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	<front>
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				<journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Opin. Jur.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">1806-0420</issn>
			<issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
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				<publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v17i24.p13-30.2019</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigos</subject>
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			<title-group>
				<article-title>O Legado Político De Platão Sob O Olhar Liberal De Karl Popper:
					Discussões Em Torno Do Advento De Regimes
					Democrático-Autocráticos</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>THE PLATO POLITICAL LEGACY UNDER THE LIBERAL VIEW OF KARL POPPER:
						DISCUSSIONS AROUND THE ADVENT OF DEMOCRATIC- AUTOCRATIC
						REGIMES</trans-title>
				</trans-title-group>
				<trans-title-group xml:lang="es">
					<trans-title>EL LEGADO POLÍTICO DE PLATÓN BAJO LA MIRADA LIBERAL DE KARL POPPER:
						DISCUSIONES EN TORNO DEL ADVENIMIENTO DE LOS REGÍMENES
						DEMOCRÁTICO-AUTOCRÁTICOS</trans-title>
				</trans-title-group>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-3259-9906</contrib-id>
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						<surname>Verbicaro</surname>
						<given-names>Loiane Prado</given-names>
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				<label>*</label>
				<institution content-type="orgname">Centro Universitário do Pará</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">CNPQ</institution>
				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>loianeverbicaro@uol.com.br</email>
				<institution content-type="original">Doutora em Filosofia do Direito pela
					Universidade de Salamanca, Mestre em Direitos Fundamentais e Relações Sociais
					pela Universidade Federal do Pará, Mestre em Ciência Política pela Universidade
					Federal do Pará, Coordenadora e Professora da Graduação e do Mestrado em Direito
					do Centro Universitário do Pará. Graduanda em Filosofia na Universidade Federal
					do Pará. Líder do Grupo de Pesquisa (CNPQ): Democracia, Poder Judiciário e
					Direitos Humanos. &lt;Email: loianeverbicaro@uol.com.br&gt;.
					https://orcid.org/0000-0002-3259-9906</institution>
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				<label>**</label>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal de Pernambuco</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Fator Acidentário de Prevenção</institution>
				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>bandarraportugal@ig.com.br</email>
				<institution content-type="original">Doutor em Ciência Política (UFPE). Mestre em
					Ciência Política (UFPA). Especialista em Direito Público (FAP). Graduado em
					Direito (UFPA). Email: &lt;bandarraportugal@ig.com.br&gt;.
					https://orcid.org/0000-0002-8918-2845</institution>
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			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2019</year>
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			<volume>17</volume>
			<issue>24</issue>
			<fpage>13</fpage>
			<lpage>30</lpage>
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				<date date-type="received">
					<day>28</day>
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					<year>2018</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
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					<year>2018</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
						distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
						que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Na literatura em filosofia, teoria política e outros campos afins do conhecimento
					em ciências humanas e sociais, permanece inconclusiva a discussão sobre a
					natureza do legado político deixado por Platão. Para alguns autores, como Karl
					Popper, o pensamento platônico exibe indiscutíveis elementos autoritários, a
					ponto de influenciar decisivamente uma tradição coletivista que se contrapõe ao
					individualismo democrático, pedra de toque das democracias representativas de
					tipo liberal. Após o fim da Guerra Fria, assistiu-se ao advento dos chamados
					regimes híbridos ou iliberais, trazendo de volta ao debate acadêmico aspectos
					normativos das críticas liberais endereçadas à tradição influenciada pelo
					pensamento político de Platão. O trabalho, por intermédio de pesquisa
					bibliográfica de abordagem qualitativa, tem por objetivo discutir e revisitar a
					literatura para atualizar o debate sobre o legado do coletivismo platônico,
					tendo como referencial teórico o pensamento liberal de Karl Popper e a
					emergência dos regimes híbridos (democrático-autoritários). A conclusão
					principal é a de que a tensão entre o coletivismo de recorte platônico e o
					individualismo democrático, típico do liberalismo, permanece atual como se pode
					observar pelos choques entre regimes híbridos e democracias liberais.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>In literature in philosophy, political theory, and other related fields of
					knowledge in the human and social sciences, the discussion about the nature of
					the political legacy left by Plato remains inconclusive. For some authors such
					as Karl Popper, Platonic thought exhibits undisputed authoritarian elements to
					the point of decisively influencing a collectivist tradition that contrasts with
					democratic individualism, the touchstone of representative liberal democracies.
					After the end of the Cold War, we witnessed the advent of so-called hybrid or
					illiberal regimes, bringing back to the academic debate normative aspects of
					liberal criticism addressed to the tradition influenced by Plato’s political
					thought. Through a bibliographical research with a qualitative approach, the
					objective of this work is to discuss and revise the literature to update the
					debate about the legacy of Platonic collectivism, having as theoretical
					reference the liberal thinking of Karl Popper and the emergence of hybrid
					regimes (democratic authorities). The main conclusion is that the tension
					between platonic clipping collectivism and democratic individualism, typical of
					liberalism, remains current as can be seen by the clashes between hybrid regimes
					and liberal democracies.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>En la literatura en filosofía, teoría política y otros campos afines del
					conocimiento en ciencias humanas y sociales, permanece inconclusa la discusión
					sobre la naturaleza del legado político dejado por Platón. Para algunos autores
					como Karl Popper, el pensamiento platónico exhibe indiscutibles elementos
					autoritarios a punto de influir decisivamente en una tradición colectivista que
					se contrapone al individualismo democrático, piedra angular de las democracias
					representativas de tipo liberal. Después del fin de la Guerra Fría, se asistió
					al surgimiento de los llamados regímenes híbridos o iliberales, trayendo de
					vuelta al debate académico aspectos normativos de las críticas liberales
					dirigidas a la tradición influenciada por el pensamiento político de Platón. Por
					medio de investigación bibliográfica de abordaje cualitativo, el trabajo tiene
					por objetivo discutir y revisar la literatura para actualizar el debate sobre el
					legado del colectivismo platónico, teniendo como referencial teórico el
					pensamiento liberal de Karl Popper y el surgimiento de los regímenes híbridos
					(democrático-autoritarios). La conclusión principal es que la tensión entre el
					colectivismo de recorte platónico y el individualismo democrático, típico del
					liberalismo, permanece actual como se puede observar por los choques entre
					regímenes híbridos y democracias liberales.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Platão</kwd>
				<kwd>Totalitarismo</kwd>
				<kwd>Popper</kwd>
				<kwd>Liberalismo</kwd>
				<kwd>Regimes Híbridos</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Plato</kwd>
				<kwd>Totalitarianism</kwd>
				<kwd>Popper</kwd>
				<kwd>Liberalism</kwd>
				<kwd>Hybrid Regimes</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Platón</kwd>
				<kwd>Totalitarismo</kwd>
				<kwd>Popper</kwd>
				<kwd>Liberalismo</kwd>
				<kwd>Regímenes Híbridos</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1 INTRODUÇÃO</title>
			<p>No final do século XX, a queda do muro de Berlim e o colapso do comunismo soviético
				constituíram-se em eventos históricos que sugeriram o triunfo aparente do
				liberalismo. Todavia, a ideia de um historicismo liberal afigura-se equivocada,
				considerando que a tradição liberal não admite a inexorabilidade de um sentido (ou
				caminho) único para a trajetória da história. Apenas alguns anos depois do fim da
				Guerra Fria, assistiu-se ao advento das chamadas democracias iliberais. No século
				XXI, em um cenário de desdemocratização ou de enfraquecimento das democracias
				contemporâneas, ainda que sob o verniz democrático, como nos alerta <xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Tilly (2013)</xref>, a literatura identificou a
				emergência de regimes políticos que mesclam, simultaneamente, traços autoritários e
				democráticos, sendo nominados de regimes híbridos cujo escopo se contrapõe à
				manutenção, à consolidação e ao aprimoramento das instituições típicas da democracia
				representativa de tipo liberal.</p>
			<p>As ideias centrais que justificam a implantação e a vigência dos regimes híbridos
				guardam conexão com o pensamento político de Platão, desvelando a permanência do seu
				ideal coletivista. Isso porque, segundo a perspectiva popperiana, o filósofo teria
				inaugurado uma tradição política que serviria de fundamento para a atuação das
				forças de uma sociedade fechada, com nítido caráter totalitário, que pretende
				controlar os processos históricos, diferentemente dos defensores da sociedade aberta
				que acreditam que, por meio do uso da razão crítica, as instituições democráticas
				necessitam de reformas contínuas para se adaptarem às mudanças sociais sem a
				pretensão de subjugar a trajetória do curso da história.</p>
			<p>Em “A República”, <xref ref-type="bibr" rid="B15">Platão (2000)</xref> reserva o
				exercício do poder político aos filósofos, em uma organização hierárquica na qual os
				sábios governam, os guerreiros protegem a cidade e os produtores a provêm
				materialmente, segundo suas inclinações e aptidões naturais, mantendo-se, dessa
				forma, o projeto coletivista. Essa estrutura política hierarquizada foi classificada
				por Popper como “comunismo de castas” e teria como escopo principal deter as
				mudanças sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B16">POPPER, 1987</xref>, p. 62-63).
