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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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                <journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
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            </journal-title-group>
            <issn pub-type="ppub">1806-0420</issn>
            <issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
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                <publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v21i37.p50-82.2023</article-id>
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                    <subject>Artigos</subject>
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            <title-group>
                <article-title>PARA A CRIAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL PARA PREVENÇÃO E REDUÇÃO
                    DE CATÁSTROFES</article-title>
                <trans-title-group xml:lang="en">
                    <trans-title>FOR THE CREATION OF THE INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR PREVENTION
                        AND REDUCTION OF CATASTROPHES</trans-title>
                </trans-title-group>
                <trans-title-group xml:lang="es">
                    <trans-title>POR LA CREACIÓN DE LA ORGANIZACIÓN INTERNACIONAL PARA LA PREVENCIÓN
                        Y REDUCCIÓN DE CATÁSTROFES</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-5309-662X</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Guerra</surname>
                        <given-names>Sidney</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-9089-4399</contrib-id>
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                        <surname>Araújo</surname>
                        <given-names>Brenda Maria Ramos</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-8759-0538</contrib-id>
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                        <surname>Santos</surname>
                        <given-names>Celso de Oliveira</given-names>
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                    <xref ref-type="aff" rid="aff3">***</xref>
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                <label>*</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade Mackenzie</institution>
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                    <city>Duque de Caxias</city>
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                <email>sidneyguerra@terra.com.br</email>
                <institution content-type="original">Pós-Doutor pelo Centro de Estudos Sociais da
                    Universidade de Coimbra; Pós-Doutor pelo Programa Avançado em Cultura
                    Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-Doutor em
                    Direito (Universidade Mackenzie SP). Doutor e Mestre em Direito (UGF).
                    Doutorando em Relações Internacionais (UCC). Professor Titular da Universidade
                    Federal do Rio de Janeiro e da Universidade do Grande Rio. Advogado no Rio de
                    Janeiro. Duque de Caxias - RJ - BR. E-mail:
                    &lt;sidneyguerra@terra.com.br&gt;.</institution>
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            <aff id="aff2">
                <label>**</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro
                    (UERJ)</institution>
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                    <city>Rio de Janeiro</city>
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                <email>brendamariara@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Graduação em Direito pela PUC-Rio, mestrado em
                    Direito Internacional pela UERJ, doutoranda em Direito Internacional pela UERJ,
                    bolsista CAPES. Rio de Janeiro – RJ – BR. E-mail:
                    &lt;brendamariara@gmail.com&gt;.</institution>
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            <aff id="aff3">
                <label>***</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro
                    (UERJ)</institution>
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                    <city>Rio de Janeiro</city>
                    <state>RJ</state>
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                <email>osantoscelso@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Graduação em Direito pela UFRRJ-ITR, mestrado
                    em Direito Internacional pela USP, doutorando em Direito Internacional pela
                    UERJ, bolsista FAPERJ. Rio de Janeiro – RJ – BR. E-mail:
                    &lt;osantoscelso@gmail.com&gt;.</institution>
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            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <p>Editora responsável: Profa. Dra. Fayga Bedê</p>
                    <p><ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://orcid.org/0000-0001-6444-2631"
                            >https://orcid.org/0000-0001-6444-2631</ext-link></p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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                <month>03</month>
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                <season>May-Aug</season>
                <year>2023</year>
            </pub-date>
            <volume>21</volume>
            <issue>37</issue>
            <fpage>50</fpage>
            <lpage>82</lpage>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
                        distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
                        que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>Perante os problemas de cooperação enfrentados pelos Estados no combate a
                        recentes cenários de catástrofes, o presente trabalho apresenta como tese a
                        proposta de criação da Organização Internacional para Prevenção e Redução de
                        Catástrofes (OIPRC). Como objetivos específicos, o trabalho pretende
                        demonstrar como as organizações internacionais ajudam a solucionar problemas
                        de cooperação em áreas específicas; propor órgãos executivos para estimular
                        a cooperação dos Estados em cenários de catástrofes; propor órgãos
                        administrativos e legislativos para solucionar a falta de regulamentação e
                        criar suporte administrativo; propor mecanismo para solucionar eventuais
                        conflitos entre Estados e garantir eficácia à regulamentação do Direito
                        Internacional das Catástrofes.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Metodologia:</title>
                    <p>O método de abordagem será o dedutivo, sendo descritos os problemas de
                        cooperação para sugerir possíveis órgãos competentes para solucioná-los. A
                        técnica de pesquisa utilizada será a bibliográfica.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>O trabalho conclui que a Organização Internacional para Prevenção e Redução
                        de Catástrofes poderá solucionar os problemas de governança na área, mas
                        deverá superar os desafios de sua criação.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contribuições:</title>
                    <p>O artigo contribui para o aprimoramento da regulamentação do direito
                        internacional para que ele consiga responder de forma eficaz às catástrofes.
                        Na atual sociedade internacional, a potencialidade de ocorrerem catástrofes
                        globais é maior. A Organização Internacional para Catástrofes objetiva criar
                        uma regulamentação suficiente para prevenir, minimizar e superar a
                        ocorrência dessas situações.</p>
                </sec>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <sec>
                    <title>Objective:</title>
                    <p>In face of the cooperation issues encountered by the States in the fight
                        against catastrophe scenarios, the present work presents as a thesis the
                        proposal to create the International Organization for Prevention and
                        Reduction of Catastrophes. As specific objectives, the work intends to:
                        demonstrate how international organizations help to solve cooperation issues
                        in specific areas; propose executive bodies to encourage cooperation between
                        States in catastrophe scenarios; propose administrative and legislative
                        bodies to address the lack of regulation and create administrative support;
                        propose a mechanism to resolve eventual conflicts between States and
                        guarantee the effectiveness of the regulation of the International Law of
                        Catastrophes.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Methodology:</title>
                    <p>The method of approach will be the deductive one, describing cooperation
                        issues to suggest possible competent bodies to solve them. The research
                        technique used will be bibliographic.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Results:</title>
                    <p>The work concludes that the International Organization for Prevention and
                        Reduction of Catastrophes can solve the governance issues of the field, but
                        it will have to overcome the challenges of its creation.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contributions:</title>
                    <p>The article contributes to the improvement of the regulation of international
                        law so that it can respond effectively to catastrophes. In today’s
                        international society, the potential for the occurrence of global
                        catastrophes is greater. The International Organization for Catastrophes
                        aims to create sufficient regulation to prevent, minimize and overcome the
                        occurrence of those situations.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <trans-abstract xml:lang="es">
                <title>RESUMEN</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>Ante los problemas de cooperación que enfrentan los Estados en la lucha
                        contra escenarios de catástrofe, el presente trabajo presenta como tesis la
                        propuesta de creación de la Organización Internacional para la Prevención y
                        Reducción de Catástrofes. Como objetivos específicos, el trabajo pretende:
                        demostrar cómo los organismos internacionales ayudan a resolver problemas de
                        cooperación en áreas específicas; proponer órganos ejecutivos para fomentar
                        la cooperación entre los Estados en escenarios de catástrofes; proponer
                        cuerpos administrativos y legislativos para atender la falta de regulación y
                        crear apoyo administrativo; proponer un mecanismo para resolver eventuales
                        conflictos entre Estados y garantizar la efectividad de la regulación del
                        Derecho Internacional de Catástrofes.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Metodología:</title>
                    <p>El método de abordaje será el deductivo, describiendo los temas de
                        cooperación para sugerir posibles órganos competentes para resolverlos. La
                        técnica de investigación utilizada será la bibliográfica.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>El trabajo concluye que la Organización Internacional para la Prevención y
                        Reducción de Catástrofes puede resolver los problemas de gobernanza del
                        campo, pero deberá superar los desafíos de su creación.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contribuciones:</title>
                    <p>El artículo contribuye a la mejora de la regulación del derecho internacional
                        para que pueda responder eficazmente a las catástrofes. En la sociedad
                        internacional actual, el potencial de ocurrencia de catástrofes globales es
                        mayor. La Organización Internacional para las Catástrofes tiene como
                        objetivo crear la regulación suficiente para prevenir, minimizar y superar
                        la ocurrencia de esas situaciones.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>Direito Internacional das Catástrofes</kwd>
                <kwd>Organização Internacional para Prevenção e Redução de Catástrofes</kwd>
                <kwd>Organizações Internacionais</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>International Law of Catastrophes</kwd>
                <kwd>International Organization for Prevention and Reduction of Catastrophes</kwd>
                <kwd>International Organizations</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="es">
                <title>Palabras clave:</title>
                <kwd>Derecho Internacional de Catástrofes</kwd>
                <kwd>Organización Internacional para la Prevención y Reducción de Catástrofes</kwd>
                <kwd>Organizaciones internacionales</kwd>
            </kwd-group>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>1 INTRODUÇÃO</title>
            <p>O direito internacional público tem-se modificado ao longo dos últimos anos. Em
                verdade, pode-se afirmar que este tem, por assim dizer, se alargado, isto é, passou
                a contemplar os mais diversos assuntos no sistema internacional.</p>
            <p>Se, no passado, as discussões que se apresentavam no âmbito dessa matéria ficavam
                praticamente adstritas aos temas considerados clássicos (por exemplo, direito dos
                tratados; direito do mar; órgãos dos Estados nas relações internacionais),
                evidencia-se que, nos dias atuais, a disciplina demonstra e oferece variedade e
                riqueza de abordagens, ao tratar de direitos humanos, meio ambiente, comércio
                internacional, crimes internacionais, ensejando uma especialidade própria e
                correspondente para cada um dos assuntos nominados e tantos outros que são regidos e
                regulados pelo direito internacional.</p>
            <p>Tal fato se explica, como já assentado (<xref ref-type="bibr" rid="B11">GUERRA,
                    2022</xref>), em razão das espetaculares mudanças ocorridas na sociedade
                internacional que deixou de ser estática e passou a ser dinâmica, com a inserção de
                múltiplos atores que interagem nas mais diversas formas nessa arena.</p>
            <p>Indubitavelmente aspectos positivos puderam ser evidenciados com as transformações
                ocorridas ao longo dos séculos na arena internacional, por exemplo, o reconhecimento
                da subjetividade internacional do indivíduo e a consequente evolução do direito
                internacional dos direitos humanos; a necessidade de se estabelecer um sistema que
                contemplasse o multilateralismo; o crescimento da tecnologia e da informação nas
                    <italic>vias de comunicação</italic> e a proliferação de Organismos
                internacionais, objeto deste estudo, que passaram a atuar nos mais diversos
                campos.</p>
            <p>Por outro lado, as práticas que são adotadas pelos diversos protagonistas que operam
                no sistema internacional produzem episódios devastadores em várias matérias, isto é,
                a ocorrência de verdadeiros cenários de catástrofes.</p>
            <p>O Direito Internacional das Catástrofes, que foi apresentado e teorizado por <xref
                    ref-type="bibr" rid="B14">Guerra (2021b, p. 63)</xref> a partir de vários
                cenários (crises ambientais, econômicas, pandêmicas, conflitos armados), requer
                esforço profundo com o fulcro de investigar as possibilidades de serem criadas
                normas efetivas no sistema internacional para a prevenção das catástrofes futuras, a
                gestão das presentes e a reparação das pretéritas. Tais reflexões, acentua ele
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B14">GUERRA, 2021b, p. 64</xref>), remetem a níveis
                de abstração teóricoformal como aqueles experimentados pelos pensamentos
                jusinternacionalistas que antecederam a ideia aqui proposta. Isso porque toda teoria
                em sua fase embrionária apresenta dificuldades práticas capazes de questionar sua
                viabilidade no campo material, porém, enfrentá-las corresponde a etapa gestacional
                de qualquer pensamento cuja ambição seja a de perpetuar-se nas relações humanas.</p>
            <p>Nesse sentido, foi proposto o <italic>novel</italic> Direito Internacional das
                Catástrofes que está pautado, dentre outras questões, na prevenção e na gestão dos
                riscos, bem como na ajuda necessária a ser prestada aos envolvidos contempla
                múltiplos atores que devem desenvolver papéis específicos e importantes nos cenários
                de catástrofes. Assim, o autor identifica a atuação das Organizações Internacionais,
                que ocupam lugar de destaque no sistema internacional, como protagonista importante
                nesse campo.</p>
            <p>Esta pesquisa é fruto dos estudos dos autores no âmbito do Grupo de Pesquisa
                Institucional do Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade do Estado do
                Rio de Janeiro, na linha de pesquisa em direito internacional, ministrada pelo Prof.
