritabilidade, incapacidade de
						concentração, aumento de situações conflitivas com os colegas e longas
						pausas para o descanso;</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>d) os <bold>sintomas defensivos</bold> incluem a busca por isolamento,
						sentimentos de inferioridade e a pauperização da qualidade das atividades
						laborais.</p>
				</list-item>
			</list>
			<p>A Síndrome de <italic>Burnout,</italic> também conhecida como Síndrome do Esgotamento
				Profissional, representa transtorno emocional caracterizado por sintomas de extrema
				exaustão, estresse agudo e esgotamento físico. Ela surge como resultado de situações
				laborais desgastantes, que frequentemente envolvem altos níveis de competitividade e
				responsabilidade. A raiz primordial dessa condição reside no excesso de demandas
				laborais, sendo essa a principal causa da enfermidade (<xref ref-type="bibr"
					rid="B9">Brasil, 2023</xref>).</p>
			<p>Nesse sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B51">Trigo, Teng e Hallak (2007)</xref>
				salientam que, mediante revisão sistemática e meta-análise que abrangeu 485 estudos,
				englobando amostra de 267.995 indivíduos, foram analisadas as correlações entre
				satisfação no trabalho e bem-estar físico e mental. Os resultados evidenciaram forte
				ligação entre níveis reduzidos de satisfação no ambiente laboral e manifestação de
				problemas mentais e psicológicos, tais como <italic>Burnout</italic>, autoestima
				comprometida, depressão e ansiedade (<xref ref-type="bibr" rid="B51">Trigo; Teng;
					Hallak, 2007</xref>).</p>
			<p>Tal síndrome pode ser considerada reflexo da desumanização e da alienação dos
				trabalhadores, que são submetidos a condições laborais que priorizam a
				produtividade, a maximização dos lucros e a eficiência em detrimento das
				necessidades humanas e da saúde mental. A teoria crítica enfatiza que as estruturas
				sociais e as práticas de gestão, muitas vezes, perpetuam relação de exploração do
				trabalho, em que os indivíduos são vistos como meros recursos a serem consumidos e
				descartados (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 1992</xref>, <xref
					ref-type="bibr" rid="B16">2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B1"
					>Alcadipani; Medeiros, 2014</xref>).</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (1992</xref>, <xref ref-type="bibr"
					rid="B16">2007</xref>) examina como as condições de trabalho, as demandas
				laborais e as relações interpessoais afetam a saúde mental dos indivíduos; por
				exemplo, as condições adversas de trabalho que podem levar ao sofrimento psíquico
				dos trabalhadores. Esse sofrimento pode incluir sentimentos de desvalorização,
				pressão excessiva, conflitos interpessoais e falta de significado no trabalho.</p>
			<p>Assim, é possível entender que trabalhadores expostos a altos níveis de estresse,
				exigências irrealistas e falta de reconhecimento têm maior probabilidade de
				desenvolver sintomas de <italic>Burnout</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B42"
					>Ribeiro; Martins; Ribeiro, 2022</xref>).</p>
			<p>A relação entre a desumanização dos trabalhadores e a Síndrome de
					<italic>Burnout</italic> é complexa e profunda, evidenciando as tensões e os
				desafios característicos dos ambientes de trabalho contemporâneos, por exemplo, em
				um aspecto judicial, o que se pode verificar na entrevista de Pinto e Silva para o
				Jornal da Universidade de São Paulo (USP):</p>
			<disp-quote>
				<p>Depois da finalização do período de tratamento necessário, o trabalhador pode
					retornar às atividades. Muitas vezes, entretanto, a empresa pode ficar
					insatisfeita com o prestador de serviço, alegando que ele não tem mais condições
					de oferecer seu trabalho de maneira regular e produtiva, e opta pela dispensa do
					trabalhador. Este pode ficar inconformado com a decisão empresarial e decidir
					apresentar o caso à Justiça do Trabalho, a fim de retornar para seu cargo.