				Além de Popper, outros autores da tradição liberal também apresentaram críticas à
				filosofia política de Platão, como Ayn Rand e, até mesmo, Hannah Arendt,
				identificada como pensadora republicana.</p>
			<p>Ao exilar-se na Nova Zelândia, onde foi lecionar na <italic>Canterbury University
					College</italic>, Popper escreveu “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”
					(<italic>Open Society and its Enemies</italic>), sua obra seminal de filosofia
				política. Nela, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial e com receio de que a
				liberdade fosse suprimida no Ocidente, especialmente pelos regimes totalitários,
				tentou demonstrar que uma espécie de fio condutor histórico interligava o Estado
				ideal platônico descrito em “A República” (e, claramente, inspirado em Esparta) aos
				regimes do Leste Europeu. Assim, no cerne de suas teses, Popper contrapôs a esse fio
				condutor fundado no coletivismo totalitário uma corrente que se teria iniciado na
				Atenas de Péricles com a chamada Grande Geração, cuja figura central era Sócrates, e
				que tinha por fundamento filosófico-político o exercício da liberdade crítica
				individual como meio de aprimorar as instituições democráticas. (<xref
					ref-type="bibr" rid="B18">POPPER, 1977</xref>, p. 123).</p>
			<p>Na concepção popperiana, a corrente democrática - fundada no individualismo
				igualitarista e no exercício da liberdade crítica - vincula-se à herança política
				liberal, notadamente, Immanuel Kant e Schopenhauer, e promove um ataque ao programa
				filosófico-político platônico. Acusa-o de totalitário e anti-humanitário ao conceber
				em “A República” um modelo ideal de Estado cristalizador do privilégio de classe,
				contemplador do elitismo, da injustiça e violador do ideal de liberdade. Essa visão
				epistemológica classista, estática e de nítido viés totalitário se contrapõe à
				concepção de sociedade aberta, cujo conteúdo é, indiscutivelmente,
				institucionalista.</p>
			<p>No debate acadêmico, permanece inconclusiva a discussão sobre a natureza do legado
				político deixado por Platão. No entanto, a pesquisa acolhe os argumentos de Karl
				Popper, para quem o pensamento platônico exibe indiscutíveis elementos autoritários,
				a ponto de influenciar decisivamente uma tradição coletivista que se contrapõe ao
				individualismo democrático, pedra de toque das democracias representativas do tipo
				liberal.</p>
			<p>Com o advento dos chamados regimes híbridos ou iliberais, após o fim da Guerra Fria,
				os aspectos normativos das críticas liberais endereçadas à tradição influenciada
				pelo pensamento político de Platão passaram a ocupar um lugar de maior visibilidade
				no debate acadêmico. É nesse contexto que o trabalho, por intermédio de pesquisa
				bibliográfica de abordagem qualitativa, propõe-se a discutir e revisitar a
				literatura para atualizar o debate sobre o legado do coletivismo platônico, sob o
				olhar liberal de Karl Popper, e a sua influência no advento de regimes híbridos
				(democrático-autoritários).</p>
			<p>Para o desenvolvimento dessas ideias, o trabalho se divide em 3 capítulos. O primeiro
				capítulo centra-se na exposição da alegoria da caverna (Livro VII da obra “A
				República”) e de seus simbolismos à organização política, social e educacional da
				cidade grega, fundamentalmente aqueles que serão usados por Popper em sua análise
				crítica à teoria platônica; no capítulo seguinte, são apresentadas as principais
				reflexões críticas que o filósofo-político liberal Karl Popper faz ao modelo
				totalitário de Platão presentes em “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”, em uma
				clara tentativa de desmistificar a carga humanitária e idealista que a obra do
				filósofo grego transmitiu como importante legado para a cultura ocidental; e, por
				fim, o último capítulo analisa como o advento dos chamados regimes híbridos
				(democrático-autocráticos) desvela a permanência do pensamento político
				platônico.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 AS PRINCIPAIS DIRETRIZES DO PENSAMENTO DE PLATÃO: UM PRO-JETO
				AUTORITÁRIO?</title>
			<p>No Livro VII da obra “A República”, Platão utiliza-se de diálogos entre dois
				personagens, Glauco e Sócrates, para apresentar um modelo ideal de cidade (<xref
					ref-type="bibr" rid="B17">PLATÃO, 2000</xref>, p. 319-357). No diálogo, Sócrates
				sugere a Glauco que imaginasse certa experiência em que homens, vivendo desde a
				infância em uma habitação subterrânea em forma de caverna, com uma pequena entrada
				aberta para a luz, encontram-se algemados nas pernas e nos pescoços, de tal maneira
				que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhando para frente. Esses homens,
				aprisionados na obscuridade quase completa da caverna, vivem sem nunca ter visto o
				mundo exterior nem a luz do Sol, mas apenas as sombras dos objetos, dos outros
				homens e de si próprios. Nessas condições, não pensavam que a realidade fosse outra
				senão a sombra dos objetos que viam.</p>
			<p>Indaga-se a Sócrates o que aconteceria com esses homens se alguns deles fossem
				libertados desse obscurantismo ilusório. Responde Sócrates afirmando que, após um
				árduo caminho de obstáculos até a saída da caverna, sentir-se-iam divididos entre a
				incredulidade e o deslumbramento, e o primeiro impulso deles seria o de retornar à
				caverna em busca do breu acolhedor e familiar da escuridão (<xref ref-type="bibr"
					rid="B17">PLATÃO, 2000</xref>, p. 20).</p>
			<p>Sentindo-se sem disposição para regressar à caverna, em virtude da rudeza do caminho,
				o prisioneiro, aos poucos, habitua-se ao mundo exterior e à luz do Sol. Doravante,
				lutará para que os outros prisioneiros também abandonem a caverna sombria em busca
				da luminosidade do mundo exterior. Ocorre que, ao regressar à caverna subterrânea,
				os demais prisioneiros não creriam no novo mundo apresentado pelo companheiro
				outrora encarcerado e, diante da insistência em afirmar a existência de um outro
				mundo exterior, os prisioneiros matá-lo-iam, uma vez que, em suas concepções, o
				liberto, ao ter subido ao mundo superior, estragara a sua visão.</p>
			<p>Ao conceber essa experiência em uma caverna subterrânea, Platão apresenta, de forma
				alegórica, o mundo das aparências sensíveis (sombras projetadas na caverna), os
				preconceitos e as opiniões (grilhões), a verdade e o bem (Sol), o mundo inteligível
				(mundo iluminado pelo sol da verdade) e a filosofia (instrumento capaz de libertar
				os prisioneiros da obscuridade das ilusões).</p>
			<p>Com essas ideias, o filósofo grego concebe um modelo de cidade justa governada por
				filósofos, que deveriam receber uma formação adequada (educação ideal aos
				governantes de um Estado ideal comandada pelas próprias instituições estatais) a fim
				de assumir o comando do Estado. As mães e as babás seriam, por exemplo, orientadas a
				colaborar na criação de “belos mitos” junto às crianças, reforçando, assim, a força
				do credo político estacionário, voltado para deter as mudanças sociais - viés
				totalitário concebido por Platão. Nas palavras de Platão:</p>
			<p><disp-quote>
					<p>Em primeiro lugar, então, devemos manter vigilância sobre os que criam os
