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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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            <journal-title-group>
                <journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Opin. Jur.</abbrev-journal-title>
            </journal-title-group>
            <issn pub-type="ppub">1806-0420</issn>
            <issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
            <publisher>
                <publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
            </publisher>
        </journal-meta>
        <article-meta>
            <article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v20i33.p83-102.202</article-id>
            <article-categories>
                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>Artigos</subject>
                </subj-group>
            </article-categories>
            <title-group>
                <article-title>DEMOCRACIA AGONÍSTICA POR OPOSIÇÃO AO NARCISISMO POLÍTICO: CONTRA O
                    ÓDIO COMO FORMA DE FAZER POLÍTICA</article-title>
                <trans-title-group xml:lang="en">
                    <trans-title>AGONISTIC DEMOCRACY AS OPPOSED TO POLITICAL NARCISSISM: AGAINST
                        HATRED AS A WAY OF DOING POLITICS</trans-title>
                </trans-title-group>
                <trans-title-group xml:lang="es">
                    <trans-title>DEMOCRACIA AGONISTA FRENTE AL NARCISISMO POLÍTICO: CONTRA EL ODIO
                        COMO FORMA DE HACER POLÍTICA</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
            <contrib-group>
                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-8737-7892</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Cunha</surname>
                        <given-names>José Ricardo</given-names>
                    </name>
                    <xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
                </contrib>
            </contrib-group>
            <aff id="aff1">
                <label>**</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de
                    Janeiro</institution>
                <addr-line>
                    <city>Rio de Janeiro</city>
                    <state>RJ</state>
                </addr-line>
                <country country="BR">Brasil</country>
                <email>jr-cunha@uol.com.br</email>
                <institution content-type="original">Doutor em Direito pela Universidade Federal de
                    Santa Catarina. Professor associado da Faculdade de Direito da Universidade do
                    Estado do Rio de Janeiro. Atua na Pós-Graduação em Direito, na Linha de Pesquisa
                    em Teoria e Filosofia do Direito, e na Graduação em Direito da Faculdade de
                    Direito da UERJ. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ,
                    Brasil. E-mail: &lt;jr-cunha@uol.com.br&gt;.</institution>
            </aff>
            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <p>Editora responsável: Profa. Dra. Fayga Bedê</p>
                    <p><ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://orcid.org/0000-0001-6444-2631"
                            >https://orcid.org/0000-0001-6444-2631</ext-link></p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
                <day>18</day>
                <month>02</month>
                <year>2022</year>
            </pub-date>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
                <season>Jan-Apr</season>
                <year>2022</year>
            </pub-date>
            <volume>20</volume>
            <issue>33</issue>
            <fpage>83</fpage>
            <lpage>102</lpage>
            <history>
                <date date-type="received">
                    <day>31</day>
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                    <year>2021</year>
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                <date date-type="accepted">
                    <day>23</day>
                    <month>06</month>
                    <year>2021</year>
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                <license license-type="open-access"
                    xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/" xml:lang="pt">
                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
                        distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
                        que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>O presente artigo tem como objetivos: 1) apontar como o egocentrismo e o
                        egoísmo constituem uma cultura de fundo que inviabiliza a política
                        democrática e, no limite, corroboram o ódio como forma de fazer política; e
                        2) indicar a democracia agonística, como proposta por Chantal Mouffe, a
                        partir de um debate com Carl Schmitt, como uma forma de fazer política mais
                        consentânea com o pluralismo e, portanto, com o assentimento da alteridade
                        como constitutiva do próprio fazer político.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Metodologia:</title>
                    <p>Para alcançar os objetivos propostos, o artigo apoia-se no método
                        hipotético-dedutivo, mediante a pesquisa bibliográfica em textos que tratam
                        sobre o tema.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>Individualidade e pluralismo são características centrais do mundo moderno.
                        Contudo, a afirmação excessiva da individualidade produziu situações em que
                        se busca suplantar o pluralismo em nome do sectarismo. Uma cultura de fundo
                        de reforço do ego parece descambar em muitos momentos para um forte
                        egocentrismo e um individualismo brutal. No aspecto político, isso institui
                        práticas alérgicas à alteridade que chegam a suplantar o próprio compromisso
                        com a democracia, abrindo espaço para o ódio como forma de fazer política.
                        Em oposição a essa perspectiva, o artigo indica o modelo agonístico de
                        democracia, conforme sustentado por Chantal Mouffe. Em diálogo com Carl
                        Schmitt, Mouffe defende que a política democrática é um campo de inevitável
                        conflito, todavia esse conflito não deve se dar na forma de um antagonismo
                        onde aquele que pensa diferente seja tomado como um inimigo a ser destruído.
                        No lugar do antagonismo, propõe o agonismo, que significa um permanente
                        embate democrático, porém em condições nas quais o outro não seja visto como
                        inimigo, mas sim como adversário.</p>
                </sec>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <sec>
                    <title>Objective:</title>
                    <p>This article aims to: 1) point out how self-centeredness and selfishness are
                        a fundamental culture that makes democratic politics unfeasible and,
                        ultimately, corroborates hatred as a way of doing politics; and 2) to
                        indicate agonistic democracy, as proposed by Chantal Mouffe, from a debate
                        with Carl Schmitt, as a way of making politics more in line with pluralism
                        and, therefore, with the assent of otherness as constitutive of political
                        making itself.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Methodology:</title>
                    <p>To achieve the proposed objectives, the article is based on the
                        hypothetical-deductive method, through bibliographic research in texts
                        dealing with the theme.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Results:</title>
                    <p>Individuality and pluralism are central features of the modern world.
                        However, the excessive assertion of individuality has produced situations in
                        which an attempt is made to supplant pluralism in the name of sectarianism.
                        A background culture of ego reinforcement seems to fall into many moments
                        towards a strong egocentricity and a brutal individualism. In the political
                        aspect, this institutes practices allergic to otherness that go beyond the
                        commitment to democracy, opening space for hatred as a way of doing
                        politics. In opposition to this perspective, the article indicates the
                        agonistic model of democracy, as supported by Chantal Mouffe. In dialogue
                        with Carl Schmitt, Mouffe argues that democratic politics is a field of
                        inevitable conflict, however this conflict must not take the form of an
                        antagonism where the one who thinks differently is taken as an enemy to be
                        destroyed. Instead of antagonism, it proposes agonism, which means a
                        permanent democratic struggle, but in conditions in which the other is not
                        seen as an enemy, but as an adversary.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <trans-abstract xml:lang="es">
                <title>RESUMEN</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>Este artículo tiene como objetivo: 1) señalar cómo el egocentrismo y el
                        egoísmo constituyen una cultura de fondo que vuelve inviable la política
                        democrática y, en el límite, corrobora el odio como forma de hacer política;
                        y 2) señalar la democracia agonista, como propone Chantal Mouffe, a partir
                        de un debate con Carl Schmitt, como una forma de hacer la política más
                        acorde con el pluralismo y, por tanto, con el asentimiento de la alteridad
                        como constitutivo de la propia acción política.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Metodología:</title>
                    <p>Para lograr los objetivos propuestos, el artículo se basa en el método
                        hipotético-deductivo, mediante la búsqueda bibliográfica en textos que
                        abordan el tema.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>la individualidad y el pluralismo son características centrales del mundo
                        moderno. Sin embargo, la afirmación excesiva de la individualidad ha
                        producido situaciones en las que se intenta suplantar el pluralismo en
                        nombre del sectarismo. Una cultura de trasfondo que refuerza el ego a menudo
                        parece deslizarse hacia un fuerte egocentrismo y un individualismo brutal.