					Alguns prestadores de serviço, inclusive, ajuízam uma ação e solicitam uma
					indenização, alegando que a síndrome de burnout foi desenvolvida no trabalho por
					conta da forma como foram tratados pelo empregador.</p>
				<p>Segundo o professor, esse é um processo muito delicado, porque é preciso realizar
					um exame psíquico para diagnosticar a condição do trabalhador. “Muitas vezes,
					isso vai demandar, por exemplo, um laudo pericial ao longo do processo, que será
					feito por um psicólogo ou psiquiatra, e que auxiliará o juiz a obter informações
					técnicas que expliquem a situação profissional daquele trabalhador.” Assim, o
					magistrado pode deliberar, em uma sentença judicial, se o profissional faz jus,
					ou não, a uma indenização que pleiteia (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Silva,
						2023</xref>).</p>
			</disp-quote>
			<p>A busca incessante por lucros pode levar a cargas de trabalho excessivas, à falta de
				suporte e à sensação de ser explorado, sendo que isso pode resultar em exaustão
				emocional e física. Igualmente, a desumanização cria ambiente propício ao
					<italic>Burnout,</italic> visto que os trabalhadores são tratados como simples
				‘recursos’, e as relações interpessoais são reduzidas. Nisso há falta de apoio
				emocional e social, o que contribui para o esgotamento e o desencadeamento da
				síndrome (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Paranhos; Neves; Silva, 2008</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B50">Tônus, 2012</xref>).</p>
			<p>Sob viés da análise crítica, permite-se compreender como as estruturas
				organizacionais, as práticas de gestão e as demandas laborais podem contribuir para
				o desenvolvimento do <italic>burnout</italic> por meio da desumanização dos
				trabalhadores (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Paranhos; Neves; Silva, 2008</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B50">Tônus, 2012</xref>).</p>
			<p>Assim, a ênfase na eficiência pode resultar em ambiente de trabalho que ignora as
				necessidades humanas fundamentais, como a autonomia, a expressão criativa e a
				realização pessoal. A desumanização ocorre quando os trabalhadores são reduzidos a
				meros componentes de um sistema, em que suas características individuais e
				aspirações são suprimidas em nome da uniformidade e da padronização. Isso pode levar
				a sentimentos de alienação e insatisfação, prejudicando o bem-estar geral dos
				trabalhadores, desencadeando síndromes, como a de <italic>Burnout.</italic></p>
		</sec>
		<sec>
			<title>4 ANALOGIA COM AS PRÁTICAS DO HOLOCAUSTO</title>
			<p>O Holocausto, um dos eventos mais trágicos e inquietantes do século XX, representa
				uma manifestação extrema do mal humano e da intolerância em escala sem precedentes
				na história moderna (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Gonçalves, 2013</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B44">Sahd, 2015</xref>). Por uma visada sócio-histórica
				hermenêutica, como a delineada por <xref ref-type="bibr" rid="B49">Thompson
					(2000)</xref>, podem-se explorar as origens, o desenvolvimento e as implicações
				desse genocídio perpetrado pelo regime nazista, examinando as forças políticas,
				sociais e culturais que contribuíram para sua concretização.</p>
			<disp-quote>
				<p>A Segunda Guerra Mundial, de fato, foi emblemática para que a humanidade
					quebrasse o paradigma sistemático da tortura como parte da sociedade. O espólio
					de mortes de seres humanos de várias nações parece ter aberto os olhos para que
					os governantes fizessem alguma coisa. Tivemos uma profunda mudança acerca do
					conceito da vida humana, pois a banalização e o descarte motivados pelas
					milhares de vidas dizimadas como espólio de Guerra, agora, eram a agenda do dia
						(<xref ref-type="bibr" rid="B22">Gonçalves, 2013</xref>, p. 12).</p>
			</disp-quote>
			<p>As raízes do Holocausto podem ser rastreadas até o cenário de pós-Primeira Guerra
				Mundial na Alemanha, marcado por turbulências políticas, descontentamento social e
				economia devastada. O ressentimento acumulado da derrota na guerra, aliado às duras
				condições econômicas e à humilhação imposta pelas disposições do Tratado de
				Versalhes, criou terreno fértil para a ascensão de movimentos nacionalistas