						mitos e, se criarem um belo mito, deveremos incluí-lo em nossa seleção e, se
						não, excluí-lo. Os mitos que forem escolhidos nós persuadiremos as amas e as
						mães que os narrem às crianças e com elas moldem as almas delas muito mais
						que com suas mãos lhes moldam os corpos. Muitos dos mitos que elas hoje
						narram às crianças devem ser jogados fora. [...] Os que Hesíodo e Homero
						contavam, falei, e também outros poetas. Foram eles que compuseram esses
						mitos mentirosos e os narravam e narram ainda aos homens (<xref
							ref-type="bibr" rid="B17">PLATÃO, 2000</xref>, p. 75).</p>
				</disp-quote></p>
			<p>Referida formação inclui o conhecimento da matemática, da geometria, da
				estereometria, da astronomia e da dialética como condição indispensável para se
				chegar à verdade pura do mundo inteligível e do pensamento filosófico, em oposição
				às sombras opacas da ignorância (unidade da verdade x multiplicidade das
				opiniões).</p>
			<p>Após seguir o percurso desse longo processo formativo-educacional (técnica
				libertadora do espírito, arte de fazer a conversão da ignorância para a luz), o
				filósofo, liberto da obscuridade do mundo sensível, passa a viver sob a
				luminosidade, a clareza e a distinção do mundo inteligível, e é aí que se inicia a
				sua missão política de ter de conduzir os demais indivíduos, ainda presos aos
				grilhões da ignorância, à luz e à verdade libertadora proporcionada pelo
				conhecimento da essência das coisas e pela ascensão da alma para a região do
				inteligível (ideia do bem). Trata-se do movimento dialético ascendente (do mundo
				sensível ao mundo inteligível) e descendente (após a ascensão, consiste no retorno
				do filósofo ao mundo sensível para conduzir os demais indivíduos ao conhecimento da
				ideia do bem).</p>
			<p>Com a idealização desse modelo, a <italic>pólis</italic> grega deveria assumir uma
				estrutura tripartite, formada por três classes sociais: 1) a classe dos governantes
				(filósofos); 2) a classe dos artesãos e dos comerciantes (garantia de sobrevivência
				material da cidade); 3) e a classe dos guerreiros (defesa da cidade). A cidade justa
				seria exatamente aquela governada pelos sábios, protegida pelos guerreiros e mantida
				materialmente pelos artesãos e pelos comerciantes. Cada classe, formada de acordo
				com suas aptidões naturais (seleção a partir das inclinações), deverá cumprir sua
				função para a harmonia da cidade, que deve ser racionalmente conduzida pelos
				filósofos - únicos capazes de pensar no bem comum da <italic>pólis</italic> e
				governá-la com justiça (<xref ref-type="bibr" rid="B17">PLATÃO, 2000</xref>).</p>
			<p>Nota-se a proposição de um modelo ideal de cidade justa a partir da construção de um
				programa político que tenha como objetivo a realização da justiça e do bem comum
				associada a uma educação necessária à libertação do espírito e ao conhecimento da
				ideia do bem e de uma estrutura tripartite de classes sociais organizadas na virtude
				militar da disciplina, com base nas inclinações e nas aptidões dos cidadãos.</p>
			<p>No que se refere à organização política da cidade ideal, <xref ref-type="bibr"
					rid="B15">Platão (2000)</xref> imagina um poder político centrado em um Governo
				de Filósofos. Nesse sentido, apenas os homens dotados de razão, conhecedores das
				ciências, são os que, de fato, devem guiar os demais homens e conduzir os rumos da
				coisa pública. À luz da sua teoria, homens aprisionados no mundo sensível são
				incapazes de guiar homens tão aprisionados como eles próprios. Homens sábios
				(filósofos), ao contrário, conhecedores da ideia do bem, são os únicos capazes de
				conduzir os demais homens à libertação dos grilhões que os impedem de ascender ao
				mundo inteligível das ideias.</p>
			<p>Partindo desse pensamento, <xref ref-type="bibr" rid="B15">Platão (2000)</xref>
				concebe um modelo de educação - <italic>paidéia</italic> filosófica - dos
				governantes da cidade ideal como forma de permitir, gradativamente, que os
				indivíduos alcancem os estágios diferenciados da libertação (passagem de um grau de
				conhecimento para outro) por meio de um ato de conversão do espírito que perpassa
				por sucessivas etapas do conhecimento: conhecimento sensível, conhecimento pela
				crença (opinião), conhecimento científico (conhecimento dos números, das causas, das
				leis) e conhecimento metafísico (das ideias, do bem), com o indispensável auxílio do
				governante-sábio (filósofo).</p>
			<p>Registre-se que a ideia de <italic>Paidéia</italic>, concebida inicialmente como uma
				teoria destinada a cuidar da educação infantil, surgiu em Atenas e, no século IV
				a.C, passou a abranger a relação do indivíduo com os demais cidadãos, tornando-o
				capaz de participar ativamente da vida da <italic>pólis</italic>, sobretudo dos
				debates na Ágora, <italic>lócus</italic> essencial da democracia ateniense, que teve
				em Péricles o seu grande líder e tribuno, como se pode constatar, por exemplo, pelo
				relato de Tucídides na obra clássica História da Guerra do Peloponeso. Aqui, os
				contrastes entre as concepções de Sócrates e de Platão são significativos e
				igualmente realçados por Popper em <italic>Open Society</italic>.</p>
			<p>Embora tenha sido discípulo de Sócrates, Platão concebeu uma educação rígida e
				hierarquizada, de clara inspiração no modelo espartano, segundo entendeu <xref
					ref-type="bibr" rid="B17">Popper (1998, p. 69)</xref>. Bem diferente era a visão
				de Sócrates no tocante à educação da juventude e à formação dos cidadãos, pois
				acreditava que todos podiam ter acesso ao conhecimento, não se excluindo disso nem
				mesmo os escravos de Atenas. Popper não lhe poupou elogios, vendo-o como um dos
				defensores da nascente sociedade aberta:</p>
			<p><disp-quote>
					<p>Já mencionei alguns aspectos do ensinamento de Sócrates: seu intelectualismo,
						isto é, sua teoria igualitária da razão humana como meio universal de
						comunicação; sua insistência na honestidade intelectual e na autocrítica;
						sua teoria igualitária da justiça e sua doutrina de que é melhor sofrer a
						injustiça do que infringi-la a outros. Penso que esta última doutrina é a
						que melhor nos ajuda a compreender o âmago de seu ensinamento, seu credo
						individualista, sua crença no indivíduo humano como um fim em si mesmo
							(<xref ref-type="bibr" rid="B17">POPPER, 1998</xref>, p. 205).</p>
				</disp-quote></p>
			<p>Diversamente, <xref ref-type="bibr" rid="B15">Platão (2000)</xref> apresenta-se como
				um crítico à ideia de democracia. Para ele, existem requisitos indispensáveis para a
				realização de um bom governo, a saber: ausência de ânsia pelo poder, conhecimento do
				bem (mundo inteligível), agudeza de espírito para o estudo, ausência de dificuldade
				em aprender, preocupação com a memória, força e gosto pelo trabalho em todas as suas
				formas. Com isso, <xref ref-type="bibr" rid="B15">Platão (2000)</xref> defende o
				privilégio de classe e rechaça a lógica democrática pautada no igual direito de
				todos (sábios ou não) em participar do governo da <italic>pólis</italic>, uma vez
				que cidadãos sem acesso à ideia do bem, prisioneiros, portanto, das trevas que os
				conduzem às simples aparências sensíveis, são incapazes de, no breu das ilusões,