                        En el aspecto político, este instituto practica prácticas alérgicas a la
                        alteridad que vienen a suplantar el compromiso con la democracia misma,
                        dando lugar al odio como forma de hacer política. En oposición a esta
                        perspectiva, el artículo señala el modelo agonista de democracia, apoyado
                        por Chantal Mouffe. En diálogo con Carl Schmitt, Mouffe sostiene que la
                        política democrática es un campo de conflicto inevitable, sin embargo, este
                        conflicto no debe tomar la forma de un antagonismo donde aquellos que
                        piensan de manera diferente son tomados como un enemigo a destruir. En lugar
                        del antagonismo, propone el agonismo, que significa una lucha democrática
                        permanente, pero en condiciones en las que el otro no es visto como un
                        enemigo, sino como un adversario.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>egocentrismo</kwd>
                <kwd>narcisismo político</kwd>
                <kwd>antagonismo</kwd>
                <kwd>democracia agonística</kwd>
                <kwd>Chantal Mouffe</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>egocentrism</kwd>
                <kwd>political narcissism</kwd>
                <kwd>antagonism</kwd>
                <kwd>agonistic democracy</kwd>
                <kwd>Chantal Mouffe</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="es">
                <title>Palabras clave:</title>
                <kwd>egocentrismo</kwd>
                <kwd>narcisismo político</kwd>
                <kwd>antagonismo</kwd>
                <kwd>democracia agonista</kwd>
                <kwd>Chantal Mouffe</kwd>
            </kwd-group>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>1 INTRODUÇÃO</title>
            <p>A política democrática implica a capacidade de autogoverno e de decisão coletiva.
                Envolve a realização de escolhas públicas dentro do limite do respeito aos direitos
                fundamentais. Nesses termos, diferentes concepções de bem são chamadas a conviver a
                partir de um conceito público de justiça balizado em uma constituição legítima. Dito
                assim, pode até parecer que, na teoria, está tudo muito bem resolvido e consolidado,
                mas é só uma aparência. Na literatura especializada, existem grandes debates e
                controvérsias sobre o conceito e o estatuto da democracia<xref ref-type="fn"
                    rid="fn1">1</xref> e parece não haver uma razão definitiva para se achar que
                podemos chegar em breve a um consenso teórico sobre o assunto. Além disso, os
                debates em torno da democracia também envolvem problemas sobre a relação entre
                teoria democrática e prática democrática<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>,
                problemas que, em certos momentos, sugerem um descompasso mais ou menos global entre
                esses dois planos e, em outros momentos, sugerem algum tipo de crise do modelo
                democrático. Seja como for, a democracia é sempre um tema relevante e nunca é demais
                um esforço de análise, crítica e reflexão.</p>
            <p>O presente artigo não pretende fazer uma análise conceitual ou global da democracia.
                Sua proposta é mais modesta e específica. Parte do suposto de que a modernidade é um
                tempo de reforço do ego, mas que tal reforço descambou, em muitos casos, para um
                egoísmo que impede ou dificulta a relação com o outro e o respeito por diferentes
                concepções de bem e, até mesmo, sobre o que seja uma sociedade razoavelmente justa.
                Isso enfraquece a democracia e resulta em um cenário político instável e pouco
                propício ao diálogo, o que é potencializado por agressões de diferentes tipos que
                são perpetradas nos ambientes das redes sociais. Nesse contexto, o artigo tem os
                objetivos simples, mas não triviais, de 1) apontar como o egocentrismo e o egoísmo
                constituem uma cultura de fundo que inviabiliza a política democrática e, no limite,
                corroboram o ódio como forma de fazer política; e 2) indicar a democracia
                agonística, como proposta por Chantal Mouffe, a partir de um debate com Carl
                Schmitt, como uma forma de fazer política mais consentânea com o pluralismo e,
                portanto, com o assentimento da alteridade como constitutiva do próprio fazer
                político.</p>
            <p>O conceito de democracia agonística, embora não tenha tido tanta influência na teoria
                política contemporânea quanto outros conceitos, como de democracia deliberativa, por
                exemplo, encontrou novos espaços analíticos nas tensões crescentes do mundo
                globalizado, especialmente a partir da onda conservadora representada por governos
                como de Trump, Orbán e Bolsonaro, ou, ainda, em movimentos como o Brexit.<xref
                    ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> O crescimento da influência de uma
                extrema-direita com perfil agressivo e truculento deixou mais que clara a
                importância de se pensar as diferenças típicas do pluralismo moderno em termos que
                não sejam tóxicos à alteridade. Para a democracia agonística, não cabe lidar com as
                diferenças e os embates decorrentes do pluralismo a partir de rótulos como
                “racionalidade” ou “consenso”, contudo também não cabe supor que identidades
                comunais ou sentimentos de pertença irão resolver os impasses do próprio pluralismo
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B20">PAXTON, 2020</xref>). Se, por um lado, a
                democracia agonística supõe a ideia de contestação política como constitutiva da
                democracia, por outro lado, também assume que a interdependência também o é (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B20">PAXTON, 2020</xref>). Então, é urgente e necessário
                dar-se conta dos processos sociais da cultura de fundo que inflam a subjetividade de
                forma incontida e, por isso, produzem uma arrogância e uma ilusão de
                autossuficiência que são extremamente nocivas à democracia.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>2 EGOCENTRISMO, EGOÍSMO E NEGAÇÃO DO OUTRO: A POLÍTICA COMO ÓDIO</title>
            <p>Sergio Paulo Rouanet nos recorda que o projeto da modernidade está baseado em três
                elementos fundamentais: universalidade, individualidade e autonomia. Nas palavras de
                    <xref ref-type="bibr" rid="B22">Rouanet (1993, p. 9)</xref>:</p>
            <disp-quote>
                <p>A universalidade significa que ele visa todos os seres humanos, independentemente
                    de barreiras nacionais, étnicas ou culturais. A individualidade significa que
                    esses seres humanos são pensados como pessoas concretas e não como integrantes
                    de uma coletividade e que se atribui valor ético positivo à sua crescente
                    individualização. A autonomia significa que esses seres humanos individualizados
                    são aptos a pensarem por si mesmos, sem a tutela da religião ou da ideologia, a
                    agirem no espaço público e a adquirirem pelo seu trabalho os bens e serviço
                    necessários à sobrevivência material.</p>
            </disp-quote>
            <p>Dessas três perspectivas apresentadas por Rouanet, aquela que parece ter se afirmado
                com maior força, sem dúvida, é a da individualidade. Isso porque a universalidade é
                enfraquecida por profundas diferenças culturais e a autonomia é enfraquecida por
