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			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Opin. Jur.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">1806-0420</issn>
			<issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
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				<publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v14i18.p207-228.2016</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigos</subject>
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				<article-title>LIBERALISMO À MODA BRASILEIRA: O VELHO PROBLEMA DO CAPITALISMO
					POLITICAMENTE ORIENTADO</article-title>
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					<trans-title>LIBERALISM, THE BRAZILIAN WAY: THE EVERLASTING PROBLEM OF
						POLITICALLY ORIENTED CAPITALISM</trans-title>
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						<surname>Streck</surname>
						<given-names>Lenio Luiz</given-names>
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						<surname>Lima</surname>
						<given-names>Danilo Pereira</given-names>
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				<institution content-type="orgname">Unisinos</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em
					Direito</institution>
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				<country country="BR">Brazil</country>
				<email>lenio@unisinos.br</email>
				<institution content-type="original">Professor Titular do Programa de Pós-Graduação
					em Direito da Unisinos (RS). Doutor e Pós-Doutor em Direito; Ex-Procurador de
					Justiça (MP/RS). Presidente de Honra do Instituto de Hermenêutica Jurídica
					(IHJ). &lt;lenio@unisinos.br&gt;.</institution>
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				<label>**</label>
				<institution content-type="orgname">Unisinos</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Direito Público</institution>
				<country country="BR">Brazil</country>
				<email>danilopldireito@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Professor de Teoria Geral do Estado. Doutorando
					e Mestre em Direito Público pela Unisinos/RS. Bolsista Capes/Prosup. Membro do
					Grupo “Dasein - Núcleo de Estudos Hermenêuticos” (Unisinos).
					&lt;danilopldireito@gmail.com&gt;.</institution>
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			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2016</year>
			</pub-date>
			<volume>14</volume>
			<issue>18</issue>
			<fpage>207</fpage>
			<lpage>228</lpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
						distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
						que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
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			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>O trabalho procura atacar os efeitos do Estado patrimonialista sobre a sociedade
					civil, ao destacar os prejuízos que esse modelo de dominação tradicional causa
					numa sociedade democrática. É um modelo que não consegue distinguir muito bem a
					esfera pública da esfera privada, comprometendo o funcionamento de uma
					República, já que os negócios privados se apoiam excessivamente em “parcerias”
					com Estado. Enfrentar o patrimonialismo é fazer que o liberalismo brasileiro
					tenha outro caráter, mais coerente com a democracia, com o constitucionalismo e
					com o livre desenvolvimento da sociedade civil. Essas questões serão abordadas
					neste artigo, com o intuito de realizar uma reflexão sobre o funcionamento do
					Estado brasileiro; a recepção que este fez do liberalismo; e as possibilidades
					de se instituir um regime republicano em terras brasileiras.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>The article aims at attacking the effects that patrimonial State has on civil
					society, by highlighting the disadvantages that such model of traditional
					domination causes on a democratic society. It is a model that cannot properly
					distinguish the public sphere from the private, thus endangering the
					well-functioning of a Republic, since private businesses rely excessively on
					“partnerships” with the State. To confront patrimonialism is to change the
					character of Brazilian liberalism, making it more coherent with democracy, with
					constitutionalism and with the free development of civil society. These
					questions will be addressed in the present article, with the intent to reflect
					on the operation of the Brazilian State, its welcoming attitude towards
					liberalism and the possibilities to establish a republican regime in Brazil.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Liberalismo</kwd>
				<kwd>Estamento</kwd>
				<kwd>Patrimonialismo</kwd>
				<kwd>Sociedade civil</kwd>
				<kwd>Estado</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Liberalism</kwd>
				<kwd>Parliament</kwd>
				<kwd>Patrimonialism</kwd>
				<kwd>Civil Society</kwd>
				<kwd>State</kwd>
			</kwd-group>

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	</front>
	<body>
		<verse-group>
			<verse-line>“São estes os meus sentimentos e jamais</verse-line>
			<verse-line>concederei aos homens vis maiores honras</verse-line>
			<verse-line>que as merecidas tão-somente pelos justos.</verse-line>
			<verse-line>Só quem quiser o bem de Tebas há de ter</verse-line>
			<verse-line>a minha estima em vida e mesmo após a morte”.</verse-line>
			<attrib>Creonte (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Sófocles, 1996</xref>, p. 204)</attrib>
		</verse-group>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1 INTRODUÇÃO</title>
			<p>No ensaio Raízes do Brasil, escrito na década de 1930, Sérgio Buarque de Holanda
				enfrentou a concepção tradicional de Robert Filmer de que o Estado seria uma
				extensão da organização familiar, ao apontar que “não existe entre o círculo
				familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até
					oposição.”<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> Para sustentar esse
				posicionamento, Buarque de Holanda fez uma leitura original da tragédia Antígona, de
				Sófocles, ao apresentar Creonte como defensor dos interesses da comunidade política
				em oposição aos interesses familiares de Antígona. Nesse sentido, os dois
				personagens principais da tragédia apresentaram conceitos opostos de nomos (norma,
				lei). Enquanto Antígona sobrepôs o interesse familiar às leis da pólis; Creonte
				evocou os valores públicos da comunidade política em oposição aos interesses
				privatistas e afirmou que, “[...] se qualquer um tiver mais consideração por um de
				seus amigos que pela pátria, esse homem eu desprezarei.”<xref ref-type="fn"
					rid="fn2">2</xref> Assim, para o autor de Raízes do Brasil, “Creonte encarna a
				noção <italic>abstrata, impessoal da Cidade em luta contra essa realidade concreta e
					tangível que é a família</italic>.”<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> Ou
				seja, Creonte nos ensina a importância do fortalecimento das instituições públicas
				para a formação e a preservação de um regime democrático, com um Estado
				despersonalizado.</p>
			<p>Sem dúvida alguma, a originalidade deste ensaio foi fundamental para nos ajudar a
				compreender os muitos problemas oriundos de um país em formação, ao analisar, de uma
				forma diferenciada,</p>
			<p><disp-quote>
					<p>[...] as vicissitudes da construção de uma sociedade urbana a partir de
						experiências de vida associativa ilhadas no particularismo dos ‘grupos
						primários’, isto é, do círculo das relações imediatas e diretas, de pessoa a
						pessoa, como na família.<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Surgiu, assim, a tese do homem cordial, apresentada por Sérgio Buarque de Holanda
				como um verdadeiro obstáculo para a modernização do Brasil. De acordo com ele, a
				permanência da herança colonial impediria o predomínio da racionalidade na vida
				pública, já que esta se encontraria sempre sufocada pela visão afetiva própria da
				personalidade dos brasileiros, que, no caso, estariam menos propensos a utilizar a
				razão abstrata do que a paixão na condução dos assuntos de Estado. Ao mesmo tempo, o
				predomínio dessa visão afetiva também seria responsável pela formação de regimes
				políticos violentos e arbitrários, erguidos completamente fora da legalidade
				constitucional. Desse modo, “o desafio proposto para o futuro será exatamente o de
				substituir o personalismo, que fundamenta as oligarquias, pela racionalidade da vida
				pública, que pode fundamentar a democracia.”<xref ref-type="fn" rid="fn5"
				>5</xref></p>
			<p>O texto de Sérgio Buarque de Holanda é fundamental para a crítica do poder
				personalista predominante na política brasileira. Seu ensaio é considerado um
				clássico do pensamento político nacional. No entanto, as posições defendidas pelo
				autor pecam numa questão que, mais tarde, o próprio Sérgio Buarque de Holanda iria
				rever no conjunto de sua obra: a tentativa de analisar as características
				psicológicas peculiares do povo brasileiro por meio da tese do homem cordial. É como
				se houvesse uma essência fundante responsável pela formação de um caráter particular
				do povo brasileiro.</p>
			<p>Foi para romper com esse modo de abordar os problemas do Brasil, que Dante Moreira
				Leite defendeu a sua tese de doutorado, em 1954, com o título de Caráter nacional
				brasileiro: estudo de ideologias e estereótipos. Nessa pesquisa, Dante procurou
				enfrentar os estereótipos presentes nos conceitos subjacentes ao caráter nacional,
				que aparecem em importantes autores do pensamento social brasileiro, como Alberto
				Torres, Oliveira Viana, Alfredo Ellis, Paulo Prado, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque
				de Holanda, para citarmos apenas alguns dos autores analisados na obra. Para Dante,
				a psicologia do povo brasileiro pode ser considerada como o eixo principal dessa
				tradição intelectual, abordada criticamente a partir da psicologia social
					contemporânea<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>.</p>
			<p>Apesar de Sérgio Buarque de Holanda dar relevância para aspetos importantes da vida
				social brasileira, seu ensaio permaneceu preso à ideia de características
				psicológicas nacionais que determinam a formação particular de um povo.