				ascender ao brilho e à luminosidade dos raios do Sol.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref>, no entanto, como será visto na
				próxima seção, promove um pesado ataque ao programa filosófico-político platônico e
				acusa-o de totalitário e anti-humanitário ao conceber em “A República” um modelo
				ideal de Estado cristalizador do privilégio de classe, contemplador do elitismo, da
				injustiça e violador do ideal de liberdade. Essa visão epistemológica classista,
				estática e, portanto, de nítido viés totalitário contrapõe-se à concepção de
				sociedade aberta popperiana cujo conteúdo é, indiscutivelmente,
				institucionalista.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3 AS CRÍTICAS LIBERAIS DE KARL POPPER AO PROGRAMA POLÍTICO DE PLATÃO</title>
			<p>Karl Popper, ferrenho crítico das doutrinas políticas totalitárias, dedica uma de
				suas obras aos inimigos das sociedades abertas e democráticas. Critica-os ao
				relativizarem a liberdade em prol de um suposto bem comum (ideal coletivista).
				Popper centra suas reflexões no pensamento de Platão e acusa-o de totalitário,
				anti-humanitário e elitista. Popper recua, portanto, à antiguidade grega para
				demarcar uma cisão inconciliável entre a trajetória dos defensores da sociedade
				fechada - inaugurada por Platão e estendida à contemporaneidade tanto por autores de
				esquerda quanto de direita - e os adeptos da sociedade aberta - iniciada por
				Sócrates até alcançar a democracia liberal do tempo presente. É curioso notar como
				Popper, embora tenha rechaçado o chamado historicismo platônico (pelo qual a
				história caminharia em um único sentido), concebe uma teoria do fio condutor
				histórico ao prescrever o embate secular entre as forças da sociedade detida e da
				sociedade aberta.</p>
			<p>O regime social de classes idealizado por Platão, baseado em uma estrita divisão
				hierárquica e segmentária da sociedade, associado à ideia de identificação do
				destino do Estado com o da classe dirigente (governo de uma só classe, dos
				filósofos) que impõe regras rígidas para criar e educar os demais segmentos da
				sociedade, com estrita supervisão (censura das atividades intelectuais e propaganda
				contínua das classes dirigentes visando à unificação do pensamento) e coletivização
				dos interesses de seus membros são ideias tachadas por Popper de totalitárias,
				antidemocráticas e avessas à liberdade dos cidadãos (<xref ref-type="bibr" rid="B16"
					>POPPER, 1987</xref>, p. 100).</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref>, o programa político de
				Platão, longe de ser superiormente moral, identifica-se fundamentalmente com o
				totalitarismo. Assim, mesmo considerando que, à primeira vista, suas ideias sejam
				interpretadas como detentoras de uma elevada carga idealizada de moralidade, a dizer
				pelas ideias morais de bem, justiça, verdade, sabedoria e felicidade, reconhece
				Popper que essas interpretações desconsideram as inclinações reacionárias e o nítido
				teor anti-igualitário da sua teoria política.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B15">Platão (2000)</xref>, ao abordar sobre o tema
				justiça, defende a ideia de que qualquer mudança ou mescla no interior das três
				classes deve ser compreendida como injusta. Seu alvo fundamental era deter a mudança
				política. Ao defender o predomínio e o privilégio de classe, sustenta que o Estado é
				justo quando o governante governa, o trabalhador trabalha e o escravo se deixa
				escravizar. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper, (1987)</xref> esse ponto
				de vista de Platão é incompatível com o que costumeiramente se considera como justo
				- a ausência de semelhantes privilégios e a igualdade no tratamento dos indivíduos.
				Nesse sentido, por detrás da definição de justiça de Platão, situa-se,
				fundamentalmente, sua exigência do predomínio totalitário de uma classe sobre a
				outra, o que, para Popper, trata-se da consagração da mais absoluta injustiça (<xref
					ref-type="bibr" rid="B16">POPPER, 1987</xref>, p. 104-105).</p>
			<p>Receoso de que poderia estar sendo injusto e a-histórico com as ideias de Platão ao
				esperar uma antecipação da moderna ideia de justiça como igualdade dos cidadãos
				perante a lei (em oposição à ideia de justiça em um sentido holístico - justiça da
				totalidade do Estado), <xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987</xref>)
				investigou o uso grego do termo justiça, a fim de evitar problemas metodológicos em
				sua análise, e concluiu que o modo como os gregos empregavam a palavra justiça era
				semelhante ao emprego individualista e igualitário do termo, o que ratificou as
				críticas de Popper ao filósofo grego.</p>
			<p>Popper apresenta os princípios mais importantes do movimento humanitarista, a saber:
				a) princípio igualitário: eliminação dos privilégios naturais e da parcialidade no
				trato dos cidadãos. Tal princípio não ignora as justas recompensas pelo merecimento;
				b) individualismo: o individualismo não é incompatível com o altruísmo; c)
				liberdade: deve ser tarefa do Estado proteger a liberdade dos cidadãos. Popper
				contrapõe-os às ideias diametralmente opostas apresentadas por Platão, quais sejam:
				a) princípio do privilégio natural; b) princípio do holismo ou coletivismo: ideia
				segundo a qual os indivíduos deveriam se submeter aos interesses do todo, uma vez
				que eles são nitidamente inferiores se comparados à totalidade do Estado. Isso vai
				ao encontro da compreensão de unidade e estabilidade do todo coletivo; c) princípio
				de que deve ser tarefa e objetivo do indivíduo manter e reforçar a estabilidade do
				Estado (<xref ref-type="bibr" rid="B16">POPPER, 1987</xref>, p. 109-129).</p>
			<p>Tal divergência teórica entre a ética humanitária (interpretação individualista e
				igualitária da justiça) e as ideias de Platão leva Popper à conclusão de que o
				código moral de Platão, a despeito das equivocadas interpretações de sua teoria que
				afirmam o caráter humano, altruísta e cristão (cristianismo antes de Cristo) das
				suas análises, é estritamente totalitário, anti-igualitário e
				anti-individualista.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref> aponta também o nítido viés
				utilitário da teoria de Platão, ao defender o interesse do Estado como critério de
				moralidade. A utilidade coletiva, a pretexto de gerar a satisfação do ente coletivo,
				viola, frontalmente, os direitos dos indivíduos (o interesse do Estado acaba por
				dominar a vida dos cidadãos). As razões de Estado não podem ter como diretriz apenas
				a otimização do bem-estar geral, sem considerar outras dimensões de moralidade,
				justiça e equidade. Trata-se de uma moralidade calculada a partir dos benefícios e
				das consequências de um ato ou ação (egoísmo coletivo). Não apresenta em si um valor
				intrínseco, mas avalia a utilidade das ações à satisfação coletiva, autorizando o
				sacrifício de uns em nome do maior bem-estar geral possível da comunidade. Segundo
				Popper, o utilitarismo platônico é incompatível com a ética humanitária.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B15">Platão (2000)</xref> via o problema fundamental da