                processos econômicos que geram a precarização da vida de incontáveis pessoas. Já em
                relação à individualidade, como disse o autor, há uma crescente individualização no
                mundo atual. De certa forma, isso se conecta ao fato de que a modernidade triunfante
                é o tempo do sujeito e da razão, ou do sujeito racional, isto é, aquele que é capaz
                de calcular, no plano das ciências, e discernir, no plano da moralidade (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B27">TOURAINE, 1994</xref>). O sujeito racional é o sujeito
                potente para se afirmar a si mesmo e se instituir como referência para o mundo. Na
                modernidade, sujeito não é aquele que está sujeito a algo, mas, sobretudo, aquele
                que pratica a ação, aquele que se estabelece e assenta um espaço.</p>
            <p>Toda essa confiança na potência do sujeito, o que, sem dúvida, é uma coisa boa,
                acabou por estimular uma exacerbação da individualidade que, por seu turno, incitou
                a produção de uma cultura de fortalecimento do ego, que pode trazer consequências
                que não são tão boas. Isso funciona de uma forma como se as potências do sujeito
                fizessem mais sentido ou tivessem mais valor quando fossem destinadas a ele mesmo,
                aos seus próprios interesses e não ao bem comum. O senso comum afirma e repete
                pensamentos do tipo: “<italic>para ajudar o outro, você tem de primeiro ajudar
                    você</italic>”, “<italic>só coloca ordem no mundo quem antes coloca ordem na
                    própria casa</italic>”, “<italic>se você não se ajudar, ninguém vai ajudar
                    você</italic>”, “<italic>você tem que ser alguém na vida</italic>” etc... Há um
                caldo de cultura que reforça o foco no ego, gerando um grande egocentrismo que se
                instala na vida de boa parte das pessoas, como se fosse algo necessário e bom. Muito
                mais do que a ajuda, se propala a autoajuda. Essa é consumida como se fosse a
                solução de todos, ou quase todos, problemas de cada um de nós. Inclusive para
                problemas coletivos, um número significativo de pessoas tende a procurar soluções
                individuais, porque não enxergam as necessidades dos outros como tão importantes
                quanto às suas próprias necessidades. Nos livros Sociedade do Cansaço (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B9">HAN, 2015</xref>) e Topologia da Violência (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B10">HAN, 2017</xref>), Byung-Chul Han nos mostra como o
                mundo moderno se torna crescentemente individualista sugerindo que cada um detém os
                meios de produção e reprodução de si mesmo. Para o autor, essa fragmentação
                associada a uma afirmação de si engendra formas de violência que são sutis e
                indiretas e que contribuem para o aprofundamento do próprio individualismo e da
                perda da noção do comum.</p>
            <p>Como aprendemos na tradição filosófica, de Aristóteles a Kant, a razão humana, uma
                das bases mais importantes da potência do sujeito, deve operar tanto na chave do
                racional quanto na chave do razoável. Uma pessoa racional é aquela que é capaz de
                estabelecer relações de causalidade, fazer cálculos, elaborar planos para pôr em
                prática as ações que visam à realização de seus interesses e à concretização de suas
                próprias concepções de bem. Já uma pessoa razoável é aquela que consegue avaliar as
                próprias atitudes a partir de como tais atitudes podem afetar as demais pessoas. A
                razoabilidade implica a aceitabilidade de algo a partir do lugar ocupado pelos
                outros. Portanto, uma conduta pode ser racional, mas não ser razoável. Uma pessoa
                pode planejar meticulosamente uma ação que interessa aos seus propósitos, mas que
                agride concepções de bem distintas da sua ou, até mesmo, que viola direitos alheios.
                O fato é que a modernidade se destacou pela afirmação de um sujeito racional, mas
                permanece sendo um desafio à prática de condutas razoáveis, que levem em conta a
                pluralidade de interesses legítimos e a figura do outro como alguém que merece minha
                consideração. O egocentrismo disseminou o egoísmo como um fundamento lídimo para a
                vida social. Pensar em si mesmo antes do outro é um padrão pouco questionado, já o
                altruísmo é visto, em geral, com certa desconfiança, como se fosse típico de pessoas
                tolas ou ingênuas. A caridade segue sendo pregada, mas a partir daquilo que sobra,
                isto é, doar os bens que me sobram e o tempo que me sobra. Isso é o máximo que o
                outro merece de mim: minhas sobras.</p>
            <p>O egocentrismo me afasta dos outros e o egoísmo faz que o outro seja visto como uma
                ameaça, como alguém que pode tomar aquilo que é meu ou que eu julgo que deveria ser
                meu, seja este “aquilo” considerado como um bem, um direito, um prazer ou uma
                pessoa. Para o egoísmo, é o meu bem, o meu direito e o meu prazer que devem
                prevalecer; para o egoísta, as demais pessoas devem estar a serviço de suas
                vontades. Tudo isso produz uma brutal desvalorização do lugar do outro, da
                outricidade, pois o outro perde sua dignidade própria diante de um eu agigantado.
                Trata-se de um esvanecimento da capacidade de levar o outro em consideração, a não
                ser que eu tenha algum tipo de relação especial ou privilegiada com esse outro.
                Porém, nesse caso da relação privilegiada, o outro me interessa pelo que ele pode me
                proporcionar, seja algo material, seja imaterial. O problema, propriamente dito, é
                que o lugar da outricidade vai se perdendo, como se ali já não houvesse mais uma
                dignidade intrínseca. No mundo presente, não falta humanismo, o que nos falta, como
                disse Lévinas, é o humanismo do outro homem (<xref ref-type="bibr" rid="B15"
                    >LÉVINAS, 2012</xref>).</p>
            <p>Nesse cenário, algumas características pessoais ou tipos de conduta vão se tornando
                cada vez mais comuns ou difundidas. Numa cultura de profundo fortalecimento do ego e
                de brutal desvalorização da outricidade, vai se tornando corriqueiro ver pessoas
                que: nada lhes importa mais do que a si mesmas; afirmam o seu estilo de vida como o
                correto para todos; não são capazes de se colocar no lugar do outro; rechaçam
                aqueles que pensam de forma diferente; menosprezam os argumentos divergentes; não
                têm paciência para ouvir outras opiniões e elevam o tom de voz para afirmar a
                própria opinião; inventam ou propagam mentiras desabonadoras sobre aqueles dos quais
                divergem; somente sentem alegria e tristeza pelo outro quando esse outro é sentido
                como um igual. Esse tipo de comportamento, sendo trivializado, vai, aos poucos,
                sendo normalizado, ou seja, aceito como algo normal. Ao fim, a pluralidade de ideias
                se perde, mas não é apenas isso, também se perde a capacidade de se debater
                democraticamente conteúdos e proposições políticas, econômicas e sociais. A forma de
                argumentação mais típica do debate nesse cenário é o chamado argumento <italic>ad
                    hominem</italic>, isto é, quando alguém procura negar uma proposição com uma
                crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo. Quem estuda lógica e argumentação sabe
                que esse tipo de argumento é falacioso, contudo parece ser cada vez mais utilizado.