                Dr. Sidney Guerra. O presente estudo foi estruturado em cinco itens: Introdução; As
                organizações internacionais no sistema internacional: das conferências periódicas
                aos organismos especializados – breves considerações; a Organização Internacional
                para Catástrofes; Alguns desafios para a criação da OIPRC; A título de conclusão
                inacabada. Esta introdução aborda conceitos básicos, como a expansão do direito
                internacional, as mudanças na arena internacional e a proposta do direito
                internacional das catástrofes bem como estrutura este trabalho.</p>
            <p>No tópico sobre as organizações internacionais no sistema internacional, é realizado
                um breve histórico das organizações internacionais com o intuito de demonstrar que
                essas instituições têm sido utilizadas para superar problemas de cooperação
                internacional. No item a Organização Internacional para Catástrofes, identifica-se
                que a OIPRC poderia seguir a estrutura da Organização Mundial de Comércio por
                diversos fatores que serão enumerados. Partindo de uma série de problemas de
                cooperação em cenários de catástrofe, o artigo distribui funções entre os órgãos
                necessários para o bom funcionamento da OIPRC, dedicando um subitem para órgãos
                executivos, órgãos administrativos, órgãos legislativos e solução de controvérsias.
                Na sequência, o trabalho procura trazer a debate alguns possíveis desafios que
                poderão aparecer na construção da OIPRC. Encerra-se com uma pequena conclusão.</p>
            <p>Para alcançar o objetivo do trabalho, será usado o método de abordagem dedutivo. Após
                elencar os problemas de cooperação que atrapalham a governança global na área de
                catástrofes, serão sugeridos possíveis órgãos competentes para solucioná-los por
                meio de dedução. A técnica de pesquisa adotada será a bibliográfica, reunindo todos
                os livros e artigos relevantes para o tema.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>2 AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS NO SISTEMA INTERNACIONAL: DAS CONFERÊNCIAS
                PERIÓDICAS AOS ORGANISMOS ESPECIALIZADOS – BREVES CONSIDERAÇÕES</title>
            <p>O presente tópico se propõe a apresentar breves antecedentes das Organizações
                Internacionais no sistema internacional e evidenciar a relação entre o
                estabelecimento dessas instituições e a necessidade de assegurar cooperação mais
                profunda entre os Estados em determinado tema.</p>
            <p>Com efeito, a necessidade de se estabelecer maior integração entre os Estados aumenta
                no sistema internacional, sendo possível identificar estágios prévios de integração
                que antecederam às organizações internacionais como se apresentam nos dias atuais:
                as conferências periódicas e as uniões administrativas internacionais permanentes.
                Esses dois aspectos serão analisados na ordem dada; porém, em termos temporais, os
                dois ocorreram de forma mais ou menos simultânea e continuam sendo uma forma de
                integração relevante na atualidade.</p>
            <p>Quando as relações consulares e diplomáticas bilaterais se mostraram pouco eficientes
                para a resolução de problemas complexos que envolviam mais de dois Estados, as
                conferências internacionais foram estabelecidas para criar um fórum em que os
                interesses de todos os Estados envolvidos pudessem ser debatidos. Inicialmente,
                essas conferências eram estabelecidas apenas para resolver uma questão pontual,
                tendo como resultado a elaboração de tratados (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
                    >AMERASINGHE, 2005, p. 1-2</xref>).</p>
            <p>Com a maior interação entre os Estados, as conferências internacionais <italic>ad
                    hoc</italic> deixaram de ser suficientes. Para cada problema que surgia, os
                Estados precisavam entrar em contato para estabelecer uma conferência, o que era um
                processo complexo e lento, que postergava a solução da questão. Em muitos casos, era
                necessário desenvolver acordos mais elaborados que necessitavam de um período maior
                para serem debatidos.<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> Por esses motivos
                principais, uma das soluções encontradas foi a realização de conferências
                internacionais periódicas. São exemplos dessas novas formas de integração a
                Quádrupla Aliança, que realizou uma série de conferências para a manutenção da
                segurança internacional, as Conferências de Paz da Haia de 1899 e 1907, que tinham o
                intuito de desenvolver o direito internacional em diversas áreas, e o sistema
                panamericano de conferências, que teve seu início em 1826. O sistema panamericano
                ajudou no desenvolvimento do direito internacional em diversas áreas e teve como
                consequência a criação da Organização dos Estados Americanos, a qual existe até os
                dias atuais.<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></p>
            <p>A Quadrupla Aliança, estabelecida após a derrota de Napoleão, era formada por
                Áustria, Prússia, Rússia e Reino Unido e deveria garantir a implementação do que foi
                acordado em Viena. As conferências periódicas eram realizadas com esse objetivo,
                seguindo o artigo 6º do Tratado de Paris de 1815. Esse modelo de controle da paz por
                um grupo seleto de potências servirá de inspiração para diversas organizações
                internacionais, incluindo a Organização das Nações Unidas no Conselho de
                    Segurança.<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref></p>
            <p>O sistema de conferências de paz da Haia consistiu apenas de duas conferências, pois,
                antes que fosse possível a realização da terceira, a Primeira Guerra Mundial havia
                começado. Sua importância está, principalmente, no caráter universal desses
                encontros, que foram os primeiros a incluir praticamente todos os Estados
                independentes da sociedade internacional do momento.<xref ref-type="fn" rid="fn4"
                    >4</xref></p>
            <p>Um passo final nos antecedentes das organizações internacionais como são conhecidas
                atualmente foi o estabelecimento de uniões administrativas internacionais
                permanentes para promover a cooperação em áreas técnicas específicas, como
                comunicação, navegação, higiene, agricultura.<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>
                Essas uniões administrativas podem ser consideradas como organizações internacionais
                apesar de sua temática restrita e pouca institucionalização.</p>
            <p>Com a proclamação da liberdade de navegação nos mares pelo Congresso de Viena, foram
                instituídas diversas comissões internacionais para rios, sendo a comissão
                internacional do rio do Reno a mais reconhecida:<xref ref-type="fn" rid="fn6"
                    >6</xref></p>
            <disp-quote>
                <p>Com a comissão internacional do rio reno e as demais organizações internacionais
                    congêneres que são constituídas a partir desse momento (elba em 1821 e 57anúbio
                    em 1856), inaugura-se um novo momento no campo das relações internacionais,
                    fazendo com que essas tendências refletissem na ‘crescente tomada de consciência
                    de interdependência, em diversos níveis, das posições dos diversos estados e da
                    insuficiência de instrumentos clássicos da diplomacia (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B12">GUERRA, 2021a, p. 308</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>Em 1865, é criada a União Telegráfica Internacional (UTI) e, em 1874, é estabelecida
                a União Postal Universal (UPU). Frise-se, por oportuno, que as uniões
                administrativas internacionais geralmente mantinham encontros periódicos e uma
                secretaria permanente, mas, em alguns casos, possuíam órgãos legislativos e
                deliberativos, como na UPU e na UTI. Essa institucionalização foi a maior
                contribuição dessas uniões para a criação das organizações internacionais atuais,
                marcando a passagem entre conferências periódicas e organizações.<xref ref-type="fn"
                    rid="fn7">7</xref> Esses exemplos são apenas alguns dos mais conhecidos entre as
                diversas uniões administrativas internacionais criadas na época. Não é por outro
                motivo que Amerasinghe afirma:</p>
            <disp-quote>
                <p>The nineteenth century has been described as ‘the era of preparation for
                    international organization’, this chronological period being between 1815 and
                    1914, while the years which have passed since the momentos events of 1914 must
                    in a sense be regarded as ‘the era of establishment of international
                    organization, which, in these terms comes to be regarded as a phenomenon of the
                    twentieth century’ (<xref ref-type="bibr" rid="B1">AMERASINGHE, 2005, p.
                        6</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>Dessa forma, já no final do século XIX, surgem diversas organizações internacionais
                especializadas em temas técnicos.<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref> Elas foram,
                contudo, nessa estrutura originária, insuficientes para impedir a Primeira Guerra
                Mundial. Por esse motivo, ainda no começo da guerra, internacionalistas refletiam
                sobre a necessidade de uma institucionalização mais profunda para garantir a paz e a
                segurança internacionais.<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref></p>
            <p>Com base nesses planos, após a Primeira Guerra Mundial, é instituída a Liga das
                Nações, a primeira organização internacional universal com institucionalização
                política, social, econômica, administrativa e jurídica. A sua criação marca o ponto
                de amadurecimento da comunidade internacional sobre a necessidade de cooperação para
                a solução de problemas internacionais. A Liga também fez esforços, que não obtiveram
                resultados, para reunir algumas uniões administrativas em sua estrutura, como a
                    UPU.<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref> Em sua tarefa principal, a Liga
                acabou falhando ao não conseguir prevenir uma nova guerra mundial principalmente
                pela ausência dos Estados Unidos em sua lista de membros e pela carência de posturas
                rígidas contra seus membros em momentos de agressão, como a invasão da Manchúria
                pelo Japão em 1931, a invasão da Etiópia pela Itália em 1935 e a nova militarização
                da Alemanha.<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref></p>
            <p>Mesmo após a falha da Liga das Nações, os Estados não foram dissuadidos da
                necessidade de maior integração por meio de organizações internacionais. Pode-se
                dizer que o século XX foi marcado pela criação dessas organizações para os mais
                variados temas e com as mais variadas abrangências de Estados Membros. Além disso,
                durante esse período, muitas organizações internacionais tiveram sua estrutura
                institucional reforçada.<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref> Como exemplo, foi
                estabelecida uma Convenção Internacional Aérea para regulamentar aspectos técnicos,
                operacionais e organizacionais da aviação civil. Também foram criadas uma Comissão
                Internacional para Navegação Aérea e uma Associação Internacional de Tráfego Aéreo,
                que eram basicamente formadas por países europeus e pelos Estados Unidos. Essas duas
                instituições elaboraram a Convenção de Varsóvia de 1929, que regulamentou a
                responsabilidade de companhias aéreas em casos de morte ou danos a passageiros ou
                perda de bagagens. Além disso, em 1923, foi estabelecida a Comissão Internacional de
                Polícia Criminal, que atualmente é a Organização Internacional de Polícia Criminal
                    (Interpol).<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref></p>
            <p>Os horrores da Segunda Guerra Mundial contribuíram para que os países percebessem a
                urgência de se criar mecanismos internacionais que ajudassem a prevenir conflitos
                internacionais. Ainda durante a guerra, o Reino Unido, os Estados Unidos e a URSS
                realizaram encontros no Teerã, 1943, e em Yalta, 1945, para discutir a nova
                estrutura institucional da sociedade internacional, que culminaram na criação da
                Organização das Nações Unidas e suas agências especializadas. Desde sua criação até
                os dias atuais, o número de agências especializadas cresceu. Além disso, surgiram
                organizações criadas a partir do sistema ONU por meio de acordos particulares, como
                a Agência Internacional de Energia Atômica e a Autoridade Internacional dos Fundos
                Marinhos (<xref ref-type="bibr" rid="B8">DAVIES; WOODWARD, 2014, p. 56</xref>).</p>
            <p>Após esse breve histórico, é possível concluir que, quando a sociedade internacional
                adquire maturidade sobre a necessidade de cooperação em determinada área,
                organizações internacionais são estabelecidas.<xref ref-type="fn" rid="fn14"
                    >14</xref> Muitas vezes, falhas na cooperação internacional, como a Primeira e a
                Segunda Guerras Mundiais e a crise econômica de 1929, estimulam a criação de
                organizações internacionais, pois despertam nos Estados a conscientização sobre a
                necessidade de integração.</p>
            <p>Mesmo após enfrentarem duas guerras mundiais, as organizações internacionais
                aprofundaram sua institucionalização, o que demarca sua necessidade para a
                comunidade internacional. Depois da Segunda Guerra Mundial, as organizações
                internacionais universais, que não estão concentradas na resolução de problemas de
                seus membros ou que são regionais, aumentaram, abordando questões econômicas e
                sociais para além dos problemas de segurança internacional (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B8">DAVIES; WOODWARD, 2014, p. 61-62</xref>).</p>
            <p>Atualmente, existem organizações internacionais voltadas, no todo ou em parte, à
                reconstrução de Estados pós-guerra, controle de vírus e outras doenças, assistência
                de Estados em crises financeiras, resolução de disputas entre Estados, redução da
                pobreza, problemas ambientais, promoção do livre comércio, defesa da igualdade de
                gênero, reforma de sistemas jurídicos, redução da corrupção, combate ao terrorismo.