					<italic>Dessa maneira,</italic> ao demonstrar a inexistência de qualquer prova
				científica capaz de afirmar que um povo possa ter características psicológicas
				inexistentes em outro, Dante evidenciou a fragilidade da tese do homem cordial
				sustentada em <italic>Raízes do Brasil</italic>. É principalmente nesse aspecto que
				se encontram as contradições do ensaio clássico de Sérgio Buarque de Holanda, “[...]
				que continua válido, não por sua teoria global, mas por algumas observações parciais
				e reconstruções históricas de alguns episódios e de alguns aspectos da vida
					brasileira.”<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref></p>
			<p>Por outro lado, em 1958, Faoro produziu um longo ensaio a respeito da formação do
				patronato político brasileiro, que propiciou um novo manejo dos diversos conceitos
				que Max Weber utilizava para analisar a realidade europeia. Diferentemente de Sérgio
				Buarque de Holanda, Faoro procurou explicar que as origens dos diversos problemas
				existentes na realidade política brasileira não estavam na personalidade particular
				de um povo, mas sim em outros elementos político-institucionais que tiveram seu
				nascedouro no século XIV, durante a formação do Estado português.<xref ref-type="fn"
					rid="fn8">8</xref> Nesse sentido, os desvios que aconteciam na esfera pública
				deixaram de ser explicados como uma característica do caráter do povo brasileiro,
				para serem analisados como uma questão relacionada à estrutura de poder que os
				portugueses implantaram durante a colonização e que, após a chegada da família real
				em 1808, proporcionou a formação de uma dispendiosa máquina administrativa criada
				fundamentalmente para contemplar os membros mais seletos da aristocracia
					portuguesa,<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref> que, depois de abandonarem
				seus cargos e suas propriedades para fugirem do exército de Napoleão, continuaram a
				apoiar-se no erário público para sustentar a boa vida e os antigos privilégios
				possuídos na metrópole<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>.</p>
			<p>A interpretação de Faoro toma como traço dominante da história do Brasil a tutela
				autoritária da sociedade pelo Estado. Para ele, essa situação contrariava a análise
					marxista<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>, ao demonstrar que o Estado não
				agia de maneira mais autônoma somente em momentos históricos excepcionais, numa
				situação em que as classes sociais alcançavam maior equilíbrio político. Por outro
				lado, a maneira como Faoro compreende a formação do Brasil também se coloca numa
				posição antagônica à tradição privatista sustentada por Oliveira Viana e Nestor
				Duarte, que, no caso, davam uma maior ênfase no poder dos grandes proprietários
				territoriais frente ao Estado. Segundo Faoro, as experiências políticas de Portugal
				e do Brasil haviam desmentido essas teses, proporcionando o nascimento de um Estado
				independente e autônomo, que se coloca sempre acima da própria nação. Em todos os
				períodos históricos, o estamento se comportaria como verdadeiro árbitro da
				sociedade. Assim, de acordo com Bernardo Ricupero e Gabriela Nunes, “[...] o maior
				problema do Brasil não é para Faoro a falta de poder do Estado, mas justamento o
				oposto: o poder estatal oprimindo a nação.”<xref ref-type="fn" rid="fn12"
				>12</xref></p>
			<p>Dessa forma, para Faoro, o Estado brasileiro foi formado por um estamento
				patrimonialista adequado ao modelo tradicional de dominação política, capaz de se
				amoldar a todos os momentos de transição e perpetuar um controle político no qual o
				exercício do poder não é uma função pública, mas simplesmente objeto de apropriação
				de interesses privados. Segundo ele, esse estamento burocrático jamais correspondeu
				àquela burocracia moderna, como um aparelhamento neutro, constituído em carreira
				administrativa e que sempre deve atuar com padrões bem assentados de racionalidade e
					legalidade.<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref> Para Faoro, o estamento
				burocrático encontra-se posicionado acima dos demais setores da sociedade
				brasileira, dedicando-se unicamente a tomar conta dos cargos oferecidos pela
				administração pública e sempre se posicionando no melhor lugar para a defesa de
				interesses meramente privados, já que, para esse “nobre” setor, o público e o
				privado nunca estão separados.</p>
			<p>Esse modelo de organização do Estado gerou uma forma particular de desenvolvimento
				econômico, chamada por Faoro de capitalismo politicamente orientado. Nele, os riscos
				da atividade privada, que deveriam ocorrer no âmbito do funcionamento normal do
				mercado, não se estabelecem inteiramente por causa da própria sociedade civil,
				conforme o posicionamento do pensamento liberal. Ao contrário, no Brasil, é o Estado
				que se coloca como principal patrocinador dos negócios privados, assumindo uma
				postura nada republicana. Assim, “a trama entre Estado e burocracia, por um lado, e
				sociedade civil, classes e mercado pelo outro é mais complexa, sendo difícil admitir
				uma autonomia tão forte entre um dos dois polos do binômio.”<xref ref-type="fn"
					rid="fn14">14</xref></p>
			<p>Dessa forma, a partir da atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), o
				presente artigo pretende analisar as incoerências da elite política brasileira na
				recepção do pensamento liberal. Seria mesmo liberal a maneira como o importante
				banco estatal distribui ou investe seus recursos na atividade privada? O liberalismo
				brasileiro estaria contraditoriamente fundamentado numa atuação forte do Estado em
				negócios privados? E mais, a aplicação desses recursos segue algum critério
				constitucional e republicano exigido por um Estado Democrático de Direito? Estes e
				outros questionamentos serão abordados nos próximos tópicos, com o intuito de
				realizar uma reflexão sobre o funcionamento do Estado brasileiro; a recepção que
				este fez do liberalismo; e as possibilidades de se instituir um regime republicano
				em terras brasileiras.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 O PENSAMENTO LIBERAL E AS LIMITAÇÕES DO ESTADO</title>
			<p>A modernidade inaugurou uma nova organização política por meio da criação do Estado.
				Essa mudança teve como consequência a ruptura com as formas anteriores de
				estabelecimento do poder político, ainda envolvidas em fundamentações teológicas e
				na pessoalidade do governante<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref>. A partir da
				modernidade, tornou-se necessário separar a política da religião; superar a
				fragmentação do poder político, presente no medievo; e afastar o controle pessoal
				das instituições políticas, conforme a teoria dos dois corpos do rei, começou a
				realizar no contexto inglês<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref>. Nasceu, assim,
				o Estado.</p>
			<p>Seu aparecimento ocorreu primeiramente como Estado absolutista, ao apresentar uma
				resposta aos diversos problemas e contradições oriundas da desintegração da
				sociedade feudal. Durante a Idade Média, o feudalismo se destacou como uma unidade
				orgânica de economia e dominação política, baseado em uma cadeia de domínios
				parcelares na qual o exercício do poder político se encontrava completamente
				fragmentado. Não havia Estado, apenas a Igreja possuía certa unidade institucional,
				o que acabou favorecendo seu domínio político<xref ref-type="fn" rid="fn17"
					>17</xref>. As relações sociais, entre os membros da aristocracia, eram marcadas
				essencialmente pelo dever de vassalagem e de serviço militar, exercidas diretamente
				pelos senhores feudais. A aristocracia não trabalhava diretamente em suas terras e
				se dedicava exclusivamente às atividades militares; enquanto, do outro lado, o servo
				estava ligado permanentemente à terra, sendo obrigado a trabalhar alguns dias da
				semana apenas para pagar as obrigações devidas ao seu senhor.</p>
			<p>No início da Idade Moderna, essas relações sociais se desestruturaram completamente,
				colocando em crise toda a estrutura política, econômica e social do feudalismo.