				radicais, incluindo o Partido Nazista (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Lewgoy,
					2010</xref>).</p>
			<p>A narrativa de superioridade racial e a busca por um bode expiatório para os
				problemas da nação foram ferramentas habilmente exploradas pelos líderes nazistas,
				encontrando em grupos minoritários, especialmente os judeus, alvo para suas
				aspirações de poder (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Arendt, 1998</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Butz, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B31"
					>Longerich, 2010</xref>).</p>
			<p>O período entre as décadas de 1930 e 1940 testemunhou a escalada sistemática das
				políticas antissemitas na Alemanha nazista. A passagem das Leis de Nuremberg, em
				1935, que legalmente discriminaram os judeus e os excluíram da sociedade alemã, foi
				seguida por uma série de decretos e regulamentos que restringiram suas atividades e
				bens (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Longerich, 2010</xref>).</p>
			<p>As raízes sociais do Holocausto residem na disseminação de ideologias xenófobas e na
				manipulação de sentimentos de medo e insegurança da população alemã.</p>
			<disp-quote>
				<p>Para Hannah Arendt, os nazistas representaram o colapso do Iluminismo e da
					democracia, do julgamento crítico e da razão. A ambivalência entre os conceitos
					acima mencionados, civilização e barbárie, se tornou o princípio básico para a
					organização de seu pensamento sobre o Holocausto. O nazismo, para a autora, não
					era particularmente germânico, mas uma manifestação do totalitarismo.
					Universalizar o fenômeno não a impede de reconhecer suas singularidades. Arendt
					captou o caráter único do Holocausto não apenas em razão do escopo e da natureza
					sistemática dos assassinatos, mas em seu empreendimento de negar a humanidade
					como tal (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Levy; Sznaider, 2012</xref>, p.
					265-266).</p>
			</disp-quote>
			<p>O controle da informação, a propaganda eficaz e a desumanização sistemática das
				vítimas promovidos pelo aparato de propaganda nazista foram elementos cruciais que
				contribuíram para a aceitação passiva ou cúmplice de muitos alemães em relação às
				atrocidades cometidas (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Arendt, 1998</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Butz, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B31"
					>longerich, 2010</xref>).</p>
			<disp-quote>
				<p>Um momento marcante é o depoimento de Raphael Esrail, sobrevivente do terror:
					“Tudo era feito para nos desumanizar. Eles nos faziam sentir como vermes.
					Usávamos um uniforme fino quando a temperatura era menos 20 graus. Não tínhamos
					casaco, remédio, notícias. A comida era pouca” (<xref ref-type="bibr" rid="B22"
						>Gonçalves, 2013</xref>, p. 15).</p>
			</disp-quote>
			<p>Dessa forma, é plausível reconhecer que a burocracia eficiente do Estado, respaldada
				por estrutura militarizada e organizacional meticulosa, desempenhou papel crucial na
				facilitação e execução dos planos de extermínio. <xref ref-type="bibr" rid="B8"
					>Arendt (1998)</xref> revela que Adolf Eichmann, ao contrário do que a acusação
				tentava estabelecer em seu julgamento, era pessoa comum, desprovida dos traços
				monstruosos frequentemente associados aos oficiais nazistas. Ele era um
					<bold>burocrata</bold> de personalidade medíocre. No entanto, conforme aponta
					<xref ref-type="bibr" rid="B8">Arendt (1998)</xref>, suas ações mostram
				coerência, pois a função de um burocrata não é assumir responsabilidades, mas sim
				executar ordens, limitando-se a seguir instruções.</p>
			<p>A análise sócio-histórica hermenêutica oferece perspectiva penetrante para a
				compreensão de eventos complexos e seus contextos (<xref ref-type="bibr" rid="B49"
					>Thompson, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B48">StefanI; Vizeu,
					2014</xref>). Mediante a aplicação dessa abordagem, pode-se, de forma análoga,
				afirmar que, assim como no Holocausto, episódio de profunda relevância histórica,
				podem-se delinear as práticas empregadas pelo <italic>management</italic> e sua
				busca excessiva por eficiência e produtividade.</p>
			<p>No Holocausto, as estruturas sociopolíticas, aliadas às crenças culturais e ao poder