                Esses são alguns exemplos de temas que foram chamados por <xref ref-type="bibr"
                    rid="B2">Annan (2009)</xref> de problemas sem passaporte. No século XXI, são
                poucas as áreas que não possuem organizações internacionais. Por causa dessa
                expansão, essas organizações têm procurado, cada vez mais, desenvolver programas em
                cooperação uma com as outras:<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref></p>
            <disp-quote>
                <p>International Society has, in spite of the diversity of culture and political
                    systems, been progressively drawn closer together and become more unified.
                    People and their governments now look far beyond national frontiers and feel a
                    common responsibility for the major problems of the world and for lesser
                    problems that may subsist within smaller groups of states. Many of those
                    problems have overflowed national boundaries, or called for attention beyond
                    national limits, become international and demanded regulation and treatment in a
                    wide sphere, with the consequence that governments have sought increasingly to
                    deal with them through international organizations (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B1">AMERASINGHE, 2005, p. 7</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>Em momentos passados de crise, as organizações internacionais sempre estiveram na
                primeira linha de combate, como durante os ataques de 11 de setembro e na crise
                financeira de 2008. Perante, principalmente, as dificuldades na resolução da
                pandemia da COVID-19 e no enfrentamento do aquecimento global, sugere-se a criação
                da Organização Internacional para Prevenção e Redução de Catástrofes (OIPRC).</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 A ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL PARA CATÁSTROFES</title>
            <p>Em estudos específicos sobre as Organizações Internacionais (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B13">GUERRA, 2020</xref>), é possível inferir que elas passaram a ter
                grande destaque após a criação da ONU, em 1945, e se proliferaram à medida em que os
                Estados perceberam que existiam problemas que não poderiam ser resolvidos de maneira
                isolada e que ensejavam uma grande cooperação internacional.</p>
            <p>De fato, as organizações internacionais auxiliam os Estados a superar problemas que
                exigem ação coletiva e permitem a divisão de custos e reunião de recursos, impedindo
                a realização de ações individuais por parte de cada Estado. Elas conseguem ajudar os
                Estados a enfrentar mudanças e superar problemas relacionados a estas. Observa-se o
                estabelecimento de um fórum para que problemas possam ser discutidos de forma
                contínua. Não é por acaso que esse grau de institucionalização auxiliou diversos
                Estados a resolver problemas relativos à economia, na promoção da paz, da segurança
                internacional, bem como no fortalecimento de bases sociais e na promoção e na
                proteção dos direitos humanos.<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref></p>
            <p>Atualmente, existe uma Organização que se aproxima do tema das catástrofes - a
                Organização Internacional da Defesa Civil. Ela, contudo, não supre a carência, pois
                é voltada para desastres<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref>, pois seu objetivo
                é o de promover a cooperação entre as estruturas nacionais voltadas à defesa civil.
                Trata-se, portanto, de uma estrutura de governança global, criada em 1958, que
                obteve sucesso, e funciona até os dias atuais e conta com a participação de 60
                Estados. Como ainda não existe uma organização internacional preparada para lidar
                com as catástrofes internacionais, em suas diversas facetas, quase sempre envolvendo
                mais de um ramo do direito internacional, é que se propõe a criação de uma
                Organização Internacional para as Catástrofes (OIPRC).</p>
            <p>Inseridos na estrutura da Organização das Nações Unidas (ONU), existe o Escritório
                das Nações Unidas para a Redução de Riscos e de Desastres (UNDRR) e o Escritório de
                Avaliação e Coordenação de Desastres das Nações Unidas (UNDAC). Essas duas
                estruturas não são organizações internacionais autônomas, como as agências
                especializadas da ONU, e são voltadas à proteção contra desastres, que possuem uma
                amplitude muito menor do que as catástrofes. A incapacidade da ONU em situações de
                catástrofes foi, inclusive, debatida pela 77ª sessão da Assembleia Geral das Nações
                Unidas, que teve como tema: “Um momento divisor de águas: soluções transformadoras
                para desafios interligados”. A sessão constatou que o mundo passa por diversas
                catástrofes, situações interconectadas e complexas, como a pandemia da COVID-19, a
                guerra na Ucrânia, o fenômeno das mudanças climáticas e o aumento de preocupações
                sobre a estabilidade da economia global. Não existem, contudo, instrumentos com
                capacidade para responder de forma efetiva a essas situações, sendo necessário
                pensar em novas maneiras de construir um mundo mais resiliente.</p>
            <p>Em seu discurso na 77ª sessão da Assembleia Geral, António Guterres mencionou ainda
                mais riscos de catástrofes que a sociedade internacional enfrenta no século XXI,
                como o desenvolvimento da neurotecnologia, o avanço nas blockchains, as plataformas
                sociais que estimulam a divergência, o ódio e a desinformação como negócio, a compra
                e venda de informações pessoais como data para análise de expectativas de clientes,
                o desenvolvimento de inteligências artificiais e a ausência de uma arquitetura
                global que consiga prevenir, mitigar e superar esses cenários: “So let’s develop
                common solutions to common problems – grounded in goodwill, trust, and the rights
                shared by every human being. Let’s work as one, as a coalition of the world, as
                united nations.” (<xref ref-type="bibr" rid="B26">ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS,
                    2022</xref>, online).</p>
            <p>Uma das consequências da globalização foi a intensificação dos fenômenos de crise,
                que passaram a ser uma fonte permanente de preocupação. Com isso, as sociedades
                nacionais ficaram marcadas por uma sensação de insegurança, incertezas e risco. O
                mundo vivenciou uma profunda transformação, passando de um estado em que as ciências
                possibilitavam uma sensação de certezas e de crises que podiam ser controladas para
                um período de crise profunda (<xref ref-type="bibr" rid="B18">HESPANHA,
                2002</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B5">Beck (2009, p. 18)</xref> identificou
                essa nova fase como a sociedade de risco, em que o processo de modernização e de
                generalização da insegurança ocasionaram consequências inesperadas e indesejadas. O
                uso político da ciência reduziu sua credibilidade, e a exploração da natureza deixou
                de ser sustentável. Essa sociedade de risco é marcada por uma incerteza sobre o
                futuro, pois o risco tanto pode significar um resultado positivo como um negativo. É
                uma sociedade que precisa encarar as consequências de seu progresso, e é nesse
                sentido que surge o Direito dos Desastres. Esse direito objetiva controlar os
                efeitos negativos do risco, estabelecendo uma normativa para prevenir, mitigar e
                superar desastres que ocorrem nessas sociedades nacionais (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B6">BRASIL; CARVALHO; SILVA, 2020</xref>).</p>
            <p>O fenômeno da globalização, contudo, não é estático ou único, apresentando variações
                conforme o tempo e o espaço que têm consequências na configuração da sociedade.
                Quando os processos globais incorporam os riscos, surgem novas tensões e
                antagonismos nas sociedades nacionais. Quanto mais essas sociedades tentam maneiras
                inovadoras de proteção contra os riscos, maior é a ansiedade sobre a insuficiência e
                a ineficácia da capacidade da ciência e da técnica em prever o futuro. Essa nova
                etapa fez com que Ulrich Beck afirmasse que se formou uma sociedade de risco
                mundial. Ao contrário dos riscos que antes geravam desastres apenas, surgem os
                riscos globais que têm o potencial de gerar catástrofes.<xref ref-type="fn"
                    rid="fn18">18</xref> Os riscos globais apenas podem ser enfrentados por
                respostas globais, em uma perspectiva de destino comum da comunidade
                internacional:</p>
            <disp-quote>
                <p>Global risks force us to confront the apparently excluded other. They tear down
                    national barriers and mix natives with foreigners. The expelled other becomes
                    the internal other, as a result not of migration but of global risks. Everyday
                    life is becoming cosmopolitan: human beings must lend meaning to their lives
                    through exchanges with others and no longer in encounters with people like
                    themselves (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BECK, 2009, p. 27-28</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>Dessa forma, é importante ressaltar, novamente, que os desastres, ao contrário de
                catástrofes, em suas consequências, não afetam a comunidade internacional como um
                todo e não dependem da articulação entre todos os ramos do direito internacional
                para sua prevenção, mitigação e superação. Por esse motivo, este trabalho defende
                que não é possível tratar catástrofe como sinônimo de desastre como ocorre em
                algumas obras (<xref ref-type="bibr" rid="B10">GIUSTINIANI, 2021, p. 12-14</xref>).
                A pandemia da COVID-19, por exemplo, ao mesmo tempo que atingiu a saúde de toda a
                comunidade internacional, também gerou graves impactos na economia global e agravou
                crises migratórias com diversos Estados fechando suas fronteiras. Dessa forma, uma
                enorme quantidade de organizações internacionais existentes considerou necessário
                emitir comunicados sobre a situação. Essa maneira fragmentada de atuação prejudicou
                o enfrentamento à pandemia, tornando-o mais lento, com ações repetidas sobre as
                mesmas questões e com pouca coesão.</p>
            <p>Ao estudar o caso da resposta internacional à COVID-19, <xref ref-type="bibr"
                    rid="B9">Dilmaç (2022)</xref> considera que a circulação de informação sobre a
                pandemia foi fragmentada e falha. As organizações internacionais existentes não
                conseguiram apresentar um plano de ação único voltado aos interesses da comunidade
                internacional. Cada organização elaborou sua proposta, gerando ações inconsistentes,
                o que fez com que os Estados abandonassem a solidariedade e buscassem soluções
                locais e regionais. Essa resposta fragmentada gerou uma grande variedade de
                soluções, pedindo o uso ou não de máscaras, decretando ou não
                    <italic>lockdowns</italic>, proibindo ou não viagens internacionais. Por sua
                vez, os indivíduos questionaram essa diversidade de ações governamentais para a
                solução do mesmo problema. Os indivíduos sentiram-se vulneráveis e desorientados,
                ocasionando uma sensação de pânico global: ansiedade existencialista com a sensação
                de impotência perante a sua vida; alienação do sistema político causada pela
                negligência das autoridades em tomar decisões que respondessem às necessidades dos
                indivíduos; insatisfação com a atuação dos atores globais e desconfiança política.
                Na avaliação da autora, o resultado foi uma série de revoltas contra ações
                impositivas de uso de máscara, vacina e <italic>lockdowns</italic>:</p>
            <disp-quote>
                <p>Our argument is that the lack of communication of global political bodies, their
                    apparent indecision and their inability to internationally manage the corona
                    crisis, have caused a “global panic” around the world: this chaos is due to the
                    unpreparedness of global governance for emergency and catastrophes, making it
                    impossible for officials to know how to overcome the crisis. This hesitancy of
                    the authorities and their ambiguous speeches have occasionally generated
                    distress among individuals, pushing some of them to seek answers by themselves
                    to reduce uncertainty. Thus, the mis/discommunication of global politics bodies
                    have indirectly encouraged the spread of fake content, exposing citizens to
                    information disorder that has reinforced their confusion (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B9">DILMAÇ, 2022, p. 129-130</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>A inconsistência de discursos e de medidas adotadas geraram caos, comprovando que as
                organizações internacionais existentes não possuem a estrutura exigida para
                enfrentar cenários de catástrofes. Tendo em vista a necessidade de uma resposta
                única e rápida nesses cenários, torna-se necessário propor uma nova estrutura
                institucional que consiga realizar a conexão entre os diversos ramos do direito
                    internacional.<xref ref-type="fn" rid="fn19">19</xref> O caminho para a formação
                de uma nova organização no lugar da reestruturação de todas as organizações
                internacionais já existentes também parece melhor aos autores pelo fato de que a
                mudança em tratados constitutivos de quase todas as organizações internacionais
                exige o consentimento de todos os estados partes. Dessa forma, buscar o consenso dos
                estados para alterar uma série de organizações talvez seja tarefa mais árdua do que
                estabelecer uma nova estrutura institucional, que seria planejada desde sua origem à
                necessidade de prevenir, mitigar e superar catástrofes, fazendo as conexões
                necessárias entre os ramos do direito internacional. A criação dessa organização
                também não supre a necessidade de reforma em organizações já existentes, que
                permanecem voltadas às necessidades da comunidade internacional do Pós-Guerra
                Fria.</p>
            <p>O trabalho dos atores internacionais, como Estados, sociedade civil e organizações
                internacionais, para solucionar problemas na comunidade internacional é chamado de
                governança. A governança global não deve ser confundida com um governo mundial. Ela
                é um nível de institucionalização necessário para a resolução de questões
                internacionais que exigem a cooperação entre os Estados. Muitas vezes, a governança
                global é associada ao estudo das organizações internacionais, as quais fornecem esse
                nível mínimo de institucionalização necessária.<xref ref-type="fn" rid="fn20"
                    >20</xref> O desenvolvimento da globalização exige um progresso em igual partida
                na governança global para evitar crises internacionais. As situações de catástrofe,
                por afetarem diversos ramos do direito internacional, têm representado um grave
                problema para as formas de governança tradicionais na comunidade internacional
                atual:</p>
            <disp-quote>
                <p>Growing evidence of climate change, along with the continuing threat of global
                    terrorism, pandemics, the resurgence of ethnonationalism, and memories of the
                    meltdown of financial markets in 2008, has brought home to people around the
                    world the complex problems we face today. These also include the dangers of
                    nuclear weapons proliferation, large-scale humanitarian crises and intractable
                    conflicts in Africa and the Middle East, the persistence of deep poverty, the
                    continuing growth of international migration both legal and illegal, and failed
                    states. None of these problems can be solved by sovereign states acting alone.
