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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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                <journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
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            <issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
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                <publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v21i37.p306-339.2023</article-id>
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                    <subject>Artigos</subject>
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                <article-title>A Centralidade dos Fundamentos Ético-Antropológicos no Caso do
                    Aborto: uma Defesa do Personalismo Realista</article-title>
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                    <trans-title>The Centrality of Ethical-Anthropological Foundations in The Case
                        of Abortion: a Defense of Realistic Personalism</trans-title>
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                    <trans-title>La Centralidad De Los Fundamentos Ético-Antropológicos En El Caso
                        Del Aborto: una Defensa Del Personalismo Realista</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-5921-0980</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Ribeiro</surname>
                        <given-names>Mário da Silva</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-9096-5468</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Santos</surname>
                        <given-names>Lucas Fonseca Dos</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-1908-9618</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Sales</surname>
                        <given-names>Victor</given-names>
                        <suffix>Pinheiro</suffix>
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            <aff id="aff1">
                <label>*</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade Federal do Pará</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Instituto de Ensino de Segurança do
                    Pará</institution>
                <institution content-type="orgdiv2">Faculdade Católica de Belém</institution>
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                    <city>Belém</city>
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                <country country="BR">BR</country>
                <email>msribeiro1410@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Professor de Direito no Instituto de Ensino de
                    Segurança do Pará (IESP). É também Professor de Filosofia dos Direitos Humanos,
                    Bioética e Teologia do Matrimônio na Faculdade Católica de Belém (FACBEL).
                    Doutorando e Mestre em Direito, com ênfase em Ética e Filosofia do Direito, pela
                    Universidade Federal do Pará (UFPA). Graduado em Direito pela Universidade
                    Federal do Pará (UFPA). Belém, PA, BR. E-mail:
                    &lt;msribeiro1410@gmail.com&gt;.</institution>
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            <aff id="aff2">
                <label>**</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade Federal do Rio Grande do
                    Sul</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Grupo de Pesquisa</institution>
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                    <city>Porto Alegre</city>
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                <country country="BR">BR</country>
                <email>lucasfonsantos@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Mestrando em Filosofia na Universidade Federal
                    do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro do Grupo de Pesquisa (CNPq) Tradição da Lei
                    Natural, coordenado pelo Prof. Dr. Victor Sales Pinheiro. Graduado em Direito
                    pelo Centro Universitário do Pará (CESUPA). Porto Alegre, RS, BR. E-mail:
                    &lt;lucasfonsantos@gmail.com&gt;.</institution>
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                <label>***</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade Federal do Pará</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em
                    Direito</institution>
                <addr-line>
                    <city>Belém</city>
                    <state>PR</state>
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                <email>lucasfonsantos@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Professor no Programa de Pós-Graduação em
                    Direito da Universidade Federal do Pará (PPGD-UFPA). Coordenador do Grupo de
                    Pesquisa Tradição da Lei Natural (CNPq). Doutor em Filosofia pela Universidade
                    do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Filosofia pela Pontifícia
                    Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). Graduado em Direito pelo
                    CESUPA. Graduado em Direito pelo Centro Universitário do Pará (CESUPA). Belém,
                    PA, BR. E-mail: &lt;vvspinheiro@yahoo.com.br&gt;.</institution>
            </aff>
            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <p>Editora responsável: Editora responsável: Profa. Dra. Fayga Bedê</p>
                    <p><ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://orcid.org/0000-0001-6444-2631"
                            >https://orcid.org/0000-0001-6444-2631</ext-link></p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
                <day>15</day>
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                <season>May-Aug</season>
                <year>2023</year>
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            <issue>37</issue>
            <fpage>306</fpage>
            <lpage>339</lpage>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
                        distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
                        que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>Trata-se neste artigo da centralidade dos fundamentos ético-antropológicos no
                        caso do aborto. Em específico, visa-se a (1) expor, descritivamente, as três
                        perspectivas pró-aborto que se destacam na atualidade a partir de
                        fundamentos ético-antropológicos diversos: a perspectiva pró-aborto
                        funcionalista, a perspectiva pró-aborto libertária e a perspectiva
                        pró-aborto relacional; (2) expor os equívocos que norteiam os fundamentos
                        ético-antropológicos de tais perspectivas; e (3) demonstrar que a própria
                        exposição dos equívocos fundamentais das mais famosas perspectivas
                        pró-aborto contemporâneas está subsidiada por um fundamento
                        ético-antropológico específico denominado <italic>personalismo
                            realista</italic>, aquele segundo o qual todo e qualquer ser humano é um
                        tipo de ser marcado por uma dignidade intrínseca desde a sua origem
                        biológica até a sua morte, estando, com isso, amparado pela titularidade de
                        deveres e direitos que antecedem positivação estatal.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Método:</title>
                    <p>Abordagem teórica e reflexiva segundo bibliografia autorizada e atualizada.
                        Além de atenção aos dados embriológicos e genéticos vigentes que apontam
                        para a concepção como o momento biológico originário de um novo ser humano,
                        utiliza-se das lições de Tomás de Aquino e de seus intérpretes
                        contemporâneos, com destaque para aqueles que constituem a Nova Escola da
                        Lei Natural.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultado:</title>
                    <p>As principais perspectivas pró-aborto da atualidade enfatizam um único
                        aspecto da pessoa, reduzindo os demais aspectos àquele que é enfatizado. Em
                        sentido contrário, o personalismo realista propõe uma visão integral da
                        personalidade do homem, declarando-a ontológica, axiológica, biológica e
                        juridicamente sem negar a possibilidade de se conhecer e de se observar a
                        humanidade sob inesgotáveis ângulos. No contexto do ato do aborto, o
                        personalismo realista, por exigência racional e não por capricho, denuncia o
                        seu comum equívoco, entendendo que a prática abortiva costuma ser uma
                        afronta direta ao direito moral absoluto que o nascituro – pessoa humana
                        digna – possui de não ser morto por outrem desde a sua concepção.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contribuições:</title>
                    <p>As linhas a seguir reúnem anotações preliminares, inobstante técnicas. Sua
                        contribuição remonta ao necessário avanço de estudos atentos a fins ou a
                        propósitos autoevidentes (bens básicos) que dizem respeito à realização
                        pessoal dos seres humanos. E mais. Devido às lacunas da literatura nacional
                        a nível filosófico-jurídico e biojurídico, tal contribuição remonta também à
                        urgência de se proporcionar aos estudiosos uma visão holística dos
                        fundamentos ético-antropológicos comuns hoje no caso do aborto. Pensa-se,
                        ainda, que este artigo possibilita um estudo aprofundado dos fundamentos
                        ético-antropológicos nele expostos. Registre-se, entretanto, que os
                        fundamentos constitutivos das perspectivas pró-aborto funcionalista,
                        libertária e relacional se coadunam com uma mentalidade autodestrutiva
                        expressa, por exemplo, na escravidão, no racismo, na marginalização da
                        mulher, no desprezo ao idoso e na ridicularização de seres humanos com
                        deficiências.</p>
                </sec>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <sec>
                    <title>Objective:</title>
                    <p>This article deals with the centrality of ethical-anthropological foundations
                        in the case of abortion. Specifically, its aim is (1) to expose,
                        descriptively, the three proabortion perspectives that stand out today based
                        on different ethical-anthropological foundations: the functionalist
                        pro-abortion perspective, the libertarian pro-abortion perspective and the
                        relational pro-abortion perspective; (2) to expose the misconceptions that
                        underlies the ethical-anthropological foundations of such perspectives; and
                        (3) to demonstrate that the very exposition of the fundamental mistakes of
                        the most famous contemporary pro-abortion perspectives is supported by a
                        specific ethical-anthropological foundation called <italic>realistic
                            personalism</italic>, according to which each and every human being is a
                        type of being marked by an intrinsic dignity from his biological origin
                        until his death, and, therefore, holder of duties and rights that precedes
                        state positivization.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Method:</title>
                    <p>Theoretical and reflective approach according to authorized and updated
                        bibliography. In addition to paying attention to current embryological and
                        genetic data that point to conception as the original biological moment of a
                        new human being, it uses the lessons of Thomas Aquinas and his contemporary
                        interpreters, with emphasis on those that constitute the New School of
                        Natural Law.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Results:</title>
                    <p>The main current pro-abortion perspectives emphasize a single aspect of the
                        person, reducing the other aspects to the one that is emphasized. On the
                        contrary, realistic personalism proposes an integral vision of man's
                        personality, declaring it ontologically, axiologically, biologically and
                        legally without denying the possibility of knowing and observing humanity
                        from inexhaustible angles. In the context of abortion, realistic
                        personalism, by rational demand, denounces its common mistake, understanding
                        that the abortive practice is usually a direct affront to the absolute moral
                        right that the unborn child – a worthy human person – has not to be killed
                        by someone else since the moment he is conceived.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contribuitions:</title>
                    <p>This article contains preliminary notes, however technical. Its contribuition
                        goes back to the necessary advancement of studies attentive to self-evident
                        ends or purposes (basic goods) that concern the personal fulfillment of
                        human beings. More – due to gaps in the national literature at the
                        philosophical-legal and bio-legal level, its contribution also goes back to
                        the urgency of providing scholars with a holistic view of the
                        ethical-anthropological foundations common today in the case of
                        abortion.</p>
                    <p>It should also be added that this article enables an in-depth study of the
                        ethical-anthropological foundations exposed therein. It is understood,
                        however, that the constitutive foundations of the functionalist, libertarian
                        and relational pro-abortion perspectives are in line with a self-destructive
                        mentality expressed, for example, in slavery, racism, the marginalization of
                        women, contempt for the elderly and ridicule of human beings with
                        disabilities.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <trans-abstract xml:lang="es">
                <title>RESUMEN</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>Este artículo trata sobre la centralidad de los fundamentos
                        éticoantropológicos en el caso del aborto. Específicamente, se pretende (1)
                        exponer descriptivamente las tres perspectivas abortistas que se destacan en
                        la actualidad a partir de diversos fundamentos ético-antropológicos: la
                        perspectiva abortista funcionalista, la perspectiva abortista libertaria y
                        la perspectiva abortista relacional; (2) exponer los errores que orientan
                        los fundamentos ético-antropológicos de tales perspectivas; y (3) demostrar
                        que la exposición de los errores fundamentales de las más famosas
                        perspectivas abortistas contemporáneas se sustenta en un fundamento ético
                        antropológico específico llamado <italic>personalismo realista</italic>,
                        según la cual todo ser humano es una especie de ser marcado por una dignidad
                        intrínseca desde su origen biológico hasta su muerte, sustentado así en la
                        titularidad de deberes y derechos que anteceden a la positividad
                        estatal.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Método:</title>
                    <p>Aproximación teórica y reflexiva según bibliografía autorizada y actualizada.
                        Además de prestar atención a los datos embriológicos y genéticos actuales
                        que apuntan a la concepción como el momento biológico originario de un nuevo
                        ser humano, utiliza las enseñanzas de Tomás de Aquino y sus intérpretes
                        contemporáneos, con énfasis en quienes constituyen la Nueva Escuela de la
                        Ley Natural.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultado:</title>
                    <p>Las principales perspectivas abortistas actuales enfatizan un solo aspecto de
                        la persona, reduciendo los demás aspectos al que se enfatiza. Por el
                        contrario, el personalismo realista propone una visión integral de la
                        personalidad del hombre, declarándo la ontológica, axiológica, biológica y
                        jurídicamente sin negar la posibilidad de conocer y observar a la humanidad
                        desde ángulos inagotables. En el contexto del acto del aborto, el
                        personalismo realista, por exigencia racional, denuncia su común error,
                        entendiendo que la práctica abortiva suele ser una afrenta directa al
                        derecho moral absoluto que tiene el nonato – persona humana digna – de no
                        ser muerto por otro desde su concepción.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contribuciones:</title>
                    <p>Este artículo reúne notas técnicas preliminares. Su aporte se remonta al
                        necesario avance de los estudios atentos a los fines o propósitos evidentes
                        (bienes básicos) que conciernen a la realización personal del ser humano. Y
                        más. Debido a los vacíos en la literatura nacional a nivel
                        filosófico-jurídico y biojurídico, este aporte se remonta también a la
                        urgencia de brindar a los estudiosos una visión holística de los fundamentos
                        ético-antropológicos comunes hoy en día en el caso del aborto. También se
                        piensa que este artículo posibilita un estudio en profundidad de los
                        fundamentos ético-antropológicos allí expuestos. Cabe señalar, sin embargo,
                        que los fundamentos constitutivos de las perspectivas funcionalistas,
                        libertarias y relacionales abortistas están en consonancia con una
                        mentalidad autodestructiva expresada, por ejemplo, en la esclavitud, el
                        racismo, la marginación de la mujer, el desprecio por los ancianos. y
                        ridiculizar a los seres humanos humanos con discapacidades.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>aborto</kwd>
                <kwd>fundamentos ético-antropológicos</kwd>
                <kwd>personalismo realista</kwd>
                <kwd>Tomás de Aquino</kwd>
                <kwd>lei natural</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>abortion</kwd>
                <kwd>ethical-anthropological foundations</kwd>
                <kwd>realistic personalism</kwd>
                <kwd>Thomas Aquinas</kwd>
                <kwd>natural law</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="es">
                <title>Palabras-clave:</title>
                <kwd>aborto</kwd>
                <kwd>fundamentos ético-antropológicos</kwd>
                <kwd>personalismo realista</kwd>
                <kwd>Tomás de Aquino</kwd>
                <kwd>ley natural</kwd>
            </kwd-group>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>1 INTRODUÇÃO</title>
            <p>Um dos temas mais controversos da atualidade consiste na (i)moralidade do aborto.