				Segundo Nicola Matteucci, essa crise do complexo modelo de organização feudal foi
				motivada por distintos fatores: o crescimento econômico, que favoreceu o nascimento
				das novas classes sociais e o rompimento com o estático equilíbrio da sociedade
				estamental; a nova cultura humanista, que passou a situar o indivíduo no centro do
				mundo, tornando-o insensível diante de uma ordem social natural correspondente a uma
				ordem celeste; e o surgimento do Estado, que se afirmou como uma máquina construída
					racionalmente<xref ref-type="fn" rid="fn18">18</xref>.</p>
			<p>Nesse sentido, o Estado absolutista veio para superar a ultrapassada estrutura social
				e política do medievo, colocando-se em um nível superior em comparação com qualquer
				instituição existente naquela época, já que a monopolização do poder político e da
				força militar permitiu uma maior uniformidade legislativa e administrativa frente às
				várias formas particularistas de exercício do poder<xref ref-type="fn" rid="fn19"
					>19</xref>. Com a formação de um moderno quadro burocrático e um exército
				regular, o Estado absolutista se transformou no único sujeito político com
				capacidade para regular o comportamento dos indivíduos e das forças sociais, ao
				oferecer melhores condições para a pacificação interna e externa<xref ref-type="fn"
					rid="fn20">20</xref>.</p>
			<p>É importante destacar que a transição do medievo para a idade moderna não ocorreu de
				maneira tranquila. No século XVI, a ordem estabelecida pelo feudalismo entrou em
				plena decadência, e o fim da unidade da Igreja Católica, a partir da reforma
				protestante, acabou por agravar ainda mais o quadro de extrema violência desse
				período. Diversas facções religiosas passaram a se digladiar, deixando a sociedade
				em uma anarquia generalizada de guerras civis, duelos e assassinatos. De acordo com
				Reinhart Koselleck, “[...] a pluralização da <italic>Ecclesia Sancta</italic> foi um
				fermento para a depravação de tudo o que antes era coeso: famílias, estamentos,
				países e povos.”<xref ref-type="fn" rid="fn21">21</xref></p>
			<p>A instabilidade social, criada pelos partidos religiosos e pelas igrejas
				intolerantes, exigia uma solução capaz de apaziguar essas lutas. Somente um poder
				político e militar, colocado acima das opiniões dos súditos, teria condições reais
				para pacificar os homens. Desse modo, a solução elaborada pelos teóricos do Estado
				absolutista ocorreu no sentido de romper com a prevalência de qualquer facção
				religiosa sobre os interesses estatais, ao exigir a submissão dos diferentes
				partidos religiosos a uma única autoridade soberana, já que, tanto no plano interno,
				quanto no plano externo, o Estado não reconheceria nenhuma instancia superior a sua
				própria ordem. Desse modo, Nicola Matteucci afirma que,</p>
			<p><disp-quote>
					<p>En el quinientos, sin embargo, la paz social no se identifica ya con la recta
						administración de la justicia por el rey, sino con la necesidad de superar
						una guerra civil surgida por motivos religiosos. Era necesaria la primacía
						de la política y del Estado (una unidad superior y neutral), y del orden
						mundano que éste representaba, sobre sectas religiosas intolerantes que
						provocaban desordenes en nombre de la primacía de la religión; se necesitaba
						crear um campo de acción racional en el que todo - de la religión a la
						economía -fuese juzgado con base en la utilidad del Estado, con base en um
						frio cálculo racional de las consecuencias de cada acción.<xref
							ref-type="fn" rid="fn22">22</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Assim, diante das pressões do novo ambiente social, as mudanças políticas acabaram
				por conduzir o Estado a uma incipiente racionalização, motivado principalmente pela
				grande insuficiência dos velhos instrumentos políticos para satisfazer as novas
				demandas diplomáticas, militares e financeiras. A formação dos exércitos regulares
				exigiu maiores recursos, já que os Estados se transformaram em verdadeiras máquinas
				de guerra. Era uma situação que exigia um sistema fiscal muito mais eficiente e
				organizado. Desse modo, a construção de uma estrutura burocrática para realizar a
				tributação entre os súditos e arrecadar maiores recursos financeiros foi fundamental
				para a cobertura das novas despesas militares.</p>
			<p>Foi nesse ambiente político conturbado que Thomas Hobbes apresentou o
					<italic>Leviatã</italic> (1651), obra fundamental para o desenvolvimento da
				filosofia política na modernidade. Nela, o Estado foi apresentado como produto da
					razão<xref ref-type="fn" rid="fn23">23</xref>, construído artificialmente pelos
				indivíduos para preservar o maior bem existente entre eles, que é a vida, pois,
				segundo Hobbes,</p>
			<p><disp-quote>
					<p>[...] durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os
						manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se
						chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os
							homens.<xref ref-type="fn" rid="fn24">24</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Ao contrário de Aristóteles, a sociedade política hobbesiana não foi apresentada como
				uma organização natural, mas sim como fruto de um pacto voluntário entre os
					homens.<xref ref-type="fn" rid="fn25">25</xref></p>
			<p>Por meio desse contrato, os homens naturais deveriam se constituir em sociedade
				política, ao transferir ao soberano o direito de exercer todo o poder. Para isso,
				Hobbes propôs a formação de uma sociedade política com um poder soberano indivisível
				e integral, já que o surgimento de um governo misto, com o poder exercido de maneira
				fragmentada, poderia colocar em risco a existência do Estado. Para que o poder
				soberano tivesse condições de se impor, ele defendeu que a realização do pacto
				deveria ocorrer apenas entre os homens naturais, deixando unicamente de fora aquele
				que mais tarde ficaria encarregado de exercer o poder soberano.</p>
			<p>Por esse motivo, todos os indivíduos deveriam abrir mão de seus respectivos direitos
				naturais, pois a preservação de uma pequena parte deles colocaria em risco a paz e a
				segurança oferecidas pelo Estado. Assim, com a formação da sociedade política, a
				liberdade de todos os súditos deveria ser transferida imediatamente para o Estado,
				instituído como detentor de todo poder necessário para impedir a guerra entre os
				indivíduos. Diante do constante perigo da violência generalizada, o Estado foi
				elaborado para pacificar as relações humanas, por meio da atuação de um poder
				soberano colocado acima das contradições políticas e religiosas daquele tempo tão
				conturbado. Dessa forma, segundo Thomas Hobbes:</p>
			<p><disp-quote>
					<p>[...] pela arte é criado aquele grande <italic>Leviatã</italic> a que se
						chama <italic>Estado</italic>, ou <italic>Cidade</italic> (em latim
							<italic>Civitas</italic>), que não é senão um homem artificial, embora
						de maior estatura e força do que o homem natural, para cuja proteção e
						defesa foi projetado. E no qual a <italic>soberania</italic> é uma alma
						artificial, pois dá vida e movimento ao corpo inteiro; [...] a
							<italic>justiça</italic> e as <italic>leis</italic>, uma
							<italic>razão</italic> e uma <italic>vontade</italic> artificiais; a
							<italic>concórdia</italic> é a <italic>saúde</italic>; a
							<italic>sedição</italic> é a <italic>doença</italic>; e a <italic>guerra
							civil</italic> é a <italic>morte.<xref ref-type="fn" rid="fn26"
								>26</xref></italic></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Portanto, a teoria hobbesiana se preocupou essencialmente com a antítese existente
				entre a unidade em torno de um único poder soberano e a anarquia social, presente
				nos lugares onde o poder se encontrava completamente fragmentado. O risco da
				dissolução da autoridade e a fragmentação política apareciam como questões
				prejudiciais para a boa formação do Estado. Em concordância com Hobbes, apenas a
				constituição de um poder comum, capaz de monopolizar o uso da força, teria condição
				de salvar os homens de sua destruição, já que, somente com a criação do
					<italic>Leviatã,</italic> o homem encontraria sua necessária proteção.</p>
			<p>Dessa forma, se, num primeiro momento, a preocupação da teoria política moderna se
				concentrou no problema do estabelecimento da organização estatal; logo depois, os
				teóricos liberais colocaram em evidência o problema da limitação do poder político,
				exercido no âmbito do Estado. E isso, de acordo com o pensamento liberal, deveria
				passar necessariamente pela separação entre Estado e sociedade civil, pois o poder
				político não estava autorizado a interferir em todos os âmbitos da vida privada.
				Assim, é possível perceber a origem histórica dessa corrente de pensamento na luta
				política dos ingleses contra Jaime II, que resultou na Revolução Gloriosa de 1688 e
				na supremacia do Parlamento. Segundo Merquior, “os objetivos dos vencedores da
				Revolução Gloriosa eram tolerância religiosa e governo constitucional. Ambos
				tornaram-se pilares do sistema liberal, espalhando-se com o tempo pelo
					ocidente.”<xref ref-type="fn" rid="fn27">27</xref></p>
			<p>O projeto de um governo limitado, por meio de uma aliança entre a lei e a liberdade,
				foi visto por diversos intelectuais dos séculos XVII e XVIII como o ideal para o
				estabelecimento de uma sociedade mais próspera. Teóricos, como John Locke e
				Montesquieu, procuraram criar fórmulas institucionais tanto para a limitação da
				autoridade quanto para uma divisão equilibrada do poder, sendo mais tarde
				recepcionados com sucesso pelos pais fundadores da democracia estadunidense. Todos
				eles acreditavam que, somente por esse caminho, as liberdades individuais estariam
				asseguradas contra qualquer investida autoritária do Estado.</p>
			<p>Contudo, é importante destacar que as conquistas liberais, originárias de um poder
				político limitado, restringiram-se, num primeiro momento, apenas a uma elite
				composta por homens brancos e proprietários<xref ref-type="fn" rid="fn28">28</xref>.