                    All require cooperation of some sort among states and the growing number of
                    nonstate actors; many require the active participation of ordinary citizens;
                    some demand the establishment of new international mechanisms for monitoring or
                    the negotiation of new international rules; and most require the refinement of
                    means for securing states’ and other actors’ compliance. Many contemporary
                    problems are also requiring new types of partnerships–some between existing
                    organizations such as the United Nations (UN) and the North Atlantic Treaty
                    Organization (NATO) in Libya or the African Union (AU) in Somalia; others
                    involve public-private partnerships such as between the UN and the Bill and
                    Melinda Gates Foundation to address various international health issues. In
                    short, there is a wide variety of cross-border issues and problems that require
                    governance. Sometimes the need is truly global in scope, as with pandemics or
                    climate change. In other cases, the governance problem is specific to a region
                    of the world or group of countries, as with the need to manage an international
                    river or regional sea (<xref ref-type="bibr" rid="B20">KARNS; MINGST; STILES,
                        2015, p. 1</xref>).</p>
            </disp-quote>
            <p>É possível notar que, cada vez mais, os Estados têm apresentado dificuldades de
                cooperar em situações de catástrofes. Existe, portanto, um problema de governança
                nessa área. São diversos os exemplos atuais que demonstram essa limitação na
                sociedade internacional, como a crise financeira de 2008, a catástrofe nuclear
                ocasionada por tsunami no Japão em 2011, a pandemia da COVID-19 e a questão das
                mudanças climáticas. A expansão da ocorrência de catástrofes, cada vez mais
                abrangentes em termos geográficos, intensas em seus efeitos e alcançando diversas
                áreas do Direito Internacional, está ultrapassando a capacidade das organizações
                internacionais existentes de lidar com a situação, estabelecendo um problema de
                governança na sociedade internacional. Por esse motivo, o objetivo geral deste
                trabalho é propor a criação de uma Organização Internacional para as Catástrofes
                (OIC) para suprir essa carência de cooperação internacional na solução dessas
                questões. Essa proposta também está em conformidade com a ideia do princípio da
                vedação do retrocesso, que deve ser primordial em cenários de catástrofes
                ambientais. Esse princípio, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B29">Prieur
                    (2018)</xref>, exige que a proteção ambiental tenha cada vez mais formas mais
                adequadas e efetivas de proteção para assegurar o desenvolvimento sustentável. No
                caso, como o direito internacional não está apto a atuar em cenários de catástrofe,
                manter o nível de conservação ambiental atual significa desenvolver uma estrutura
                normativa e institucional capaz de enfrentar essas situações.</p>
            <p>Nessa esteira, a proposta para se constituir uma nova Organização Internacional
                levará em conta a estrutura da Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa base
                teria motivação em diversas questões. A OMC possui um foro de negociação que ajudou
                a estipular e fortalecer o direito internacional comercial, sendo certo que esse
                foro, salvo melhor juízo, parece adequado para que seja <italic>inspirada</italic> a
                estrutura da OIPRC, pois permitiria o desenvolvimento contínuo da regulamentação do
                direito internacional das catástrofes. Em suas origens, a OMC possuía apenas um
                instrumento normativo relacionado ao cumprimento de seu objetivo, o Acordo Geral
                sobre Tarifas e Comércio. Atualmente, contudo, já reuniu um grande acervo de
                tratados sobre o tema. Espera-se que, da mesma maneira, a OIPRC consiga impulsionar
                o desenvolvimento de um robusto campo normativo em cenários de catástrofes.</p>
            <p>A estrutura da OMC conta com mecanismos de revisão contínua da política nacional dos
                Estados, o que também seria necessário em uma organização internacional para
                catástrofes. A OMC possui um mecanismo de solução de controvérsias para a resolução
                de disputas relacionadas aos seus regulamentos que prioriza a conciliação por meio
                de consultas. O direito internacional das catástrofes, a exemplo do direito
                internacional comercial, envolve uma série de temas relacionados à soberania dos
                Estados. Logo, a solução de conflitos priorizando a conciliação parece ser a mais
                indicada. Outro fator que motiva a inspiração na OMC relaciona-se à qualidade de
                organização orientada pelos próprios Estados, estruturada em decisões por consenso
                que garantem maior segurança aos Estados em temas que envolvem diretamente seu poder
                soberano.</p>
            <p>Além disso, a OMC confere atenção especial aos Estados em desenvolvimento e àqueles
                com menor desenvolvimento relativo, com regras especiais para esses países, como um
                comitê dedicado ao desenvolvimento e à assistência técnica concedida pelo
                secretariado.</p>
            <p>Essa dedicação especial para esses países, em casos de catástrofes, torna-se
                extremamente necessária, pois eles costumam ser os mais vulneráveis nessas
                situações. A OMC inclusive participa de um programa de assistência integrado com o
                FMI, o Centro de Comércio Internacional, a UNCTAD, o PNUD e o Banco Mundial que é
                exclusivamente voltada para questões envolvendo países de menor desenvolvimento
                relativo. Isso demonstra a flexibilidade da instituição ao conseguir manter diálogos
                com outras organizações internacionais, a qual precisaria ser incluída na OIPRC pela
                própria natureza das catástrofes, que costumam envolver diversas áreas do direito
                internacional.</p>
            <p>Ressalta-se, contudo, que, pelos limites de tempo e espaço desta pesquisa, era
                necessário escolher alguma estrutura organizacional já existente a ser utilizada
                como modelo. Pelo sucesso, considerando que conseguiu desenvolver robusto campo
                normativo praticamente do zero, e pelas características estruturais elencadas, os
                autores optaram pela OMC. Estudos mais detidos futuros serão necessários para
                afirmar com segurança a validade dessa decisão inicial, momento em que poderá ser
                realizada a comparação com outras estruturas de organizações internacionais
                existentes de forma minuciosa. Feitas as considerações gerais sobre a necessidade de
                se constituir uma Organização Internacional para fazer frente às Catástrofes,
                passa-se a apresentação de possíveis pontos relativos à sua estrutura que
                correspondem aos órgãos executivos, legislativos e administrativos.<xref
                    ref-type="fn" rid="fn21">21</xref></p>
            <sec>
                <title>3.1 OS ÓRGÃOS EXECUTIVOS</title>
                <p>Preliminarmente, impende assinalar que se torna necessário criar órgãos que
                    consigam suprir a carência de um órgão decisório central para questões que
                    envolvam catástrofes. Os temas que as envolvem (catástrofes) são desenvolvidos
                    em diversos foros e organizações internacionais diferentes, criando ações
                    duplicadas, falta de coesão, desinformação e carência de recursos para a solução
                    de cenários de catástrofes.</p>
                <p>A criação de órgãos executivos possibilitaria a constituição, a expansão e a
                    fiscalização do Direito Internacional das Catástrofes. Com base na estrutura da
                    OMC, sugere-se a criação adaptada de uma Conferência Ministerial, um Conselho
                    Geral, Conselhos Temáticos, Comitês Temáticos e Grupos de Trabalho.</p>
                <p>A Conferência Ministerial estabeleceria reuniões a cada dois anos ou em caráter
                    emergencial, para construir um fórum em que a comunicação sobre catástrofes
                    fosse contínua. Ela seria formada por representantes de todos os Estados
                    membros, sendo o principal órgão decisório da organização. Como ocorre na OMC,
                    seria interessante permitir que organizações internacionais não governamentais
                    (ONGs) tivessem acesso a algumas reuniões da Conferência Ministerial. Além de
                    existirem muitas ONGs voltadas a cenários de catástrofes, a abertura à sociedade
                    civil também aumenta a legitimidade da organização, sendo necessário garantir
                    sua participação para consulta e cooperação com a sociedade civil. <xref
                        ref-type="bibr" rid="B28">Prieur (1998, p. 301)</xref> destaca a importância
                    cada vez maior da participação de todos os indivíduos afetados em cenários de
                    catástrofes ambientais. Logo, a interação com a sociedade civil e a divulgação
                    de informações deve ser uma prioridade para a OIPRC. Nas reuniões da Conferência
                    Ministerial, uma das funções seria a aprovação de tratados sobre o Direito
                    Internacional das Catástrofes. Além disso, caberia à Conferência Ministerial ou
                    ao Conselho Geral a aprovação de novos membros para a OIPRC.</p>
                <p>O Conselho Geral seria o principal órgão executivo a ser constituído por
                    representantes de todos os Estados membros. Sua principal função seria atuar em
                    nome da Conferência Ministerial quando não for período de sua reunião. Esse
                    órgão funcionaria também como um mecanismo de revisão de políticas de
                    catástrofes. Dessa forma, seria possível estabelecer em nível internacional
                    medidas preventivas para catástrofes e eliminar a falta de transparência e
                    compreensão de práticas governamentais.</p>
                <p>O mecanismo de revisão de políticas de catástrofes contaria com revisões
                    periódicas das políticas de catástrofes de cada Estado membro. Cada governo deve
                    informar medidas, políticas e legislações específicas por meio de relatórios
                    regulares. A frequência de reuniões desse mecanismo dependerá da potencialidade
                    de catástrofes (a cada 1 ou 2 anos ou em menor período em casos de catástrofe em
                    ocorrência). Em cada reunião do corpo de revisão das políticas de catástrofes,
                    são examinados dois relatórios, um elaborado pelo governo e outro pelo
                    secretariado da OIPRC. No final da revisão do Estado membro, serão publicados os
                    três relatórios: o relatório governamental, o relatório independente do
                    secretariado da OIPRC e o relatório conclusivo da OIPRC. Por questão de
                    transparência e acessibilidade de informação à sociedade civil, seria
                    recomendável que a publicação fosse realizada no sítio eletrônico da
                    organização. Para a elaboração do relatório independente do secretariado, seria
                    aconselhável discutir a possibilidade de envios de informações e participação
                    mais ativa da sociedade civil.</p>
                <p>Para ajudar na transparência, os Estados devem sempre informar aos demais membros
                    da OIPRC as medidas internas que estão sendo adotadas para cumprir com os
                    tratados sobre catástrofes. Isso poderá ser realizado por um mecanismo que já
                    existe na OMC, chamado notificação.<xref ref-type="fn" rid="fn22">22</xref> A
                    notificação consiste em pequenas declarações emitidas pelos Estados membros
                    indicando leis, regulamentações e outras ações internas adotadas para cumprir
                    com as obrigações perante a OMC. Essa notificação seria enviada à OIPRC e
                    publicada. Nos casos de países em desenvolvimento e países com menor
                    desenvolvimento relativo, seria importante desenvolver no Secretariado um
                    programa de instrução que auxiliasse com apoio técnico na elaboração das
                    notificações e dos relatórios.</p>
                <p>Os Conselhos Temáticos seriam estabelecidos para cada cenário de catástrofe que
                    já tenha um tratado elaborado, tendo como função acompanhar a implementação do
                    respectivo tratado e igualmente seriam constituídos por representantes de todos
                    os Estados membros, que responderia diretamente ao Conselho Geral. Por sua vez,
                    os Comitês Temáticos seriam formados de acordo com a necessidade para assuntos
                    relacionados ao tema de catástrofe ou para cenários de catástrofes que ainda não
                    possuem normativa robusta. Eles também devem responder diretamente ao Conselho
                    Geral, que é o principal órgão executivo da organização. Os Grupos de Trabalho
                    funcionariam em assuntos específicos dentro de um Conselho ou Comitê Temático,
                    respondendo ao seu respectivo Conselho Temático.</p>