				política na indagação: quem deverá dirigir o Estado? De acordo com <xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref>, a indagação, por si só, estava
				equivocada porque reduzia a questão central política ao apontar ou selecionar qual
				classe social deveria governar, atribuindo-se, então, à classe social eleita um
				poder político essencialmente livre de controles institucionais, em que os
				indivíduos os quais o assumem poderiam, quase inteiramente, fazer o que lhes apraz
				(poder ilimitado, incontrolado).</p>
			<p>Essa ausência de <italic>accountability</italic><xref ref-type="fn" rid="fn1"
					>1</xref> conduz, quase que inevitavelmente, a inserção no discurso político da
				preocupação do perfil adequado para o bom governante, tal como Platão apresentou em
				“A República”, ao defender que os filósofos, após um adestramento para o exercício
				da liderança, são os que melhores condições possuem para assumir o comando político
				do Estado, em virtude do acesso privilegiado ao mundo inteligível das formas e das
				ideias, indispensável à fundação de uma cidade virtuosa, construída à luz da bondade
				e da sabedoria, e à necessária libertação dos espíritos aprisionados nas aparências
				sensíveis.</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref>, o melhor encaminhamento
				para a questão seria substituí-la pela pergunta: como poderemos organizar as
				instituições políticas de modo tal que maus ou incompetentes governantes sejam
				impedidos de causar demasiado dano? Popper aponta os perigos do viés personalista do
				Filósofo-Rei e defende que os controles institucionais são de suma importância para
				o exercício do poder político (o interesse é desviado das questões essencialmente
				pessoais para as institucionais), razão pela qual a preocupação exagerada em
				delimitar o perfil ideal de governante se torna desprovida de importância, devendo
				ser substituída pela inserção de controles adequados no interior das instituições do
				Estado - controles institucionais dos governantes pelos governados.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref> aponta as influências de
				Sócrates no pensamento de Platão, especialmente, no que se refere ao seu
				intelectualismo moral, segundo o qual há uma clara identificação entre a bondade e a
				sabedoria (a falta de conhecimento é responsável por todos os enganos morais); e a
				ideia de que excelência moral pode ser ensinada, prescindindo-se de quaisquer
				faculdades morais particulares, a não ser a universal inteligência humana.</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref>, as exigências de Sócrates
				relativas ao seu intelectualismo foram utilizadas de maneira distinta no discurso de
				Platão. Sustenta Popper que o intelectualismo de Sócrates era fundamentalmente
				igualitário e individualista e o de Platão, ao contrário, nitidamente totalitário.
				Isso porque o alvo educacional de Platão não era o despertar da autocrítica, como
				propusera Sócrates, ao defender a ideia igualitária e libertária de que existe um
				elo intelectual mútuo entre os homens, um meio de compreensão universal realizado
				por intermédio da razão.</p>
			<p>Para Popper, o filósofo de Sócrates é um indivíduo racional e modesto. Para Platão,
				que defendia a exigência de um monopólio educacional da classe dirigente (educação
				como departamento do Estado), acrescido da mais estrita censura até mesmo dos
				debates orais, ao contrário, o filósofo (Filósofo-Rei) era um semideus (não o devoto
				perseguidor da sabedoria, mas seu orgulhoso possuidor), único capaz de pôr fim aos
				males da vida social, à agitação do mal nos Estados e à instabilidade política dos
				governos das cidades gregas (<xref ref-type="bibr" rid="B16">POPPER, 1987</xref>, p.
				143-167).</p>
			<p>O modelo de seleção institucional da classe dirigente (tarefa do Estado de escolher
				os mais hábeis intelectualmente - os filósofos) proposto por Platão, atende, segundo
				Popper, aos fins propostos pelo filósofo grego de deter toda mudança política,
				limitar a iniciativa, a originalidade, a liberdade individual, bem como assinalar os
				governantes e erguer uma barreira bem clara entre governantes e governados (educação
				filosófica de Platão idealizada a partir de uma função política definida, qual seja,
				estabelecer uma classe política dominante permanente). Com tal modelo, objetivava
				Platão preservar o <italic>status quo</italic> político pelo controle institucional
				da sucessão na liderança. O controle deveria ser, fundamentalmente, educacional,
				baseado em uma concepção autoritária do ensino. Segundo <xref ref-type="bibr"
					rid="B16">Popper (1987, p. 152)</xref>, “a exigência impossível de uma seleção
				institucional de líderes intelectuais põe em perigo a própria vida não só da
				ciência, como da própria inteligência.”</p>
			<p>O pensamento político de Platão, mais voltado às formas ideais, foi alvo de ataque e
				objeção de outros pensadores vinculados à tradição aristotélica, quer se encontrem
				dentro quer se encontrem fora do liberalismo (liberalismo nos mais variados
				espectros). <xref ref-type="bibr" rid="B1">Arendt (1989</xref>, <xref
					ref-type="bibr" rid="B2">2010)</xref> critica a rigidez com que Platão idealiza
				a <italic>pólis</italic>, de modo a impedir a ocorrência de um dos elementos
				constitutivos essenciais para a vida política - a imprevisibilidade da ação (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">ECCEL, 2012</xref>, p. 32). Essa hierarquização
				institucional de Platão eliminaria, assim, a possibilidade de que o novo ocorresse,
				sufocando a liberdade política. Há, aqui, uma similaridade ou aproximação com o
				pensamento de Popper, que, como foi aduzido, via na rigorosa estratificação
				platônica um bloqueio irremediável às mudanças sociais, bem como uma utopia
				disruptiva de uma ideologia totalitária. Em contrapartida, no plano epistemológico,
				Ayn Rand rejeita a teoria das formas concebida por Platão, segundo a qual
				haveria</p>
			<p>um mundo invisível aos olhos humanos. Rand defendeu que a realidade pode ser
				percebida ou apreendida pelos sentidos e correlacionada, de forma objetiva e não
				contraditória, com o conhecimento acumulado por cada ser humano.</p>
			<p>Nesse passo, somente a economia de livre mercado poderia conceder o necessário espaço
				para que a liberdade florescesse, permitindo a cada pessoa decidir o que fazer - por
				meio do exercício lógico não contraditório - sem a interferência invasiva de
				burocracias estatais pretensamente iluminadas (<xref ref-type="bibr" rid="B19">RAND,
					2018</xref>, p. 1-18). A concepção teórica do autor colide, assim, com a ideia
				central do platonismo que reclama a necessidade da constituição do Rei Filósofo à
				frente de desenhos político-institucionais rígidos e/ou de pouca flexibilidade,
				sobretudo no que concerne à alternância de grupos políticos no poder por meio de
				eleições livres, justas e universais. Cumpre anotar que, para Alejandro Mercado, há
				uma semelhança entre a filosofia política de Ayn Rand e Karl Popper no que concerne
				ao rechaço das utopias coletivistas: <italic>“El liberalismo, por su parte, no es,
					para Rand, un catecismo, no tiene una agenda para el futuro, no tiene una utopia