				Desse processo estavam excluídos os negros, transformados em escravos; os brancos
				pobres, envolvidos numa jornada extenuante de trabalho; e as mulheres, limitadas
				apenas aos afazeres domésticos e impedidas de qualquer participação política. O
				sufrágio universal era visto com enorme desconfiança pelos donos do capital, que há
				pouco haviam superado o poder da aristocracia, mas, ao mesmo tempo, afastavam-se das
				classes populares com enorme receio.<xref ref-type="fn" rid="fn29">29</xref> O medo
				das massas, propagado pela burguesia, fez que o liberalismo, num primeiro momento,
				ficasse restrito apenas a cidadãos prósperos, seguindo o posicionamento que Benjamin
				Constant havia denominado de <italic>“le juste milieu.”<xref ref-type="fn"
						rid="fn30">30</xref></italic></p>
			<p>Mesmo diante dessas contradições, é inegável que o pensamento liberal ofereceu uma
				grande contribuição para o controle constitucional do poder político, ao elaborar
				mecanismos institucionais formidáveis para a formação do Estado de Direito. Nesse
				sentido, em oposição ao argumento hobbesiano, de que os indivíduos somente
				encontrariam uma vida pacífica por meio de um Estado absoluto, Locke apresentou sua
				objeção em defesa de uma monarquia constitucional, ao rechaçar a ideia de um Estado
				presente em todas as esferas da vida social. Segundo David Held, “para Locke, la
				actividad política es instrumental; garantiza el marco o las condiciones para la
				libertad, de modo que los fines privados de los individuos puedan ser realizados en
				la sociedad civil.”<xref ref-type="fn" rid="fn31">31</xref> Com isso, o governo
				passa a depender do consentimento e da confiança dos indivíduos que, no caso, não
				abririam mão de seus direitos naturais, com exceção de um, o direito de elaborar e
				fazer cumprir as leis. Este deveria ser transferido ao controle do Estado.<xref
					ref-type="fn" rid="fn32">32</xref></p>
			<p>Diante do desenvolvimento do capitalismo comercial e das novas reivindicações do
				pensamento liberal, contrapostas ao Estado absolutista de Hobbes, surge a
				necessidade de separação entre poder político e sociedade civil, ou seja, a esfera
				de atuação do Estado deve se restringir à criação e à defesa de uma estrutura
				política, que permita aos cidadãos desenvolver suas vidas particulares e suas
				atividades econômicas, livres do perigo da violência e das interferências indevidas
				do <italic>Leviatã</italic>. Assim, de acordo com David Held:</p>
			<p><disp-quote>
					<p>La idea de la libertad frente a una autoridad política envolvente (‘libertad
						negativa’, tal como ha sido llamada) conformó el ataque a partir de finales
						del siglo XVI contra los antigos regímenes de Europa y fue el complemento
						perfecto para la creciente sociedad de mercado, ya que la libertad de
						mercado implicaba, en la práctica, dejar que fueran las inciativas privadas
						en la producción, distribución e intercambio las que determinaran las
						circunstancias de la vida de las personas.<xref ref-type="fn" rid="fn33"
							>33</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Na análise que Marx realiza do capitalismo, a delimitação do papel da sociedade civil
				fica bem clara quando o autor demonstra que, nesse âmbito, deveriam se concentrar as
				relações econômicas, sendo estas independentes ou, até mesmo, contrapostas à esfera
				das relações da sociedade política.<xref ref-type="fn" rid="fn34">34</xref> De
				acordo com Bobbio,</p>
			<p><disp-quote>
					<p>[...] tanto a “sociedade natural” dos jusnaturalistas, quanto a “sociedade
						civil” de Marx indicam a esfera das relações econômicas intersubjetivas de
						indivíduo a indivíduo, ambos independentes, abstratamente iguais,
						contraposta à esfera das relações políticas, que são relações de
							domínio.<xref ref-type="fn" rid="fn35">35</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Assim, para Marx, a origem e o funcionamento da sociedade civil deveriam ser buscados
				sempre na economia política.</p>
			<p>Nesse sentido, o aparecimento da sociedade civil representou o início do processo de
				diferenciação entre Estado e sociedade na modernidade, ao expressar as
				transformações econômicas e políticas pelas quais vinham passando a Europa e os
				Estado Unidos, respectivamente nos séculos XVII e XVIII. Para o pensamento liberal,
				essa separação foi fundamental para o fomento da liberdade burguesa e do progresso
				capitalista. Na verdade, o pensamento liberal estava corrigindo o antigo erro
				presente na tradução latina de “político” como “social”, já que, desde os gregos, a
				esfera privada da organização familiar estava colocada em oposição à organização
				política da pólis. Segundo Arendt,</p>
			<p><disp-quote>
					<p>Esta substituição inconsciente do social pelo político revela até que ponto a
						concepção original grega de política havia sido esquecida. Para tanto, é
						significativo, mas não conclusivo, que a palavra ‘social’ seja de origem
						romana, sem qualquer equivalente na língua ou no pensamento grego.<xref
							ref-type="fn" rid="fn36">36</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Entre os gregos, a associação política se opunha à associação privada, cujo centro
				era constituído pela esfera doméstica. O cidadão da pólis considerava a política -
				desenvolvida na Assembleia - como a sua principal atividade e colocava a vida
				privada numa posição inferior, já que aquilo que era comum (<italic>koinon</italic>)
				era superior ao que lhe era próprio (<italic>idion</italic>). Dessa forma, tudo
				aquilo que havia sido construído com base na organização familiar, como o culto à
				deusa Héstia, teve de ceder lugar ao predomínio do político, como o culto à religião
				olímpica. Outro exemplo de separação entre o doméstico e o público pode ser
				observado na posição que os gregos mantinham em relação ao trabalho manual, já que
				tudo que estivesse relacionado com a manutenção do indivíduo - o econômico - também
				estava colocado fora dos assuntos políticos. Assim, ao afirmar que o homem era um
				animal político (<italic>bios politikos</italic>), Aristóteles não estava meramente
				sustentando a sociabilidade biológica dos homens, presente também em outras espécies
				de animais; na verdade, o filósofo procurou demonstrar que o homem grego estava
				completamente envolvido com as questões de sua comunidade política, ou seja, a
				pólis, e que os assuntos privados não estavam presentes no domínio público.<xref
					ref-type="fn" rid="fn37">37</xref></p>
			<p>Com um sentido específico diferente dos gregos, o pensamento liberal também separou o
				poder político da atividade econômica, resguardando a esfera privada de qualquer
				interferência indevida por parte do Estado. De acordo com essa corrente, caberia ao
					<italic>Leviatã</italic> oferecer segurança à propriedade e deixar que a
				iniciativa privada, por meio de sua própria conta e risco, cuidasse de seus
				negócios, ciente de que, no sistema capitalista, o imponderável em qualquer
				investimento é parte integrante das relações econômicas. Para os grandes cânones do
				liberalismo - como Adam Smith, em seu livro <italic>A riqueza das nações</italic> -
				o empresário não deve enxergar o poder político como seu principal parceiro nos
				negócios. Assim, para eles, o Estado teria apenas a responsabilidade de garantir a
				todos, “[...] em condições de plena liberdade, o direito de lutar pelos seus
				interesses como melhor entender.”<xref ref-type="fn" rid="fn38">38</xref> Contudo,
				no Brasil, o pensamento liberal tomou outro caráter...</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3 O BNDES E AS DISTORÇÕES DO LIBERALISMO BRASILEIRO</title>
			<p>Diferentemente das formulações teóricas do pensamento liberal, presentes nos
				contextos europeu e estadunidense, no Brasil, o liberalismo tomou um rumo
				completamente diverso, ao colocar o Estado na posição de principal parceiro e
				“incentivador” da iniciativa privada. De acordo com esse liberalismo
					<italic>suigeneris</italic>, o Estado se coloca como o maior patrocinador das
				empresas privadas, com a condição de que estas, de alguma forma, estejam associadas
				ao estamento burocrático. Esse modelo patrimonialista de dominação do Estado,
				analisado primeiramente por Faoro<xref ref-type="fn" rid="fn39">39</xref>, é
				responsável por aquilo que ele chamou de “a viagem redonda”<xref ref-type="fn"
					rid="fn40">40</xref> no estabelecimento e no desenvolvimento das instituições
				políticas brasileiras, dando a impressão de que, apesar das grandes mudanças, sempre
				voltamos ao mesmo lugar, submetidos a uma camada governante burocrática que se
				sobrepõe a uma débil sociedade civil. Segundo ele,</p>
			<p><disp-quote>
					<p>Essa circunstância, se observada, retira a estranheza de, num salto às vezes
						secular, reencontrar-se o espectador com a reprise de um espetáculo já visto
						e que deveria estar arquivado nos anais dos cronistas.<xref ref-type="fn"
							rid="fn41">41</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Nesse sentido, as classes sociais não seriam o fator determinante das relações
				políticas e sociais; pelo contrário, o antagonismo preponderante no Brasil se
				encontra na oposição entre governantes e governados, estando os últimos debilitados
				diante de uma ordem política autocrática. Reconhecido como um subtipo da dominação
				tradicional, presente na sociologia weberiana, Faoro demonstra que, diferentemente
				da dominação racional legal - que tem como base a racionalidade formal -, o
				patrimonialismo se apoia numa racionalidade material, na qual predomina a ação
				burocrática no sentido de regulamentar e ordenar a economia.<xref ref-type="fn"
					rid="fn42">42</xref> Assim, segundo Faoro:</p>
			<p><disp-quote>
					<p>A racionalidade formal [...] coincide com o capitalismo, no qual se levam em
						conta, no seu funcionamento, a calculabilidade e a previsibilidade das ações
						sociais. A dominação patrimonial, ao contrário, por incompatível com a
						igualdade jurídica e as garantias institucionais contra o arbítrio, torna o
						indivíduo dependente do poder que lhe dita, pela definição de valores, a
						conduta. Aponta, em consequência, para um sistema autocrático, que, em lugar
						de se desenvolver segundo uma ordem em que a sociedade é autônoma, afirma a
						dependência ao poder da autoridade.<xref ref-type="fn" rid="fn43"
						>43</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>O Brasil tem características dos dois tipos de dominação, o que faz que a ordem
				patrimonialista se esconda por debaixo de uma estrutura nominalmente
				racional-burocrática. Com raízes na revolução de Avis - em Portugal -, o Estado
				patrimonialista brasileiro, formado após o processo de independência, também tomou
				emprestado alguns elementos do mundo capitalista inglês, por exemplo, o liberalismo.