                Ele expressa não apenas a superficialidade do debate e a fragilidade da democracia,
                mas também uma ausência de respeito ao outro, que deixa de ser entendido como um
                cidadão ou uma cidadã igualmente cooperante na vida social e política.</p>
            <p>A brutal desvalorização do lugar do outro ou a perda da outricidade como referência
                social e política produz diferentes níveis de negação do outro, dentre eles: a
                indiferença, a rejeição e a demonização. No caso da indiferença, ocorre uma espécie
                de invisibilização do outro, em que a pessoa vai se tornando cega àquilo que não lhe
                interessa, sobretudo a quem não lhe interessa. Frases como “<italic>eu não me
                    importo</italic>” ou “<italic>não estou nem aí...</italic>” configuram a legenda
                da indiferença. O outro pode ser invisibilizado pelo eu indiferente por variados
                motivos, algumas vezes por pura misantropia, mas, em geral, em função de
                preconceitos, especialmente o elitismo.<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref> O
                segundo nível de negação do outro é a rejeição. Importante esclarecer que não se
                trata do outro que se sente rejeitado, mas do eu que, de fato, rejeita o outro e não
                quer estabelecer com ele nenhuma relação que não seja a pura refusa. Aqui o
                preconceito alcança um tom muito mais elevado. Racismo e misoginia são bons
                exemplos. No limite, a rejeição transcende o preconceito e se transforma em
                discriminação. É interessante notar que ainda que existam normas jurídicas as quais
                combatam e criminalizem a discriminação, ela continua a existir e ser perpetrada e
                não raro alguém se manifesta para tentar justificá-la no caso concreto. Por fim, o
                terceiro nível de negação do outro, e o mais extremado, é a demonização. Nesse
                ponto, o <italic>eu</italic> vê no outro a encarnação de todo mal, como se ele fosse
                causa direita ou indireta dos problemas pessoais e sociais mais graves que podem
                existir. O outro é colocado no lugar de ameaça, e o <italic>eu</italic> se coloca
                numa postura passivo-agressiva de resistência e ataque. Num ponto como esse, a
                agressividade para com o outro chega às raias da psicose, até o ponto que a pessoa
                não consegue enxergar fatos evidentes e nem ouvir argumentos convincentes, ela
                apenas teme e odeia.</p>
            <p>Diante da negação do outro, o <italic>eu</italic> procura outro <italic>eu</italic>
                para se afirmar e fortalecer. Em outras palavras, para avigorar a repulsa ao
                diferente, há um movimento de agregação do igual, isto é, a cultura de
                fortalecimento do <italic>eu</italic> provoca a união de muitos “eus”. Há um claro
                componente narcísico nesse movimento, pois o outro <italic>eu</italic> funciona como
                uma espécie de espelho que reforça minha própria imagem. O tipo de agregação a que
                me refiro não é aquele que se dá pelo compartilhamento de uma identidade entre
                pessoas que lutam por reconhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B12">HONNETH,
                    2009</xref>), nem mesmo a agregação que ocorre como na forma das tribos
                pós-modernas que expressam certo modo de vida ou afetos em comum (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B16">MAFFESOLI, 1998</xref>). Trata-se mesmo de uma
                agregação narcísica de pessoas que reforçam reciprocamente os seus respectivos egos
                e o fazem sem nenhuma capacidade de autocrítica, mesmo que tenham de se distanciar
                da realidade concreta para não serem expostas ao contraditório. Essas pessoas assim
                unidas entre elas, e afastadas da realidade, tendem a se estruturar em grupos mais
                ou menos fechados, isto é, aberto a outros, mas desde que dispostos a reforçar o
                mesmo do grupo. Uma palavra comumente usada para designar esse fenômeno é
                “bolha”.</p>
            <p>A sociedade de bolhas é um fenômeno típico da era da internet e das redes sociais.
                Não que não existisse antes; grupos, clubes, associações e mesmo encontros em casas
                e bares já expressavam formas de bolhas, porém a ultraconectividade da internet e a
                facilidade de acesso às redes sociais elevaram a configuração das bolhas a um nível
                alarmante. Um dado especialmente relevante das bolhas e do debate público nas redes
                sociais é a falta de mediação e a não visualização do interlocutor. Esse tipo de
                condição favorece a agressividade da retórica, de modo que muitas pessoas se
                manifestam de forma desrespeitosa, ríspida e truculenta. É claro que essa forma de
                manifestação já existia outrora, mas dois elementos já citados tornam o ambiente
                especialmente assustador e preocupante: 1) a cultura de profundo fortalecimento do
                ego e de brutal desvalorização da outricidade; e 2) a internet como um novo espaço
                público sem mediação e com alcance virtualmente global. Nesse contexto, ficou muito
                fácil estar numa bolha e, de dentro dela, promover o repúdio ao outro em larguíssima
                escala, seja na forma da rejeição, seja na forma da demonização, tudo sem
                contestação interna. As maneiras mais frequentes e visíveis desse repúdio costumam
                se dar no discurso de ódio e no asco. Em relação a esse último, ocorre muito que os
                emojis vomitando sejam usados para se referir às pessoas que pensam diferente dos
                integrantes da bolha. O ódio e o asco expressam hostilidades e conflagram disputas
                insanas que aumentam o preconceito e banalizam a discriminação, dando a esses um
                caráter estrutural. O desentendimento vai se generalizando a tal ponto que as
                pessoas não conseguem mais enxergar o outro (diferente) como cidadão ou cidadã livre
                e igual.</p>
            <p>Quando tratamos dessa questão no domínio próprio da política, os resultados são
                especialmente desastrosos e minam as condições de civilidade da sociedade. Desde
                Aristóteles enfatiza-se que a política é a esfera do comum, sendo o seu maior
                desafio a busca daquilo que é vantajoso para todos (<xref ref-type="bibr" rid="B2"
                    >ARISTÓTELES, 1998, p. 1-6</xref>). Em uma sociedade que tem por base um arranjo
                econômico de tipo capitalista, a ideia do vantajoso para todos já perde muita força
                diante da primazia da busca dos interesses privados e da fortuna pessoal. Além
                disso, a lógica concorrencial do mercado faz que o outro seja visto como um
                competidor, o que, por si só, já favorece muito mais a disputa e a contenda do que a
                solidariedade e a fraternidade. Quando se soma a isso os processos sociais
                inflamados pelo egocentrismo e pelo egoísmo que produzem rejeição e demonização do
                outro, o resultado inevitável é o ódio como forma de fazer política. O outro é
                alçado à condição de inimigo, e a política passa a ser vista como guerra, e numa
                guerra, o objetivo é aniquilar o inimigo. Nesse ambiente belicoso, a esfera do comum
                própria da política implica estabelecer com o outro uma relação, porém uma relação
                de destruição.</p>
            <p>Os processos de negação do outro possuem na sua base uma cultura de intolerância, ao
                mesmo tempo em que também produzem práticas intolerantes. Assim, a intolerância
                funciona, a um só tempo, como causa e consequência desse grave processo social. Ela
                se apresenta nas bolhas, mas também ocorre fora dela, nas atividades cotidianas.
                Talvez por isso mesmo, se reproduza tão facilmente nas bolhas, de forma
                intensificada, pois já ocorre uma tolerância à intolerância desde o cotidiano real.