                Trata-se de temática envolvida por inúmeras perspectivas, ora suscitando raciocínios
                que se espalham pelos mais diversos conhecimentos científicos, ora gerando
                avaliações de senso comum cuja repercussão influi diretamente na experiência
                cotidiana. Em verdade, tão múltiplos são os debates a respeito do juízo moral
                cabível à prática abortiva que não seria um exagero supor a interminabilidade
                destes.</p>
            <p>Longe, porém, de abraçar a essa aparente infinitude discursiva, neste artigo,
                trata-se da centralidade dos fundamentos ético-antropológicos no caso do aborto, ou
                seja, ocupa-se da centralidade que diferentes visões sobre o que é o homem enquanto
                tal e como ele deve agir possuem para a construção de argumentos favoráveis ou
                contrários à prática abortiva. Em específico, segundo uma abordagem teórica e
                reflexiva, visa-se a (1) expor, descritivamente, as três perspectivas pró-aborto que
                se destacam na atualidade a partir de fundamentos ético-antropológicos diversos: a
                perspectiva pró-aborto funcionalista, a perspectiva pró-aborto libertária e a
                perspectiva pró-aborto relacional; (2) expor os equívocos que norteiam os
                fundamentos ético-antropológicos de tais perspectivas; e (3) demonstrar que a
                própria exposição dos equívocos fundamentais das mais famosas perspectivas
                pró-aborto contemporâneas está subsidiada por um fundamento ético-antropológico
                específico denominado <italic>personalismo realista</italic>, aquele segundo o qual
                todo e qualquer ser humano é um tipo de ser marcado por uma dignidade intrínseca
                desde a sua origem biológica até a sua morte, estando, com isso, amparado pela
                titularidade de deveres e direitos que antecedem positivação estatal.</p>
            <p>Para tanto, além de atenção aos dados embriológicos e genéticos vigentes que apontam
                para a concepção como o momento biológico originário de um novo ser humano,
                utilizam-se como referencial teórico as lições de Tomás de Aquino e de seus
                intérpretes contemporâneos, com destaque para aqueles que constituem a Nova Escola
                da Lei Natural<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>.</p>
            <p>As linhas a seguir, note-se, reúnem anotações preliminares, inobstante técnicas. Sua
                justificativa remonta ao necessário avanço de estudos atentos a benefícios
                autoevidentes (bens básicos) que dizem respeito à realização pessoal dos seres
                humanos. E mais. Devido às lacunas da literatura nacional a nível
                filosófico-jurídico e biojurídico, tal justificativa remonta também à urgência de se
                proporcionar aos estudiosos uma visão holística dos fundamentos
                éticos-antropológicos comuns hoje no caso do aborto.</p>
            <p>Assim, este artigo segue a seguinte estrutura:</p>
            <p>Na segunda seção, é feita uma descrição das três principais perspectivas próaborto da
                contemporaneidade. Primeiro, descreve-se a perspectiva funcionalista liderada por
                Michael Tooley, Peter Singer e Mary Anne Warren. Em seguida, apresenta-se a
                perspectiva libertária de Judith Jarvis Thomson. E, enfim, trata-se da perspectiva
                relacional de Pierre de Locht, Luigi Ferrajoli e Geiselher Rüpke.</p>
            <p>Na terceira seção, agora criticamente, demonstram-se os equívocos
                ético-antropológicos que alimentam o raciocínio desses autores, os quais parecem
                desconhecer ou desconsiderar o que são acidentes, o que são bens básicos e bens
                instrumentais à autorrealização pessoal, o que é devido ética e juridicamente ao ser
                humano, e mesmo o que há de similar entre escravidão, nazismo e atos abortivos. É na
                terceira seção, vale notar, que se apresenta a ética da lei natural (ou da
                razoabilidade prática), momento em que se elucida a existência de deveres e direitos
                morais – alguns absolutos, a maioria relativos – passíveis de apreensão por dedução
                e fruto de um amadurecimento intelectual no que concerne ao amor ao próximo.</p>
            <p>Na seção posterior, a quarta seção, defende-se que o personalismo realista é o
                fundamento ético-antropológico que subsidia todas as críticas anteriormente
                expostas. Ali consta que o personalismo realista propõe uma visão integral da
                personalidade do homem, declarando-a ontológica, axiológica, biológica e
                juridicamente sem negar a possibilidade de se conhecer e de se observar a humanidade
                sob inesgotáveis ângulos. Para o personalismo realista, em outro tom, a pessoa
                humana é o que há de mais perfeito na realidade e, assim o sendo, está cingida por
                preceitos ético-jurídicos (ou morais) que sempre lhe resguardam a própria perfeição.
                Por conseguinte, o personalismo realista, por exigência racional e não por capricho,
                denuncia o comum equívoco da prática abortiva. A interrupção da gestação antes do
                término modelar de nove meses costuma ser uma afronta direta ao direito moral
                absoluto que o nascituro possui de não ser morto por outrem desde a sua concepção.
                Tal afirmação, todavia, demanda que se distinga entre, ao menos, três tipos de
                aborto: o aborto voluntário, o aborto persuadido e o aborto terapêutico, o que se
                faz com a diligência necessária.</p>
            <p>Finalmente, na quinta seção, sintetiza-se tudo o que está dito nas seções
                precedentes. Nela estão presentes as últimas considerações sobre o
                    <italic>excursus</italic> percorrido, concatenando-se as suas linhas com as
                linhas desta breve seção introdutória e com o conteúdo que se tenta expor, com
                clareza, nas seções intermediárias.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>2 OS FUNDAMENTOS ÉTICO-ANTROPOLÓGICOS DAS TRÊS PRINCIPAIS PERSPECTIVAS PRÓ-ABORTO
                NA CONTEMPORANEIDADE</title>
            <p>Consoante se diz acima, parece interessante uma exposição propedêutica descritiva das
                três perspectivas pró-aborto que se destacam nos tempos atuais: a perspectiva
                funcionalista, a perspectiva libertária e a perspectiva relacional. Assim é feito
                para que se evite um retrato superficial ou caricato daquilo que estudiosos
                renomados têm defendido, muito embora se entenda que todos estão equivocados.
                Superada essa etapa, aí sim, na próxima seção (seção três), consta uma avaliação
                crítica dos argumentos expostos.</p>
            <sec>
                <title>2.1 A PERSPECTIVA PRÓ-ABORTO FUNCIONALISTA<xref ref-type="fn" rid="fn2"
                        >2</xref></title>
                <p>Entre as diversas perspectivas hodiernas que afirmam a licitude moral do ato do
                    aborto, merece destaque imediato, certamente, aquela cujos mais notórios
                    representantes são os filósofos Michael Tooley, Peter Singer e Mary Anne Warren.
                    Cada um desses autores – à sua maneira – compreende que a capacidade humana para
                    raciocinar, e, portanto, a natureza racional de um ser humano, sobrevém apenas
                    quando este se encontra em um estado de organização corpórea posterior ao seu
                    nascimento e às primeiras fases da sua vida infante. Disso sustentam dois pontos
                    nunca antes aprofundados com vigor (<xref ref-type="bibr" rid="B43">SPAEMANN,
                        2012</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>. O primeiro é que, no
                    seio da humanidade, há uma distinção ontológica, podendo-se falar em seres
                    humanos não pessoais (seres irracionais) e seres humanos pessoais (seres
                    racionais). E, em segundo lugar, que os seres humanos pessoais, sendo o que são,
                    estão naturalmente providos de uma superioridade de ampla repercussão moral e
                    jurídica em relação aos seres humanos não pessoais, daí merecerem um tratamento
                    na qualidade de sujeitos de direitos.</p>
                <p>Em toda a sua obra dedicada ao estudo do direito à vida, por exemplo, Michael
                    Tooley insiste que embriões, fetos e crianças de pouca idade são organismos
                    humanos que carecem da racionalidade distintiva da pessoa, uma vez que não
                    compreendem a si mesmos continuamente. Esses organismos, <xref ref-type="bibr"
                        rid="B46">Tooley (1972</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B47">1983</xref>)
                    acredita, precisam amadurecer para participarem da comunidade pessoal, quando
                    então terão condições legítimas de dispor do substrato jurídico-moral que a
                    informa.</p>
                <p>Melhor dizendo, Tooley sustenta que um ser pessoal possui direitos porque tem, ou
                    pode ter, interesses que possibilitam a satisfação de variados desejos, o que,
                    por sua vez, exige o exercício de atividades mentais típicas de quem é
                    autoconsciente (em termos genéricos, típicas de quem é racional<xref
                        ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>). Mas quando alguém é autoconsciente ou
                    racional, é pessoa? Segundo Tooley, tão somente algum tempo após o nascimento.