                <p>Como o Direito Internacional das Catástrofes ainda é um bastante
                        <italic>jovem,</italic> recomenda-se, a partir das ideias acima esposadas,
                    que as decisões sejam adotadas por consenso. Essa forma de tomada de decisão
                    garante maior legitimidade e assegura que os Estados estarão no controle de
                    concessões em sua soberania. O consenso não significa unanimidade, pois Estados
                    podem escolher não votar.<xref ref-type="fn" rid="fn23">23</xref> O que o
                    consenso garante é que nenhuma decisão pode ser aprovada se houver algum Estado
                    em oposição.</p>
                <p>Apesar de o consenso poder paralisar a decisão em temas mais delicados, ele
                    garante abordagem segura aos Estados em temas novos perante o Direito
                    Internacional. O fundamental é criar um procedimento que consiga garantir a
                    transparência na tomada de decisões e a participação de todos os Estados
                    membros, sem privilegiar grandes potências.<xref ref-type="fn" rid="fn24"
                        >24</xref> Também poderia ser mais eficaz deixar questões administrativas,
                    como matérias orçamentárias e de pessoal, em outra base que não seja o consenso,
                    o que facilitaria o andamento de questões rotineiras da organização.</p>
                <p>Como as catástrofes envolvem diversos cenários e áreas do direito internacional,
                    a Organização Internacional para Catástrofes deverá firmar acordos de cooperação
                    com outras organizações internacionais cujos objetivos precípuos estejam
                    voltados à manutenção de uma “arquitetura internacional integrada” capaz de
                    responder de maneira efetiva em situações de catástrofes e garantir que cada
                    organização estabeleça políticas de apoio recíproco, evitando ações
                        duplicadas.<xref ref-type="fn" rid="fn25">25</xref> Tendo em vista essa
                    interrelação, seria adequado discutir condições para que organizações
                    internacionais possam integrar a OIPRC como membros observadores. Outra forma de
                    contato com outras organizações seria por meio de pesquisas e estudos em
                    conjunto para a elaboração de relatórios.<xref ref-type="fn" rid="fn26"
                        >26</xref></p>
            </sec>
            <sec>
                <title>3.2 OS ÓRGÃOS LEGISLATIVOS</title>
                <p>Muito embora as organizações internacionais não necessariamente observem no
                    sistema internacional procedimentos regulatórios com as mesmas dotações que os
                    processos legislativos em âmbitos constitucionais, sua função legislativa se
                    desempenha por meio do trabalho de órgãos técnicos, que passa pelo escrutínio
                    colegiado dos órgãos políticos, que vincula juridicamente os Estados membros por
                    força da sua adesão ao instrumento constitutivo.</p>
                <p>Nesse sentido, ao propor a sistematização, harmonização e ampliação da regulação
                    sobre os diversos temas encampados no campo do Direito Internacional das
                    Catástrofes, seria necessária uma atuação integrada entre todas as instâncias da
                    organização competente.</p>
                <p>Na OIPRC, as funções legislativas (aqui compreendidas como as capacidades
                    normativas traduzidas na adoção de normas, resoluções e relatórios) são
                    compartilhadas entre a Conferência Ministerial, responsável pela aprovação de
                    novas normas e resoluções, e o Conselho Geral, foro de proposição e admissão de
                    propostas de membros e de entidades civis.</p>
                <p>A partir dos mais recentes estudos capitaneados por Sidney Guerra sobre o novel
                    Direito Internacional das Catástrofes, identificam-se alguns princípios
                    específicos que se aplicam à matéria como parte do próprio fundamento deste ramo
                    jurídico (<xref ref-type="bibr" rid="B14">GUERRA, 2021b, p. 296-323</xref>).
                    Entre eles, destacam-se os princípios da solidariedade, da não indiferença, da
                    prevenção, da precaução, da não discriminação, da igualdade intergeracional e da
                    equidade. Além disto, também se admitiria, por dedução, a aplicação subsidiária,
                    com efeito de complementar, do conjunto principiológico do Direito Internacional
                    Humanitário.</p>
                <p>Por essas razões, na estrutura da OIPRC, também seria necessário criar um Comitê
                    Temático dedicado à harmonização das normas vigentes, para o fim de mapear e
                    sintetizar o arcabouço que deverá servir de base para a proposição de um
                    documento internacional unificado para a regulação das catástrofes.</p>
                <p>A estrutura da OIPRC não preveria, assim, um único órgão incumbido da produção
                    normativa e regulamentação sobre as catástrofes, possibilitando um maior rigor
                    técnico no desenvolvimento dos fundamentos e critérios e, ao mesmo tempo, um
                    maior filtro de legitimidade a partir da necessidade da sua aprovação pelos
                    órgãos executivos, de composição essencialmente política.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>3.3 OS ÓRGÃOS ADMINISTRATIVOS</title>
                <p>As operações de monitoramento, prevenção e remediação de catástrofes nos foros
                    executivos da OIPRC, para ocorrer com a devida qualidade técnica, necessitariam
                    da assistência de um corpo que pudesse lidar com a infraestrutura e a logística
                    necessárias para as reuniões colegiadas e subsidiar cientificamente as decisões
                    e regulamentos aprovados na Conferência Ministerial e no Conselho Geral. Estas
                    são as atribuições principais que se sugere destinar à Secretaria Permanente da
                    organização, aqui imaginada como um corpo de profissionais altamente
                    qualificados e selecionados por critérios estritamente técnicos pelos
                    encarregados em mandatos diretivos, por sua vez, indicados pelo Conselho Geral e
                    eleitos pelo Conselho Ministerial a cada cinco anos, podendo ser reconduzidos
                    por mais cinco.</p>
                <p>Enquanto os órgãos executivos da OIPRC se configurariam por meio dos mandatos
                    políticos locais e da indicação política de representantes para a proposição e
                    votação de propostas, a Secretaria Permanente seria uma estrutura perene,
                    garantindo sustentabilidade informacional e gerencial à organização, além de
                    viabilizar, visando à transparência, a um registro histórico dos atos praticados
                    pelos membros e pelos próprios órgãos.</p>
                <p>A estrutura da secretaria proposta é permanente para o fim de centralizar os
                    processos burocráticos e também de coordenar os órgãos temáticos e regionais
                    (Conselhos e Comitês), assim como as contribuições técnicas.</p>
                <p>A Secretaria Permanente também teria a função de dar andamento administrativo ao
                    Mecanismo de Solução de Controvérsias, não podendo, contudo, realizar juízos de
                    admissibilidade nem de mérito.</p>
                <p>Além da operação logística das reuniões dos órgãos executivos e da integração
                    entre comissariados regionais e temáticos – descritos nos tópicos seguintes – e
                    dos processos burocráticos, como recebimento de notificações, demandas e
                    contribuições da sociedade civil, a Secretaria Permanente também deverá
                    desenvolver atividades educacionais e manter uma biblioteca, voltadas para o
                    aprofundamento dos conhecimentos sobre catástrofes. Além de sua respectiva
                    disseminação.</p>
                <p>Por derradeiro, tratando das atribuições sugeridas para os órgãos da Secretaria
                    Permanente, opina-se que poderia estar compreendida a tramitação burocrática
                    referente à propugnação de um Fundo Internacional para as Catástrofes.<xref
                        ref-type="fn" rid="fn27">27</xref></p>
            </sec>
            <sec>
                <title>3.4 SOLUÇÃO DE CONTROVÉRSIAS NA OIPRC</title>
                <p>Por fim, para encerrar os possíveis desenhos da OIPRC, e, seguindo a lógica
                    proposta para este estudo, a inspiração inicial para o mecanismo de solução de
                    conflitos de interesse entre Estados membros da OIPRC corresponde ao Órgão de
                    Solução de Controvérsias da OMC, que foi instituído por meio do Entendimento
                    sobre Solução de Controvérsias (cuja entrada em vigência deu-se em 1º de janeiro
                    de 1995, após a rodada do Uruguai) e se tornou obrigatório para todos os membros
                    da organização.</p>
                <p>Registra-se, por oportuno, que todos os membros da OMC compõem o Órgão de Solução
                    de Controvérsias, sendo certo que este opera por meio da composição de Painéis e
                    pela adoção de relatórios e decisões proferidos por um órgão de solução de
                    controvérsias e um órgão de apelação, compostos por especialistas designados,
                    pertencentes ao chamado Grupo Especial.</p>
                <p>Assim, com inspiração no modelo da Organização Mundial do Comércio, propõe-se um
                    Mecanismo de Solução de Controvérsias que tenha força coercitiva, como o OSC da
                    OMC, dotado da capacidade de autorizar sanções institucionais e econômicas<xref
                        ref-type="fn" rid="fn28">28</xref>, mas também que priorize, em momento
                    inicial, a busca pela conciliação entre as partes controvertidas por meio de
                    consultas. A partir daí, se a etapa conciliatória for infrutífera, seria
                    necessário estabelecer um foro para a resolução pacífica da disputa.</p>
                <p>A solução internacional de controvérsias pode se operar por meio de instrumentos
                    não jurisdicionais (a exemplo, mais habituais em contendas relacionadas ao
                    Direito de Integração, das negociações diplomáticas, da mediação e da
                    conciliação) ou de instrumentos jurisdicionais (a exemplo da arbitragem e da
                    decisão judicial) (<xref ref-type="bibr" rid="B24">MELLO, 2004, p.
                    1426</xref>).</p>
                <p>A submissão de um Estado a um sistema de solução de controvérsias de caráter
                    jurisdicional pressupõe, de maneira generalizada, a provocação de um órgão
                    estranho à contenda, que exerce legitimidade e competência para delinear uma
                    solução jurídica para o caso a ele apresentado (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
                        >MELLO, 2004, p. 1426</xref>).</p>
                <p>O engajamento de um Estado em um sistema de solução de controvérsias se opera por
                    meio da aceitação de uma cláusula compromissória<xref ref-type="fn" rid="fn29"
                        >29</xref>, geralmente integrante de um tratado, podendo ser classificada
                    como especial (nas hipóteses em que se aplicar somente para questões
                    relacionadas ao objeto do referido tratado) ou geral (quando se aplicar a
                    quaisquer demandas).</p>
                <p>A arbitragem, a seu turno, é um mecanismo de solução de controvérsias que surge,
                    em regra, a partir de um compromisso arbitral, como o descrito no parágrafo
                    anterior, no qual as partes concordam em respeitar a decisão proferida pelos
                    árbitros, estipulando, também, quais as normas aplicáveis, as regras
                    procedimentais a serem seguidas pelos árbitros e a composição do painel
                    arbitral. Pode, ainda, ser proposta pelos Estados de comum acordo em fazê-lo, ou
                    encontrar-se prevista no regime jurídico de uma organização internacional.<xref
                        ref-type="fn" rid="fn30">30</xref></p>
                <p>Diz-se da via arbitral que é a mais habitualmente utilizada para a solução de
                    controvérsias ligadas às Organizações Internacionais e que o cumprimento das
                    decisões proferidas por esse meio é medida obrigatória, efetivando o compromisso
                    arbitral e demonstrando a boa-fé do imputado na sua conduta perante a sociedade
                    internacional, existindo a possibilidade de, desde que haja previsão para tanto,
                    estabelecer-se procedimento recursal junto ao mesmo órgão arbitral (e nunca a um
                    órgão jurisdicional de natureza judicial), seja para fins de reexame da
                    controvérsia decidida, para esclarecimento de questões eventualmente obscuras,
                    seja para averiguação de cumprimento da decisão originalmente proferida (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B33">VARELLA, 2012, p. 412-416</xref>).</p>
                <p>Internacionalmente, a arbitragem é um modelo jurisdicional que comporta a
                    aplicação tanto do <italic>Jus strictum</italic> quanto de critérios não
                    positivados e, consequentemente, mais flexíveis, bem como oferece aos envolvidos
                    a possibilidade de estabelecer procedimentos, prazos e forma de cumprimento da
                    decisão (<xref ref-type="bibr" rid="B7">CRETELLA NETO, 2008, p.