                O fato é que a disposição narcísica que produz o encantamento pelo espelho também
                gera certa indisposição para os outros. Vejamos <xref ref-type="bibr" rid="B7">Freud
                    (2011, p. 57)</xref>:</p>
            <disp-quote>
                <p>Nas antipatias e aversões não disfarçadas para com estranhos que se acham
                    próximos, podemos reconhecer a expressão de um amor a si próprio, um narcisismo
                    que se empenha na afirmação de si, e se comporta como se a ocorrência de um
                    desvio em relação a seus desenvolvimentos individuais acarretasse uma crítica
                    deles e uma exortação a modificá-los.</p>
            </disp-quote>
            <p>Amar a si mesmo parece ser muito mais fácil e encantador do que amar o outro. Isso se
                torna plenamente compreensível quando nos damos conta que a primeira inclinação
                natural de todas as pessoas é maximizar o seu próprio prazer e seus próprios
                interesses. Porém, reconhecer isso não significa uma adesão automática à moralidade
                utilitarista. Ainda que concorde com <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bentham (1979,
                    p. 3)</xref> sobre essa inclinação, isso não quer dizer que maximizar o próprio
                prazer seja sempre o moralmente correto a se fazer ou mesmo adequado em contextos
                intersubjetivos. Contudo, é preciso reconhecer certa dificuldade de lidar com as
                diferenças que decorre desse grande apreço que temos por nós mesmos. Num texto de
                1918, chamado O Tabu da Virgindade, Freud cunhou a expressão <italic>narcisismo das
                    pequenas diferenças</italic> para se referir às dificuldades inatas às relações
                entre pessoas no cotidiano (<xref ref-type="bibr" rid="B6">FREUD, 2006</xref>). Cada
                pessoa apegada ao seu próprio eu resguarda uma porção do narcisismo que lhe é
                constitutiva, porém paga-se o preço de identificar no outro uma forma de estorvo, o
                que cria no indivíduo uma intolerância em relação ao outro diferente. Não é
                coincidência que a expressão tenha surgido exatamente num texto que trata sobre o
                tabu da virgindade associada ao corpo feminino. O fato é que a centralidade do mesmo
                (o igual) nos padrões masculinos que são dominantes nunca soube lidar com qualquer
                tipo de emancipação da mulher, pois isso implicaria colocar o diferente no nível
                equivalente ao padrão dominante.</p>
            <p>Freud nos mostra que o narcisismo das pequenas diferenças é inevitável nas relações
                cotidianas e, de certa forma, está na base da constituição do eu porque permite sua
                afirmação e resguarda sua unidade. Todavia, quando se instaura a ponto de
                inviabilizar a constituição de uma comunidade ou de um grupamento social, ele
                expressa uma intolerância que institui não apenas uma incapacidade de lidar com o
                outro, mas também que inviabiliza a configuração dos limites que são imprescindíveis
                à formação do sujeito. Essa dimensão, de certa forma patológica, do narcisismo nas
                pequenas diferenças, encontra sua manifestação mais aguda naqueles processos
                intersubjetivos de repúdio ao outro que podem ser percebidos na rejeição e na
                demonização. Na vida social, isso, via de regra, pode ser notado em diferentes
                formas de preconceito, discriminação e segregação, tais como o racismo, o machismo,
                a xenofobia e o elitismo. Essas formas de manifestação seriam espécies de paroxismo
                do narcisismo das pequenas diferenças que dizem respeito não apenas às pessoas que
                são diretamente afetadas por elas, mas a todas as pessoas da sociedade, pois se liga
                à própria estrutura da vida política ou, em outras palavras, ao modo como
                organizamos a sociedade. E qualquer forma de organização social que seja baseada em,
                ou admita, preconceitos, discriminações e segregações, é definitivamente
                incompatível com a democracia.</p>
            <p>É interessante notar, e isso preocupava Freud, como é possível acontecer diferentes
                maneiras de uma brutal manipulação da intolerância ao outro. O narcisismo das
                pequenas diferenças existe, isso é um fato, mas ele não precisa ser exacerbado ao
                ponto de inviabilizar uma comunidade social e muito menos, ao ponto de gerar
                diferentes formas de preconceito, discriminação e segregação. Se isso ocorre é
                porque há centros de poder que se beneficiam desse acontecimento ou desse arranjo.
                Esses centros de poder que atuam com base na força e manipulam pessoas e
                instituições podem estar vinculados a diferentes tipos de interesse, como,
                econômico, político ou cultural. O poder econômico é o mais visível nas sociedades
                capitalistas, pois decorre da apropriação de recursos, da acumulação do capital e da
                exploração do trabalho alheio, sobretudo na forma da mais-valia. Porém, para que ele
                se mantenha em sociedades democráticas, é preciso convencer a grande maioria da
                sociedade que o enriquecimento de alguns é bom para todos. Isso é feito, em geral,
                pela manipulação das informações e dos sonhos. Tratase de fazer acreditar que, por
                meio exclusivo do esforço pessoal, do mérito próprio, qualquer indivíduo pode obter
                o acúmulo de riqueza. Nesse momento é que as mentes dissonantes e que se posicionam
                contra isso são taxadas como os “diferentes”, isto é, constituem uma outricidade
                marcada por rótulos que produzem inferiorização social, tais como “perdedor”,
                “preguiçoso” ou “incompetente”. O elitismo é uma forma frequente de preconceito que
                ocorre pela manipulação do poder econômico. Até mesmo os mais empobrecidos não estão
                imunes à manipulação que gera o elitismo, pois o fato de enfrentarem privações não
                os impede de acreditar que o estilo de vida e a forma de pensar das elites seria o
                correto para todos, inclusive eles.</p>
            <p>Outro centro de poder que atua com base na força e manipula pessoas e instituições é
                o poder político. Enquanto o poder econômico está baseado na riqueza e na força do
                capital, o poder político costuma se apoiar no controle das instituições estatais e
                na força da influência política. Como dito, o grande centro do poder político, sem
                dúvida, é o estado, em especial os órgãos de governo. A partir deles, os grupos
                dominantes da política concentram seu poderio para se perpetuarem o mais possível no
                controle desses órgãos. É comum se associar o poder político aos políticos
                profissionais, ou seja, aos que ocupam mandatos eletivos no executivo e no
                legislativo. Essa associação não está errada, mas o poder político também é exercido
                por outros setores do estado, como o judiciário e o Ministério Público. Um exemplo
                claro são as práticas de <italic>lawfare</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B13"
                    >KITTRIE, 2016</xref>) que ocorrem no sistema de justiça. Vale ter em mente que
                todo o aparato de estado, inclusive do sistema de justiça, pode ser utilizado
                conforme o interesse de seus integrantes.</p>
            <p>Por fim, a cultura também pode ser um centro de poder que manipula pessoas e
                instituições. Aqui, por cultura, pretendo dizer um conjunto de padrões de
                comportamento, crenças e costumes que distinguem um grupo social. Algumas crenças e
                costumes de uma comunidade podem desafiar conquistas civilizatórias, como a
                liberdade e a igualdade, e não reconhecer as formas de viver e as práticas sociais
                que são diferentes do padrão dominante. No mais das vezes, isso enseja uma espécie
                de hierarquia de identidades que subordina certos segmentos sociais aos grupos
                dominantes da cultura. O sexismo e o racismo são exemplos muito evidentes dessa
                forma de manipulação por parte de setores hegemônicos apoiados pela cultura. É
                importante que se tenha claro que essa distinção entre poder econômico, político e
                cultural possui, sobretudo, natureza heurística, para que se faça uma análise mais
                cuidadosa das manipulações praticadas pelo poder, como preocupava a Freud.
                Entretanto, na vida real, todos esses centros de poder se sobrepõem e podem atuar de
                forma a produzir uma manipulação que se vale do narcisismo das pequenas diferenças
                para gerar processos violentos e atrozes de intolerância ao outro e às diferenças,
                esvaziando a democracia e valendo-se desses processos para aumentarem o próprio
                poder.</p>
            <p>As críticas aqui formuladas em relação aos impactos negativos da cultura de
                fortalecimento do ego na vida democrática não implicam uma visão utópica ou
                idealista de democracia, como se não houvesse outros problemas caso não existisse
                tanto egocentrismo e egoísmo no mundo atual. Como foi dito antes, a democracia é em
                si mesma problemática e desafiadora em vários aspectos e precisará sempre ser
                aperfeiçoada conforme as condições concretas de cada momento histórico. O que se
                sustenta, então, é que a cultura de fortalecimento do ego, o desprezo pela
                outricidade e a falta de respeito pelo pluralismo razoável agravam as dificuldades e
                os limites da democracia. Por exemplo, já não basta que o sistema econômico corrompa
                a democracia para convertê-la em plutocracia, com a crescente falta de empatia, isso
                é feito sob a indiferença de boa parte da população em relação ao sofrimento que
                esse processo causa nas pessoas mais empobrecidas. Qualquer concepção não capturada
                pelo puro idealismo sabe que a democracia necessariamente enseja debates e que as
                divergências são inatas a ela; mais do que isso: a ilusão de um consenso tende a
                enfraquecer a vitalidade do debate democrático e pode ser, por isso mesmo, um perigo
                para a própria política democrática. Todavia, e por outro lado, capturar a
                democracia numa realidade política em que o outro é visto com indiferença ou é
                rejeitado e tomado como uma ameaça a ser destruída, significa inviabilizar a própria
                democracia.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 DEMOCRACIA AGONÍSTICA E O OUTRO COMO ADVERSÁRIO E NÃO COMO INIMIGO</title>
            <p>Para se ter uma melhor compreensão da questão, vale recordar o conceito do político
                que nos foi oferecido por Carl Schmitt ao afirmar que a vida política é marcada
                pelos elementos polares <italic>amizade</italic> e <italic>guerra</italic>. Por
                isso, para ele, o critério que funda o político como campo próprio e autônomo é a
                distinção <italic>amigo-inimigo</italic>. Nas palavras do autor: <italic>a distinção
                    especificamente política a que podem reportar-se as ações e os motivos políticos
                    é a discriminação entre amigo e inimigo</italic> (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B23">SCHMITT, 1992, p. 51</xref>). Segue <xref ref-type="bibr" rid="B23"
                    >Schmitt (1992, p. 52)</xref> esclarecendo que:</p>
            <disp-quote>
                <p>A diferenciação entre amigo e inimigo tem o sentido de designar o grau de
                    intensidade extrema de uma ligação ou separação, de uma associação ou
                    dissociação; ela pode, teórica ou praticamente, subsistir sem a necessidade do
                    emprego simultâneo das distinções morais, estéticas, econômicas ou outras.</p>
            </disp-quote>
            <p>Essa concepção ultrarrealista sustentada por Schmitt escancara a hostilidade com o
                diferente como forma de fazer política. O inimigo, explica Schmitt, não é definido
                necessariamente por razões morais, estéticas ou econômicas, embora até possa sê-lo.