                    Talvez “uma semana”, ele diz, contudo esse intervalo poderia ser modificado
                    “assim que os psicólogos estabelecerem o ponto em que um organismo humano passa
                    a acreditar que é um sujeito contínuo de experiências e outros estados mentais”
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B46">TOOLEY, 1972, p. 64</xref>, tradução
                    nossa).</p>
                <p>Ou seja, até sete dias após o parto, Michael Tooley defende que o ser humano pode
                    ser intencionalmente morto por outrem sem que isso implique responsabilização
                    moral ou jurídico-positiva. Ao bebê, nesse período, nada é devido, nada é
                    seu.</p>
                <p>Não é muito diferente a posição de Peter Singer. Influenciado por Tooley e Locke,
                    Singer destaca que a natureza racional de uma pessoa faz dela um ser
                    continuamente consciente da própria existência, a ponto de ter interesses e de
                    planejar o futuro, algo que a insere no plano da moralidade em grau superior e é
                    impossível ao ser humano de considerável rudimentariedade orgânica – a exemplo
                    tanto do nascituro quanto do recém-nascido há um mês. É pensando assim que ele
                    sugere que não se atribua à vida de um embrião ou de um feto um valor excedente
                    ao atribuído à vida de um animal igualmente incapaz de raciocinar. E é sob essas
                    mesmas bases que ele defende a incomparabilidade entre o ato de matar um
                    recém-nascido e o ato de matar qualquer outro ser humano consciente de si,
                    genuína pessoa (<xref ref-type="bibr" rid="B42">SINGER, 1994</xref>, <xref
                        ref-type="bibr" rid="B41">2002</xref>).</p>
                <p>Nas palavras de <xref ref-type="bibr" rid="B41">Singer (2002, p. 161)</xref>,</p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] mesmo um aborto feito pela mais banal das razões, quando a mulher já se
                        encontra em estado avançado de gravidez, é difícil de condenar, a menos que
                        também condenemos o massacre de formas de vida muito mais desenvolvidas, com
                        a finalidade de saborear-lhes a carne.</p>
                </disp-quote>
                <p>Ele acrescenta ainda que</p>
                <disp-quote>
                    <p>se essas conclusões [pelo aborto e pelo infanticídio] parecem chocantes
                        demais para serem levadas a sério, talvez valha a pena lembrar que a
                        proteção absoluta que damos às vidas dos bebês é uma atitude especificamente
                        cristã, e não um valor ético universal (<xref ref-type="bibr" rid="B41"
                            >SINGER, 2002, p. 182</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Vê-se, por aí, sem grande esforço, que os raciocínios de Tooley e de Singer estão
                    subsidiados por uma base ético-antropológica que toma o ser humano a contar da
                    aptidão <italic>hic et nunc</italic> para o exercício de certas funções. Quem
                    tem aptidão <italic>imediata</italic> para raciocinar é ser proeminente; quem
                    não o tem, é só mais um membro da espécie <italic>Homo Sapiens</italic>.</p>
                <p>Alinhada aos principais termos desse funcionalismo, porém contrária ao
                    infanticídio, Mary Anne Warren chega a propor uma lista de qualidades
                    constitutivas da personalidade. Ela argumenta que a titularidade de direitos
                    morais pertence exclusivamente a um ser pessoal que – <italic>em geral</italic>
                    – manifesta a sua natureza racional mediante a operação de cinco características
                    complementares: (1) consciência de objetos e eventos que lhes são externos ou
                    internos; (2) solução de problemas novos e relativamente complexos; (3)
                    atividade automotivada; (4) comunicação, seja como for, em uma variedade
                    tipológica indefinida; e, por fim, (5) autoconsciência (1973).</p>
                <p>Diz-se que, <italic>em geral</italic>, para Warren, um ser pessoal manifesta a
                    racionalidade por intermédio dessas cinco características, porque, segundo as
                    suas próprias palavras, “não precisamos supor que uma entidade deva ter todos
                    esses atributos para ser considerada adequadamente uma pessoa; [o primeiro e o
                    segundo] sozinhos podem ser suficientes para a personalidade” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B49">WARREN, 1973, p. 55</xref>, tradução nossa). Além
                    disso, utiliza-se a expressão <italic>em geral</italic> porque Warren dá a
                    entender que, “muito provavelmente”, a satisfação da terceira característica
                    conjugada com as duas primeiras já não abre margem à dúvida quanto à condição
                    pessoal de um ser; trata-se de uma habilidade “suficiente” à concretização da
                    personalidade (<xref ref-type="bibr" rid="B49">WARREN, 1973, p. 55</xref>,
                    tradução nossa).</p>
                <p>Cumpre notar, no entanto, que o artigo de Warren ganha mais realce por outra
                    questão. Nele é alegada a impossibilidade de um ser exprimir-se pessoalmente
                    caso não satisfaça nenhuma característica do rol proposto. Caso determinado ser
                    não satisfaça nada de (1) a (5), torna-se impossível apreendê-lo como um ser
                    pessoal. Consequentemente,</p>
                <disp-quote>
                    <p>um homem ou uma mulher cuja consciência foi permanentemente obliterada, mas
                        que permanece vivo, é um ser humano que não é mais uma pessoa; seres humanos
                        defeituosos, sem capacidade mental apreciável, não são e presumivelmente
                        nunca serão pessoas; e um feto é um ser humano que ainda não é uma pessoa e
                        que, portanto, não pode ser coerentemente tido como portador de plenos
                        direitos morais (<xref ref-type="bibr" rid="B49">WARREN, 1973, p. 56</xref>,
                        tradução nossa).</p>
                </disp-quote>
                <p>Nesse sentido, inobstante Warren defenda de modo similar a Tooley e Singer que
                    nem todos os seres humanos são pessoas, que o ambiente jurídico-moral concerne
                    só a estas e que a personalidade advém certo período após o nascimento, ela
                    reconhece, diferentemente daqueles dois filósofos, que a
                        <italic>cessação</italic> da consciência em sua continuidade implica na
                    ausência total da condição pessoal.</p>
                <p>Isso significa que o fundamento ético-antropológico funcionalista de Warren pode
                    ser considerado, em certa medida, mais rigoroso que o de Michael Tooley e o de
                    Peter Singer. Warren, ao mesmo tempo em que assume que as cinco características
                    racionais da personalidade só são adquiridas conforme se evolui organicamente,
                    pensa que estas mesmas características se esvaem quando um organismo se acha
                    definitivamente afetado para operá-las. De nada interessa se amanhã o ser humano
                    será uma pessoa ou se no dia anterior ele preenchia todos os requisitos da
                    personalidade; importa apenas se agora, no instante avaliativo, a sua estrutura
                    orgânica está preparada para ostentar os atributos da razão. Positiva a
                    avaliação, consta um sujeito de direitos; negativa, resta um ser não tão
                    importante.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>2.2 A PERSPECTIVA PRÓ-ABORTO LIBERTÁRIA</title>
                <p>Outra perspectiva pró-aborto bastante influente nos tempos de hoje pode ser
                    encontrada nos estudos de Judith Jarvis Thomson. Em seu famoso artigo <italic>A
                        Defense of Abortion</italic>, Thomson relembra que aqueles que advogam
                    contra a prática abortiva costumam assim o fazer sob a alegação de que o
                    nascituro consiste em uma pessoa digna desde a concepção (1971)<xref
                        ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>. A seu ver, entretanto, essa afirmação
                    exige maiores cuidados. Por um lado, Thomson admite que “provavelmente devemos
                    concordar que o feto já se tornou uma pessoa humana muito antes do nascimento”
                    (1971, p. 47, tradução nossa); por outro, ela destaca crer que a concepção não é
                    o momento inaugural dessa personalidade, sendo o embrião “um amontoado de
                    células” (<xref ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON, 1971, p. 48</xref>, tradução
                    nossa).</p>
                <p>De todo modo, a título de argumentação, Thomson cede a uma das principais
                    alegações dos opositores do aborto. Seu objetivo é simples: demonstrar que, a
                    despeito da condição pessoal do nascituro, toda mãe possui “o direito de decidir
                    o que deve acontecer <italic>em</italic> e <italic>com</italic> o seu corpo”
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON, 1971, p. 48</xref>, ênfase e
                    tradução nossas). Para tanto, Thomson propõe uma analogia.</p>
                <disp-quote>
                    <p>Imagine isso. Você acorda de manhã e descobre que está na cama ao lado de um
                        violinista inconsciente. Um violinista inconsciente famoso. Descobriu-se que
                        ele sofria de uma doença renal fatal, e a Sociedade dos Amantes da Música
                        vasculhou todos os prontuários médicos disponíveis e constatou que só você
                        tem o tipo sanguíneo compatível para ajudá-lo. Assim sendo, a Sociedade o
                        sequestrou e, na noite anterior, o sistema circulatório do violinista foi
                        conectado ao seu, de forma que os seus rins pudessem ser usados para extrair
                        o veneno do sangue dele e também do seu. O diretor do hospital agora lhe
                        diz: “Veja, lamentamos que a Sociedade dos Amantes da Música tenha feito
                        isso com você – se tivéssemos sabido, nunca teríamos permitido. Mas o fato é
                        que eles o fizeram e o violinista agora está conectado a você. Desconectar
                        você significaria matá-lo. Mas não se preocupe, é só por nove meses. No fim
                        desse prazo ele estará recuperado e poderá ser desconectado de você com
                        segurança”. Você é moralmente obrigado a aceitar essa situação? (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON, 1971, p. 49</xref>, tradução
                        nossa).</p>
                </disp-quote>
                <p>A resposta de Thomson é negativa. Ela sustenta que, sem dúvidas, por ser uma
                    pessoa, o violinista tem direito à vida. Todavia, sem anuência, ele não tem
                    direito de usar os rins alheios. O fato de que, para a continuidade de sua vida,
                    o violinista precisa usar o corpo de outrem não determina que ele tenha direito
                    a tanto, pensa <xref ref-type="bibr" rid="B44">Thomson (1971)</xref>. E mais. Se
                    alguém permitir que o violinista continue a usar os seus rins será “por bondade
                    própria”, e não por algum dever (<xref ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON, 1971,
                        p. 55</xref>, tradução nossa).</p>
                <p>No caso concreto do aborto, o que Thomson pretende dizer com tal analogia é que o
                    direito à vida do nascituro – <italic>a priori,</italic> pessoa humana digna
                    desde a concepção – não implica o direito de ele usar o que for necessário para
                    permanecer vivo, inclusive o corpo materno. Segundo Thomson, “ninguém é
                    moralmente obrigado a fazer grandes sacrifícios de saúde, de todos os outros
                    interesses e preocupações, de todos os outros deveres e compromissos, por nove
                    anos, ou mesmo por nove meses, a fim de manter outra pessoa viva” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON, 1971, p. 62</xref>, tradução nossa).
                    Assim, a <italic>desconexão</italic> entre mãe e filho por intermédio do aborto
                    nada teria de injusto e, ademais, em nada violaria o direito que o nascituro tem
                    de viver. Ela seria, pode-se dizer, o <italic>rompimento de um vínculo</italic>,
                    não o empreendimento de um homicídio.</p>
                <p>Pois bem. Abstração feita quanto à acurácia do paralelismo imaginado por Judith
                    Thomson, pergunta-se: qual o fundamento ético-antropológico assumido pela
                    autora? Quais os seus alicerces teóricos no âmbito da antropologia filosófica e
                    da filosofia moral? Claramente, Thomson assimila o ser humano tendo em apreço a
                    sua autonomia corpórea. O uso do corpo concerne ao livre discernimento do
                        <italic>proprietário</italic>. Não à toa ela afirma que “minha própria visão
                    é a de que, se um ser humano tem alguma reivindicação prioritária e justa, esta
                    reivindicação é sobre o seu próprio corpo” (<xref ref-type="bibr" rid="B44"
                        >THOMSON, 1971, p. 54</xref>, tradução nossa). Em outras palavras, o
                    fundamento éticoantropológico que norteia Thomson é o de que o ser humano
                    expressa uma realidade livre para dominar, <italic>em absoluto</italic>, o corpo
                    que lhe é inerente. Trata-se de um fundamento libertário segundo o qual cada
                    indivíduo tem direitos <italic>incondicionais</italic> quanto ao controle e uso
                    daquilo que marca a sua existência – a corporeidade<xref ref-type="fn" rid="fn6"
                        >6</xref>.</p>
                <p>O libertarianismo de Thomson fica mais claro ainda quando, procurando evitar
                    falhas de raciocínio, a autora apresenta outra analogia, a analogia do
                    assaltante.</p>
                <p>Ela diz:</p>
                <disp-quote>
                    <p>se a sala estiver abafada e, por isso, eu abrir uma janela para ventilá-la e
                        um ladrão entrar, seria absurdo dizer “Ah, agora ele pode ficar, ela lhe deu
                        o direito ao uso de sua casa – pois ela é parcialmente responsável por sua
                        presença ali, já que fez voluntariamente algo que permitiu que ele entrasse,
                        com pleno conhecimento de que os ladrões existem e que os ladrões roubam”.
                        Seria ainda mais absurdo dizer isso se eu tivesse grades nas janelas,
                        precisamente para evitar a entrada de ladrões, e um ladrão entrasse só por
                        causa de um defeito nas grades (<xref ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON,
                            1971, p. 58-59</xref>, tradução nossa).</p>
                </disp-quote>
                <p>Nesse cenário, o assaltante equivale ao bebê, e as grades seriam os
                    contraceptivos. Thomson pensa que, tal como nada obsta, moralmente, a expulsão
                    de um invasor de domicílio, identicamente inexiste critério moral que
                    deslegitime a prática abortiva que expulsa o nascituro do útero materno
                    (sobretudo na hipótese da utilização de certo método para se evitar a gestação).
                    Isto é, por mais que o nascituro tenha direito à vida, Thomson reforça que isso
                    não o faz senhor do corpo de sua mãe, a esta cabe a primeira e a última
                    palavra.</p>
                <p>No mesmo artigo, por fim, Thomson apresenta uma última analogia, menos conhecida.
                    Ela compara o embrião humano recém-fecundado a sementes de pessoas pairando no
                    ar. Em suas palavras,</p>
                <disp-quote>
                    <p>suponha-se que haja algo assim: sementes de pessoas à deriva no ar como pólen
                        e, se você abrir a janela, uma pode flutuar para dentro e enraizar-se no seu
                        tapete ou sofá. Você não quer ter filhos, então coloca uma tela fina em suas
                        janelas, a melhor que você pode comprar. Acontece, porém, e isso de fato
                        acontece em raríssimas ocasiões, que uma das telas está com defeito; e uma
                        semente voa para dentro e se enraíza. Será que a pessoa-planta que está em
                        desenvolvimento tem direito ao uso da sua casa? Com certeza não, apesar de
                        você ter aberto voluntariamente a janela, de saber o que implica ter tapetes
                        e móveis estofados, e de também saber que as telas às vezes são defeituosas.
                        Alguém pode alegar que você é responsável pelo enraizamento; que a
                        pessoaplanta tem direito à sua casa porque, afinal, você poderia ter vivido
                        a sua vida com pisos nus e móveis sem estofado ou com janelas e portas
                        trancadas. Mas o argumento também não adianta, pois, da mesma maneira,
                        pode-se evitar a gestação decorrente de estupro fazendo uma histerectomia,
                        ou, ainda, nunca saindo de casa sem um exército (confiável!) (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON, 1971, p. 59</xref>, tradução
                        nossa).</p>
                </disp-quote>
                <p>Uma vez mais, então, Thomson frisa que o nascituro não tem direito ao corpo
                    materno, e acrescenta: a mãe não possui nenhuma “responsabilidade especial” para
                    com o seu filho, exceto nas circunstâncias em que o assumiu, seja
                    explicitamente, seja implicitamente (<xref ref-type="bibr" rid="B44">THOMSON,
                        1971, p. 65</xref>, tradução nossa).</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>2.3 A PERSPECTIVA PRÓ-ABORTO RELACIONAL</title>
                <p>Dando continuidade à exposição estritamente descritiva das perspectivas
                    pró-aborto contemporâneas, resta abordar a perspectiva pró-aborto relacional,
                    conforme se anuncia na introdução geral e na introdução desta segunda seção. Os
                    defensores dessa posição, pautados no aspecto gregário do ser humano, sustentam
                    que a personalidade se trata de um status externo produzido por relações
                    bilaterais.</p>
                <p>Atento a isso, Germain Grisez destaca um notável autor que segue essa linha de
                    raciocínio para justificar a prática abortiva: o teólogo belga Pierre de Locht
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B19">GRISEZ, 1989</xref>). Locht, por exemplo,
                    após destacar a existência de um suposto conflito de direitos, quando do ato do
                    aborto, levanta alguns questionamentos.</p>
                <disp-quote>
                    <p>Como se constitui uma pessoa humana? É por um ato meramente biológico?