                    337-359</xref>).</p>
                <p>As Cortes Internacionais, por sua vez, são órgãos internacionais que exercem a
                    função de solucionar controvérsias internacionais gozando de natureza judicial
                    (e, consequentemente, de características e prerrogativas inerentes a tal
                    natureza). A elas é atribuída pelos Estados que a elas se submetem, via de
                    regra, uma parcela da função jurisdicional interna, permitindo-lhes analisar e
                    interpretar à luz do Direito Internacional a conduta desses Estados, que se
                    comprometem a submeter-se ao entendimento exarado judicialmente (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B33">VARELLA, 2012, p. 416</xref>).</p>
                <p>Depreende-se daí a mais relevante diferença entre as Cortes Internacionais e a
                    arbitragem, para os fins deste estudo: em que pese a evidente obrigatoriedade de
                    cumprimento das decisões prolatadas em ambos os sistemas, na modalidade
                    judicial, existe, na maioria dos casos, uma espécie de compartilhamento da
                    função jurisdicional dos Estados, que implica certa medida de flexibilização da
                    soberania nacional, enquanto a Arbitragem não o exige, adotando, inclusive,
                    critérios de justiça mais flexíveis, não a despeito da relevância das diferenças
                    procedimentais que permeiam a litigância em cada uma das vias jurisdicionais em
                    análise, mas para se enfatizar as consequências da adoção de uma e de outra no
                    regime de Direito Interno do Estado brasileiro.</p>
                <p>Por essa razão, entende-se pela conveniência da adoção do modelo arbitral,
                    podendo-se colher inspiração na experiência do sistema de solução de
                    controvérsias do MERCOSUL, estabelecido nos protocolos de Ouro Preto e de
                    Olivos, sobretudo para aspectos operacionais e procedimentais. Isso porque a
                    estrutura arbitral do sistema de solução de controvérsias mercosulino oferece
                    vantagens compatíveis com o caráter frequentemente emergencial das questões
                    relacionadas ao Direito Internacional das Catástrofes, e também se apresenta
                    como uma solução sustentável porque não pressuporia a necessidade de recursos
                    econômicos extravagantes se as atividades burocráticas ficassem a cargo da
                    Secretaria Permanente da OIPRC.</p>
                <p>Cumpre também apontar para o fato de que existe, na estrutura do sistema de
                    solução de controvérsias do MERCOSUL, a prerrogativa dos Estados litigantes de
                    decidir se desejam discutir a questão que dá ensejo ao litígio de acordo com os
                    preceitos do Protocolo de Olivos ou solucioná-la por outras vias jurisdicionais,
                    como o sistema da Organização Mundial do Comércio. Critica-se essa possibilidade
                    por dar ocasião ao suposto esvaziamento de alguns foros jurisdicionais,<xref
                        ref-type="fn" rid="fn31">31</xref> embora não seja necessariamente verdade
                    que um órgão perde sua relevância simplesmente diante da opção política pela
                    solução da controvérsia em um foro diferente. De toda sorte, convém fixar uma
                    cláusula de preferência da jurisdição do mecanismo de solução de controvérsias
                    da OIPRC, estabelecendo expressamente sua competência primária em matéria de
                    resposta a catástrofes, sobretudo em aplicação de normativa endógena, assim como
                    sua competência subsidiária a outras jurisdições, a exemplo da CIJ, do ITLOS, da
                    CPA, do SSCOMC, do TPI, entre outros.</p>
                <p>Por derradeiro, também importaria a fixação de competências consultiva e
                    administrativo laboral, completando o regime jurídico da organização e dando
                    nuance às potencialidades do mecanismo de solução de controvérsias.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>4 ALGUNS DESAFIOS PARA A CRIAÇÃO DA OIPRC</title>
            <p>Desde as raízes institucionais do direito internacional contemporâneo, conforme
                mencionado, o surgimento de organizações internacionais especializadas em temas
                técnicos se destacou como uma possibilidade de fomento e expansão da jurisdição
                internacional (<xref ref-type="bibr" rid="B1">AMERASINGHE, 2005, p. 5</xref>).</p>
            <p>Inscrita no mesmo percurso, a proposta de uma Organização Internacional para as
                Catástrofes inspirou-se, precipuamente, no modelo da OMC tanto para produzir um
                arranjo institucional atrativo quanto na sua capacidade de cooperação com outras
                organizações e agentes do amplo quadro institucional preexistente no direito
                internacional.</p>
            <p>Em matérias afins, todas compreendidas na vasta diversidade de temas contemplados
                pelo Direito Internacional das Catástrofes, a OIPRC precisará contemplar os regimes
                e as práticas, por exemplo, do Acordo da Associação de Nações do Sudeste Asiático
                (ASEAN) sobre Gestão de Desastres e Resposta a Emergências (2005), do SAARC Disaster
                Management Centre, da Organização Mundial da Saúde (OMS), da International Civil
                Defence Organisation (ICDO), e da Foreign Sovereign Immunities Act (aplicável em
                situações em que couber análise de compensação ou indenização). Além delas, no
                contexto onuseano, com a Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução
                de Desastres (UN/ISDR), da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança
                Climática (UNFCCC), do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos
                (ONU-HABITAT), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da
                Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA).</p>
            <p>Nesse sentido, dificilmente se poderia obter o poder de atração oferecido pelo modelo
                da OMC pela mesma via de uma cláusula específica, da qual dependeria a
                institucionalidade e exclusividade da jurisdição, uma vez que não seria razoável
                exigir a desfiliação dos Estados membros de outros foros internacionais para
                ingressar na OIPRC, sendo a intenção de coordenar e cooperar esforços.</p>
            <p>Outro aspecto do modelo OMC que não parece ser recomendável é a prática das
                negociações em rodadas, com tomada de medidas e adesão de propostas por
                    <italic>single undertaking</italic>, uma vez que as questões relacionadas às
                catástrofes demandam procedimentos mais céleres, e a experiência da OMC nas rodadas
                Doha e do Uruguai demonstrou que, embora os avanços normativos tenham sido
                evidentes, foram alcançados muito vagarosamente.</p>
            <p>Conforme outros estudos sobre o Direito Internacional das Catástrofes, em comparação
                com o campo da “<italic>International Disaster Response Law</italic>” (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B17">GUTTRY, 2012, p. 42</xref>), para além das diferenças
                semânticas e de abrangência, o Direito dos Desastres tem também o potencial de
                driblar a recente dificuldade enfrentada pelas propostas de regulação internacional
                em matéria de meio ambiente e mudanças climáticas (<xref ref-type="bibr" rid="B21"
                    >LAFER, 2020</xref>). <italic>C’est-à-dire</italic>, tratando de disciplinas,
                como as catástrofes econômicas ou as catástrofes sanitárias a OIPRC poderia trazer
                uma abordagem mais customizada e, por conseguinte, obter melhor adesão e
                participação da sociedade internacional.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>5 A TÍTULO DE CONCLUSÃO INACABADA</title>
            <p>O presente estudo se propôs a avançar na nova teoria que envolve o Direito
                Internacional das Catástrofes, em particular, sobre a possibilidade/necessidade de
                se constituir uma Organização Internacional que pudesse atuar nos diversos cenários
                relacionados à matéria.</p>
            <p>Nesse sentido, foram lançadas bases teóricas para a criação de uma organização
                internacional destinada ao tratamento das questões jurídico-institucionais
                relacionadas aos efeitos transnacionais produzidos pelos eventos com consequências
                catastróficas.</p>
            <p>A partir das reflexões de <xref ref-type="bibr" rid="B14">Guerra (2021b)</xref>, que
                contextualizou a emergência do Direito Internacional das Catástrofes, evidenciou-se
                a necessidade de criar um corpo institucional para enfrentar internacionalmente as
                dificuldades de cooperação e de solução de controvérsias em torno de
                catástrofes.</p>
            <p>Nessa esteira, o presente estudo procurou descrever, em paralelo a um breve histórico
                sobre os motivos que levaram à criação de algumas das institucionalidades
                internacionais mais consolidadas da atualidade, como a ONU e a OMC, um movimento de
                criação de organizações internacionais voltadas para temáticas específicas que
                originou entidades como a Organização Internacional da Defesa Civil.</p>
            <p>Apesar dos muitos avanços proporcionados pelas experiências institucionais da ONU, da
                OMC e da ICDO, constatou-se também, na pesquisa, que as instituições atualmente
                operantes não suprem, sozinhas, a carência de regulação e de cooperação
                institucional demandada pela emergência das situações caracterizadas como
                catástrofes. É nesse sentido que se propõe a criação de uma organização
                internacional para desenvolver e aplicar o Direito Internacional das
                Catástrofes.</p>
            <p>Com efeito, constatou-se que a criação de organizações internacionais voltadas para
                temas específicos, ao longo da história do direito internacional contemporâneo, é
                uma medida que demonstrou resultados em diversas áreas, tendo sido escolhido, como
                ponto de partida, a Organização Mundial do Comércio como arranjo institucional para
                atender às demandas identificadas no campo do Direito Internacional das
                Catástrofes.</p>
            <p>Apesar de a criação de uma organização específica para o tema de catástrofes não ser
                a única solução possível, os autores consideram a melhor via frente à fragmentação
                do tratamento na esfera internacional atual. O estudo é apenas uma proposta de
                debate inicial sobre o assunto, que não consegue exaurir o tema por suas limitações
                de tempo e espaço. Conclui-se que ainda são necessários estudos mais detidos sobre
                como outras organizações internacionais poderiam apresentar melhor estrutura para
                inspirar a Organização Internacional para Prevenção e Redução de Catástrofes e como
                reformas também devem ser implementadas em organizações internacionais já
                existentes. O trabalho não possuía o objetivo de exaurir o tema, mas de instigar
                novas propostas para a resolução dos problemas verificados e fomentar o debate
                acadêmico relacionado à questão.</p>
            <p>Para adotar soluções para os problemas de falta de cooperação e de espaços de
                diálogo, foi proposta a criação de uma estrutura executiva composta pela Conferência
                Ministerial, pelo Conselho Geral e pelos conselhos e comitês temáticos e regionais.