				do regime nazista, culminaram em genocídio devastador (<xref ref-type="bibr"
					rid="B8">Arendt, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Butz, 2003</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B31">Longerich, 2010</xref>). Pela abordagem
				sócio-histórica hermenêutica, destacar a interação entre fatores históricos e ação
				humana permite compreender a construção desses significados (<xref ref-type="bibr"
					rid="B49">Thompson, 2000</xref>), que legitimaram o extermínio sistemático de
				milhões de vidas. Isso espelha as dimensões individuais e sociais que se entrelaçam,
				culminando em consequências trágicas.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>5 O QUE PODEMOS APRENDER DA ANALOGIA
				HOLOCAUSTO-<italic>MANAGEMENT</italic></title>
			<p>Analogamente, o campo do <italic>management</italic> é marcado pela busca incessante
				por eficiência e produtividade (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Drucker,
				1995</xref>). No entanto, a análise crítica revela paralelos preocupantes. A
				priorização da otimização de processos pode resultar em desumanização dos
				trabalhadores. Da mesma forma como o Holocausto desconsiderou as necessidades
				humanas, a lógica do <italic>management</italic> pode negligenciar o bem-estar dos
				trabalhadores em nome de metas quantitativas (<xref ref-type="bibr" rid="B52">Vizeu,
					2010</xref>).</p>
			<disp-quote>
				<p>O conhecimento gerencial estruturado tem sua origem no modelo burocrático de
					organização construído durante a industrialização. No processo de transição da
					atividade agrícola à ênfase na produção fabril, os princípios da organização
					burocrática tornam-se uma referência fundamental da nova forma de organização da
					sociedade baseada em um sistema econômico capitalista.</p>
				<p>(…)</p>
				<p>Na prática o gerenciamento se concretiza no aperfeiçoamento da separação entre
					quem pensa e quem produz, ou seja, na divisão do trabalho que se consolida na
					atividade de alguém considerado capacitado para decidir em nome de muitos (<xref
						ref-type="bibr" rid="B11">Calgaro; Ferreira; Seifert Júnior, 2021</xref>, p.
					120).</p>
			</disp-quote>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B16">Dejours (2007)</xref> observou que, apesar do avanço
				tecnológico e das novas formas de organização do trabalho, o fim do trabalho penoso
				não se concretizou como anunciado. Pelo contrário, essas mudanças têm acentuado as
				desigualdades e a injustiça social, além de introduzirem formas de sofrimento mais
				complexas e sutis, especialmente no que diz respeito ao aspecto psicológico.</p>
			<p>Como exemplo, considere a prática de ‘<italic>downsizing</italic>’ ou ‘redução de
				quadros’ que, embora vise à eficiência, pode levar a demissões em massa, impactando
				negativamente a vida dos trabalhadores e suas famílias. Similarmente, no Holocausto,
				a busca por eficiência conduziu a execuções em larga escala, ignorando as vidas
				individuais em prol de objetivos macabros. Cabe a reflexão que as relações de
				trabalho nas organizações frequentemente despersonalizam o trabalhador,
				marginalizando sua subjetividade e transformando-o em vítima de seu trabalho (<xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Dejours, 1992</xref>).</p>
			<p>Em ambas as situações, a compreensão hermenêutica (<xref ref-type="bibr" rid="B49"
					>Thompson, 2000</xref>) revela a interconexão entre fatores socioculturais e as
				ações individuais que moldam os resultados. No Holocausto, o contexto histórico e as
				crenças culturais culminaram em tragédia. No contexto do
				<italic>management</italic>, a busca desenfreada por eficiência pode levar à
				alienação dos trabalhadores, resultando em desumanização.</p>
			<disp-quote>
				<p>O trabalho é reduzido à execução de tarefas fixas, homogêneas e monótonas
					incorporadas a uma rotina artificialmente projetada e monitorada, eliminando
					todas as dimensõesdoprocessoprodutivoqueoferecemobstáculosaosobjetivosde
					valorização do capital, a dinâmica e a rotinização do processo de produção não
					deixam espaçoparaqueotrabalhadorrepenseoprocessoprodutivoeseuspróprios
					interesses (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Paranhos; Neves; Silva, 2008</xref>,
					p. 4).</p>
			</disp-quote>
			<p>A atividade laboral humana tem como objetivo a produção e a subsistência, o que,