                        Parece-me surpreendente que um ser espiritual seja constituído por um ato
                        unicamente biológico. O fato de os pais <italic>perceberem</italic> o feto
                        como pessoa humana não faz diferença em sua constituição como ser humano,
                        como ser espiritual? Não é necessário que se estabeleça uma
                            <italic>relação</italic> de pessoa a pessoa, uma
                            <italic>relação</italic> dos progenitores com o feto, para que ele
                            <italic>se torne</italic> uma pessoa humana? (LOCHT, 1968
                            <italic>apud</italic> GRIZEZ, 1989, p. 28, ênfase e tradução
                        nossas).</p>
                </disp-quote>
                <p>Luigi Ferrajoli e Geiselher Rüpke defendem o mesmo.</p>
                <disp-quote>
                    <p>O autor italiano mantém a opinião segundo a qual o caráter de pessoa [...] é
                        atribuído ao embrião ou feto por mera vontade da gestante que decide levar a
                        gravidez a termo. Se, ao contrário, a mãe decide abortar, ao mesmo tempo o
                        embrião-feto perde o caráter de pessoa e, consequentemente - visto que
                        apenas uma pessoa é titular de direitos - de qualquer direito à vida. Essa
                        linha de argumentação não é original de Ferrajoli, mas tem vários
                        antecedentes, entre eles a obra de Geiselher Rüpke, publicada, em 1974, no
                            <italic>Zeitschrift für Rechtspolitik,</italic> no qual ele sustenta que
                        a titularidade do direito à vida [...] é adquirida apenas em virtude de
                            <italic>expectativas e estimativas sociais de valor</italic> com
                        respeito ao nascituro, especialmente aquelas que vêm da mãe. Somente a marca
                        social é capaz de conferir personalidade a um ser humano, o que ocorre –
                        argumenta Rüpke – no caso de adultos capazes de interação social, adultos
                        que, estes sim, são titulares do direito à vida (<xref ref-type="bibr"
                            rid="B27">MASSINI-CORREAS, 2013, p. 72-73</xref>, tradução nossa).</p>
                </disp-quote>
                <p>Apesar de um tanto estranha, essa perspectiva “é amplamente comum hoje em dia”
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B28">MAY, 1996, p. 90</xref>, tradução nossa).
                    Seus defensores aduzem, com convicção, que, “na medida em que as pessoas existem
                    apenas com outras pessoas e que o reconhecimento social da personalidade de
                    alguém implica o respeito pela sua dignidade intrínseca, segue-se que [...] uma
                    entidade é uma pessoa apenas quando assim reconhecida por outras pessoas” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B28">MAY, 1996, p. 90</xref>, tradução nossa). Os
                    partidários do aborto relacional, portanto, professam uma antropologia
                    filosófica que apreende o ser humano em suas relações, em sua interatividade, e
                    o corolário ético dessa apreensão é que a pessoa, fim em si mesmo, determina-se
                    pelo meio.</p>
                <p>Aqui, queira-se ou não, ressoa a visão durkheimiana de que a dignidade humana
                    representa uma categoria histórica, uma conquista de origem social decorrente do
                    processo de civilização (<xref ref-type="bibr" rid="B10">DURKHEIM, 2010</xref>).
                    Esse dado é inquestionável historicamente; cabe dizer, entretanto, se o mesmo
                    pode ser dito logicamente<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 OS EQUÍVOCOS ÉTICO-ANTROPOLÓGICOS DAS TRÊS PRINCIPAIS PERSPECTIVAS PRÓ-ABORTO
                DA CONTEMPORANEIDADE</title>
            <p>Ao que se indica, as perspectivas pró-aborto funcionalista, libertária e relacional
                comportam sérios equívocos em seus respectivos fundamentos ético-antropológicos.
                Todas, ainda que de modo distinto, relativizam o respeito irrestrito devido à pessoa
                humana. Nas linhas abaixo, analisa-se criticamente as posições descritas na seção
                anterior.</p>
            <sec>
                <title>3.1 O EQUÍVOCO ÉTICO-ANTROPOLÓGICO DA PERSPECTIVA PRÓ-ABORTO
                        FUNCIONALISTA<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref></title>
                <p>O grande equívoco da perspectiva pró-aborto funcionalista reside na ignorância de
                    que na existência humana nem tudo é gênero ou definição, nem tudo é propriamente
                    natureza. Ao homem sempre se vincula aquilo que a tradição aristotélicotomista
                    chama de <italic>acidentes</italic>. Acidentes são características que, apesar
                    de não pertencerem e não alterarem a natureza existencialmente realizada em seu
                    caráter absoluto e imutável, derivam do que ela mesma é, acompanhando-a sob
                    variados tipos, muitos dos quais limitam ou impossibilitam por completo a
                    atualização das suas capacidades (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AQUINO,
                        2003</xref>). Idade, inteligência, saúde, renda, cor, classe social, sexo,
                    talento, temperamento, ou mesmo a religião, são verdadeiros acidentes,
                    propriedades que não existem sozinhas, existem em outro, na natureza humana
                    corpórea (e anímica, pensa-se<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>).</p>
                <p>O nascituro, então, é – sem dúvidas – racional, ao invés do que prega o
                    funcionalismo. Logo após a concepção, a capacidade humana para raciocinar já
                    está determinada em sequências moleculares que compõem o novo genoma, o que
                    significa que o embrião unicelular não atualiza ou opera a sua racionalidade por
                    uma questão acidental: a imaturidade orgânica. Mais precisamente, seguindo-se a
                    definição clássica que tem prevalecido no ambiente intelectual do Ocidente, o
                    nascituro consiste em uma pessoa, em um <italic>todo uno racional</italic><xref
                        ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>. Não poderia ser diferente. Ele, o
                    nascituro, origina-se como um indivíduo real internamente direcionado por um
                    conteúdo genético que, entre tantos atributos, comporta o atributo da razão
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B6">CONDIC, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B7">CONDIC; CONDIC, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2">ARKES
                            <italic>et al.</italic>, 2005</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B29"
                        >MOORE; PERSAUD; TORCHIA, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32"
                        >O’RAHILLY; MILLER, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B40">SCHOENWOLF
                            <italic>et al.</italic>, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B38"
                        >SERRA, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B39">SERRA; COLOMBO,
                        2007</xref>).</p>
                <p>Como bem destaca John Finnis:</p>
                <disp-quote>
                    <p>o óvulo humano fecundado é especificamente humano (e não meramente vegetal),
                        e mesmo o embrião humano mais jovem já possui um corpo que, em suas
                        capacidades já especificadas (embora bastante subdesenvolvidas), seus
                        primórdios epigenéticos, está apto a entender, conhecer e escolher. Assim
                        como você e eu temos a capacidade de falar tibetano ou islandês, ainda que
                        nos falte a habilidade para fazê-lo, também o embrião humano mais jovem já
                        tem a capacidade biológica adequada para apoiar operações especificamente
                        humanas, tais como a autoconsciência [...]. O potencial ativo que ele ou ela
                        já possui inclui as próprias capacidades que são inerentes às pessoas. Ele
                        ou ela é um ser humano e uma pessoa humana <italic>com</italic> potencial,
                        não uma pessoa humana meramente potencial ou um ser humano potencial (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B12">FINNIS, 1993, p. 548-549</xref> ênfase e
                        tradução nossas).</p>
                </disp-quote>
                <p>Mas o que implica a condição pessoal? Que importância há na personalidade? Ora, a
                    pessoa, ser racional, orienta-se a bens, fins ou propósitos que, uma vez
                    intelectualmente apreendidos, não exigem posterior explanação ou demonstração do
                    seu benefício intrínseco. Lembre-se da vida, do conhecimento e da sociabilidade,
                    bens que toda pessoa costuma procurar. Sendo a vida o contrário da morte, é
                    evidente a sua intrínseca relevância. E achando-se o conhecimento antitético à
                    ignorância, também não lhe é estranha a obviedade do proveito; tal como é
                    proveito seguro a harmonia entre os seres humanos, fundamento da sociabilidade.
                    Quer dizer, a vida, o conhecimento e a sociabilidade são exemplos de fins
                        <italic>per se</italic>; são <italic>bens básicos</italic> que possibilitam,
                    cada qual ao seu modo e sem hierarquia entre si, a autorrealização ou a
                    felicidade pessoal, fazendo-se, sempre, desarrazoado contrariá-los (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B3">AQUINO, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B14">FINNIS, 2011</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B13">1998</xref>,
                        <xref ref-type="bibr" rid="B15">1973</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17"
                        >GEORGE, 1995</xref>).</p>
                <p>A condição pessoal implica, portanto, a oportunidade de o homem agir
                        <italic>razoavelmente</italic>. Enquanto pessoa, ele é capaz de entender o
                    que, de fato, vale a pena e o que, de fato, é infrutífero. Ele pode assimilar
                    que há propósitos notáveis no mundo a despeito do que aconteça. Em um sentido
                    mais profundo, enquanto pessoa, o ser humano pode amar conscientemente, pode
                    amar com lucidez, na medida em que amar – querer o benefício próprio e alheio
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AQUINO, 2003</xref>) – impulsiona a busca e
                    a instanciação de bens básicos. A pessoa humana, inclusive, se estiver livre de
                    distorções intelectuais (o racismo, por exemplo), perceberá que é
                        <italic>evidentemente</italic> valioso existir em amor para com
                        <italic>qualquer</italic> semelhante, amar o próximo como a si mesmo,
                    afinal, do amor mútuo emerge o zelo contínuo por cada bem básico, por cada
                    benefício intrínseco. Em outras palavras, caso não se deixe tomar por graves
                    desvios de compreensão, a pessoa humana assimilará que <italic>os bens básicos
                        devem ser feitos e perseguidos em auxílio de qualquer membro da humanidade,
                        e ninguém deve praticar atos que os contrariem</italic> (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B3">AQUINO, 2003</xref>).</p>
                <p>Por isso a absoluta imoralidade das condutas pelas quais determinado indivíduo
                    mata, estupra, tortura, mente, furta e rouba; condutas que diretamente
                    contrariam bens básicos (pelo menos os três acima em pauta<xref ref-type="fn"
                        rid="fn11">11</xref>). Ao agir assim, a pessoa empreende, paradoxalmente, um
                    ato antipessoal. Ela, pela prática, contraria o próprio tipo de ser que,
                    ontologicamente, é. Onde está a razoabilidade da pessoa que infringe o dever
                    moral absoluto de não matar e o seu correlativo direito moral absoluto de não
                    ser morto por outrem? Que tipo de pessoa, supostamente prudente, sensata,
                    razoável, viola o dever moral absoluto de não estuprar e o correlativo direito
                    moral absoluto de não ser estuprado? O que dizer daquela pessoa que tortura, que
                    abraça a mentira, que conquista coisas pelo furto ou pelo roubo? Ela pratica a
                    razoabilidade que lhe é distintiva, que lhe é possível por conta da capacidade
                    racional?</p>
                <p>Quando as pessoas atacam diretamente esses absolutos morais elas machucam todos,
                    prejudicando uma existência de amor que tende a iniciar com as relações
                    familiares e, por vezes, culminar no plano internacional. Elas turvam a
                    percepção de que a titularidade jurídica é anterior à positivação estatal, de
                    que embriões, fetos, crianças, adolescentes, adultos e idosos são –
                        <italic>todos –</italic> pessoas e, como tais, estão espontaneamente
                    ordenados a uma <italic>lei natural</italic>, um conjunto de preceitos
                    pré-positivos que propiciam condutas condizentes com os bens básicos.</p>
                <p>Claro que o nascituro não pode zelar, de imediato, por nenhum bem básico, mas,
                    porque é pessoa, ele está por natureza adstrito a tudo o que concerne a esses
                    bens e, exceto na hipótese de ser afetado por uma ou mais características
                    acidentais, irá se desenvolver até a maturidade da espécie humana, quando, por
                    si só, poderá proteger a vida, o conhecimento, a sociabilidade e os demais bens
                    que o realizam pessoalmente. Não importa o tamanho, a localização, a falta de
                    sensibilidade ou a ausência de raciocínio, a pessoa humana em gestação possui,
                    assim como qualquer outra pessoa humana, o direito moral absoluto de não ser
                    morta por outrem; um direito que se origina tão logo ela é concebida e que deve
                    permanecer incólume até a sua morte natural.</p>
                <p>O mesmo vale para as pessoas que, por acidentes diferentes da imaturidade
                    orgânica, também não exercem minimamente a capacidade da razão. É o caso
                    daquelas acometidas pelo Mal de Alzheimer, daquelas que, agora, dormem, daquelas
                    que estão em estado vegetativo, daquelas que sofrem com transtornos mentais, das
                    amnésicas, daquelas que são portadoras da Síndrome de Down etc. Todas elas
                    dispõem de deveres e direitos morais, alguns invioláveis <italic>semper et pro
                        semper</italic><xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>.</p>
                <p>Por aí se vê a importância de se apontar que características acidentais existem.