				Contudo, o que acabou predominando foi o modelo tradicional de dominação política,
				com a sociedade civil constantemente submetida às imposições vindas de cima; uma
				característica institucional que explica a dificuldade do Brasil, ao longo de sua
				história, de recepcionar os mecanismos constitucionais de limitação do poder.</p>
			<p>Faoro destaca que o patrimonialismo não está presente em qualquer forma de
				intervenção estatal na economia. Para que exista o patrimonialismo, é necessário que
				a empresa privada desenvolva suas atividades sempre na dependência do “patrocínio”
				do poder público, no sentido de que “a empresa é, dessa forma, uma iniciativa
				particular viável por meio da dádiva pública, obtida por meios legais ou
					ilícitos.”<xref ref-type="fn" rid="fn44">44</xref>. Dessa forma, o liberalismo
				gerado pelo Estado patrimonialista se apresenta com graves incongruências, tendo
				dificuldade para limitar a esfera de atuação do poder público e, ao mesmo tempo,
				separar o que pertence à comunidade política de interesses meramente privados.</p>
			<p>Nessas circunstâncias, uma análise das instituições políticas brasileiras, a partir
				da sociedade civil de Hegel, acaba por ocultar o domínio do Estado sobre a sociedade
				e tem dificuldade para compreender a excessiva dependência do empresário em relação
				ao estamento, que, no caso, controla o poder público. Ao contrário do referencial
				teórico marxista<xref ref-type="fn" rid="fn45">45</xref>, a estrutura econômica e a
				luta de classes não são suficientes para a compreensão da formação e do
				funcionamento do Estado patrimonialista. No Brasil, é a organização política que se
				sobrepõe à sociedade civil. Assim, com o aparelho administrativo nas mãos do
				governante e de seu quadro burocrático, os recursos públicos são distribuídos para
				um seleto grupo de empresários, sem que o Estado apresente qualquer consideração
				pelos parâmetros constitucionais. As relações se desenvolvem apenas com base no
				compadrio.</p>
			<p>O personalismo nas relações públicas é um aspecto importante para a compreensão do
				Estado patrimonial, que, por meio do estamento burocrático, concede “favores” ao
				empresariado a partir do erário público. No entanto, a pessoalidade presente no
				patrimonialismo de Faoro, não é a mesma do patriarcalismo presente em diversos
				intérpretes do Brasil, como é o caso de Gilberto Freyre<xref ref-type="fn"
					rid="fn46">46</xref>. Se, no caso do patrimonialismo, a dificuldade em separar a
				esfera pública da esfera privada está associada à atuação do corpo
				político-burocrático, que, diuturnamente, se apropria da máquina pública; no caso do
				patriarcalismo, a apropriação do público pelo privado ocorre a partir do núcleo
				familiar. Com isso, a compreensão do liberalismo no Brasil toma sentidos bem
				diferentes. Enquanto, no patriarcalismo, as instituições liberais não passam de mera
				ficção; no patrimonialismo, ocorre a penetração de um liberalismo muito peculiar,
				que, embora desfigurado, está presente no funcionamento de algumas
					instituições.<xref ref-type="fn" rid="fn47">47</xref> É aquilo que o presente
				trabalho denominou de um liberalismo à moda brasileira.</p>
			<p>É por isso que o pensamento conservador sempre enxergou no Estado a solução para os
				problemas brasileiros. Em Oliveira Viana, o Estado forte é apresentado como resposta
				ao controle do poder político pelos clãs, que, no caso, estavam ligados ao
				latifúndio e eram responsáveis pela fragmentação do poder estatal.<xref
					ref-type="fn" rid="fn48">48</xref> Contudo, Faoro tomou caminho totalmente
				diverso em <italic>Os donos do poder</italic>. Ao destacar e analisar o papel do
				patrimonialismo na formação das instituições políticas brasileiras, ele demonstrou
				que o Estado não pode ser considerado como um “bem em si mesmo” para o
				desenvolvimento das relações econômicas e sociais. A presença excessiva do poder
				político, na sociedade civil, deve ser visto como um entrave considerável para o
				estabelecimento de um regime constitucional. Os exemplos da ditadura Vargas
				(1930-1945) e da ditadura civil-militar (1964-1985) confirmam essa tese. Nesses dois
				casos, uma concepção autoritária do Estado serviu para levar à frente uma
				modernização completamente desconectada com o constitucionalismo. Por isso, para
				Fernando Henrique, “[...] a predominância burocrático-estatal mais leva água ao
				moinho do conservadorismo tradicional do que representa um avanço na democratização
				das instituições e da sociedade.”<xref ref-type="fn" rid="fn49">49</xref></p>
			<p>Nesse sentido, uma análise das relações do BNDES junto ao empresariado é fundamental
				para a compreensão do tipo de liberalismo gerado pelo Estado patrimonialista
				brasileiro. O Banco estatal tem sido o principal parceiro e patrocinador de setores
				da iniciativa privada mais próximos dos círculos de poder, instalados em Brasília. E
				isso independe da coloração partidária do governo. Tanto nas administrações
				lideradas pelo PSDB, como também nas do PT, são encontrados fartos exemplos de
				“incentivo” estatal para o desenvolvimento de algumas empresas, pois, em
				concordância com Faoro,</p>
			<p><disp-quote>
					<p>Todos os gatos se tornam pardos, apesar das distinções, com a ascensão do
						poder político. Fora do poder, o conservador namora a ideologia liberal. No
						poder, o liberal manifesta-se com a inabalável fé dos convertidos.<xref
							ref-type="fn" rid="fn50">50</xref></p>
				</disp-quote></p>
			<p>Assim, esse liberalismo distorcido, presente na atuação do Banco estatal, pode ser
				observado em duas situações específicas: a participação do BNDES no processo de
				privatização realizado pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso
				(1994-2002); e as relações do Banco estatal com a empresa Friboi durante os governos
				do presidente Luis Inácio Lula da Silva (2002-2010) e da presidente Dilma Rousseff
				(2010-2014).</p>
			<p>No primeiro caso, o Programa Nacional de Desestatização, criado pelo governo do PSDB,
				foi responsável pela implementação do ideário neoliberal no Brasil; com o detalhe
				importante de que a compra das empresas estatais acabou sendo realizada por meio do
				financiamento de um Banco estatal, o BNDES. Foi por meio do próprio Estado que o
				neoliberalismo aportou em terras brasileiras, contrariando completamente o programa
				de privatizações implementado pelo governo de Margaret Thatcher, na Inglaterra. Os
				leilões, organizados pelo governo brasileiro, se transformaram em negócios altamente
				lucrativos para as empresas privadas interessadas em adquirir as empresas públicas,
				já que estas primeiramente recebiam investimentos do governo, para depois serem
				vendidas a um preço muito baixo, via financiamento do BNDES.</p>
			<p>No processo de privatização do setor de telecomunicação foi anunciado pelo governo
				FHC que as estatais haviam sido vendidas por R$ 22,2 bilhões, o que, na época,
				pareceu um excelente negócio para o Estado. Contudo, o que o governo não deixou
				claro foi que o erário público recebeu apenas R$ 8,8 bilhões, ou 40% daquele valor,
				sem considerar que metade da entrada foi financiada pelo BNDES, nos casos em que o
				comprador era uma empresa nacional ou apenas fizesse parte do consórcio.<xref
					ref-type="fn" rid="fn51">51</xref> Como se não bastasse todo esse apoio do
				Estado, antes do anúncio das privatizações, o governo já havia aumentado as tarifas
				de diversos serviços públicos, entre eles, a telefonia, com um reajuste de 500% a
				partir de novembro de 1995.<xref ref-type="fn" rid="fn52">52</xref></p>
			<p>E a “parceria” do Estado com a iniciativa privada não ficou apenas no financiamento
				do BNDES para a compra das estatais. As empresas compradoras receberam mais apoio do
				Estado para administrar seus novos negócios. Para cumprir o acordo feito com o
				governo, no sentido de ampliar os investimentos nas antigas empresas públicas, as
				empresas privadas receberam empréstimos bilionários do BNDES. Nesse sentido, após
				constantes problemas no fornecimento de energia elétrica no estado do Rio de
				Janeiro, o Banco estatal garantiu</p>
			<p>a Light um empréstimo de R$ 730 milhões. A Companhia Siderúrgica Nacional recebeu o
				montante de R$ 1,1 bilhão do Banco.<xref ref-type="fn" rid="fn53">53</xref> Dessa
				forma, onde os neoliberais defenderam menos Estado surgiu mais Estado, um verdadeiro
				paradoxo para os defensores da privatização no Brasil.</p>
			<p>A mesma postura do BNDES pode ser observada nos governos do PT. Mudam-se os partidos,
				mas a lógica de desenvolvimento econômico, do capitalismo politicamente orientado
				continua a funcionar como um verdadeiro guia para as ações do Banco. Empréstimos e
				investimentos feitos sem nenhum critério objetivo, mas apenas com base em relações
				personalistas desenvolvidas entre setores da iniciativa privada e membros do
				estamento burocrático, continuam a acontecer abertamente nos círculos de poder em
				Brasília. Essa é a melhor maneira para se compreender a rápida ascensão da empresa
				Friboi no cenário nacional. Pelo visto, o segredo do seu crescimento está na sua
				proximidade com os governos Lula e Dilma.</p>
			<p>Um frigorífico nascido no interior de Goiás e completamente desconhecido até a década
				passada, atualmente se encontra entre as maiores empresas privadas do Brasil, com um
				faturamento equivalente a R$ 9 bilhões em 2013. O que, para muitos, poderia ser
				interpretado como resultado do empreendedorismo da família Batista, na verdade,
				oculta mais um exemplo de sucesso empresarial por meio de uma grande parceria com a
				máquina pública. Incluída entre os “campeões nacionais” pelo BNDES - uma “política
				pública” que beneficia grandes empresas -, parcela considerável da República
				continua sem saber que tipo de benefício alcançará por meio de tal investimento.</p>
			<p>Nos últimos anos, o BNDES injetou R$ 8,1 bilhões na empresa, por meio de
				capitalização, transformando-se em sua sócia com 24 % das ações. Com tamanho
				investimento, a Friboi gastou R$ 13,5 bilhões em aquisições, incorporações ou
				arrendamentos, no Brasil e no exterior. Com isso, as ações da empresa obtiveram em
				2013 um crescimento 24 vezes maior do que havia sido alcançado em 2006. Sua receita
				passou a ocupar o segundo lugar entre as maiores empresas privadas no Brasil,
				ficando atrás apenas da Companhia Vale do Rio Doce.<xref ref-type="fn" rid="fn54"
					>54</xref> A empresa da família Batista pode ser considerada um exemplo de
				sucesso econômico via Estado. Ascensão alcançada por meio do velho capitalismo
				politicamente orientado.</p>
			<p>Esses dois exemplos ilustram muito bem o modelo de desenvolvimento capitalista
				predominante no Brasil, fruto de um Estado patrimonialista que subvenciona empresas
				próximas ao estamento burocrático. Nesse sentido, o segredo do sucesso, alcançado
				por alguns setores da iniciativa privada, se encontra sempre interligado ao Estado.