				tradicionalmente, leva à crença de que maior investimento em trabalho resulta em
				maior criação de riqueza e, consequentemente, em melhoria na qualidade de vida. No
				entanto, observa-se que a dinâmica está se invertendo: os indivíduos estão vivendo
				para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Isso é evidenciado pelo fato de que
				os trabalhadores continuam envolvidos em suas ocupações mesmo durante os períodos
				designados para o descanso (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Paranhos; Neves; Silva,
					2008</xref>).</p>
			<p>Nesse sentido, as consequências do emprego de práticas do <italic>management</italic>
				aos trabalhadores, quando examinadas sob visão crítica, podem ser profundas e
				abrangentes, afetando não apenas o seu bem-estar individual, mas também a dinâmica
				social e a própria estrutura da sociedade.</p>
			<p>Do ponto de vista individual, a desumanização no ambiente laboral inclui a
				deterioração da qualidade do trabalho, a rotatividade de funcionários e a
				resistência interna, de maneira que “nem sempre possibilita realização profissional;
				pode, ao contrário, causar problemas que vão desde insatisfação até exaustão” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B38">Pêgo; Pêgo, 2016</xref>, p. 172). A exploração
				constante dos trabalhadores, seja por meio de cargas de trabalho excessivas ou
				pressões constantes por produtividade, pode resultar em esgotamento físico e mental.
				O <italic>Burnout</italic>, caracterizado por exaustão emocional e baixa realização
				profissional, é consequência comum da gestão maléfica.</p>
			<disp-quote>
				<p>As mudanças que têm ocorrido no mundo do trabalho, como, por exemplo, o processo
					de globalização da economia, as novas tecnologias, a grande competição no
					mercado de trabalho, a necessidade de se produzir mais e mais rápido evitando
					desperdícios, entre muitos outros fatores, acabam gerando um desgaste físico e
					emocional nos trabalhadores (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Pêgo; Pêgo,
						2016</xref>, p. 172).</p>
			</disp-quote>
			<p>Em escala maior, tais práticas prejudiciais de gestão podem contribuir para uma
				sociedade mais desigual, com trabalhadores descontentes e insatisfeitos. Isso pode
				levar a tensões sociais, instabilidade econômica e impactos negativos no bem-estar
				geral da população, o que já se pode observar no aumento significativo do
				afastamento do trabalho por causa da Síndrome de <italic>Burnout</italic>.</p>
			<disp-quote>
				<p>A síndrome de Burnout não é modismo, não é meramente um <italic>trend
						topic,</italic> é uma doença sorrateira que existe realmente, que acomete
					milhares de trabalhadores em todo o mundo neste exato momento e que pode se
					tornar uma grave ameaça para a saúde das pessoas, das organizações e da
					sociedade em geral, trazendo diversos prejuízos (<xref ref-type="bibr" rid="B12"
						>Carvalho, 2023</xref>, p. 73).</p>
			</disp-quote>
			<p>À medida que as estruturas sociais, econômicas e científicas se tornam mais complexas
				e sofisticadas, nas quais o corpo, há muito tempo, foi adaptado para operar no
				sistema de produção, as experiências que elefreir é capaz de vivenciar se tornam
				cada vez mais empobrecidas (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Horkheimer; Adorno,
					1985</xref>).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>6 CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>Conforme bem assinalado por <xref ref-type="bibr" rid="B25">Horkheimer (2002)</xref>,
				a teoria se manifesta como conhecimento acumulado que viabiliza a caracterização dos
				fenômenos de maneira minuciosa. No presente contexto, essa reflexão nos conduz à
				constatação de que a abordagem funcionalista-gerencialista persiste como faceta
				distintiva no escopo das ciências sociais aplicadas, sobretudo na esfera da gestão
					(<xref ref-type="bibr" rid="B52">Vizeu, 2010</xref>).</p>
			<p>Na proposta de exploração analógica entre as práticas realizadas no Holocausto com as
				práticas do <italic>management</italic>, no que se refere à <bold>racionalização da
					gestão</bold> e <bold>desumanização dos trabalhadores</bold>, chega-se a suas
				raízes de base excessivamente racionais. Embora em diferentes escalas e contextos,