                    Na espécie humana, nenhum indivíduo ignora o envelhecer ou não tem cor. Alguns,
                    é verdade, nem chegam a adoecer; todavia, cada um é intelectualmente limitado,
                    falho, insuficiente. Há indivíduos que almejam a riqueza, outros a ignoram. Há
                    indivíduos bastante religiosos e há aqueles que repudiam veementemente a
                    religiosidade, como se esta fosse um ópio popular. Todo ser humano está
                    submetido ao que, mesmo estranho à sua natureza, a ela se atrela.</p>
                <p>Não obstante, Tooley, Singer e Warren propugnam que seres humanos supostamente
                    irracionais podem, tão somente em virtude da organização corpórea atingida após
                    o nascimento e após os primeiros dias da vida extrauterina (nada mais que uma
                    característica acidental), perpassar por uma mudança ontológica radical que os
                    faz seres humanos racionais, pessoas. Warren chega a propor mais do que isso.
                    Ela propõe que seres humanos racionais voltam ao <italic>status</italic>
                    ontológico de seres humanos irracionais quando estão permanentemente em um
                    estado orgânico inviável ao exercício da razão, o que não passa, também, de um
                    acidente.</p>
                <p>Muito embora a condição pessoal do nascituro seja mais perceptível por meio de
                    mudanças acidentais, estas não implicam uma mudança substancial de não humano
                    para ser humano ou de ser humano para pessoa humana. “O organismo humano
                    unicelular [...] se desenvolve, como um único e mesmo indivíduo, em uma
                    instância paradigmática da pessoa corporal racional; em todos os momentos [...]
                    ele já é uma instância atual da pessoa humana” (<xref ref-type="bibr" rid="B12"
                        >FINNIS, 1993, p. 550</xref>, tradução nossa). Um feto de seis meses é tão
                    pessoa quanto um adolescente de quinze anos, e um embrião não é menos pessoa que
                    um adulto de trinta, quarenta ou cinquenta anos.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>3.2 O EQUÍVOCO ÉTICO-ANTROPOLÓGICO DA PERSPECTIVA PRÓ-ABORTO
                    LIBERTÁRIA</title>
                <p>O equívoco ético-antropológico de Thomson é tão grosseiro quanto o de Tooley e
                    cia. Thomson, não se nega, reconhece algo incontestável: o ser humano está
                    marcado pela liberdade. Mas daí conclui confusamente por uma liberdade absoluta
                    de uso e controle do próprio corpo (um direito), chegando a justificar, por
                    isso, a prática abortiva. Ela acredita que, inobstante o nascituro seja uma
                    pessoa digna dotada do direito à vida (ao menos a título argumentativo), ele não
                    tem a prerrogativa jurídico-moral de dispor da corporeidade alheia sem
                    consentimento. Por conseguinte, o aborto não seria um assassinato, um ato de
                    violação ao direito à vida; antes, consistiria unicamente na desunião orgânica
                    entre mãe e filho ou, ainda, na expulsão do último. Não é por outra razão que a
                    autora elabora as analogias do violinista, do assalto e das sementes.</p>
                <p>Ora, Thomson claramente não levou o seu raciocínio às últimas consequências. Esse
                    direito incondicional do ser humano sobre o próprio corpo culmina na liberdade
                    moral de se decidir não levar a mão ao telefone para salvar a vizinha que está
                    sendo assassinada?<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref> Tratando-se de um
                    título jurídico absoluto, o domínio do corpo torna legítimo que uma gestante
                    hospitalizada exija a dispensa da sua alimentação? Deveria um homem, após
                    infartar, desmaiar e acordar no hospital, processar a equipe médica que o
                    salvou?</p>
                <p>Thomson faz de um meio um fim último da conduta humana, comissiva ou omissiva. O
                    que ela não percebe é que a liberdade sobre o corpo somente poderia ser um
                    direito absoluto, do ponto de vista lógico, caso fosse uma realidade intrínseca
                    à autorrealização humana, um bem básico. Não é o que se verifica.</p>
                <p>Ninguém em sã consciência sustentaria que João, isento de ameaças, deveria se
                    abster de ligar para a polícia se notasse que sua vizinha, Maria, está sob sério
                    risco de vir a ser morta. Ninguém são daria razão à mãe hospitalizada ou ao
                    paciente cardíaco inconformado com quem zelou pela sua vida. E por que ninguém
                    em sã consciência faria isso? Exatamente porque a liberdade sobre o próprio
                    corpo é limitada, não é um fim em si mesmo. Ao contrário, a liberdade é um
                        <italic>bem instrumental</italic>, existe <italic>para</italic> isso ou
                    aquilo, ela existe <italic>rumo</italic> a x, y ou z.</p>
                <p>Precisamente, a liberdade sobre o corpo está norteada à conquista dos já
                    mencionados bens da vida, do conhecimento e da sociabilidade, além dos outros
                    bens básicos existentes<xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>. Se estivesse
                    mais atenta, nesse sentido, Thomson entenderia que:</p>
                <list list-type="order">
                    <list-item>
                        <p>Um direito absoluto tem por objeto a não violação direta de certo bem
                            básico.</p>
                    </list-item>
                    <list-item>
                        <p>A liberdade sobre o corpo não é um bem básico.</p>
                    </list-item>
                    <list-item>
                        <p>Logo, inexiste um direito absoluto que tem por objeto a não violação
                            direta da liberdade sobre o corpo.</p>
                    </list-item>
                </list>
                <p>Judith Thomson poderia também – com o rigor técnico necessário – destacar que em
                    qualquer comunidade compete ao ser humano, conforme consta no tópico 3.1, os
                    deveres morais, <italic>igualmente absolutos</italic>, de não matar, não
                    estuprar, não torturar, não mentir, não furtar e não roubar. Thomson, aliás,
                    tendo compreendido o que são os bens básicos e o que significa efetivamente ter
                    uma liberdade sobre o próprio corpo, poderia destacar ainda que o ser humano,
                    pessoa que é, longe de ensimesmar-se, abandonando a responsabilidade que possui
                    ao conceber uma criança, deve estar sempre aberto aos outros. No item 3.1,
                    repise-se, diz-se: livre de distorções severas, cada ser humano está apto a
                    identificar a sua obrigação moral de perseguir e instanciar os bens básicos que
                    compõem o bem-estar dos seus semelhantes, bem esse que é seu também.
                    Reconhecendo o outro como <italic>vizinho, próximo, irmão</italic>, o ser humano
                    se habilita ao pleno desenvolvimento da sua personalidade, o qual é impossível
                    sem zelo máximo pela justiça, “o ato de dar a cada um o que é seu” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B3">AQUINO, 2003</xref>, ST, II-II, q. 58, a.11c).</p>
                <p>Em defesa de Thomson, não haveria surpresa se algum estudioso alegasse que a
                    autora, apesar de errar grosseiramente quanto ao que é a liberdade corpórea,
                    acerta em suas analogias.</p>
                <disp-quote>
                    <p>Entretanto, embora seja verdade que, em alguns casos, o aborto não é uma
                        morte intencional, é enganoso descrevê-lo simplesmente como a escolha de não
                        fornecer suporte para a vida corporal. [...] Há uma diferença moral
                        significativa entre <italic>não fazer</italic> algo que ajudaria alguém e
                            <italic>fazer</italic> algo que cause dano a alguém [...]. O aborto é o
                            <italic>ato</italic> de extrair do útero o ser humano que ainda não
                        nasceu – uma extração que geralmente o rasga em pedaços ou o violenta de
                        qualquer outra forma (<xref ref-type="bibr" rid="B25">LEE; GEORGE, 2007, p.
                            142</xref>, tradução nossa).</p>
                </disp-quote>
                <p>Isto é, a prática abortiva comumente é muito mais do que romper o vínculo
                    mãefilho. Já nos primeiríssimos estágios de uma gestação, um aborto se dá, entre
                    outros tantos métodos, por intermédio de envenenamento, esquartejamento
                    (curetagem) ou aspiração do nascituro. Enquanto o fictício violinista de Thomson
                    é <italic>deixado</italic> para morrer caso ocorra a desvinculação, um bebê, na
                    maioria das vezes, é <italic>diretamente</italic> atacado em sua integridade
                    caso haja um aborto; ele é vítima de um assassinato<xref ref-type="fn"
                        rid="fn15">15</xref>. No mais, é inegável que o bebê não equivale a um
                    assaltante. O útero materno é a sua casa, seu habitat natural. Um bebê jamais
                    será um agressor de sua mãe. Ele apenas cresce e se desenvolve nos termos
                    biologicamente exigidos; ele, por si só, nada manifesta de agressivo ou violento
                    a quem quer que seja.</p>
                <p>Imagine-se o seguinte exemplo oferecido pelo filósofo norte-americano Patrick
                    Lee. Um bote salva-vidas está encalhado no mar. Nele há cinco pessoas, mas, com
                    o passar do tempo, percebe-se que a sua estrutura suporta não mais que três ou
                    quatro indivíduos. Seria razoável que alguém fosse apontado como um agressor,
                    ainda que a sua existência contínua seja uma ameaça? Seria razoável culpabilizar
                    esse alguém? É claro que não seria. O fato de essa pessoa estar no bote não
                    corresponde a uma ação direcionada a destruir a vida ou o bem-estar das demais
                    pessoas. Não é algo que faz dela um invasor, um carrasco, um atacante. Congênere
                    é a situação do nascituro. Em nenhuma hipótese ele pode ser comparado a uma
                    figura agressiva – um assaltante, de acordo com Thomson – pois não age para
                    atacar a sua mãe. Ele existe, nada mais (<xref ref-type="bibr" rid="B24">LEE,
                        2010</xref>).</p>
                <p>Lee destaca argutamente também o que a razoabilidade humana não pode negar: o uso
                    de contraceptivos <italic>nunca</italic> anula a responsabilidade parental, tal
                    como a segunda parte da analogia do assaltante propõe e tal como a analogia das
                    pessoas-sementes pretende demonstrar.</p>
                <p>Na realidade,</p>
                <disp-quote>
                    <p>[a] maioria das pessoas se dá conta de que os contraceptivos e outros métodos
                        para que se impeça a concepção possuem certa margem de falha. Similarmente,
                        motoristas alcoolizados são responsáveis pelos danos que venham a causar,
                        inobstante tenham feito grande esforço para evitá-los. Se a bola de beisebol
                        que eu arremesso quebra a janela de meu vizinho, eu sou o responsável por
                        compensá-lo e por consertar a janela, mesmo que tenha utilizado os meus
                        melhores esforços para jogar a bola em direção distinta. Portanto, ao
                        contrário do que Thomson argumenta, <italic>nós somos</italic> responsáveis
                        pelos resultados naturais previsíveis de nossas condutas mesmo quando os
                        tenhamos tentado evitar (<xref ref-type="bibr" rid="B24">LEE, 2010, p.
                            137</xref>, tradução nossa).</p>
                </disp-quote>
                <p>Muitos outros contraexemplos caberiam relativamente às analogias de Thomson.
                    Isso, a propósito (a constante refutação à sua imaginação), tem sido feito com
                    algum sucesso há vários anos por diferentes estudiosos, de modo que as breves
                    linhas desse tópico são esboços de algo que pode ser encontrado vasta e
                    facilmente em escritos dos últimos quatro decênios<xref ref-type="fn" rid="fn16"
                        >16</xref>. Ainda assim, o equívoco ético-antropológico da perspectiva
                    pró-aborto libertária de Thomson parece aqui bem delineado, cabendo, finalmente,
                    a seguir, a demonstração do equívoco ético-antropológico que nutre a perspectiva
                    pró-aborto relacional.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>3.3 O EQUÍVOCO ÉTICO-ANTROPOLÓGICO DA PERSPECTIVA PRÓ-ABORTO
                    RELACIONAL</title>
                <p>O equívoco ético-antropológico da perspectiva pró-aborto relacional repousa na
                    adoção de um critério arbitrário de favorecimento dos mais fortes e influentes.