                Esses órgãos também serão responsáveis pela implementação dos planos de assistência
                em casos de catástrofe.</p>
            <p>A Conferência Ministerial, composta pelos chefes de Estado e Ministros das Relações
                Exteriores dos Estados membros, funciona como uma instância deliberativa para
                aprovação de ingresso de membros e para adoção de novas normas internacionais e
                regulações institucionais, enquanto o Conselho Geral, composto por profissionais
                nomeados pelos governos dos seus Estados de origem para realizar revisões periódicas
                de políticas e medidas adotadas frente às catástrofes.</p>
            <p>A seu turno, os Conselhos e Comitês temáticos seriam corpos criados sob demanda para
                atender às necessidades específicas, como o enfrentamento de catástrofes
                características de uma determinada região, o aprofundamento temático das normas de
                direito internacional para determinada categoria de catástrofes, ou a harmonização
                do arcabouço jurídico existente em outros entes de direito internacional e guarda
                relação com as questões abrangidas pelo Direito Internacional das catástrofes.</p>
            <p>Ao tratar dos aspectos administrativos para idealizar a proposta da referida
                Organização Internacional, com o intuito de solucionar o problema da falta de
                regulamentação e apoio administrativo, foi apresentada uma Secretaria Permanente,
                que teria o papel de dar andamento administrativo e burocrático a todos os processos
                relacionados à infraestrutura e à logística necessárias à operação das funções da
                Conferência Ministerial e do Conselho Geral.</p>
            <p>Quanto aos eventuais problemas de descumprimento das normas inscritas na jurisdição
                da Organização Internacional para Catástrofes, também foi proposta a estruturação de
                um mecanismo de solução de controvérsias, preferencialmente arbitral, inspirado nas
                experiências do Mecanismo de Solução de Controvérsias da OMC e do Sistema de Solução
                de Controvérsias do MERCOSUL.</p>
            <p>Dessa forma, propõe-se para fins didáticos a seguinte estrutura orgânica para a
                Organização Internacional para Prevenção e Redução de Catástrofes:</p>
            <p><fig>
                    <label>Figura 1</label>
                    <caption>
                        <title>Estrutura da Organização Internacional para Prevenção e Redução de
                            Catástrofes</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2447-6641-oj-21-37-0050-gf01.tif"/>
                    <attrib>Fonte: criação dos autores deste trabalho.</attrib>
                </fig></p>
            <p>Por derradeiro, foram levantadas algumas possíveis dificuldades para o
                estabelecimento de um regime jurídico institucionalizado para o enfrentamento de
                questões relacionadas às catástrofes no plano internacional, contrastando o
                potencial do Direito Internacional das Catástrofes para a sua superação, a exemplo
                dos entraves políticos para o desenvolvimento de alguns temas específicos, que não
                prejudicaria os demais no modelo proposto, e também da ampla variedade de
                organizações e entes com os quais a OIPRC poderia cooperar para atingir os seus
                fins.</p>
            <p>No entanto, isso não significa uma postura ingênua diante da mobilização necessária
                para erguer uma institucionalidade capaz de prevenir e remediar catástrofes ou de
                conquistar a simpatia dos Estados soberanos; de maneira contrária, o presente
                exercício trata de imaginar, com humildade diante do tempo, o potencial das ideias e
                das ações que frutificam gradativa e estavelmente até adquirirem proporções
                multilaterais geopoliticamente expressivas.</p>
            <p>Enquadra-se a criação de uma organização internacional para enfrentar
                institucionalmente as questões relacionadas ao Direito Internacional das
                Catástrofes, assim, como uma medida cuja necessidade não pode ser negada somente
                pelos desafios e entraves previsíveis à tentativa da sua implementação, sabendo dos
                potenciais frutos que a experiência, se bem-sucedida, ofereceria à sociedade
                internacional, como uma representação do coletivo de indivíduos que compõem os
                Estados soberanos, mas também de estabelecer novas estratégias e parâmetros de
                diálogo institucional no campo do direito e das relações internacionais de maneira
                flexível e culturalmente sensível.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <title>NOTA</title>
            <fn fn-type="other">
                <p>Esta pesquisa é fruto dos estudos dos autores no âmbito do Grupo de Pesquisa
                    Institucional do Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade do Estado
                    do Rio de Janeiro, na linha de pesquisa em direito internacional, ministrada
                    pelo Prof. Dr. Sidney Guerra. O artigo foi escrito pelos três pesquisadores,
                    onde ficaram responsáveis pela coleta, elaboração e discussão da abordagem, a
                    partir da teoria apresentada pelo docente.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>Para uma lista completa de inconveniências relacionadas às conferências
                        <italic>ad hoc</italic>, ver <xref ref-type="bibr" rid="B1">Amerasinghe
                        (2005, p. 2)</xref>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Segue-se breve histórico do sistema panamericano de conferências: “In the Western
                    Hemisphere the “Pan American movement” evolved in the nineteenth century,
                    culminating in the First International Conference of American States in
                    Washington, DC, in 1889–90. It established a regional body to enhance
                    hemispheric trade relations and to aid the settlement of inter-American
                    disputes. The International Bureau of American Republics was formed by 21
                    American republics in 1890; in 1910 it became known as the Pan American Union,
                    and its mandate was broadened to include the carrying out of conference
                    resolutions and to collect and disseminate information dealing with economic,
                    social, and cultural affairs.” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">MACKENZIE, 2010.
                        p. 6</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>Sobre as conferências periódicas adotadas na Quádrupla Aliança, é interessante
                    ler este breve relato: “This second Peace of Paris also marked the early stages
                    of the Quadruple Alliance between Austria, Prussia, Russia and the UK. This
                    alliance, led by monarchs who turned against Bonapartism in France, was charged
                    to guarantee the implementation of what had been decided in Vienna and Paris.
                    For this purpose it used an intergovernmental structure based on regularly
                    convened multilateral conferences with broad purposes and an open agenda. The
                    mechanism of conferences and follow-up conferences began to function in
                    accordance with Article 6 of the Treaty concluded in Paris in 1815. ‘To
                    facilitate and to secure the execution of the present Treaty, and to consolidate
                    the connections which at the present moment so closely unite the Four Sovereigns
                    for the happiness of the world, the High Contracting Parties have agreed to
                    renew their Meetings at fixed periods, either under the immediate auspices of
                    the Sovereigns themselves, or by their respective Ministers, for the purposes of
                    consulting upon their common interests, and for the considerations of the
                    measures which at each of these periods shall be considered the most salutary
                    for the response and prosperity of Nations, and for the maintenance of peace in
                    Europe’” (<xref ref-type="bibr" rid="B30">REINALDA, 2009, p. 20</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn4">
                <label>4</label>
                <p>Sobre as inovações diplomáticas dessas conferências, ver: “The Hague Conferences
                    also produced several major procedural innovations. This was the first time that
                    participants included both small and non-European states, with all given equal
                    vOIPRCe. Twenty-six states participated in the first conference, including
                    China, Siam, the Ottoman Empire, Mexico, and Japan. The second conference had
                    forty-five participating states, adding almost all the Latin American states and
                    thereby establishing the twin principles of universality and legal equality of
                    states. What had been largely a European state system until the end of the
                    nineteenth century became a truly international system at the beginning of the
                    twentieth century. For the first time, participants utilized such techniques as
                    electing chairs, organizing committees, and taking roll call votes, all of which
                    became permanent features of twentieth-century organizations. The Hague
                    Conferences also promoted the novel ideas of common interests of humankind and
                    the codification of international law. With the outbreak of World War I in 1914,
                    a third Hague Conference was never convened. Yet the first two, along with
                    numerous other conferences held during the nineteenth century, represented the
                    first collective efforts to address problems of war, emergencies, and issues
                    arising from new technologies and greater commerce on a regular, universal
                    basis.” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">KARNS; MINGST; STILES, 2015, p.
                        80</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn5">
                <label>5</label>
                <p>Sobre as características das uniões administrativas internacionais, ver: “The
                    Industrial Age spawned other international organizations concerned with
                    technological change. The appearance of new inventions from the telegraph to the
                    airplane had international implications, and easier travel and improved
                    communications accelerated the spread of ideas and information. More specialized
                    and technical organizations dealt with specific issues, and although they were
                    never totally free from outside influences, they tended to be less political and
                    usually benefited all participant states. The first of these were the
                    international commissions established to regulate the use of European rivers
                    that crossed international borders: the Elbe (1821), Rhine (1831), and Danube
                    (1856). Other specialized organizations followed, such as the International
                    Telegraph Union Bureau (1865) and the Universal Postal Union (1874); these
                    organizations had permanent secretariats and, ultimately, a continuous
                    existence.” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">KARNS; MINGST; STILES, 2015, p.
                        5</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn6">
                <label>6</label>
                <p>Para maiores detalhes sobre a livre navegação no Congresso de Viena, ver: “The
                    main economic issue on the agenda of the Congress of Vienna was securing freedom
                    of navigation on international rivers. Whereas the use of rivers was suited to
                    modern water transport, the existing systems of legal and other tolls, dating
                    from the Middle Ages, were increasingly regarded as impediments to the promotion
                    of trade. The Congress of Vienna therefore made provisions to secure the freedom
                    of navigation on the Rhine and Other international rivers by creating a form of
                    international authority in order to remove tolls and other obstacles.” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B30">REINALDA, 2009, p. 28</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn7">
                <label>7</label>
                <p>Sobre a estrutura institucional dessas organizações, ver: “Because the ITU and
                    UPU were among the first IGOs to be established, they set a number of
                    precedents. Both were based on international conventions that called for
                    periodic conferences of parties to the convention. The delegates, however, came
                    from telegraph and postal administrations of the parties, not ministries of
                    foreign affairs–establishing the pattern of involving technical experts when
                    dealing with technical matters. Thus, multilateral diplomacy was no longer the
                    exclusive domain of traditional diplomats. Both organizations, along with
                    subsequent public international unions, established international bureaus or
                    secretariats composed of permanent staff hired from a variety of countries. They
                    also created councils consisting of representatives of a few selected members to
                    function as policy directorates on behalf of the organization in the intervals
                    between general conferences. As Claude (1964: 32) notes, “Thus was established
                    the structural pattern of bureau, council, and conference which, with many
                    elaborations but few deviations, serves as the blueprint of international
                    organization today.” In addition, the public unions developed the techniques for
                    multilateral conventions–lawmaking or rulemaking treaties–through the periodic
                    revisions of the telegraph and postal regulations.” (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B20">KARNS; MINGST; STILES, 2015, p. 79</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn8">
                <label>8</label>
                <p>Para uma lista de outras uniões administrativas internacionais da época, ver:
                    “There were other unions which sprang up such as the International Union of
                    Railway Freight Transportation (1890), the International Bureau of Industrial
                    Property (1883), the International Bureau of Literary Property (1886) and the
                    International Office of Public Health (1907).” (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
                        >AMERASINGHE, 2005, p. 5</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn9">
                <label>9</label>
                <p>Para uma visão sobre a necessidade de maior integração percebida pela sociedade
                    da época, ver: “Despite these developments, the institutional arrangements of
                    the nineteenth century proved inadequate for preventing war among the major
                    European powers. High levels of interdependence and cooperation in numerous
                    areas of interest proved insufficient to prevent the outbreak of World War I,
                    pointing vividly to the weaknesses and shortcomings of the nineteenth-century
                    arrangements and the state system itself. Yet the war had barely begun when
                    private groups and prominent individuals in both Europe and the United States
                    began to plan a more permanent framework to prevent future wars. NGOs such as
                    the League to Enforce Peace, in the United States, and the League of Nations
                    Society and Fabians, in Great Britain, played active roles in pushing for the
                    creation of a new international organization and drafting plans for it. There
                    were also French and British government committees appointed to consider the
                    form of a new institution. US president Woodrow Wilson based his own proposal
                    for a permanent international organization on some of these plans.” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B20">KARNS; MINGST; STILES, 2015, p.80-81</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn10">
                <label>10</label>
                <p>Para um relato dessa tentativa, recomenda-se ler: “The League tried to exercise
                    some degree of coordination and control over technical IOs, such as UPU, that
                    had survived the First World War, but this initiative came to naught. Several of
                    these IOs were located in Switzerland, with the Swiss government providing
                    staff, who exercised considerable control over their activities; the Swiss
                    government was therefore very reluctant to lose any influence. Alongside the
                    rise of overtly political organizations, a further flurry of technical bodies
                    materialized. The International Bureau for Education (IBE), originally an INGO,
                    was opened to government membership in 1929 with the objective of stimulating
                    research in education. IBE was involved with the development of, and was
                    eventually integrated into, the UN Educational, Scientific and Cultural
                    Organization (UNESCO, see section 2.3).” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">DAVIES;
                        WOODWARD, 2014, p. 54</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn11">
                <label>11</label>
                <p>Reunindo os acontecimentos que levaram a uma falha da Liga na prevenção de nova
                    guerra mundial, recomenda-se a leitura: “Most important, the League was the
                    first permanent international organization of a general political nature with
                    continuously functioning political, economic, social, judicial, and
                    administrative machinery. It embodied the twentieth-century idea that the
                    international community could and should act against international lawbreakers
                    and promote cooperation on a wide range of international problems. (...) The
                    failure to act when Japan invaded Manchuria in 1931 pointed to the
                    organization’s fundamental weaknesses: the Council’s refusal to take decisive
                    action, and the unwillingness of either Great Britain or France to institute
                    military action or economic sanctions. The Council’s delayed response to Italy’s
                    invasion of Ethiopia, a League member, in 1935, further undermined its
                    legitimacy. Fifty of the fifty-four members of the League Assembly concurred
                    with cutting off credit to the Italian economy and stopping arms sales, but
                    these measures were insufficient to make Italy retreat, and by 1936 all
                    sanctions against Italy were abandoned. The League neither intervened in the
                    Spanish civil war nor opposed Hitler’s remilitarization of the Rhineland and
                    occupation of Austria and Czechoslovakia. With the great powers unwilling to
                    uphold the League’s principles, the institution’s power and legitimacy
                    deteriorated.” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">KARNS; MINGST; STILES, 2015, p.