                O inimigo é basicamente o outro, que pela sua alteridade institui uma diferença
                irreconciliável e que não pode ser resolvida por normas preexistentes nem pelo
                veredito de um terceiro desinteressado (<xref ref-type="bibr" rid="B23">SCHMITT,
                    1992, p. 52</xref>). A figura do estrangeiro é especialmente importante para
                Schmitt, pois encarnaria uma diferença existencial que exigiria de cada pessoa
                interessada um posicionamento refletido e individual:</p>
            <disp-quote>
                <p>[...] cada um deles [interessados] tem de decidir por si mesmo, se a alteridade
                    do estrangeiro, no caso concreto do conflito presente, representa a negação de
                    sua própria forma de existência, devendo, portanto, ser repelido e combatido,
                    para a preservação da própria forma de vida, segundo sua modalidade de ser
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B23">SCHMITT, 1992, p. 52</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>Chega a ser chocante essa maneira crua e direta como Schmitt situa o outro na
                condição de ameaça ao eu (o mesmo) nessa esfera do político. Daí resulta a
                necessidade de uma decisão: esse outro é meu amigo ou meu inimigo? A resposta surge
                como algo intuitivo: se é fonte de ameaça, então é meu inimigo. Assim, a diferença
                marca a divisão de territórios políticos e, em alguns casos, de territórios
                    geográficos.<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> Porém não é só isso, a alusão
                ao estrangeiro como referência de outricidade abre as portas da política para a
                ideia de guerra e as violências que lhe são inerentes. Sobre isso, Schmitt explica
                que a <italic>guerra não é, absolutamente, fim e objetivo, sequer conteúdo da
                    política, porém é o pressuposto sempre presente como possibilidade real, a
                    determinar o agir e o pensar humanos de modo peculiar, efetuando assim um
                    comportamento especificamente político</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B23"
                    >SCHMITT, 1992, p. 60</xref>). Em outras palavras, a política assim concebida é
                guerra, não porque debata sobre a guerra, mas porque define o comportamento das
                pessoas envolvidas no sentido de pretender aniquilar o inimigo. Entretanto,
                diferentemente da guerra convencional, em que o inimigo é outro povo, na política
                como guerra, o inimigo pode ser alguém que está ao seu lado, um concidadão, uma
                pessoa que, em tese, deveria ser considerada tão livre e igual como você. Essa
                guerra interna levada a cabo nesse sentido da política de que nos fala Carl Schmitt
                se assenta sobre o repúdio ao outro tomado como alteridade fora do padrão e, por
                isso, ameaçadora. Todavia, não se restringe apenas às questões que possam ser
                entendidas como existenciais – diferentes modos de ser –; essa guerra interna pode
                ter motivações ideológicas, até mesmo porque o mundo político é fundamentalmente
                marcado pelas discrepâncias ideológicas. Mesmo tratando-se de divergências na
                política interna, ainda assim, Schmitt admite a possibilidade de confrontos reais
                que assumem os contornos de uma guerra:</p>
            <disp-quote>
                <p>Quando no interior do Estado os antagonismos político-partidários transformam-se
                    completamente “nos” antagonismos políticos, alcança-se o grau extremo na escala
                    da “política interna”, ou seja, agrupamentos amigoinimigo infra-estatais, não de
                    política externa, são os decisivos para o confronto armado (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B23">SCHMITT, 1992, p. 58</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>Para Schmitt, esse confronto armado é visto como guerra civil, mas a história já nos
                ensinou que as práticas fascistas, mesmo sem guerra civil, valem-se de milícias
                civis e formas violentas para ameaçar, amedrontar e, no limite, matar aqueles que
                pensam diferente.<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref> O fascista recorre a mitos
                fundantes da pátria, como as ideias de nação e orgulho patriótico, para perseguir e
                calar seus inimigos. Utiliza-se de chavões como <italic>lei e ordem</italic> e
                propagandeia seus ideais conservadores gerando ódio e desprezo pelos que não
                comungam de suas ideias; apresenta-se como a única alternativa verdadeiramente
                íntegra diante de um ambiente corrompido. Assim, o fascista pretende fazer acreditar
                que quem pensa diferente dele não é uma pessoa humana, mas o próprio mal encarnado
                (demonização do outro). O resultado disso é o que Schmitt denominou de “grau extremo
                na escala da política interna”, ainda que não seja declarada uma guerra civil, como
                tradicionalmente conhecida.</p>
            <p>O pensamento de Carl Schmitt provocou muitas polêmicas ao longo do século XX,
                especialmente porque seu livro <italic>O Conceito do Político</italic> foi publicado
                em 1932, e, com a ascensão do Terceiro Reich em 1933, Schmitt passou a ser
                considerado uma espécie de iminência parda em alguns grupos nazistas, embora nunca
                tenha ocupado nenhum cargo importante no próprio Partido Nazista; aliás, ele teve
                muitos problemas com lideranças influentes do Partido a partir de 1936 e foi banido
                de várias atividades a partir de 1937 (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MEHRING,
                    2014</xref>). Porém, a verdade é que a ideia de se pensar o político a partir da
                distinção amigo-inimigo pareceu ser propícia à política nazista, especialmente na
                perseguição aos judeus, uma vez que a judeidade foi apontada como a antítese do
                ideal de homem ariano (<xref ref-type="bibr" rid="B8">FUCKS, 2000</xref>). No plano
                propriamente intelectual, o pensamento schmittiano sofreu críticas tanto de autores
                da direita liberal quanto da esquerda, dado o seu caráter conservador. Contudo, a
                dimensão não idealista do conceito do político formulado por Carl Schmitt chamou a
                atenção de Chantal Mouffe para uma perspectiva mais realista e concreta sobre a
                política, especialmente propicia para a crítica da democracia liberal. Em artigo
                originalmente publicado em 1997 no <italic>Canadian Journal of Law &amp;
                    Jurisprudence</italic>, intitulado <italic>Carl Schmitt and the Paradox of
                    Liberal Democracy</italic>, <xref ref-type="bibr" rid="B18">Mouffe (2012, p.