                    Decide-se quem é pessoa mediante relações de poder.</p>
                <p>O raciocínio nazista, sabe-se, deu-se nessas bases. O regime nacional-socialista
                    alemão (1933-1945), assente em um único partido e liderado por Adolf Hitler, em
                    pouco tempo se estruturou para o alcance de suas finalidades ideológicas,
                    sobretudo quanto ao racismo, o que resultou no brutal assassinato de milhões de
                    pessoas (judeus, ciganos, cristãos etc.). Além dos adultos e das crianças,
                    Hitler expandiu a sua política de limpeza étnica aos nascituros. Já em 1935, a
                    prática abortiva era implicitamente permitida por questões raciais condizentes
                    com a ideologia nazista, a ponto dos chamados Tribunais de Saúde Hereditária
                    declararem, em certas oportunidades, <italic>situações emergenciais de
                        raça</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B9">DAVID <italic>et al.</italic>,
                        1988</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">LIFTON, 1986</xref>).</p>
                <p>Não à toa, no processo RuSHA (<italic>apud</italic>
                    <xref ref-type="bibr" rid="B21">HUNT, 1996, p. 58</xref>, tradução nossa), entre
                    as atividades nazistas que motivaram condenação, estava o aborto racial, o qual,
                    nos termos da acusação, consistiu em “um ato de extermínio”, um “tratamento
                    cruel de uma população civil”.</p>
                <p>De maneira muito semelhante, porém em outro contexto, a perspectiva relacional
                    que embasa muitos abortos foi (e continua sendo) utilizada para justificar o
                    absurdo da escravidão.</p>
                <p>Uma rápida comparação entre os fundamentos que embasaram as decisões de dois dos
                    mais importantes julgamentos dos últimos 200 anos demonstra isso.</p>
                <p>Vejam-se as semelhanças.</p>
                <disp-quote>
                    <p>Nos Estados Unidos, a Suprema Corte americana, no caso <italic>Dred
                            Scott</italic>, em 1857, defendeu a escravidão e o direito de matar o
                        escravo negro, à luz dos seguintes argumentos: (1) o negro não é uma pessoa
                        humana e pertence a seu dono; (2) não é pessoa perante a lei, mesmo que seja
                        tido por ser humano; (3) só adquire personalidade perante a lei ao nascer,
                        não havendo preocupação com sua vida; (4) quem julgar a escravidão um mal,
                        que não tenha escravos, mas não deve impor essa maneira de pensar aos
                        outros, pois a escravidão é legal; (5) o homem tem o direito de fazer o que
                        quiser com o que lhe pertence, inclusive com seu escravo; (6) a escravidão é
                        melhor do que deixar o negro enfrentar o mundo. Em 1973, no caso <italic>Roe
                            v.Wade</italic>, os argumentos utilizados, naquele mesmo país, para
                        hospedar o aborto foram os seguintes: (1) o nascituro não é pessoa e
                        pertence à sua mãe; (2) não é pessoa perante a lei, mesmo que seja tido por
                        ser humano; (3) só adquire personalidade ao nascer; (4) quem julgar o aborto
                        mau, não o faça, mas não deve impor essa maneira de pensar aos outros; (5)
                        toda mulher tem o direito de fazer o que quiser com o seu corpo; (6) é
                        melhor o aborto, do que deixar uma criança malformada enfrentar a vida
                        (MARTINS <italic>apud</italic>
                        <xref ref-type="bibr" rid="B26">MARTINS, 2005, p. 34</xref>).</p>
                </disp-quote>
                <p>Por intermédio do aborto relacional, pois, o homem arroga a vida do nascituro
                    para si, possuindo-a e tomando-a como se estivesse diante de um objeto, uma
                    peça. Mas o homem não tem esse poder (cf. tópicos 3.1 e 3.2). O nascituro é
                    pessoa humana digna a qual não se deve, jamais, o homicídio. O que se deve ao
                    nascituro são os bens básicos – como a vida – que constituem aspectos da sua
                    autorrealização pessoal e possibilitam o seu direito moral absoluto de não ser
                    morto por outrem.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>4 O ATO DO ABORTO À LUZ DO PERSONALISMO REALISTA</title>
            <p>O apontamento dos equívocos referentes aos fundamentos ético-antropológicos das três
                principais perspectivas pró-aborto contemporâneas – as perspectivas funcionalista,
                libertária e relacional – está, por certo, também subsidiado por um fundamento
                ético-antropológico específico; no caso, o <italic>personalismo
                realista</italic>.</p>
            <p>O personalismo realista destaca que todo e qualquer ser humano é um tipo de ser
                marcado por uma dignidade intrínseca desde a sua origem biológica até a sua morte,
                estando, com isso, amparado pela titularidade de deveres e direitos que antecedem
                positivação estatal.</p>
            <p>De modo estrutural, o que o personalismo realista propõe pode ser assim disposto:</p>
            <list list-type="order">
                <list-item>
                    <p><italic>Ontologicamente</italic>, um ser humano equivale a uma pessoa, a um
                        todo uno racional. Devido a sua personalidade, cada ser humano pode
                        assimilar o sentido dos objetos, pode ordenar os fatos existentes, pode
                        alterar o estado bruto das coisas. O homem, e só o homem, sob a condição
                        pessoal, tem a capacidade de modelar conscientemente a natureza à sua
                        imagem, dando ao mundo um dinamismo criativo que nenhuma outra espécie
                        conseguiria. O homem entende, explica e inova. Ele consiste em uma figura
                        pronta e acabada que reserva infinitas possiblidades.</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p><italic>Axiologicamente</italic>, um ser humano é sempre digno em si, merece
                        máxima estima. Acredite-se ou não na existência divina, enquanto pessoa, o
                        homem comporta a aptidão racional de livre determinação dos próprios passos
                        que somente um ser especificamente semelhante a Deus teria (embora de
                        maneira imperfeita). Melhor dizendo, um ser humano tem uma dignidade
                        intrínseca porque é pessoa, e, uma vez que todo e qualquer ser humano é
                        pessoa, todo e qualquer ser humano tem, necessariamente, a mesma dignidade,
                        uma dignidade avessa a acidentes, como idade, peso, tamanho, sexo, estágio
                        de desenvolvimento orgânico etc.</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p><italic>Biologicamente,</italic> um ser humano surge logo após o término da
                            concepção<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref>. Um estudo mínimo dos
                        primeiríssimos dias embrionários demonstra isso.</p>
                    <list list-type="simple">
                        <list-item>
                            <p>(3.1) Terminada a concepção, o embrião – em virtude do seu genoma e
                                do seu perfil epigenético<xref ref-type="fn" rid="fn18">18</xref> –
                                está pronto para passar por um processo de desenvolvimento contínuo
                                até a maturidade da espécie a qual pertence; portanto, por um
                                processo que demanda uma rigorosa unidade. Ele, o embrião, sob o
                                comando dos seus genes, acha-se envolvido pela ativação do ciclo
                                mitótico, pela regulação desse mesmo ciclo, pela produção de
                                proteínas, pela interação química diversificada, pelo crescimento
                                interno e pela diferenciação das suas células, entre outras
                                atividades que apenas uma estrutura una poderia estar sujeita (<xref
                                    ref-type="bibr" rid="B1">ANDERSON, 2007</xref>; <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B2">ARKES <italic>et al.</italic>,
                                    2005</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">CONDIC, 2008</xref>;
                                    <xref ref-type="bibr" rid="B7">CONDIC; CONDIC, 2018</xref>).</p>
                        </list-item>
                        <list-item>
                            <p>(3.2) Não só isso. Também em razão do seu genoma e do seu perfil
                                epigenético, o embrião acha-se vivo; ele já comporta todas as
                                características comuns aos viventes celulares: coordenação,
                                excitabilidade, reprodutibilidade, herança de caracteres e tendência
                                evolutiva (<xref ref-type="bibr" rid="B5">CHIRAS, 2019</xref>; <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B35">PHELAN, 2014</xref>; <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B39">SERRA; COLOMBO, 2007</xref>).</p>
                        </list-item>
                        <list-item>
                            <p>(3.3) Mais: pelo seu novo genoma, o embrião acha-se ainda dotado de
                                cada uma das moléculas de DNA típicas da espécie humana; ele é um
                                integrante da humanidade (<xref ref-type="bibr" rid="B29">MOORE;
                                    PERSAUD; TORCHIA, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32"
                                    >O’RAHILLY; MILLER, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B40"
                                    >SCHOENWOLF <italic>et al.</italic>, 2014</xref>; <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B38">SERRA, 2004</xref>; <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B39">SERRA; COLOMBO, 2007</xref>).</p>
                        </list-item>
                        <list-item>
                            <p>(3.4) Ora, se a origem biológica do ser humano ocorre quando da
                                concepção (cf. nota 17), e, do ponto de vista filosófico, todo ser
                                humano é pessoa digna, fica claro que é na concepção mesmo que se
                                inaugura a existência de um ser humano, pessoal e digno.</p>
                        </list-item>
                    </list>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p><italic>Juridicamente</italic>, um ser humano possui múltiplos deveres e
                        direitos morais. Conforme consta no tópico 3.1, o homem, por ser pessoa, é
                        capaz de conhecer bens básicos, instanciá-los moralmente, e alcançar deveres
                        e direitos cuja existência é anterior a algum tipo de autorização ou
                        reconhecimento pelo Estado. A titularidade jurídica da pessoa humana é
                        originária, não uma concessão política.</p>
                    <list list-type="simple">
                        <list-item>
                            <p>(4.1) A maioria dos deveres e dos direitos morais são relativos, o
                                respeito devido a eles – a depender do caso concreto – pode vir a
                                ser descartado, excluído. Isso ocorre porque tais deveres e direitos
                                tutelam bens instrumentais, meios para bens básicos. Exemplos são os
                                deveres e os direitos morais que abrangem os bens instrumentais da
                                liberdade, da igualdade e do trabalho. Eles são importantíssimos?
                                Seguramente. Entretanto, eles são também passíveis de legítima e
                                    <italic>rara</italic> violação em determinadas situações
                                incompatíveis com a instanciação de propósitos intrinsecamente
                                benéficos (cf. tópico 3.2).</p>
                        </list-item>
                        <list-item>
                            <p>(4.2) Os deveres e os direitos morais absolutos, por outro lado, são
                                aqueles sempre invioláveis por coibirem condutas em si mesmas
                                adversas aos bens básicos. Alguns exemplos constam no tópico 3.1 e,
                                como se vê, tratam de atos atrozes: matar, roubar, torturar, mentir,
                                furtar e roubar.</p>
                        </list-item>
                        <list-item>
                            <p>(4.3) Por isso não cabe ao legislador de qualquer ordenamento
                                jurídico-positivo fazer o que bem entende, como se inexistisse uma
                                objetividade moral no âmbito das relações humanas. A lei positiva,
                                objeto do seu trabalho, existe para que bens básicos sejam
                                constantemente buscados e realizados, fato impossível na hipótese de
                                supressão ou menoscabo dos absolutos morais. Sem dúvida, caso o
                                legislador verifique que existe harmonia entre os costumes de uma
                                comunidade e os deveres e direitos morais absolutos, ele deve fazer
                                de tudo para que a positivação jurídica seja uma experiência de
                                concretude histórico-cultural; mas é também incumbência sua jamais
                                abrir mão de promover o que, a todo momento, é certo e de evitar o
                                que, a todo momento, é errado.</p>
                        </list-item>
                    </list>
                </list-item>
            </list>
            <p>O que aqui se denomina <italic>personalismo realista</italic> contrasta, assim, tanto
                com compreensões transpersonalistas que diminuem a pessoa a um instante da
                comunidade (da classe, do grupo) quanto com compreensões individualistas segundo as
                quais as condutas da pessoa humana devem se dar, impreterivelmente, à parte dos
                interesses comunitários.</p>
            <p>Inspirado, sobretudo, em Aristóteles e Tomás de Aquino, além de seus intérpretes
                hodiernos, como os supracitados John Finnis, Germain Grisez, Joseph Boyle, Robert P.
                George, Patrick Lee, Christopher Tollefesen, Robert Spaemann e Christopher Kaczor, o
                personalismo realista propõe uma visão integral da personalidade do homem,
                declarando-a ontológica, axiológica, biológica e juridicamente sem negar a
                possibilidade de se conhecer e de se observar a humanidade sob inesgotáveis ângulos.