					de felicidad, pues considera, como Karl Popper, que todo intento de crear un
					paraiso termina en el infierno”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B14"
					>MERCADO, 2007</xref>, p. 199-200).</p>
			<p>Provavelmente por não ter realizado suas promessas mais caras, por exemplo, promover
				maior igualdade social entre as pessoas, o liberalismo sofre hodiernamente forte
				contestação pública ao redor do planeta, inclusive nos países economicamente mais
				avançados. Decerto, tal situação fática concorreu para o advento dos chamados
				regimes híbridos cujos desenhos político-institucionais exibem claros traços
				distintivos da permanência do pensamento platônico coletivista.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>4 O ADVENTO DE REGIMES HÍBRIDOS E O LEGADO PLATÔNICO</title>
			<p>Para contextualizar a discussão em torno do advento de regimes políticos híbridos,
				cabe indagar se Popper foi injusto com Platão ou se tentou caricaturar sua concepção
				de Estado Perfeito, como foi algumas vezes acusado. No livro “A República de
				Platão”, há evidências claras de que a análise de Popper é correta. O trabalho
				acolhe, portanto, os argumentos de Karl Popper que acenam à identificação do
				pensamento platônico a elementos autoritários. O projeto político de Platão descrito
				em “A República” pode ser classificado como holístico ou totalizante, pois concebe o
				controle rígido dos governados, do berço ao túmulo. Na verdade, “A República”
				fornece um formidável arsenal de instrumentos para o estabelecimento de regimes
				totalitários ou de suas versões atenuadas, como o regime
				democrático-autoritário.</p>
			<p>Tome-se, por exemplo, a educação como uma das referências temáticas entre muitas
				contidas no livro “A República”. Platão concebia como parte integrante do processo
				educacional a manipulação dos mitos com a exclusão daqueles ensinados por Hesíodo e
				Homero. Essa educação, que pressupunha o estabelecimento dos mitos escolhidos pelo
				Estado e que ia do berço ao túmulo, foi adotada pelos movimentos totalitários, à
				esquerda e à direita, durante o conflituoso século XX. Para esses regimes, não
				bastava o controle dos corpos. Controlavam-se, sobretudo, as mentes dos cidadãos
				convertidos em súditos e, não raro, rebaixados à condição de vassalos ou mesmo
				escravos - no século XX, o genocídio de alguns povos considerados como “racialmente
				inferiores” converteu-se em política de Estado, como sucedeu no caso do nazismo.</p>
			<p>Popper (mas não somente ele) associou Esparta e o Estado Ideal de Platão aos regimes
				totalitários do século XX, já Atenas, com sua liberdade política e exercício efetivo
				do comércio marítimo, foi por ele identificada como a gênese originária da sociedade
				aberta, hodiernamente representada pelas democracias representativas do
				Ocidente.</p>
			<p>Também aqui cabe indagar se Karl Popper exorbitou na formulação teórica acima feita,
				sobretudo na associação que fez entre Esparta - “comunismo da casta dirigente” - com
				os regimes comunistas do Leste Europeu (ou socialismos realmente existentes - sorex,
				a designação semântica importa menos do que o fato evidente de que ruíram
				espetacularmente), chamando a ambos de sociedades fechadas e apontando Platão como
				seu primeiro idealizador. Do mesmo modo que antes, pode-se dizer que a associação
				popperiana não parece ter sido despropositada porquanto Platão e seu Estado Ideal
				foram corriqueiramente identificados como a primeira matriz do ideal comunista,
				conforme entendimento de Giuseppe Bedeschi, para quem “costuma-se fazer remontar a
				Platão a primeira formulação orgânica de um ideal político comunista” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B3">BEDESCHI, 1983</xref>, p. 204).</p>
			<p>No entanto, nem todos os intelectuais consideraram Platão como um manifesto inimigo
				da democracia. Para Ernst Cassirer, por exemplo, Platão foi, antes, um pensador que
				possuía “um espírito inteiramente aberto” e não tinha Esparta como seu ideal
				político. Segundo ele, há uma só situação que Platão rejeita e condena
				absolutamente: “a alma tirânica e o estado tirânico” Platão “insiste sobre os
				defeitos da democracia ateniense; mas, por outro lado, não aceita o Estado
				lacedemônio como seu verdadeiro modelo. O modelo que ele procura está muito além
				desse mundo empírico e histórico” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CASSIRER,
					2007</xref>, p. 22).</p>
			<p>A outra tradição, inaugurada por Sócrates e seus sucessores, enfatizou a liberdade de
				crítica e de consciência, assim como buscou promover não a igualdade plena, mas a
				igualdade de oportunidades para aqueles que, por meio da educação e do
				estabelecimento de mecanismos de controle popular sobre os governantes, desejassem
				construir instituições sólidas e, é claro, permitir a ascensão social de todo e
				qualquer cidadão. Nesse aspecto, Sólon, ao criar leis iguais para pobres e ricos,
				lançou as bases rudimentares do que ele mesmo chamou de justiça equitativa; por seu
				turno, Sócrates acreditava que até mesmo os escravos poderiam, mediante uma educação
				adequada, compreender os intrincados problemas abstratos discutidos pelos filósofos
				gregos.</p>
			<p>Os contrastes entre as duas tradições são, pois, abissais e espraiaram o seu legado
				até os dias atuais. Nesse passo, defende-se o pensamento esposado por Popper que se
				apoia na crítica à herança platônica, que, como vimos, pretendia estabelecer um
				Estado Ideal com rígida hierarquia social, inaugurando uma tradição completamente
				contraposta à ideia popperiana de uma sociedade aberta às mudanças sociais contínuas
				porque está sujeita à crítica e à reforma gradual das instituições democráticas.</p>
			<p>Note-se que nem todas as utopias foram benevolentes com o gênero humano, razão pela
				qual Leo Strauss, por exemplo, considerou o livro “A Utopia”, de Thomas More, uma
				imitação da utopia platônica, ainda que fosse menos austera do que sua matriz grega,
				pois, segundo ele, “<italic>I have in mind Sir Thomas More. His Utopia is a free
					imitation of Plato’s Republic. More’s perfect commonwealth is much less austere
					than Plato’s</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">STRAUSS, 2008</xref>, p.
				61).</p>
			<p>Uma breve leitura sobre a realidade política mundial do tempo presente indica que
				persistem crenças políticas que alimentam concepções de filosofia política segundo
				as quais as liberdades individuais podem e devem ser sacrificadas em nome da
				construção da felicidade coletiva. Há uma literatura consistente em Ciência Política
				que trata do advento dos chamados regimes híbridos ou iliberais que mesclam
				simultaneamente traços democráticos e autoritários cujo escopo é se contrapor às
				democracias representativas do tipo liberal.</p>
			<p>A compreensão dos regimes híbridos importa para a discussão porque demonstra a
				permanência do pensamento político platônico em muitas dimensões do momento
				presente. Inicialmente, cumpre conceituar regime híbrido, pois se trata de um termo
				polissêmico, capaz de causar, não raro, certa confusão pelo seu uso abusivo e/ou
				inadequado. Em síntese, <xref ref-type="bibr" rid="B5">Corrales e Hidalgo (2013, p.