                    53-54)</xref> afirma que o confronto com o pensamento de Carl Schmitt permite
                reconhecer um importante paradoxo inscrito na natureza da democracia liberal. O
                argumento central de Mouffe é que aquilo que os modernos chamam de democracia ou
                    <italic>revolução democrática</italic> resulta de duas tradições distintas que
                não possuem nenhuma conexão conceitual, apenas uma ligação histórica contingente. A
                primeira é a tradição liberal que afirma o império da lei e a defesa dos direitos
                individuais, com ênfase na liberdade. A segunda é a tradição democrática que afirma
                a soberania popular e a identidade entre governantes e governados, com ênfase na
                igualdade. O paradoxo consiste no fato de que essas tradições obedecem a lógicas
                distintas e, por isso seria impossível conciliá-las de forma perfeita (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B18">MOUFFE, 2012, p. 20-22</xref>).</p>
            <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B18">Mouffe (2012, p. 65-72)</xref>, a maneira
                pela qual Schmitt compreende o político revela o paradoxo da democracia, pois, na
                medida em que a ação política é sempre matizada pelo binômio amigo-inimigo, o
                conflito visceral se torna inevitável, e isso expressa a impossibilidade de haver
                consensos de tipo liberal na democracia, pois eles são por demais provisórios e
                volúveis. Mouffe concorda com Schmitt que a democracia implica um sentido forte da
                ideia de povo – <italic>demos</italic> – que a perspectiva parlamentar típica da
                tradição liberal não comporta, por isso consensos parlamentares são frágeis e tendem
                a não expressar o modo de ser de um grupo social. Todavia, Mouffe discorda de
                Schmitt de que a unidade espiritual de um povo acabaria com os antagonismos da
                política porque excluiria os diferentes, os inimigos. Assim, Mouffe reafirma uma
                ideia que já vinha sustentando desde a publicação de <italic>Hegemony and Socialist
                    Strategy: Towards a Radical Democratic Politics</italic>, escrito com Ernesto
                Laclau, em 1985. Trata-se de uma concepção agonística de democracia que parte das
                premissas de que é preciso resgatar a ideia de povo (pois o individualismo extremo é
                uma ameaça ao tecido social) e que é preciso dar ênfase nas práticas sociais (e não
                apenas na razão abstrata que fundamenta as instituições). A partir daí, sustenta que
                o poder é constitutivo das relações sociais, já que todas as pessoas e grupos
                envolvidos em relações políticas sempre pretendem agir de forma a tornar sua
                influência preponderante. A busca por hegemonia é o lado objetivo do poder no âmbito
                da política democrática. Isso implica considerar o conflito como algo inerente à
                democracia, de modo que as iniciativas que pretendem negar o conflito devem ser
                vistas como ameaçadoramente totalitárias: “o caráter democrático de uma sociedade só
                pode ser dado pelo fato de que nenhum ator social limitado pode pretender
                representar o todo e afirmar que tem “controle” sobre os fundamentos” (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B18">MOUFFE, 2012, p. 113</xref>).</p>
            <p>Chantal Mouffe denomina seu modelo de democracia agonística de <italic>pluralismo
                    agonístico</italic>. Assim como faz Schmitt, Mouffe também parte da ideia de um
                inevitável antagonismo no âmbito do político. Porém, há uma diferença fundamental
                entre ambos. Vejamos: <xref ref-type="bibr" rid="B23">Schmitt (1992, p.55-56)</xref>
                afirma que “o antagonismo político é a mais intensa e extrema contraposição e
                qualquer antagonismo concreto é tanto mais político quanto mais se aproximar do
                ponto extremo, do grupamento amigo-inimigo.” Portanto, o que define o antagonismo
                para esse autor é a relação amigo-inimigo. Por seu turno, <xref ref-type="bibr"
                    rid="B18">Mouffe (2012, p. 124)</xref> reconhece que o antagonismo é inerente às
                relações humanas e pode surgir em distintos tipos de relações sociais, mas
                afirma:</p>
            <disp-quote>
                <p>Acredito que somente quando reconhecermos a dimensão do “político” e entendermos
                    que a “política” consiste em domar a hostilidade e tentar atenuar o potencial
                    antagonismo que existe nas relações humanas, poderemos levantar o que considero
                    ser a questão central da democracia política… A política propõe a criação da
                    unidade em um contexto de conflito e diversidade; está sempre relacionado com a
                    criação de um “nós” pela determinação de um “eles”. A novidade da política
                    democrática não é a superação dessa oposição nós / eles - o que é uma
                    impossibilidade - mas a forma diferenciada como ela se coloca. A questão crucial
                    é estabelecer essa discriminação entre nós e eles de uma forma que seja
                    compatível com a democracia pluralista.</p>
            </disp-quote>
            <p>Para estabelecer essa diferença entre nós e eles de forma compatível com a democracia
                pluralista, Mouffe propõe reconstruir a ideia de “eles” de forma que esse outro
                deixe de ser compreendido como inimigo a ser destruído e passe a ser concebido como
                um <italic>adversário</italic>, isto é, como alguém cujas ideias eu posso combater,
                mas sem que eu possa colocar em dúvida o direito dele a ter essas ideias. Essa
                concepção conflitiva de democracia possui a vantagem de ser mais realista e menos
                idealizada, mas não renuncia a um fundamento moral, pois compreende que o adversário
                é alguém a quem me ligo no âmbito da política democrática e, por conseguinte, a quem
                estou unido na consideração pelos valores da liberdade e da igualdade, ainda que
                possamos ter entendimentos distintos acerca de como esses valores devem ser postos
                em prática (<xref ref-type="bibr" rid="B18">MOUFFE, 2012, p. 115</xref>).</p>
            <p>É importante notar como o pluralismo agonístico de Chantal Mouffe se opõe às práticas
                políticas centradas no <italic>eu</italic>, pois implica necessariamente o
                reconhecimento de outro que possui ideias próprias e com o qual eu devo dialogar,
                ainda que em debate vigoroso, se pretendo participar das lutas por hegemonia. O
                outro, para que mantenha essa condição fundamental, não está para ser assimilado ou
                rejeitado, muito menos destruído, mas é alguém com o qual eu devo lidar
                respeitosamente e preservar sua liberdade e igualdade, para que a liberdade e a
                igualdade mesmas, que são os fundamentos morais da democracia, não se percam.