                Para o personalismo realista, em outro tom, a pessoa humana é o que há de mais
                perfeito na realidade, e, assim o sendo, está cingida por preceitos ético-jurídicos
                (ou morais) que lhe resguardam a própria perfeição.</p>
            <p>No contexto do ato do aborto que é assunto de preocupação central neste artigo, o
                personalismo realista, por exigência racional e não por capricho, denuncia, de tal
                sorte, o seu comum equívoco. A interrupção da gestação antes do término modelar de
                nove meses costuma ser uma afronta direta ao direito moral absoluto que o nascituro
                possui de não ser morto por outrem desde a sua concepção. Fala-se
                    <italic>costuma</italic> pois é inegável a existência de situações excepcionais
                em que o direito mencionado não é violado pelo ato do aborto. A diferenciação da
                prática abortiva em ao menos três tipos pode esclarecer isso<xref ref-type="fn"
                    rid="fn19">19</xref>.</p>
            <p>Primeiramente, cabe entender aquele que parece ser o mais corriqueiro tipo de aborto,
                o <italic>aborto voluntário</italic>. Trata-se do ato no qual é sabido que o
                nascituro consiste em um ser digno dotado do mesmo direito que cada um dos seus
                semelhantes tem de não ser morto, assassinado. Nesse tipo de aborto, a morte do
                embrião ou do feto é intencionada a despeito de se saber que ele dispõe de uma
                natural titularidade jurídica tal como qualquer outra pessoa. Disso surge a já
                habitual pergunta: essa prática é legítima? Ou melhor, teria a mulher o direito de
                ser livre para realizar quantos abortos voluntários bem entender? Certamente não. O
                direito do nascituro de não ser morto por outrem é especial; é um direito moral
                absoluto logo quando do término do processo concepcional<xref ref-type="fn"
                    rid="fn20">20</xref>, algo suficiente para se apreender o aborto voluntário como
                um ato em si mesmo antijurídico ou imoral.</p>
            <p>Quando o homem arroga para si, intencionalmente, a vida do seu semelhante, ele se
                fecha aos bens básicos e a todas as suas correspondências. O referencial dos seus
                atos é o que se quer, em contraste ao que se deve querer. O homem, desejando a morte
                do embrião ou do feto, exalta apenas o que lhe parece agradável ou conveniente, a
                ponto de o nascituro perder o sentido autêntico do todo universal que é, para ser
                tomado por relações que fazem da sua extinção a emancipação de responsabilidades, a
                libertação de encargos.</p>
            <p>Por esse motivo há uma popularidade crescente de afirmações como “a mulher não é um
                útero a serviço da sociedade” (BARROSO <italic>apud</italic>
                <xref ref-type="bibr" rid="B8">DAL PIVA, 2018</xref>), “a negação do aborto infringe
                o direito das mulheres à liberdade, autodeterminação e integridade física” (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B39">WARREN, 1991, p. 305</xref>, tradução nossa), “se os
                homens pudessem engravidar, o aborto seria um sacramento” (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B20">HOBBS, 1971, p. 20</xref>, tradução nossa), ou ainda, “ninguém é
                moralmente obrigado a fazer grandes sacrifícios de saúde, de todos os outros
                interesses e preocupações, de todos os outros deveres e compromissos, por nove anos,
                ou mesmo por nove meses, a fim de manter outra pessoa viva” (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B44">THOMSON, 1971, p. 62</xref>, tradução nossa). É precisamente contra
                essa liberdade da indiferença refletida no aborto voluntário que o homem deve se
                insurgir; caso contrário, terminará ele mesmo por se autodestruir.</p>
            <p>Em segundo lugar, merece especial atenção o <italic>aborto persuadido</italic>. Nesse
                aborto, percebida equivocadamente a realidade em virtude de uma persuasão (seja como
                for), ignora-se a natural titularidade jurídica do nascituro ou, ainda que haja
                ciência desta, acredita-se que a sua expressão é menos intensa se comparada com a
                titularidade jurídica de outrem.</p>
            <p>Especificamente, o aborto persuadido pode ocorrer em seis situações, no mínimo: (1)
                quando há uma persuasão no sentido de que o nascituro não é um ser vivo, logo não
                tem direitos; (2) quando há uma persuasão no sentido de que o nascituro, embora
                vivo, não é um ser humano, logo não tem direitos; (3) quando há uma persuasão no
                sentido de que o nascituro, embora vivo e humano, não é um ser pessoal, logo não tem
                direitos; (4) quando há uma persuasão no sentido de que o nascituro, embora vivo,
                humano e pessoal, não é um ser digno, logo não tem direitos; (5) quando há uma
                persuasão no sentido de que o nascituro é uma pessoa digna em potência, logo possui
                direitos menos consistentes que uma pessoa digna em ato; e (6) quando há uma
                persuasão no sentido de que o nascituro é efetivamente digno em menor amplitude se
                comparado a outras pessoas, logo possui direitos inigualáveis aos direitos daqueles
                que são mais dignos.</p>
            <p>Imagine-se que uma adolescente de doze ou treze anos engravida do seu, também jovem,
                namorado. Ingênua e confiando em seus pais, adultos instruídos, ela é convencida por
                estes a realizar um aborto sob a argumentação de que a vida humana tarda a aparecer;
                de que ali, no seu útero, não há uma criança, há uma massa informe, apenas um
                conjunto de células. Nas poucas conversas que prosseguem, diz-se no máximo que ela
                se sentirá melhor, poderá seguir em frente, terá uma vida normal. Em nenhum momento
                são mencionadas as etapas do que está por vir, nem mesmo os riscos envolvidos.
                Fala-se tão somente em procedimento médico.</p>
            <p>Pergunta-se: realizado o aborto, ao consentir – pela persuasão – com o seu exercício,
                a jovem violou o direito moral absoluto do nascituro de não ser morto por outrem?
                Ela deve ser responsabilizada tal como se tivesse praticado um aborto do tipo
                voluntário?</p>
            <p>A resposta à primeira questão é positiva. Embora ignorante e objeto de uma estratégia
                comunicativa, a jovem, objetivamente, participou do homicídio do seu filho,
                contrariando um absoluto moral. Mesmo sem saber, ela anuiu com o extermínio de uma
                pessoa humana digna como qualquer outra e, dessa forma, agiu injustamente ao
                favorecer a violação do bem da vida. Distinta, contudo, indica-se a resposta ao
                segundo questionamento. Caso alguém, tomando as precauções devidas sobre o que fazer
                ou não fazer, realize um ato imoral que, por persuasão, pense ser moral, não se
                torna inequivocamente responsável pelo prejuízo originado; é antes, dadas as devidas
                proporções, tão vítima quanto o ofendido. A jovem da ilustração buscou amparo em
                seus pais, parecendo desarrazoada equiparar a sua responsabilização moral à
                responsabilização moral de quem pratica um aborto voluntário.</p>
            <p>Outro, provavelmente, seria o cenário de responsabilização na hipótese de uma adulta.
                Mas os equívocos intelectuais propagados pelos crescentes movimentos pró-aborto –
                equívocos abraçados pela imensa maioria dos Estados, organizações internacionais e
                meios de comunicação<xref ref-type="fn" rid="fn21">21</xref> – têm induzido várias
                mulheres experientes a ver o nascituro como uma coisa, pelo menos durante parte
                significativa da gestação. A mensagem de tolerância e compaixão quanto à prática
                abortiva é transmitida com tanta propriedade, que muitas pessoas se limitam a não
                questioná-la, pensando estar bem informadas.</p>
            <p>Não se nega, note-se, que alguma intuição costuma apontar o real sentido do nascituro
                (um ser plenamente digno); que, em geral, a persuasão abortiva acomete pessoas
                pueris, emocionalmente fragilizadas ou simplesmente fiéis ao que está juridicamente
                positivado. Porém, esse tipo de aborto existe e ignorá-lo seria um erro.</p>
            <p>O terceiro e último tipo de aborto, aquele em razão do qual se diz logo acima que a
                prática abortiva <italic>costuma</italic> violar (ou seja, nem sempre viola) o
                direito moral absoluto que o nascituro possui de não ser morto por outrem desde a
                sua concepção, é o <italic>aborto terapêutico</italic><xref ref-type="fn" rid="fn22"
                    >22</xref>.</p>
            <p>O aborto terapêutico consiste na interrupção da gestação cuja morte do nascituro é um
                    <italic>efeito colateral</italic> advindo de um procedimento médico
                    <italic>indispensável</italic> à salvaguarda da vida materna que se encontra em
                    <italic>imediato</italic> perigo e <italic>não é arbitrariamente
                    preferida</italic>. Esse aborto se refere, pois, ao ato no qual o único meio
                para se salvar a vida da gestante de atual ameaça, sem predileção descomedida, é
                agressivo ao nascituro, resultando indiretamente na morte dele.</p>
            <p>Exemplos não faltam. O aborto terapêutico pode ocorrer quando é imprescindível a
                remoção do útero materno tomado por um tumor maligno; nas circunstâncias em que a
                gestante desenvolve alguma cardiopatia inconciliável com a continuidade da gravidez;
                quando se revela inevitável a retirada da trompa uterina afetada pela gestação
                ectópica; nos casos de quimioterapia etc. Tantas são as ilustrações (hoje
                    <italic>muito</italic> contornáveis devido ao avanço tecnológico) que uma lista
                taxativa não teria sentido. Sentido teria indagar se tais práticas são, por
                natureza, antijurídicas ou imorais, e tudo indica que não.</p>
            <p>Desde o século XIII, após as reflexões éticas de Tomás de Aquino, houve o
                amadurecimento da chamada <italic>doutrina</italic> ou <italic>princípio do duplo
                    efeito</italic>. Segundo essa doutrina, atribuída ao aquinate por conta de suas
                reflexões sobre a legítima defesa (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AQUINO,
                    2003</xref>, ST, II-II, q. 64, a. 7), um ato conserva a legitimidade
                jurídico-moral toda vez que, visando a um efeito bom, produz, proporcionalmente, um
                efeito mau colateral, isto é, um efeito mau que não é um fim em si, muito menos é um
                meio para o efeito bom. Dito de outro modo, dentro das balizas da doutrina do duplo
                efeito, uma conduta é moralmente justificável:</p>
            <list list-type="order">
                <list-item>
                    <p>Quando tem por objetivo um efeito bom;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Quando gera um efeito mau não intencional em si mesmo;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Quando o efeito mau gerado não é meio para o efeito bom; e</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Quando está fundada em uma relação proporcional entre os dois efeitos
                        existentes, o que exige a avaliação dos bens envolvidos.</p>
                </list-item>
            </list>
            <p>Todo aborto terapêutico, <italic>nos termos da definição que se sugere</italic>,
                preenche esses pontos. Primeiro, porque visa a um efeito bom (salvar a vida
                materna). Segundo, porque nele o efeito mau (a morte do nascituro) não é
                intencionado. Terceiro, porque esse mesmo efeito mau não consiste em um meio para o
                efeito bom. E, por fim, porque ambas as vidas, a da mãe e a do nascituro, são bens
                igualmente benéficos, afastando-se a possiblidade de o efeito bom ser tido como
                desproporcional se comparado ao efeito mau.</p>
            <p>Concretamente, isso indica que o aborto terapêutico não viola o direito moral
                absoluto do nascituro de não ser morto por outrem. A morte advinda da sua prática
                não é fim ou meio, sendo em si mesma um efeito mau colateral adequado à conservação
                vital da gestante. Em situações desse tipo, na realidade, falar em homicídio ou em
                assassinato é um equívoco. Enquanto que no aborto voluntário e no aborto persuadido
                a morte do nascituro está no plano dos fins e dos meios, no caso do aborto
                terapêutico ela se expressa colateralmente sob laços de proporcionalidade, razão
                pela qual nenhuma responsabilização é necessária<xref ref-type="fn" rid="fn23"
                    >23</xref>.</p>
            <p>Ressalve-se, assim, que a posição aqui assumida nada tem a ver com uma preferência
                arbitrária. Ela está relacionada com a tolerância da cessação de um bem, no intuito
                de que se conserve, de perigo existencial inevitável, bem equivalente. Está dito:
                inexiste hierarquia entre a vida materna e a vida intrauterina. Caso, por exemplo, o
                médico constate que o nascituro tem maior expectativa de sobrevivência relativamente
                à sua mãe, é razoável que lhe dê preferência. Se, no entanto, for diferente, se a
                mãe estiver em melhores condições de ser salva, é plausível que o médico dê
                prioridade à sua preservação. E na hipótese de ambos, nascituro e mãe, terem as
                mesmas chances de continuarem vivos, não podendo o médico salvar os dois, questões
                secundárias, como a afeição ou a sensibilidade físico-emocional são fundamentais
                para a devida determinação procedimental.</p>
            <p>O fato de se assegurar que o aborto terapêutico – em nenhum momento – é
                intrinsecamente antijurídico ou imoral, fazendo-se plausível em virtude da doutrina
                do duplo efeito, não significa que o médico está obrigado a realizá-lo custe o que
                custar. O seu dever é assistir dois pacientes, mãe e filho, <italic>pessoas</italic>
                merecedoras de igual estima.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>5 CONCLUSÃO</title>
            <p>Nenhuma surpresa haveria se alguém acusasse o personalismo realista de ser
                demasiadamente proibitivo ou intensamente avesso à liberdade. Não se trata disso,
                porém. O personalismo realista nada cria, nada inventa. O personalismo realista
                apenas constata que todo ser humano é, por natureza, pessoa; que toda pessoa humana
                é digna em si mesma; que a dignidade pessoal, sendo inerente a qualquer membro da
                espécie <italic>Homo Sapiens</italic>, dá-se no mundo quando um novo ser humano é
                concebido; e que a dignidade pessoal humana implica deveres e direitos morais. Em
                uma só frase, o ser humano é <italic>alguém</italic> em vez de
                <italic>algo</italic>. Essa é a marca do personalismo realista, a marca do caráter
                ímpar e insubstituível do homem.</p>
            <p>Daí o comum ou geral repúdio que o ato do aborto requer. Pelo seu exercício se
                consubstancia não o valor intocável da pessoa humana, mas a reificação do nascituro
                a partir de visões parciais do que é ser pessoa. As principais perspectivas
                pró-aborto da atualidade (as perspectivas funcionalista, libertária e relacional)
                enfatizam um único aspecto da pessoa, reduzindo os demais aspectos àquele que é
                enfatizado.</p>
            <p>O funcionalismo de Michael Tooley, Peter Singer e Mary Anne Warren, lembre-se, faz da
                personalidade humana uma condição que se adquire pela viabilidade imediata de se
                usar da razão, como se o homem existisse em abstrato e não conforme características
                acidentais. Esses autores ignoram que somente um Ser Subsistente, um ente
                maximamente perfeito, pode existir como ato subtraído a algum devir – ato puro. Os
                acidentes não mudam a verdade de que a racionalidade sempre estará presente na
                natureza humana existencialmente realizada.</p>
            <p>O libertarianismo de Judith Thomson, por seu turno, absolutiza o que é relativo.