				Isso ajuda a compreender as desventuras do liberalismo pátrio, continuamente
				vacilante na defesa de um Estado de direito capaz de limitar as atividades do
				governo. Por isso, segundo Faoro, “um liberal, entre nós, está sempre pronto a se
				refugiar na fortaleza conservadora, quando em risco os privilégios de uma
					classe.”<xref ref-type="fn" rid="fn55">55</xref> Ao ligarem-se confortavelmente
				à máquina pública, preferem não arriscar suas regalias. O Estado patrimonialista se
				comporta como sucedâneo da sociedade civil. E quando surge a possibilidade de sua
				superação, com a promulgação de uma Constituição democrática, a história se repete
				como tragédia, com o reaparecimento do velho capitalismo politicamente orientado.
				Assim, apesar das grandes transformações institucionais após a redemocratização, de
				alguma maneira, sentimos que voltamos ao mesmo ponto. Aí estão os meandros e as
				sutilezas do liberalismo à moda brasileira.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>4 CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>A <italic>Teoria do medalhão</italic>, de Machado de Assis, é um conto que nos ajuda
				a compreender as incongruências do liberalismo brasileiro. Nesse texto, o pai
				explica a Janjão o caminho e as atitudes que este deveria assumir para alcançar as
				posições sociais mais promissoras, expondo os ensinamentos daquilo que ele chamaria
				de teoria do medalhão. Uma das regras, segundo ele, era evitar qualquer consistência
				teórica nas opiniões políticas. De acordo com a sua teoria, “uma vez entrado na
				carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio
				e próprio. O melhor será não as ter absolutamente [...].”<xref ref-type="fn"
					rid="fn56">56</xref> Assim, Janjão deveria evitar qualquer coerência ideológica,
				não assumindo posições políticas que se fechassem completamente em relação a outros
				grupos. Sobre a participação do filho em partidos políticos, o pai advertiu, “podes
				pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano,
				com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos
					[...].”<xref ref-type="fn" rid="fn57">57</xref> Ou seja, deveria ser conservador
				ou liberal conforme as conveniências do momento.</p>
			<p>Esses ensinamentos fizeram muito sucesso entre os liberais brasileiros, ao ponto de
				encontrarmos, no Império, setores do parlamento que, apenas nas aparências,
				incorporavam as posições políticas mais avançadas da Europa, mas, no cotidiano,
				estavam sempre prontos a defender uma monarquia despótica, o trabalho escravo e o
				esmagamento da sociedade civil pelo Estado. Com o aparecimento da República, o
				liberalismo não deixou de ser apenas um verniz entre os políticos. Esteve bem
				distante da realidade nacional diante dos golpes de Estado - contra o comunismo e em
				defesa da democracia -, da falta de compromisso com a defesa do constitucionalismo
				e, mais uma vez, da presença de parcerias nada republicanas dos grandes empresários
				com o Estado. Assim, em vez de um liberalismo crítico em relação ao autoritarismo
				estatal, o que predominou foi um liberalismo completamente destoante do que estava
				sendo construído pelos teóricos europeus e estadunidenses.</p>
			<p>Esse é o resultado da formação e da permanência de um Estado patrimonialista, que,
				obviamente, se encontra deslocado em relação a temas muito caros ao pensamento
				liberal, como a defesa da democracia, da sociedade civil e dos limites
				constitucionais ao exercício do poder. A continuação de um modelo de dominação
				tradicional, tão bem analisando por Faoro, em <italic>Os donos do poder</italic>,
				tem dificultado a aplicação das ideias liberais no Brasil. Se, em alguns aspectos,
				como no caso do estabelecimento de um regime constitucional, o Brasil alcançou certo
				avanço, com a formação de instituições políticas relativamente estáveis após 1988;
				por outro lado, a parceria entre grandes empresários e estamento burocrático -
				sempre em detrimento da República - continua sendo um grave obstáculo para o
				cumprimento das promessas constitucionais do Estado Democrático de Direito.</p>
			<p>É como se, no Brasil, houvesse um Estado pródigo somente para alguns grupos
				econômicos, sempre patrocinados, em seus negócios privados, pelo erário público.
				Contudo, no momento em que esse mesmo Estado deveria servir ao conjunto da
				comunidade, realizando as políticas públicas previstas pela Constituição, os
				recursos desaparecem. Dessa forma, para um setor da sociedade, o Estado se
				transforma num Oasis; para outro, o Estado se transforma num peso insuportável, ao
				ponto de prejudicar o livre desenvolvimento das pessoas.</p>
			<p>A incoerência do liberalismo brasileiro está no modelo peculiar de capitalismo gerado
				pelo Estado patrimonialista. É o capitalismo politicamente orientado. Nesse modelo
				de desenvolvimento, a iniciativa privada somente alcança o sucesso econômico por
				meio do patrocínio estatal, garantido por intermédio do estamento burocrático. O
				Estado é sempre a fonte segura para qualquer tipo de investimento privado. Os
				recursos públicos são instrumentalizados em benefício de empresários que não
				conseguem manter seu próprio negócio longe da máquina pública. Para estes, sem a
				ajuda do Estado, não existe crescimento econômico possível.</p>
			<p>No entanto, superar o modelo patrimonialista não é o mesmo que defender a indiferença
				do Estado com relação ao mercado. O liberalismo não sustenta, necessariamente, uma
				completa ausência do Estado em assuntos econômicos. Em correntes significativas do
				pensamento liberal - como é o caso de Faoro -, existe uma defesa muito clara em
				favor da intervenção política para regulamentar o mercado e impedir que o capital
				tome conta de tudo. Inclusive, a excessiva desregulamentação da economia foi a maior
				responsável pela crise que afetou a Europa e os Estados Unidos nos últimos anos. Num
				período de domínio do capital financeiro, seria temerário defender um mercado livre
				de qualquer regulamentação política.</p>
			<p>A problemática relação entre Estado e iniciativa privada não tem relação com as
				discussões sobre a regulamentação política do mercado; mas sim com o patrocínio que
				os empresários sempre recebem do poder público para poder desenvolver seus próprios
				negócios. Não existe empreendedorismo no Brasil. Por trás do sucesso de algumas
				empresas, sempre está o Estado, por meio do BNDES. Esse é o caso da Friboi, um
				frigorífico que até a década anterior era completamente desconhecido e que, de
				repente, desponta entre as maiores empresas privadas do país. Os apressados poderiam
				imaginar que o sucesso da empresa estaria relacionado apenas com a competência de
				seus proprietários, no entanto uma rápida investigação é capaz de demonstrar que a
				Friboi é mais um caso de sucesso empresarial alcançado pelas mãos do Estado.</p>
			<p>Outro caso interessante foi o recente processo de privatização aplicado pelos
				neoliberais brasileiros. Aqueles que deveriam demonstrar a maior ojeriza em relação
				à intervenção do Estado na economia caíram num grande paradoxo. O BNDES financiou a
				compra da maior parte das empresas estatais, ou seja, no momento da redução do
				Estado, apoiaram-se no próprio Estado, ao colocarem um Banco público na posição de
				patrocinador das privatizações. Uma experiência única numa corrente de pensamento
				que tem horror ao Estado.</p>
			<p>Nesse sentido, ao criticar as incoerências do liberalismo brasileiro, o trabalho
				procurou atacar os efeitos do Estado patrimonialista sobre a sociedade civil, ao
				destacar os prejuízos que esse modelo de dominação tradicional causa numa sociedade
				democrática. É um modelo que não consegue distinguir muito bem a esfera pública da
				esfera privada, comprometendo o funcionamento de uma República, já que os negócios
				privados não deveriam se apoiar excessivamente no Estado. A comunidade brasileira,
				por exemplo, não recebeu nenhum ganho pelas parcerias realizadas entre o BNDES e as
				empresas privadas, seja no caso das privatizações, ou no caso da Friboi. Desse modo,
				o advento da Constituição de 1988 pode significar um importante mecanismo de combate
				à resistência dos velhos estamentos que continuam presentes na sociedade e no
				aparelho de Estado. Assim, enfrentar o Estado patrimonialista é fazer que o
				liberalismo brasileiro tenha outro caráter, mais coerente com a democracia, com o
				constitucionalismo e com o livre desenvolvimento da sociedade civil.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B33">SÓFOCLES</xref>. <bold>Antígona.</bold> 5. ed.
					Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1996. p. 204.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Ibid., p. 204.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B18">HOLANDA, Sérgio Buarque de</xref>. <bold>Raízes
						do Brasil.</bold> 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. <italic>p.
						141.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B9">CARDOSO, Fernando Henrique</xref>.
						<bold>Pensadores que inventaram o Brasil.</bold> São Paulo: Companhia das
					Letras, 2013. <italic>p. 138-139.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Ibid., <italic>p. 139.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B21">LEITE, Dante Moreira</xref>. <bold>O caráter
						nacional brasileiro: história de uma ideologia.</bold> 3. ed. São Paulo,
					Pioneira, 1976.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Ibid., p. 293.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Segundo Bernardo Ricupero e Gabriela Nunes Ferreira, “o diferencial na explicação
					do Brasil de Faoro não está, entretanto, simplesmente no uso de categorias
					weberianas, mas na maneira como ele maneja essas referências, enfocando, por
					exemplo, certas questões e não outras. Aqui é útil a comparação com Sérgio
					Buarque de Holanda. <italic>Raízes do Brasil</italic> já havia utilizado
					ferramentas teóricas weberianas para analisar a experiência brasileira. No
					entanto, como o próprio Faoro insiste, a maneira de o historiador paulista
					entender o patrimonialismo em seu livro de estreia ainda pertence
					fundamentalmente a outro momento do pensamento social e político brasileiro,
					aquele que, dentro da interpretação privatista, insistia na influência do
					patrimonialismo na formação da sociedade brasileira. Ou melhor, Holanda vê o
					comportamento do funcionário patrimonial como uma extensão, em direção a outras
					esferas, das práticas prevalecentes na família patriarcal, o que caracterizaria
					uma ‘invasão do público pelo privado’. A maneira de <italic>Os donos do
						poder</italic> interpretar o patrimonialismo é, porém, diferente e até
					oposta a de <italic>Raízes do Brasil</italic>. Para Faoro, o dominante no Brasil
					não é o ambiente doméstico, onde se desenvolve o patriarcalismo, mas o estatal,
					ao qual está relacionado o aparecimento do patrimonialismo”. <xref
						ref-type="bibr" rid="B32">RICUPERO, Bernardo; FERREIRA, Gabriela
						Nunes</xref>. Raymundo Faoro e as interpretações do Brasil.
						<bold>Perspectivas: Revista de Ciências Sociais,</bold> Araraquara, v. 28,
					p. 51, 2005.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>De acordo com José Murilo de Carvalho, enquanto na Inglaterra a aristocracia
					precisava menos da burocracia estatal para se manter, em Portugal, a
					aristocracia sempre dependeu do Estado para sobreviver, apoiando-se na máquina
					burocrática para preservar seus privilégios. Segundo ele, “a aristocracia
					inglesa não dependia do emprego público para sustento material. O que ela
					prestava era quase um serviço litúrgico, para usar a expressão weberiana, uma
					vez que podia viver das gordas rendas de suas terras. A de Portugal dependia
					cada vez mais do emprego para sobrevivência, donde sua dependência do Estado e
					seu crescente caráter parasitário”. <xref ref-type="bibr" rid="B10">CARVALHO,
						José Murilo de</xref>. <bold>A construção da Ordem:</bold> a elite política
					imperial; Teatro de Sombras: a política imperial. 2. ed. Rio de Janeiro: UFRJ,
					1996. p. 27.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B13">FAORO, Raymundo</xref>. <bold>Os donos do
						poder:</bold> formação do patronato político brasileiro. 3. ed. São Paulo:
					Globo, 2001. p. 285-301.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B25">MARX, Karl</xref>. <bold>O 18 de brumário de Luís
						Bonaparte.</bold> São Paulo: Boitempo, 2011.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B32">RICUPERO, Bernardo; FERREIRA, Gabriela
						Nunes</xref>. Raymundo Faoro e as interpretações do Brasil.
						<bold>Perspectivas: Revista de Ciências Sociais,</bold> Araraquara, v. 28,
					p. 37-55, 2005.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p>De acordo com Max Weber, diferentemente do estamento burocrático, a burocracia se
					organiza como uma camada profissional capaz de assegurar o bom funcionamento do
					Estado e da administração pública. Desse modo, a burocracia não invade e dirige
					a esfera econômica, política e financeira, como ocorre com o estamento, mas deve
					aparecer como um aparelhamento neutro em qualquer tipo de Estado ou em qualquer
					forma de organização do poder, permitindo a realização do serviço público de
					maneira profissional e técnica, distanciando-se das influências
					político-partidárias. Assim, nos termos de Weber, a burocracia deve ordenar o
					comportamento humano por meio do exercício da autoridade racional-legal, para o
					atendimento de objetivos organizacionais gerais, a partir de uma rigorosa
					divisão de tarefas, com a criação de regras detalhadas e de uma hierarquia que
					possa garantir sua execução. <xref ref-type="bibr" rid="B36">WEBER, Max</xref>.
						<bold>Economia y Sociedad. Esbozo de sociología comprensiva.</bold> México:
					Fondo de Cultura Económica, 1999.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B9">CARDOSO, Fernando Henrique</xref>.
						<bold>Pensadores que inventaram o Brasil.</bold> São Paulo: Companhia das
					Letras, 2013. p. 231.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>15</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B11">CREVELD, Martin Van</xref>. <bold>The rise and
						decline of the state.</bold> Cambridge: Cambridge University Press,
					2000.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B19">KANTOROWIKCZ, Ernst Hartwig</xref>. <bold>Os dois
						corpos do rei:</bold> um estudo sobre teologia política medieval. São Paulo:
					Companhia das Letras, 1998.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>17</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B6">BERMAN, Harold</xref>. <bold>Direito e
						Revolução:</bold> a formação da tradição jurídica ocidental. São Leopoldo:
					Unisinos, 2006.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>18</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B26">MATTEUCCI, Nicola</xref>. <bold>Organización del
						poder y liberdad:</bold> historia del constitucionalismo moderno. Madrid:
					Trotta, 1998. p. 41.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>19</label>
				<p>Matteucci destaca que essa modalidade de Estado, definida como absoluta por seus
					teóricos, não deveria ser tratada como arbitrária ou despótica, já que
					prevalecia nela a lógica da racionalidade técnica e não o mero capricho do
					monarca. O poder do rei era indivisível e incontrolável, mas, ao mesmo tempo,
					limitado, pois o ele deveria governar e decidir apenas depois de ouvir o parecer
					dos órgãos institucionais com funções específicas. Ibid., p. 39-40.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>20</label>
				<p>Ao contrário do posicionamento assumido neste artigo, o historiador marxista,
					Perry Anderson, analisou a formação do Estado absolutista como mera expressão
					dos interesses políticos e econômicos da aristocracia, que, ao criar um poder
					político centralizado, apenas buscou assegurar seu próprio domínio social frente
					à decadência do modelo de dominação (servidão) presente no modo de produção
					feudal. Segundo ele, “Com a comutação generalizada das obrigações, transformadas
					em rendas monetárias, a unidade celular de opressão política e econômica do
					campesinato foi gravemente debilitada e ameaçada de dissociação (o final deste
					processo foi o ‘trabalho livre’ e o ‘contrato salarial’). O poder de classe dos
					senhores feudais estava assim diretamente em risco com o desaparecimento gradual
					da servidão. O resultado disso foi um <italic>deslocamento</italic> da coerção
					político-legal no sentido ascendente, em direção a uma cúpula centralizada e
					militarizada - o Estado absolutista. Diluída no nível da aldeia, ela tornou-se
					concentrada no nível ‘nacional’”. Assim, é possível perceber que, para o
					historiador Perry Anderson, a formação do Estado absolutista foi,
					principalmente, resultado das contradições geradas pela estrutura econômica
					medieval (fim da servidão) e pelo desenvolvimento da luta de classes. <xref
						ref-type="bibr" rid="B1">ANDERSON, Perry</xref>. <bold>Linhagens do Estado
						absolutista.</bold> São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 19.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn21">
				<label>21</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B20">KOSELLECK, Reinhart</xref>. <bold>Crítica e
						crise:</bold> uma contribuição a patogênese do mundo burguês. Rio de
					Janeiro: Eduerj: Contraponto, 1999. p. 21.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn22">
				<label>22</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B26">MATTEUCCI, Nicola</xref>. <bold>Organización del
						poder y liberdad:</bold> historia del constitucionalismo moderno. Madrid:
					Trotta, 1998. p. 31.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn23">
				<label>23</label>
				<p>De acordo com Lenio, o <italic>Leviatã</italic> hobbesiano está envolvido numa
					postura voluntarista própria da modernidade e, por isso, ele chega a afirmar
					que: “[...] em síntese, é o triunfo da vontade humana, questão que se perceberá
					no contrato de Hobbes, em que é a vontade dos homens que faz com que consigam
					vencer a barbárie”. <xref ref-type="bibr" rid="B34">STRECK, Lenio Luiz</xref>.