                Considerar o outro que pensa diferente de mim como adversário, e não como inimigo, é
                a atitude ética elementar da política democrática. Nesse sentido, Mouffe se
                desvincula de Schmitt e propõe entender o antagonismo político como
                    <italic>agonismo</italic>, ou seja, como uma luta entre adversários e não entre
                inimigos. Nas palavras da autora: “isso pressupõe que o “outro” não é visto mais
                como um inimigo a ser destruído, mas como um adversário, ou seja, alguém com cujas
                ideias vamos lutar, mas cujo direito de defender essas ideias não iremos
                questionar.” (<xref ref-type="bibr" rid="B19">MOUFFE, 1999, p. 755</xref>). Para
                transformar antagonismo em agonismo, afirma que é necessário proporcionar canais por
                intermédio dos quais as pessoas possam se identificar em identidades comuns e
                paixões coletivas, mas sem que isso construa o oponente como inimigo e coloque em
                risco a própria democracia. Assim explica <xref ref-type="bibr" rid="B19">Mouffe
                    (1999, p.755-756)</xref>:</p>
            <disp-quote>
                <p>...o modelo de pluralismo agonístico que eu estou defendendo afirma que a tarefa
                    primordial da política democrática não é eliminar as paixões e nem as relegar à
                    esfera privada para tornar o consenso racional possível, mas mobilizar estas
                    paixões na direção da promoção de projetos democráticos. Longe de ameaçar a
                    democracia, o confronto agonístico é, de fato, sua verdadeira condição de
                    existência.</p>
            </disp-quote>
            <p>Essa concepção do pluralismo agonístico leva a sério a presença do outro que é
                irredutível ao eu (mesmo), pois coloca a outricidade como a base fundante da vida
                política numa democracia. Isso exige que se reconheça uma série de elementos que são
                típicos da alteridade, tais como: eu não sou o centro da ação política, pois, como
                atividade relacional, ela somente é possível em função da existência de outro; a
                busca pela hegemonia é típica da ação política, e isso vale tanto para a mim quanto
                para o outro; a luta política somente é legítima quando não é indiferente ao outro e
                quando toma o outro que pensa diferente como adversário que deve ser respeitado e
                não como inimigo a ser rejeitado ou aniquilado; as divergências e os
                desentendimentos com os adversários devem ser tratadas dentro dos mecanismos
                legítimos da ação política, abertos igualmente a todos; nas democracias, os
                argumentos dos opositores devem ser combatidos e não as pessoas, argumentos
                    <italic>ad hominem</italic>, além de falaciosos, são incompatíveis com a
                importância do outro para uma democracia.</p>
            <p><xref ref-type="bibr" rid="B18">Mouffe (2012, p. 117)</xref> afirma que uma
                democracia que funcione corretamente exige um vibrante enfrentamento de posições
                políticas democráticas. De saída, isso implica um esforço sincero de superação do
                narcisismo das pequenas diferenças na vida política, pois é exatamente aqui que ele
                se converte em paroxismo e descamba na forma de preconceitos violentos,
                discriminação e exclusão, dando ensejo a tais práticas de forma estrutural. Quem
                pretende fazer política não pode se dar ao desfrute da falta de civilidade; e o
                respeito e a boa educação não devem ser confundidos com cinismo ou conivência, antes
                eles denotam compromisso com o pluralismo razoável. Práticas como a do escracho –
                humilhação do outro em ambiente público – precisam ser entendidas como inaceitáveis
                porque deslocam o alvo das ideias para as pessoas, por isso mesmo eram comuns na
                Alemanha nazista e nos territórios ocupados. Além disso, o enfrentamento vibrante de
                políticas democráticas é absolutamente incompatível com as práticas fascistas, pois
                o fascismo é totalitarista e pretende aniquilar o outro. Os métodos fascistas pregam
                o ódio, demonizam o outro, manipulam as instituições, se valem de mentiras, destroem
                reputações, perseguem o diferente e se utilizam de violência física para calar os
                que não comungam das mesmas ideias.</p>
            <p>Nessa mesma linha, o reconhecimento do pluralismo agonístico com a devida outricidade
                e a busca legítima por hegemonia, não são compatíveis com formas de pensar e com
                modos de viver que sejam fundados sobre a intolerância e a perseguição ao diferente.
                Vale notar que, em respeito à democracia, as diferenças devem ser toleradas, menos
                aquelas que sustentem a intolerância, que tomem o outro como inimigo a ser
                conquistado ou aniquilado. Isso significaria a negação da outricidade que fundamenta
                o próprio pluralismo agonístico ou qualquer concepção política que se pretenda
                democrática. Portanto, quando dito anteriormente que, no âmbito do pluralismo
                agonístico, o adversário não é inimigo, mas alguém cujas ideias eu posso combater,
                sem, por isso, colocar em dúvida seu o direito a ter essas ideias, isso vale até o
                ponto em que tais ideias não se enquadrem nas perspectivas do fascismo, do
                totalitarismo e daquelas formas intolerantes que pretendem silenciar, excluir ou
                aniquilar as diferenças. Isso porque esse tipo de pensamento ou de atitude já
                extrapola a moldura democrática e institui o ódio como forma de fazer política.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>4 CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
            <p>Uma política que não se renda ao egocentrismo e ao narcisismo e que, nesse mesmo
                passo, não entenda o outro diferente como inimigo a ser destruído, não pode ser
                considerada pretensão ingênua ou uma meta inatingível. Ela revela a importância da
                responsabilidade como base do fazer político e uma esperança de manter a política
                para além do egoísmo, da indiferença e do ódio. Por seu turno, essa responsabilidade
                no âmbito do político implica uma política sempre interpelada pela ética, provocada
                nas suas pretensões e interrogada quanto aos meios que propõe. Uma política
                convidada tanto a se comprometer com os valores morais que são constitutivos da
                democracia, como a liberdade e a igualdade, quanto com os princípios que estruturam
                o próprio jogo democrático, como a permanente possibilidade de contestação e a
                necessária interdependência.</p>
            <p>Isso implica um esforço para não se deixar levar pela cultura de fundo extremamente
                individualista e recuperar o valor de espaços e bens em comum, para além do
                inevitável “nós” e “eles” que é parte da vida democrática. Todavia, e por outro
                lado, também envolve um esforço de agentes e instituições da política em se oporem
                vigorosamente a todas as formas de práticas políticas que imponham ou admitam
                discursos tão tóxicos e intolerantes ao ponto de produzir ou compactuar com o ódio
                ao diferente como forma de fazer política. Nenhuma forma de fazer política deve
                conduzir à degradação do outro ou impedir que o outro apresente suas demandas
                legítimas.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>A título de exemplo, vejam-se os representativos trabalhos: (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B1">ARMONY; SCHAMIS, 2005</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B11">HELD, 1995</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>A título de exemplo, vejam-se os representativos trabalhos: (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B21">PRZEWORSKI, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B26">TAYLOR, 2019</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>Cf. <ext-link ext-link-type="uri"
                        xlink:href="https://en.wikipedia.org/wiki/Brexit"
                        >https://en.wikipedia.org/wiki/Brexit</ext-link>. Acesso em: 12 maio
                    2021.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn4">
                <label>4</label>
                <p>Aqui vale a lembrança do seguinte trabalho: <xref ref-type="bibr" rid="B4">Costa
                        (2004)</xref>. Nesse livro, Fernando Braga narra uma interessante
                    experiência que passou ao exercer a tarefa de gari como parte de suas atividades
                    acadêmicas, da graduação à pós-graduação, no Instituto de Psicologia da USP.
                    Nessa experiência pode vivenciar o drama da invisibilidade social.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn5">
                <label>5</label>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B24">Sen (2000, p. 22-23)</xref> narra um caso que
                    testemunhou quando criança na cidade indiana onde morava com sua família. Um
                    homem muçulmano precisou aceitar um emprego de diarista num bairro dominado por
                    hindus. Mesmo sabendo dos riscos, ele aceitou o emprego numa área hostil porque
                    já não tinha mais como alimentar sua família. Como resultado por transitar
                    naquela área, o homem muçulmano foi esfaqueado e morto por homens hindus. Nessa
                    história, fica claro como a diferença demarcou não apenas territórios políticos,
                    mas também territórios geográficos onde o inimigo pode ser aniquilado.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn6">
                <label>6</label>
                <p>Em relação às práticas fascistas, vejam-se os importantes trabalhos: <xref
                        ref-type="bibr" rid="B14">Konder (2009)</xref>, <xref ref-type="bibr"
                        rid="B25">Stanley, (2018)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B5">Eco
                        (2018)</xref>.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
            <ref id="B1">
                <mixed-citation>ARMONY, Ariel; SCHAMIS, Hector. Babel in Democratization Studies.
                        <bold>Journal of Democracy</bold>, v. 16, n. 4, 2005.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="journal">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>ARMONY</surname>
                            <given-names>Ariel</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>SCHAMIS</surname>
                            <given-names>Hector</given-names>
                        </name>
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