                        83</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn12">
                <label>12</label>
                <p>Sobre o período entre guerras, ver: “The interwar epoch witnessed a quantitative
                    and qualitative expansion of IOs. Quantitatively, Wallace and Singer (1970:
                    251–2) report a net increase of 44 IOs between 1918 and 1939, an upsurge matched
                    by the growth in the average membership of these IOs and the average number of
                    IOs to which states belonged. Qualitatively, the form and function of IOs were
                    strengthening, moving away from loose confederations dealing with specific
                    economic and technical matters towards fresh organizations with broader remits.”
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B8">DAVIES; WOODWARD, 2014, p. 45</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn13">
                <label>13</label>
                <p>Sobre a criação dessas organizações, ver: “Coinciding with the year of the first
                    commercial flight, an International Air Convention was signed at the Versailles
                    Peace Conference dealing with the technical, operational and organizational
                    aspects of civil aviation and establishing an International Commission for Air
                    Navigation (ICAN), which operated from 1922. ICAN was primarily concerned with
                    resolving the legal issues in cross-border air navigation and technical
                    standards for commercial aircraft. Simultaneously, the International Air Traffic
                    Association (IATA) was created to coordinate commercial requirements (such as
                    documentation) and standards. IATA was originally an association of European
                    airlines, but in 1939 Pan American Airlines joined, giving it a more global
                    perspective. Together IATA and ICAN developed the Warsaw Convention of 1929,
                    which established airline liabilities for death, passenger injury and cargo
                    loss. Another contemporaneous intergovernmental organization was the
                    International Criminal Police Commission, precursor of the International
                    Criminal Police Organization (Interpol). It was founded in Vienna in 1923 as an
                    international criminal record office and to harmonize extradition procedures.
                    The USA founded a rival organization, the International Police Conference;
                    however, because the majority of international crime was in Europe it was the
                    European institution that flourished. In 1942, the Nazi government effectively
                    colonized the organization, and it ceased to exist as an international entity
                    until reestablished in 1946.” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">DAVIES; WOODWARD,
                        2014, p. 54</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn14">
                <label>14</label>
                <p>Nesse mesmo sentido, Sidney Guerra afirma: “Os Estados perceberam a existência de
                    certos problemas que não poderiam ser resolvidos sem a colaboração dos demais
                    membros da sociedade internacional e, consequentemente, a necessidade de criar
                    organismos para ajudar neste propósito.” (<xref ref-type="bibr" rid="B15"
                        >GUERRA, 2010, p. 6</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn15">
                <label>15</label>
                <p>“IOs are also part of a complex global institutional landscape today that
                    includes states, nongovernmental organizations (NGOs), multinational
                    corporations, private foundations, and a host of other players that impact how
                    decisions and policies are made, and whether and how problems are solved. Many
                    global policy issues today impact multiple IOs, as well as local and regional
                    actors. In this complex and sometimes confusing topography of governance,
                    cooperation across levels and effective institutions are necessary to make a
                    meaningful dent in addressing the “problems without passports.” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B16">GUTNER, 2017, p. 15</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn16">
                <label>16</label>
                <p>Esses motivos são elencados no seguinte trecho: “They help nation-states to adapt
                    to changing environments and to overcome problems related to these changes.
                    Those who created IGOs had three motives, according to Harold Jacobson: the
                    promotion of trade, peace and human dignity. In accordance with these motives
                    IGOs have helped states: 1) to adapt to the dynamics of technological
                    developments and the international economy (trade motives); 2)to create,
                    maintain or improve political structures at global and regional levels that
                    promote security (peace motives); and 3) to strengthen the states’ national
                    socio-economic basis by promoting social welfare and human rights (humanitarian
                    motives) ( Jacobson 1979, 64). Often a combination of these motives is found.”
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B30">REINALDA, 2009, p. 15</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn17">
                <label>17</label>
                <p>Recomenda-se a leitura de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Guerra (2020, p.
                        47-62)</xref> para compreender a distinção de desastres e catástrofes.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn18">
                <label>18</label>
                <p>“The moment risks become real, when a nuclear power station explodes or a
                    terrorist attack occurs, they become catastrophes. Risks are always future
                    events that may occur, that threaten us. But because this constant danger shapes
                    our expectations, lodges in our heads and guides our actions, it becomes a
                    political force that transforms the world.” (<xref ref-type="bibr" rid="B5"
                        >BECK, 2009, p. 23</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn19">
                <label>19</label>
                <p>“This shows that since the emergence of globalization, no rigorous and
                    preventative measures have been taken to integrate the idea of catastrophes into
                    conceptions of the global project nor to the way in which worldwide populations
                    should be informed about international crises.” (<xref ref-type="bibr" rid="B9"
                        >DILMAÇ, 2022, p. 133</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn20">
                <label>20</label>
                <p>Sobre a associação entre governança global e organizações internacionais, cabe o
                    alerta: “Sometimes the term global governance has been used as just a synonym
                    for international organizations. More often, however, it is used to capture the
                    complexity and dynamism of the many collective efforts by states and an
                    increasing variety of nonstate actors to identify, understand, and address
                    various issues and problems in today’s turbulent world. [...] Thus, global
                    governance is not global government; it is not a single world order; there is no
                    top-down, hierarchical structure of authority, but both power and authority in
                    global governance are present in varying ways and to varying degrees.” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B20">KARNS; MINGST; STILES, 2015, p. 2</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn21">
                <label>21</label>
                <p>Assim como a OMC, a OIPRC trata de questões extremamente relacionados à soberania
                    estatal: “In many ways, the WTO is one of the most expansive and intrusive
                    organizations of its time. Its Ministerial Conference and many committees make
                    rules that go deep inside the borders of states. Members must adhere to these
                    rules or face retaliation. But simultaneously, the legacy of the GATT has
                    ensured that the WTO is also a very weak organization in other ways. The
                    organization, up to its highest decision-making body – the Ministerial
                    Conference – is made up of the members themselves. The members have not had to
                    surrender any of their decision-making powers to a secretariat, or delegate them
                    to an executive body. Any rules that the members must implement are ones that
                    they themselves made in the councils and committees (which are open to all of
                    them). Any punitive action has to be exercised by the member rather the
                    collective body, and even the Dispute Settlement Body that authorizes such
                    retaliations is ultimately the same as the General Council and therefore
                    constituted by country delegates.” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">NARLIKAR,
                        2005, p. 40</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn22">
                <label>22</label>
                <p>Para uma descrição breve sobre a notificação na OMC, ver: “A notification will
                    typically consist of a short statement that follows a standard format in which
                    the member identifies the law, regulation or action that is at issue, the
                    precise content of which varies according to the agreement and topic involved.
                    This document is filed with the WTO and made available to other members and the
                    public. Specific agreements may also require that members take other steps to
                    promote transparency. The Agreement on the Application of Sanitary and
                    Phytosanitary Measures (SPS Agreement), for example, requires not only that
                    members publish all SPS measures and notify changes that are made to them, but
                    further requires that they identify a single central government authority
                    responsible for the notification requirements (i.e. the National Notification
                    Authority) and establish a National Enquiry Point responsible for answering
                    questions from other members about SPS measures and related issues.” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B32">VANGRASSTEK, 2013, p. 273</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn23">
                <label>23</label>
                <p>Para uma breve descrição do consenso, ver: “Consensus does not mean unanimity. It
                    signifies that no delegation represented in a meeting objects to a proposal.
                    Achieving consensus can be a complex process, requiring issue linkages.
                    Consensus reinforces conservative tendencies in the system. Proposals for change
                    can be adopted only if unopposed. Although it creates the potential for
                    paralysis, consensus helps enhance the legitimacy of decisions.” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B19">HOEKMAN; MAVROIDIS, 2007, p. 25</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn24">
                <label>24</label>
                <p>Na OMC, essa paralisação é atribuída ao processo denominado Sala Verde, no qual
                    um pequeno grupo de Estados realiza uma reunião em segredo para negociar
                    determinada questão que estava paralisada: “Much has been said of the inequity
                    of the Green Room process. As Ambassador of Brazil, I was one of the “habitués”
                    of the reen Room during the Uruguay Round. It should be admitted that for the
                    sake of efficiency it is normal for small groups to gather to discuss specific,
                    often very technical, issues. The problem arises when the deals made within such
                    groups are imposed on those not present. It is no longer possible to assume that
                    agreements can be negotiated among a small group of countries in a
                    non-transparent manner and then imposed on the other members. This was clearly
                    articulated in the strong statements circulated in Seattle by the Latin American
                    and Caribbean and African groups, to the effect that they would not be able to
                    join a consensus on agreements in whose negotiation they were not fully
                    involved.” (<xref ref-type="bibr" rid="B31">SAMPSON, 2001, p. 47</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn25">
                <label>25</label>
                <p>A ação conjunta de organizações internacionais tem sido uma tendência. A OMC, por
                    exemplo, busca atuar em conformidade com o Banco Mundial e o FMI,
                    principalmente: “The aim of the WTO-IMF-World Bank cooperation is to ensure that
                    the three institutions are following mutually supportive policies. This
                    cooperation has led to the establishment of the Integrated Framework for
                    Trade-Related Assistance to the Least-Developed Countries (“IF”). The IF was
                    established in 1997 by six international agencies: the WTO, IMF, World Bank,
                    UNCTAD, UNDP and ITC; it was revamped in 2000. The aim of the IF is to assist
                    the least-developed countries to incorporate trade priorities into their
                    national plans for economic development and poverty reduction strategies.
                    Currently, the IF is being implemented on a pilot basis in three countries. The
                    WTO-IMF-World Bank cooperation is also manifested in the involvement of the WTO
                    in poverty reduction strategies of the World Bank and the IMF.” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B23">MACRONY; APPLETON; PLUMMER, 2005, p.
                    60</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn26">
                <label>26</label>
                <p>A OMC participa de vários estudos e pesquisas em conjunto com outras organizações
                    internacionais, sendo que seria interessante à futura OIPRC realizar o mesmo
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B32">VANGRASSTEK, 2013, p. 156-157</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn27">
                <label>27</label>
                <p>“Propugna-se a criação de um fundo próprio para as catástrofes no sentido de que
                    os recursos estejam disponíveis, com o emprego de equipamentos, material,
                    pessoal, e tudo o que for necessário para serem utilizados de maneira
                    preventiva, portanto, antes do fato.” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">GUERRA,
                        2021b, p. 327</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn28">
                <label>28</label>
                <p>“Nesse cenário, importa, primeiramente, ao Brasil reconhecer que o sistema de
                    solução de controvérsias da OMC é o mecanismo mais eficaz, entre os disponíveis
                    nas relações econômicas internacionais, para assegurar direitos decorrentes das
                    negociações em que o país toma parte. Por isso, a importância de conhecer
                    profundamente as regras e a prática do OSC, além de acompanhar todas as
                    propostas para sua reforma.” (<xref ref-type="bibr" rid="B27">PRAZERES, 2005,
                        p.79</xref>)</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn29">
                <label>29</label>
                <p>A cláusula compromissória difere do compromisso arbitral, na seara contratual, à
                    medida que a primeira se trata de tratativa preliminar, ou, ainda, de medida
                    preventiva, constituindo mera promessa de realizar compromisso arbitral caso
                    surja uma controvérsia, enquanto o compromisso arbitral possui força vinculante
                    e constitui obrigação de submeter eventual conflito de interesse a um sistema
                    arbitral estabelecido.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn30">
                <label>30</label>
                <p>É este o caso, por exemplo, do sistema de solução de controvérsias do MERCOSUL,
                    que se encontra normativamente estabelecido, em nível regional, principalmente
                    pelo Protocolo de Olivos e pelo Regulamento do referido Protocolo,
                    atualmente.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn31">
                <label>31</label>
                <p>“Nesse cenário, importa, primeiramente, ao Brasil, reconhecer que o sistema de
                    solução de controvérsias da OMC é o mecanismo mais eficaz, entre os disponíveis
                    nas relações econômicas internacionais, para assegurar direitos decorrentes das
                    negociações em que o país toma parte. Por isso, a importância de conhecer
                    profundamente as regras e a prática do OSC, além de acompanhar todas as
                    propostas para sua reforma.” (<xref ref-type="bibr" rid="B27">PRAZERES,
                        2005</xref>), e outros autores (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BARBOSA,
                        2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">BASSO, 2007</xref>).</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
            <ref id="B1">
                <mixed-citation>AMERASINGHE, Chittharanjan. <bold>Principles of the Institutional
                        Law of International Organizations</bold>. New York: Cambridge University
                    Press, 2005.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>AMERASINGHE</surname>
                            <given-names>Chittharanjan</given-names>
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