				ambos os cenários envolvem a desvalorização da humanidade em prol de metas
				abstratas.</p>
			<p>Nesse sentido, a proposta de comparação visa chamar à atenção para os extremos
				perigos que podem surgir quando o foco excessivo na eficiência esgota a empatia e a
				consideração pelos seres humanos.</p>
			<p>O sistema nazista funcionava com hierarquia de poder rígida, na qual alguns detinham
				controle total sobre a vida e a morte de outros. Isso pode ser comparado a
				organizações com estruturas hierárquicas abusivas, em que gestores têm poder
				excessivo sobre os trabalhadores e podem exercer controle injusto e prejudicial
					(<xref ref-type="bibr" rid="B31">Longerich, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B36">Paranhos; Neves; Silva, 2008</xref>).</p>
			<p>O regime nazista promoveu uma cultura organizacional que incentivava a submissão cega
				à autoridade, desencorajando questionamentos éticos. Analogamente, algumas
				organizações podem criar culturas nas quais os trabalhadores são desencorajados a
				levantar preocupações éticas e são pressionados a seguir ordens prejudiciais (<xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Arendt, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10"
					>Butz, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B31">Longerich, 2010</xref>).</p>
			<p>Reitera-se a importância de equilibrar a busca por eficiência com a preservação da
				humanidade no ambiente de trabalho. Por meio da análise das implicações da lógica do
					<italic>management</italic> e da analogia com o Holocausto, destaca-se a
				necessidade de abordagem mais holística e compassiva para a administração.</p>
			<p>A desumanização resultante da racionalização excessiva é advertência clara de que a
				eficiência não deve ser alcançada à custa da dignidade humana, visto que, segundo
					<xref ref-type="bibr" rid="B20">Freitas (2006)</xref>, o trabalho é processo
				dialético: de um lado, o trabalhador, que atribui significado às suas ações; de
				outro, as situações de trabalho, ou seja, o trabalho real, que influencia as
				percepções do trabalhador sobre todo o contexto laboral.</p>
			<p>Repensar a lógica do <italic>management</italic> requer abordagem mais holística, que
				leve em consideração não apenas os resultados quantificáveis, mas também os aspectos
				qualitativos e humanos das organizações. Isso pode envolver a promoção de ambientes
				de trabalho colaborativos, a valorização da diversidade de pensamento e a busca por
				equilíbrio entre eficiência e inovação (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Alves;
					Galeão-Silva, 2004</xref>).</p>
			<p>Em conclusão, a análise sócio-histórica hermenêutica à luz de <xref ref-type="bibr"
					rid="B49">Thompson (2000)</xref> nos permite compreender profundamente eventos
				como o Holocausto, enfatizando as interações entre fatores históricos e humanos. Ao
				traçar paralelo crítico com as práticas de gestão contemporâneas, evidencia-se a
				importância de equilibrar a eficiência com a humanização no ambiente de trabalho.
				Assim como o Holocausto alerta sobre os perigos da desumanização, a crítica ao
					<italic>managemen</italic>t nos recorda que a busca excessiva por produtividade
				não deve se sobrepor às necessidades e à dignidade dos trabalhadores.</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dejours (1992)</xref>, a organização do trabalho
				produz sobre o homem ações específicas em seu aparelho específico, tendo em vista
				que, em determinadas contextos laborais, surge sofrimento em decorrência do choque
				entre os desejos pessoais do sujeito que trabalha e a organização que não acolhe os
				sonhos e as esperanças desse sujeito trabalhador.</p>
			<p>Por fim, explorar o Holocausto como metáfora nos Estudos Organizacionais, em
				especial, as práticas de gestão, oferece lente intrigante para examinar dinâmicas
				organizacionais e os seus riscos significativos. Essa analogia visa destacar a
				importância da responsabilidade individual e coletiva na gestão. Assim como a
				banalização do mal foi conceito discutido em relação ao Holocausto, a visão crítica
				do <italic>management</italic> visa enfatizar a necessidade de reconhecer a
				responsabilidade de todos os envolvidos na tomada de decisões organizacionais.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
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