					49)</xref> definem regime híbrido como “<italic>un régimen en el que coexisten
					rasgos democráticos y autocráticos simultaneamente, y en el que las reglas de
					juego son arbitrariamente utilizadas en desmedro de la oposición.</italic>” Sem
				embargo, embora mantenham em funcionamento o sistema de competição eleitoral, não é
				raro que os regimes híbridos alterem as regras do jogo para criar obstáculos ou
				constrangimentos legais para a atuação da oposição com o objetivo de favorecer as
				candidaturas oficialistas. Não raro, países que realizam oficialmente eleições
				acabam não sendo considerados efetivamente democráticos ou ao menos, considerados
				como democracias formais ou de baixa intensidade.<xref ref-type="fn" rid="fn2"
					>2</xref></p>
			<p>Após a queda do Muro de Berlim, as democracias liberais do Ocidente despontaram como
				vitoriosas dos conflitos decorrentes da Guerra Fria. A combinação de economia de
				mercado com democracia representativa do tipo liberal parecia, então, ter sido
				convalidada pela experiência histórica como o modelo capaz de engendrar crescimento
				econômico e liberdade política infindáveis. Houve uma onda de redemocratização e
				ditaduras militares foram, gradual e pacificamente, substituídas por democracias nas
				quais ocorriam competições eleitorais legítimas.</p>
			<p>Ocorre, todavia, que, pouco tempo depois, um novo - e surpreendente - fenômeno surgiu
				no horizonte político-institucional, colocando em dúvida o frágil consenso em torno
				do suposto triunfo definitivo das democracias liberais em face dos regimes
				coletivistas do período da Guerra Fria. Tratava-se do advento das chamadas
				democracias iliberais, fenômeno político que ocorreu na América Latina, na Ásia e na
				chamada Eurásia, notadamente em países que haviam pertencido ao mundo comunista. No
				artigo icônico <italic>The Rise of Illiberal Democracy</italic>, publicado na
					<italic>Foreign Affair</italic> em 1997, Fareed Zakaria advertiu para o fato de
				que as emergentes democracias iliberais apostavam nas formas plebiscitárias de
				governo, mesmo que em detrimento de valores, liberdades e direitos individuais. Esse
				desenho institucional se contrapõe à tradição ocidental assentada no
				constitucionalismo liberal.</p>
			<p>Como a contrariar a crença hiperbólica e, portanto, equivocada de que a história
				caminhava em um único sentido - o sentido que apontava para o triunfo do liberalismo
				como estágio final da evolução histórica -, extensa literatura surgiu, na esteira da
				contribuição de Zakaria, para examinar a natureza das democracias iliberais, agora
				chamadas de regimes híbridos.</p>
			<p>Nesse passo, vale conhecer os trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Corrales e
					Hidalgo (2013)</xref> (<italic>El Régimen</italic> Híbrido de Hugo Chávez
					<italic>en transición (2009-2013)</italic>; <xref ref-type="bibr" rid="B6"
					>Corrales (2011)</xref> (<italic>A Setback for Chávez</italic>); <xref
					ref-type="bibr" rid="B12">Levine (2002)</xref> (<italic>The Decline and Fall of
					Democracy in Venezuela: Ten Theses</italic>); <xref ref-type="bibr" rid="B13"
					>Levine e Molina (2012)</xref> (<italic>Calidad de la Democracia en
					Venezuela</italic>); <xref ref-type="bibr" rid="B11">Kornblit (2013)</xref>
					(<italic>Chavismo after Chávez?</italic>); <xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>Urribarrí (2016)</xref> (<italic>Venezuela (2015): un régimen híbrido in
					crisis</italic>); <xref ref-type="bibr" rid="B10">Gamboa (2016)</xref>
					(<italic>Venezuela Aprofundamento do autoritarismo ou transição para a
					democracia?</italic>). De qualquer modo, deve ser salientado que os regimes
				híbridos podem surgir à direita (o fujimorismo no Peru) ou à esquerda (o chavismo na
				Venezuela), convergindo ambos em seus propósitos de construir instituições de
				natureza iliberal.</p>
			<p>As ideias centrais que justificam a implantação e a vigência dos regimes híbridos
				guardam evidente conexão com o pensamento político de Platão, desvelando, assim, a
				permanência do seu ideal coletivista. Os arranjos institucionais dos regimes
				híbridos caracterizam-se por um exercício de poder com traços autoritários que
				conduzem o povo rumo a um tipo ideal de sociedade, desiderato que remete ao projeto
				coletivista de Platão. De certo modo, essa característica marcante dos regimes
				híbridos favorece o desenvolvimento de democracias iliberais, propiciando um
				desamparo à proteção aos direitos e liberdades individuais, à separação dos poderes,
				aos limites ao poder do Estado e ao individualismo ético.</p>
			<p>Nesse sentido, a ideia de que os indivíduos com suas preferências importam perde
				relevância nos arranjos institucionais dos regimes híbridos. Assim, <xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Ellner (2012, p. 110-115)</xref> classifica, por
				exemplo, certos regimes de “democracia social radical”, que se encontram em oposição
				à democracia liberal e reconhece que os velhos controles desenhados para evitar o
				abuso de poder acabam sendo minimizados em nome do governo das maiorias, assim como
				o uso desmedido do poder acaba por violar a separação de poderes, um dos pilares da
				democracia liberal.</p>
			<p>De qualquer modo, a ascensão dos regimes híbridos ao redor do globo sugere a
				permanência hodierna de resquícios do pensamento político platônico nos aspectos
				anteriormente apontados, de modo a manter a discussão em aberto no campo acadêmico,
				bem como incrementando o <italic>clash of ideas</italic> também no campo
				estritamente político.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>5 CONCLUSÃO</title>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B15">Platão (2000)</xref>, no Livro VII da obra “A
				República”, apresenta um modelo ideal de cidade justa construída, fundamentalmente,
				sobre os pilares de um programa político fundado na realização da justiça e do bem
				comum; na ideia de identificação do destino do Estado com o da classe dirigente; em
				uma <italic>paidéia</italic> filosófica necessária à libertação do espírito e ao
				conhecimento da ideia do bem; na imposição de rígidas regras para criar e educar a
				sociedade; em uma estrutura hierarquizada tripartite de classes sociais organizadas
				com base nas inclinações e nas aptidões dos cidadãos; na coletivização dos
				interesses dos cidadãos em detrimento de um modelo de justiça humanitário e
				individualista. Não obstante a importância das ideias de Platão para a filosofia
				ocidental, Karl Popper acusa-as de serem, essencialmente, enraizadas em preconceitos
				que desconsideram as inclinações reacionárias e o nítido teor anti-igualitário,
				totalitário, antidemocrático e elitista de sua teoria política.</p>
			<p>Contrariamente a Platão, Popper defende a consagração do princípio igualitário com a
				eliminação dos privilégios naturais e da parcialidade no trato dos cidadãos; do
				individualismo; da liberdade e das instituições da democracia representativa, contra
				totalitarismos de qualquer tipo, seja de direita, seja de esquerda. Esses valores,
				fundamentados na ideia de humanismo ético, são, à luz da interpretação popperiana,
				inteiramente negados na obra de Platão. Nesse sentido, Popper acusa Platão de ser
				sensivelmente hostil ao credo humanitário. Acusa-o, igualmente, de utilitário, ao
				defender a utilidade coletiva do Estado como critério de moralidade por excelência
				para nortear as diretrizes políticas, mesmo que em detrimento de uma justiça
				individual.</p>
			<p>Nesse sentido, Popper apresenta-se como um ferrenho crítico ao governo dos filósofos