                Thomson realça corretamente que a pessoa é um ser livre, entretanto vê na liberdade
                um fim em si mesmo. Ocorre que o bem da liberdade não dispensa explicações ou
                demonstração do seu benefício intrínseco para a humanidade, de maneira que, ao se
                ressaltar a liberdade que acompanha a pessoa, faz-se inescusável também esclarecer
                que essa mesma liberdade não esgota o que é ser pessoa.</p>
            <p>Já a perspectiva pró-aborto relacional de Pierre de Locht, Ferrajoli e Geiselher
                Rüpke, ao considerar unicamente os desejos e os apreços sociais como constitutivos
                da pessoa, acaba por criar problemas tanto teóricos quanto práticos. O
                reconhecimento pessoal mediante a mera aprovação no âmbito de relações bilaterais é
                um critério que, de tão flutuante, torna-se perigoso para a promoção e a proteção
                dos direitos fundamentais da pessoa humana, entres eles o direito moral absoluto de
                não ser morto por outrem desde a concepção.</p>
            <p>Se essa mentalidade autodestrutiva, expressa, por exemplo, na escravidão, no racismo,
                na marginalização da mulher, no desprezo ao idoso e na ridicularização do
                deficiente, tem sido combatida por diferentes setores e instituições, por que não
                fazer o mesmo no caso da prática abortiva? Idêntica seria a razão última: resguardar
                a dignidade da pessoa humana.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <title>NOTA</title>
            <fn fn-type="other">
                <p>O artigo A CENTRALIDADE DOS FUNDAMENTOS ÉTICO-ANTROPOLÓGICOS NO CASO DO ABORTO:
                    UMA DEFESA DO PERSONALISMO REALISTA foi redigido e estruturado por Mário da
                    Silva Ribeiro a partir da estruturação inicial e rascunho de Lucas Fonseca dos
                    Santos. Victor Sales Pinheiro orientou e supervisionou a atividade empreendida
                    pelos dois primeiros autores, bem como realizou a revisão final do texto.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>A Nova Escola da Lei Natural tem origem na década de 1960. Entre os seus
                    principais colaboradores estão Germain Grisez, Joseph Boyle, Olaf Tollefsen,
                    John Finnis, Robert P. George, Patrick Lee, Gerard Bradley, Willian E. May,
                    Peter Ryan, Christian Brugger e Christopher Tollefsen. No Brasil, merece
                    destaque o trabalho desenvolvido por Victor Sales Pinheiro, Elton Somensi de
                    Oliveira e Arthur Maria Ferreira Neto. Essencialmente, a Nova Escola, com base
                    em textos originais de Tomás de Aquino, em vez de livros didáticos
                    neoescolásticos, sustenta que o homem, pela razão, persegue e atualiza fins
                    incomensuráveis entre si que são cruciais à felicidade. Tais fins, dada a sua
                    natureza, são chamados <italic>bens básicos</italic>, e sua violação é sempre um
                    ato de irrazoabilidade.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Cf. Ribeiro (2019, 2021).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>“As preocupações intelectuais com o conceito de pessoa têm, até os dias de hoje,
                    assumido um caráter um tanto teórico e acadêmico. Mas nos últimos anos,
                    inesperadamente, isso mudou. O termo pessoa (desde Boécio) sempre foi
                        <italic>nomen dignitatis</italic>, um conceito com conotações avaliativas
                    [...]. Agora a sua função foi invertida [...]: nem todos os seres humanos
                        <italic>são</italic> pessoas; e aqueles que o são não são pessoas em todas
                    as fases da vida ou em todos os estados de consciência” (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B43">SPAEMANN, 2012, p. 2</xref>, tradução nossa).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn4">
                <label>4</label>
                <p>Em seu artigo de 1972, <italic>Abortion and Infanticide</italic>, Tooley fala
                    apenas em <italic>desejos</italic>, jamais em <italic>interesses</italic>. Mas,
                    em seu livro homônimo de 1983, a fim de superar os contraexemplos que
                    fragilizavam a sua argumentação, Tooley opta por falar em <italic>interesses que
                        possibilitam a satisfação de desejos</italic>. Patrick Lee analisa essa
                    mudança. Ele diz: “um dos contraexemplos que leva Tooley a mudar sua posição é o
                    de um indivíduo condicionado ou doutrinado a não desejar aquilo a que tem
                    direito. Por exemplo, um escravo está [ou pode estar] condicionado a não desejar
                    a sua liberdade. Se os direitos fossem condicionados diretamente aos desejos,
                    essa situação não poderia envolver a violação de nenhum direito. Outros
                    contraexemplos são os direitos da criança à educação e a certos nutrientes,
                    digamos, o cálcio. Muito embora a criança possa carecer dos conceitos de uma boa
                    educação e de nutrientes, como o cálcio, e, portanto, carecer dos desejos
                    correspondentes, a criança ainda tem direito a essas coisas” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B24">LEE, 2010, p. 17</xref>, tradução nossa).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn5">
                <label>5</label>
                <p>“O ensaio de Thomson é o artigo mais célebre escrito sobre o tema do aborto; por
                    sinal, um dos artigos reimpressos mais vezes no debate do século XX” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B22">KACZOR, 2014, p. 137</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn6">
                <label>6</label>
                <p>O entusiasmo dos libertários com o artigo Judith Thomson é bem destacado por
                    Edward Feser em seu artigo <italic>Self-Ownership, Abortion, and The Rights Of
                        Children: Toward a more Conservative Libertarianism</italic>, publicado no
                        <italic>Journal of Libertarian Studies</italic> (2004).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn7">
                <label>7</label>
                <p>Seria possível classificar tal perspectiva relacional como uma espécie de
                    funcionalismo? Parece que sim, caso o reconhecimento esteja assente nas aptidões
                    funcionais da criança.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn8">
                <label>8</label>
                <p>Cf. Ribeiro (2019, 2021).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn9">
                <label>9</label>
                <p>Para uma defesa didática, em português, da unidade substancial entre corpo e alma
                    racional que o ser humano é, cf. <xref ref-type="bibr" rid="B36">Ribeiro
                        (2019)</xref>. No mesmo sentido, de modo resumido, cf. <xref ref-type="bibr"
                        rid="B37">Ribeiro (2021)</xref>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn10">
                <label>10</label>
                <p>Sem paráfrases, a conhecida formulação de Boécio (<italic>apud</italic>
                    <xref ref-type="bibr" rid="B3">AQUINO, 2003</xref>, ST, I, q. 29 a.1c). é:
                    “substância individual de natureza racional”. Um breve panorama histórico sobre
                    as acepções da palavra pessoa pode ser encontrado em <xref ref-type="bibr"
                        rid="B43">SPAEMANN, 2012</xref>. Similarmente, cf. <xref ref-type="bibr"
                        rid="B36">Ribeiro (2019</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B37"
                    >2021</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn11">
                <label>11</label>
                <p>Partindo de Aristóteles e Aquino, jusnaturalistas contemporâneos têm proposto
                    diversificadas listas sobre quais seriam os bens básicos ao ser humano. John
                    Finnis, o mais célebre desses pensadores, sugere um rol que abrange os bens da
                    vida, do matrimônio, do conhecimento, do lúdico, da experiência estética, da
                    sociabilidade, da religião e da razoabilidade prática (2011). Muitos outros
                    autores, por seu turno, às vezes acompanham quase por completo o conteúdo da
                    lista finnisiana (<xref ref-type="bibr" rid="B16">GEORGE, 2001</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B45">TOLLEFSEN, 2017</xref>), às vezes seguem um
                    caminho mais crítico, admitindo catalogações com maiores diferenças (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B4">CHAPPEL, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B30">ODERBERG, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">GOMÉZ-LOBO,
                        2002</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn12">
                <label>12</label>
                <p>Entende-se, neste artigo, que as expressões <italic>deveres e direitos
                        morais</italic> equivalem às expressões <italic>deveres e direitos naturais,
                        deveres e direitos humanos, deveres e direitos fundamentais, deveres e
                        direitos pré-positivos</italic>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn13">
                <label>13</label>
                <p>No artigo <italic>Rights and Wrongs of Abortion</italic> (1973), John Finnis,
                    questionando rigor técnico de Thomson ao falar em um direito sobre o próprio
                    corpo, lembra do assassinato de Kitty Genovese.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn14">
                <label>14</label>
                <p>Sobre os demais bens básicos existentes, cf. nota 11.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn15">
                <label>15</label>
                <p>A exceção envolve a doutrina ou princípio do duplo efeito. Especificamente, diz
                    respeito aos abortos em que a morte do nascituro é um <italic>efeito
                        colateral</italic> decorrente de um procedimento médico
                        <italic>indispensável</italic> à salvaguarda da vida materna que está em
                        <italic>imediato</italic> perigo e não é <italic>arbitrariamente</italic>
                    preferida. Cf. nesse sentido <xref ref-type="bibr" rid="B36">RIBEIRO,
                        2019</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B37">2021</xref>. Cf. também <xref
                        ref-type="bibr" rid="B12">FINNIS, 1993</xref>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn16">
                <label>16</label>
                <p>Além dos trabalhados já mencionados neste tópico, como (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B15">FINNIS 1973</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">LEE; GEORGE,
                        2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24">LEE, 2010</xref>). cf. também
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B11">FESER, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B22">KACZOR, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B30">ODERBERG,
                        2009</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn17">
                <label>17</label>
                <p>Para uma análise mais completa da origem do ser humano, fazendo-se referência à
                    possibilidade de, <italic>excepcionalmente</italic>, um ser humano surgir com a
                    cisão gemelar, cf. <xref ref-type="bibr" rid="B36">Ribeiro (2019</xref>, <xref
                        ref-type="bibr" rid="B37">2021</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn18">
                <label>18</label>
                <p>A expressão perfil epigenético (muitas vezes, alternada com os termos
                        <italic>estado</italic> ou <italic>faceta epigenética</italic>) diz respeito
                    a quais dos milhares de genes humanos estão ativos ou inativos, e, quando
                    ativos, em que nível de atividade se encontram. Cf. <xref ref-type="bibr"
                        rid="B36">Ribeiro (2019</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B37"
                    >2021</xref>). Cf. também <xref ref-type="bibr" rid="B1">Anderson (2007)</xref>
                    e <xref ref-type="bibr" rid="B34">Payne (2014)</xref>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn19">
                <label>19</label>
                <p>Cf. <xref ref-type="bibr" rid="B36">Ribeiro (2019</xref>, <xref ref-type="bibr"
                        rid="B37">2021</xref>) para maiores detalhes. Ali, pela primeira vez,
                    realiza-se a diferenciação entre aborto voluntário, aborto persuadido, aborto
                    incauto e aborto terapêutico.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn20">
                <label>20</label>
                <p>Cf. nota 17. Uma vez que, excepcionalmente, o ser humano pode surgir com a cisão
                    gemelar, é claro que o direito moral absoluto que ele possui de não ser morto
                    por outrem pode também surgir quando da referida cisão.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn21">
                <label>21</label>
                <p>Cf., por exemplo, <xref ref-type="bibr" rid="B31">Organização Mundial da Saúde
                        (2013)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B33">Parliamentary Assembly
                        (2018)</xref>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn22">
                <label>22</label>
                <p>O rol proposto não é exaustivo, reitera-se. Outro tipo de aborto é o aborto
                    incauto, aquele decorrente de negligência ou imprudência. .</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn23">
                <label>23</label>
                <p>Mesmo na dramática circunstância da craniotomia, essa modalidade abortiva parece
                    razoável? Há debate intenso quanto a isso, fazendo-se, por ora, difícil a
                    concordância com alguma das posições existentes.</p>
            </fn>
        </fn-group>
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            <title>REFERÊNCIAS</title>
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