						<bold>Hermenêutica Jurídica E(m) Crise.</bold> 10. ed. Porto Alegre:
					Livraria do Advogado, 2011. p. 167.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn24">
				<label>24</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B17">HOBBES, Thomas</xref>. <bold>Leviatã ou Matéria,
						forma e poder de um estado eclesiástico e civil.</bold> 2. ed. São Paulo:
					Abril Cultural, 1979. p. 75.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn25">
				<label>25</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B31">REALE, Giovane; ANTISERI, Dario</xref>.
						<bold>História da filosofia I:</bold> do Romantismo até nossos dias. São
					Paulo: Paulus, 1990. p. 208.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn26">
				<label>26</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B17">HOBBES, Thomas</xref>. <bold>Leviatã ou Matéria,
						forma e poder de um estado eclesiástico e civil.</bold> 2. ed. São Paulo:
					Abril Cultural, 1979. p. 5.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn27">
				<label>27</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B28">MERQUIOR, José Guilherme</xref>. <bold>O
						liberalismo:</bold> antigo e moderno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
					p. 16.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn28">
				<label>28</label>
				<p>Um exemplo dessa situação pode ser encontrado na atuação conservadora da Suprema
					Corte estadunidense em seus primeiros anos de funcionamento. Bercovici ressalta
					que a preocupação com o despotismo das maiorias, presente nas formulações
					teóricas de James Madison, também tinha relação com a defesa dos interesses dos
					proprietários escravocratas frente aos pobres e aos marginalizados da sociedade
					estadunidense. Nesse sentido, além da preocupação dos pais fundadores com o
					controle do Poder Legislativo, por meio de uma Corte Constitucional, estava
					presente a necessidade de manutenção de uma democracia segregacionista. <xref
						ref-type="bibr" rid="B5">BERCOVICI. Gilberto</xref>. A Constituição
					invertida: a Suprema Corte americana no combate à ampliação da democracia.
						<bold>Lua Nova,</bold> São Paulo, n. 89, p. 107-134, 2013.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn29">
				<label>29</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B23">LOSURDO, Domenico</xref>. <bold>Contra-história
						do liberalismo.</bold> Aparecida: Ideias &amp; Letras, 2006.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn30">
				<label>30</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B28">MERQUIOR, José Guilherme</xref>.<bold>O
						liberalismo:</bold> antigo e moderno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
					p. 18.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn31">
				<label>31</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B16">HELD, David</xref>. <bold>Modelos de
						democracia.</bold> Madrid: Alianza Editorial, 2006. p. 104-105.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn32">
				<label>32</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B22">LOCKE, John</xref>. <bold>The second treatise of
						government.</bold> New York: The Liberal Arts, 1952.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn33">
				<label>33</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B16">HELD, David</xref>. <bold>Modelos de
						democracia.</bold> Madrid: Alianza Editorial, 2006. p. 122.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn34">
				<label>34</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B24">MARX, Karl</xref>. <bold>Contribuição à crítica
						da economia política.</bold> São Paulo: Martins Fontes, 1983.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn35">
				<label>35</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B8">BOBBIO, Norberto</xref>. Sociedade Civil. In:
					______; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. <bold>Dicionário de
						Política.</bold> Brasília: Editora Universidade de Brasília: São Paulo:
					Imprensa Oficial do Estado, 2000. v. 2. p. 1209.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn36">
				<label>36</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B2">ARENDT, Hannah</xref>. <bold>A condição
						humana.</bold> Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. p. 32.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn37">
				<label>37</label>
				<p>Ibid., p. 31-37.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn38">
				<label>38</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B29">NUNES, Avelãs</xref>. <bold>As voltas que o mundo
						dá...:</bold> reflexões a propósito das aventuras e desventuras do Estado
					Social. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011. p. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn39">
				<label>39</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B27">MERQUIOR, José Guilherme</xref>. <bold>As ideias
						e as formas.</bold> Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 287.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn40">
				<label>40</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B13">FAORO, Raymundo</xref>. <bold>Os donos do
						poder:</bold> formação do patronato político brasileiro. 3. ed. São Paulo:
					Globo, 2001.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn41">
				<label>41</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B12">FAORO, Raymundo</xref>. A aventura liberal numa
					ordem patrimonialista. <bold>Revista USP,</bold> São Paulo, n. 17, p. 14-29,
					1993. p. 18.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn42">
				<label>42</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B36">WEBER, Max</xref>. <bold>Economia y Sociedad.
						Esbozo de sociología comprensiva.</bold> México: Fondo de Cultura Económica,
					1999.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn43">
				<label>43</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B12">FAORO, Raymundo</xref>. A aventura liberal numa
					ordem patrimonialista. <bold>Revista USP,</bold> São Paulo, n. 17, p. 16,
					1993.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn44">
				<label>44</label>
				<p>Ibid., p. 17.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn45">
				<label>45</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B30">PRADO JÚNIOR, Caio</xref>. <bold>Evolução
						política do Brasil:</bold> colônia e império. São Paulo: Brasiliense,
					1983.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn46">
				<label>46</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B15">FREYRE, Gilberto</xref>. <bold>Casa grande e
						senzala:</bold> formação da família brasileira sob o regime de economia
					patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 2001.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn47">
				<label>47</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B12">FAORO, Raymundo</xref>. A aventura liberal numa
					ordem patrimonialista. <bold>Revista USP,</bold> São Paulo, n. 17, p. 17,
					1993.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn48">
				<label>48</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B35">VIANA, Oliveira</xref>. Populações meridionais no
					Brasil. Populações rurais do centro-sul. In: SANTIAGO, Silviano (Org.).
						<bold>Intérpretes do Brasil.</bold> Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. v.
					1.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn49">
				<label>49</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B9">CARDOSO, Fernando Henrique</xref>.
						<bold>Pensadores que inventaram o Brasil.</bold> São Paulo: Companhia das
					Letras, 2013. p. 228.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn50">
				<label>50</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B12">FAORO, Raymundo</xref>. A aventura liberal numa
					ordem patrimonialista. <bold>Revista USP,</bold> São Paulo, n. 17, p. p. 26,
					1993.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn51">
				<label>51</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B7">BIONDI, Aloysio</xref>. <bold>O Brasil
						privatizado:</bold> um balanço do desmonte do Estado. São Paulo: Editora
					Fundação Perseu Abramo, 2000. p. 11.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn52">
				<label>52</label>
				<p>Ibid., p. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn53">
				<label>53</label>
				<p>Ibid., p. 12.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn54">
				<label>54</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B4">BARROCAL, André</xref>. <bold>A carne não é
						fraca:</bold> a meteórica ascensão da Friboi e da família Batista, outra
					prova do capitalismo à brasileira. 2014. Disponível em: &lt;<ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="http://www.cartacapital.com.br/revista/803/a-carne-nao-e-fraca-9831.html"
						>http://www.cartacapital.com.br/revista/803/a-carne-nao-e-fraca-9831.html</ext-link>&gt;.
					Acesso em: 25 ago. 2014.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn55">
				<label>55</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B14">FAORO, Raymundo</xref>. Prefácio. In: NOGUEIRA,
					Marco Aurélio. <bold>As desventuras do liberalismo:</bold> Joaquim Nabuco, a
					Monarquia e a República. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. p. 11.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn56">
				<label>56</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B3">ASSIS, Machado de</xref>. Teoria do medalhão. In:
					______. <bold>Papéis avulsos.</bold> São Paulo: Penguin &amp; Companhia das
					Letras, 2009. p. 101.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn57">
				<label>57</label>
				<p>Ibid., p. 109.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ANDERSON, Perry. <bold>Linhagens do Estado absolutista.</bold> São
					Paulo: Brasiliense, 2004.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ANDERSON</surname>
							<given-names>Perry</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Linhagens do Estado absolutista</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Brasiliense</publisher-name>
					<year>2004</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
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