				proposto por Platão. Segundo ele, tal modelo provoca um imobilismo político, a
				legitimação do <italic>status quo</italic> e uma sensível limitação à liberdade
				individual. Desse modo, por trás da soberania do Rei-Filósofo, oculta-se a aspiração
				de um projeto de poder totalitário, reacionário, elitista e anti-humanitário de uma
				sociedade fechada à liberdade, à criatividade, à originalidade e à exaltação de uma
				justiça pautada na valorização do indivíduo e de sua humanidade.</p>
			<p>Assim, sugere a substituição da proposição platônica (2000) acerca de quem deve
				governar pela ideia de <xref ref-type="bibr" rid="B16">Popper (1987)</xref> segundo
				a qual questiona como as instituições devem organizar-se para que maus e
				incompetentes governantes sejam impedidos de causar demasiado dano. A amplitude
				dessa nova forma de colocar a questão se contrapõe, nitidamente, à teoria da
				soberania platônica, especialmente ao desviar o foco do falso problema de saber que
				classe social deve governar e redirecioná-la para as questões e problemas de
				natureza eminentemente institucional, sobretudo o exercício do instituto largamente
				utilizado da <italic>accountability</italic>.</p>
			<p>Além de Popper, parte considerável da literatura em diversos campos do conhecimento
				aponta a existência de traços autoritários no pensamento político de Platão,
				notadamente pelas proposições contidas em “A República”. A tradição liberal, mais
				voltada para a defesa do indivíduo em face do agigantamento dos poderes estatais,
				trata com desconfiança e, não raro, com aberta rejeição os arranjos institucionais
				propostos por Platão.</p>
			<p>Considera-se que Popper tenha realizado provavelmente o mais pesado ataque ao
				pensamento político de Platão. A literatura em Teoria Política discute se Popper foi
				justo ao fazer uma crítica tão incisiva do pensamento político de Platão. Entende-se
				que a análise conjuntural e prescritiva do pensamento platônico feita por Popper
				apresenta-se como correta. Essa ideia converge com a de Ian Shapiro que, apoiando-se
				em Miles Burnyeat, considera que a interpretação de Popper do pensamento platônico é
				“a mais plausível” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">SHAPIRO, 2006</xref>, p. 254).
				Entretanto, trata-se, sem dúvida, de uma discussão acadêmica inconclusiva, sujeita a
				contínuas interpretações distintas.</p>
			<p>Ao final do século XX, a queda do muro de Berlim e o colapso do império soviético
				constituíram-se em eventos históricos que sugeriam o triunfo do liberalismo.
				Todavia, a própria ideia de um historicismo liberal afigura-se equivocada,
				considerando que a tradição liberal não admite a inexorabilidade de um sentido (ou
				caminho) único para a trajetória da história. Apenas alguns anos depois do fim da
				Guerra Fria, mas ainda no século XX e na esteira da contribuição de Fareed Zakaria,
				assistiu-se ao advento das chamadas democracias iliberais. No século XXI, a
				literatura identificou a emergência de regimes políticos que mesclam simultaneamente
				traços autoritários e democráticos, sendo nominados de regimes híbridos cujos
				escopos se contrapõem à manutenção, à consolidação e ao aprimoramento das
				instituições típicas da democracia representativa do tipo liberal.</p>
			<p>Como visto, os regimes híbridos têm a pretensão de erigir instituições voltadas à
				consolidação de democracias diretas ou plebiscitárias e reclamam, muito
				frequentemente, a condução do processo político de modo autoritário, propiciando uma
				burla à democracia por meios aparentemente democráticos. A ideia de um povo em
				constante mobilização sob uma liderança centralizada e forte, defendendo projetos
				coletivos permanentes mesmo que em detrimento de valores, direitos e liberdades
				individuais, remete ao legado platônico e desvela a permanência, nos dias atuais, de
				resquícios de sua concepção política holística, ainda que com as adaptações de seu
				tempo histórico.</p>
			<p>A tradição liberal opõe-se claramente a essas novas formas de coletivismo, de verniz
				ambíguo, porque as identifica como adversárias das liberdades individuais e outras
				garantias constitucionais - como o direito à contestação pública, por exemplo -
				asseguradas pela democracia representativa. Não se trata aqui de mera especulação,
				uma vez que o ideário declarado dos regimes híbridos não deixa espaço para dúvida
				quanto ao propósito de limitar as instituições da democracia liberal.</p>
			<p>Portanto, o argumento central da pesquisa centra-se na ideia de que o pensamento
				coletivista de Platão exibe uma inegável resiliência (ou permanência) na atualidade,
				encontrando-se algumas de suas marcas distintivas na condução dos regimes híbridos.
				Permanece, pois, a tensão (adaptada aos novos tempos) entre o coletivismo de recorte
				platônico, representado hoje pelos regimes híbridos, e o individualismo democrático
				defendido pelas democracias representativas do tipo liberal. Admite-se aqui o
				caráter controverso da argumentação esposada, porém, como ensinou o próprio Karl
				Popper, a ciência avança pela proposição de hipóteses que são submetidas a ensaio de
				teste e erro.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Popper deve ter sido um dos primeiros pensadores contemporâneos a fazer uma
					defesa vigorosa seja da <italic>accountability</italic> vertical (eleições
					diretas em sufrágios livres), seja da <italic>accountability</italic> horizontal
					(exercido por meio de controles institucionais dos governados sobre os
					governantes). Pelo primeiro controle, pode-se mandar para casa os maus
					governantes; pelo segundo controle, exercido no período entre eleições,
					impede-se que os maus governantes causem danos desnecessários ou evitáveis.
					Note-se que, na primeira metade do século XX, nem todos os filósofos-políticos
					pensavam assim. Para Joseph Alois Schumpeter, por exemplo, a democracia
					representativa resumia-se a escolher, por meio de eleições periódicas, qual
					elite política deveria (nos) governar. Nenhum controle institucional sobre os
					governantes seria exercido entre as eleições. Assim, em sua obra “Capitalismo,
					Socialismo e Democracia,” Schumpeter declarou que “o princípio da democracia,
					então, significa apenas que as rédeas do governo devem ser entregues àqueles que
					contam com maior apoio do que outros indivíduos ou grupos concorrentes” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B20">SCHUMPETER, 2007</xref>, p. 337). Ora, a ideia de
						<italic>accountability</italic> - seja horizontal, seja vertical - está hoje
					plenamente assentada no campo do Direito e, sobretudo, da Ciência Política,
					sendo praticamente impossível conceber o funcionamento das instituições sem sua
					aplicabilidade efetiva. Além disso, forçoso reconhecer que Popper teve o mérito
					de antever a importância de tais controles para o exercício e consequente
					aprimoramento das instituições, como se observa do seguinte trecho de
						<italic>Open Society</italic>: “Devemos aprender que, afinal, todos os
					problemas políticos são problemas institucionais, problemas de arcabouço legal
					mais que de pessoas, e que o progresso no rumo de maior igualdade só pode ser
					salvaguardado pelo controle institucional do poder” (<xref ref-type="bibr"
						rid="B17">POPPER, 1998</xref>, p. 169).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>O relatório da organização <italic>Freedom House in the world</italic> aponta
					para uma crise democrática no mundo. Ver: Freedom House in the World (2017).</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
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